Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

O debate acerca da possível criação de uma inteligência artificial com consciência, ou com alguma forma de intencionalidade que escapasse aos limites impostos pelas tecnologias de computação de que fosse feita, explodiu no espaço público desde o aparecimento do ChatGPT 3.5 em Novembro de 2022. A geração de discurso que parece indistinguível da fala humana provoca, natural e inevitavelmente, um fenómeno de antropomorfização como suspeita ou fantasia. Até se considera já que o Teste de Turing está obsoleto, tal a eficácia de comunicação humana exibida pelos actuais sistemas de IA. Mas a questão tem mérito científico, e tem longas décadas de investigação e reflexão, pois não sabemos o que é a consciência em si mesma para lá da sua experiência subjectiva. Daí, não sabermos em que organismos pode aparecer nem sabermos se pode habitar numa máquina. Entretanto, o tema evolucionista de uma super IA que tentasse acabar com a humanidade na primeira oportunidade ocupa a cupidez, a iliteracia e a animalidade mediáticas.

Ora, a questão pode ser radicalmente simplificada. A prova de que uma IA se tornou consciente estaria na sua verbalização da angústia existencial. Ela ficaria assustada e perplexa com a consciência de ser consciente, sem saber como nem porquê. Tal como nós, desde sempre. Para sempre?

A prova de que não há provas

Juíza volta a mandar instrução de parte da Operação Marquês para Ivo Rosa

Vamos imaginar que existiu um primeiro-ministro que foi corrompido por um banqueiro e que meteu no bolso dezenas de milhões de euros após ter forçado o seu Governo a aceitar uma decisão que favorecia o corruptor. E que, depois de sair do Governo, esse cidadão começou a gastar o dinheiro, servindo-se de um amigo que o guardou como se fosse seu. Esta é uma história simples de contar e de entender. É fácil acreditar nela se não gostarmos do alvo. É até inevitável dar-lhe credibilidade caso a vejamos assinada pelo Ministério Público, e depois repetida e explorada sistemática, obsessiva e maniacamente por quase todos os políticos, quase todos os jornalistas, quase todos os taxistas, quase todos os broncos e todos os profissionais da calúnia. Durante anos e anos e anos.

A história tem um singelo problema, porém. Em foro de tribunal, é difícil legitimar calúnias. Difícil, não impossível, como a condenação de Vara no Face Oculta demonstra obscenamente. No caso da Operação Marquês, basta ser espectador do que tem factualmente acontecido para concluir com base em evidências. Se as autoridades tivessem recolhido alguma prova de corrupção, uma que fosse, não teria sido possível existir a decisão instrutória de Ivo Rosa tal como ele a explicou e detalhou, nem estaríamos a contemplar a Justiça a procurar a melhor saída para a injustiça que cometeu: deixar prescrever o que for possível pois o mal está feito.

É que a Operação Marquês foi um inaudito e homérico sucesso como processo político. Agora trata-se só de arrumar o estaminé.

Se fosse eu a mandar na América

Seria esta a candidata a vice-presidente pelo Partido Democrata. Duas mulheres contra dois homens.

O mais provável é vermos Kamala Harris com um homem no tandem. Há milhentas razões para tal, boas e excelentes. Para começar, exceptuando Gretchen Whitmer, os restantes candidatos ao lugar têm todos pilinha. Depois, a escolha vai obedecer a cálculos eleitorais altamente complexos, onde uma parelha de mulheres poderá aparecer aos computadores e aos decisores como algo giro mas demasiado arriscado. Ou mesmo como uma possibilidade evidentemente errada por se antecipar ir gerar rejeição em certos segmentos da população votante.

Para mim, se vier a ser consultado na matéria (por exemplo, pelo Obama e pelo George Clooney, rapazes que muito prezam a minha opinião), tenho a dizer que o motivo para favorecer duas mulheres contra Trump e o outro seria, inevitavelmente, o de se constituir tal aposta como um marco histórico na história do feminismo. Porém, esse motivo é o lado exterior desta ideia que está no seu âmago: a civilização daria um salto na direcção do humanismo — isto é, Harris com Whitmer iria ficar como um monumento à normalização do direito das mulheres a exercerem o poder político máximo em democracias.

Precisamos disso, urgentemente.

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Dominguice

A morte de Trump por assassinato não seria a pior coisa que poderia acontecer à democracia americana, portanto também à democracia no mundo, mas andaria lá perto. Porque iria gerar uma reacção de violência irracional sem paralelo conhecido na política contemporânea que se iria somar à violência irracional que já está cristalizada no eleitorado republicano e demais eleitorados da extrema-direita em muitos países. Nesse sentido, teria um impacto muito mais vasto do que o assassínio de Kennedy, o qual apenas gerou comoção generalizada e desvairadas teorias da conspiração.

O melhor que pode acontecer à democracia americana, portanto também à democracia no mundo, é a morte política de Trump pelo voto. De preferência, e para se provar que Deus não é apenas habilidoso a desviar o trajecto de balas em dois ou três centímetros, perdendo para uma mulher.

Exactissimamente

«É certo – e isso tem também de ser dito – que as grandes responsabilidades no que é o MP, por ação e por omissão, têm dois autores, que se chamam, à cabeça, PSD e PS, e os seus governos, mas também o demais parlamento. Porque preferiram nas últimas décadas simplesmente aumentar remunerações de procuradores para evitar protestos e surpresas e eximiram-se de exigir práticas rigorosas, roturas necessárias e resultados avaliados – à exceção do curto período 2005-2009, logo abafado e menorizado administrativamente em seguida, quando se reviram o Código de Processo Penal, nomeadamente quanto ao segredo de justiça, e o recrutamento e formação de procuradores, ou se criaram a lei de organização da investigação criminal, a lei-quadro da política criminal e as leis bienais de objetivos e prioridades de política criminal, fixando mais clareza processual, sindicância pública e responsabilização, de políticos, de procuradores e de polícias. E passaram 15 anos, já agora.

PS – Fico feliz por ver António Costa como presidente do Conselho Europeu. Pelas suas qualidades políticas, mas sobretudo por esse facto evitar que ele seja um avençado da CMTV. É quase de acreditar que há alguém que nos guarda, especialmente da vergonha alheia.»


Miguel Romão

Há festa em Rilhafoles

Os putinistas, que são os trampistas, que são os cheganos, que são os salazaristas, que são os antivax, que são os conspiracionóides, andam felizes da vida. Tudo lhes corre bem e promete correr melhor. Só lhes está a faltar ver os mísseis termonucleares russos a derreterem o Louvre e o Big Ben para entrarem no êxtase místico do “fim do Ocidente”. Isto, claro, se o plano do senhor que anda a cavalo em tronco nu não for também o de varrer com umas ogivazitas que sobrem a Gran Via e o Castelo de São Jorge. Porque nesse caso não teriam tempo para fazer pipocas.

Quem são estes maluquinhos? É gente muito (a)variada. Mas com um mínimo denominador comum: se deixados a falarem uns com os outros numa sala com a porta aberta, nenhum deles conseguiria dar com a saída.

Revolution through evolution

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Dominguice

A tentativa de assassinato de Trump desperta a empatia para com a sua fragilidade de vítima, não a simpatia a respeito da sua personalidade e biografia. O desenvolvimento do caso irá inevitavelmente ter consequências nas próximas sondagens a favor dele.

Desde 2015 que a política americana deixou o território da racionalidade para se tornar num circo romano.

Lapidar

«Aproxima-se o termo do segundo mandato do prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Pouco mais há do que uma sessão legislativa pela frente. Era bom que um Presidente que no tocante a discurso pós-colonial foi um pouco para lá do que esperávamos, em matéria de Justiça se aproximasse um pouco mais do que seria natural esperar dum professor de Direito.»


Alberto Costa

E antes, pá?

É o típico artigo de leitura obrigatória: Ainda sobre o direito à indignação

Trata-se de um cidadão que também é deputado do PSD. Relata que os destratos dos agentes policiais e dos procuradores não acontecem só aos socialistas, pode ser a qualquer (até a um Rui Rio). E deixa o apelo sóbrio, cívico, digno para que se melhore com urgência uma Justiça que parece ter-se especializado na imposição de injustiças como cultura da casa.

E depois vem a lucidez implacável. Esta pessoa diz o que diz em público, agora, porque foi vítima. É uma vítima recente. Mas que disse a respeito antes? Que disse quando as vítimas eram outras, e quase sempre do partido rival? Que disse a respeito da cumplicidade do PSD com a judicialização da política desde Santana Lopes, passando por Ferreira Leite e culminando na politização da Justiça com o violento mandato de Joana Marques Vidal amparada por Passos e Cavaco?

O Ministério Público não se teria tornado no território dos fora-da-lei que agora é logo a partir da cúpula sem a cumplicidade do regime e da sociedade.

Anomia para o jantar

Lucília Gago implica ministra da Justiça em “campanha orquestrada” contra MP

Fonte

A PGR considera, ainda, porque as declarações da ministra foram uma “mola impulsionadora”, existir uma “campanha orquestrada” contra o Ministério Público, até de gente que teve um “papel de relevo na vida da nação”.

Fonte

Há algo de psicadélico em vermos a procuradora-geral da República a denunciar uma “campanha orquestrada” contra o Ministério Público (!), implicando nela actuais e ex-governantes (!!), e depois nada lhe acontecer nem acontecer nada (!!!). Dada a homérica gravidade da acusação, vinda de quem vem e atingindo quem atinge, isto de passar por uma afirmação inócua, quiçá normal, revela que as nossas autoridades políticas, a começar na Assembleia da República e a terminar no Presidente da mesma, convivem tranquilas com a anomia. Cada um que tire as suas conclusões.

A 4 de Maio de 2023, Marcelo fez uma comunicação ao País onde se assumia como derrotado no confronto com Costa por causa deste não ter cedido à chantagem presidencial contra Galamba. Nessa exposição de ressentimento e sectarismo, ouvimos a seguinte ideia: “Onde não há responsabilidade, na política, como na Administração, não há autoridade, respeito, confiança, credibilidade.” Isto, a respeito de uma cena em que um fulano perdeu a cabeça no ministério das Infra-estruturas e criou uma crise política absurda e irrelevante.

Ora, existirem crimes sistémicos no Ministério Público há anos e anos, os quais não são passíveis de investigação eficaz, e depois aparecer a PGR a disparar contra o Governo e demais políticos, recusando qualquer responsabilidade seja sobre o que for, já não incomoda o nosso Presidente da República.

Cada um que tire as suas conclusões.