Só na última semana de Janeiro do próximo ano é que os portugueses descobrirão o que é o Orçamento de Estado para 2013. Ao verem quanto dinheiro a menos vão receber pelo seu trabalho e nas suas pensões, depois de tudo o que já perderam desde 2011, o despertar será violento e a rua irá entrar em tumulto ao longo de Fevereiro. Esse é também o mês em que Vítor Gaspar irá anunciar onde se farão os cortes dos 4 mil milhões de euros que vão ser retirados aos serviços que o Estado presta aos cidadãos. Fevereiro, e para nada já contando o que os partidos tenham a dizer ou a calar, é o mês em que o Governo vai cair. O choque de se constatar como aqueles fulanos que recorreram a todas as mentiras, conspirações e ofensas que conseguiram encontrar para levarem Portugal a perder a soberania – assim obtendo o escudo com que passaram de imediato à realização do seu plano escondido de empobrecimento da classe média e devastação da classe baixa – estão decididos a continuarem a sangria financeira e a destruição social fará o 15 de Setembro parecer um passeio de domingo.
Não admira que Jerónimo de Sousa tenha exibido o seu desprezo por essa inaudita manifestação de Setembro em que o Soberano se fez povo unido. Ver a presença espontânea, civilizada e patriótica das bases de apoio do PS e do PSD deixa qualquer proprietário da contestação andarilha a espumar de azia. O sectarismo desta esquerda que se profissionalizou no parasitismo da democracia não tem remissão. Se Marx os conhecesse fugiria esbaforido de conservadorismo tamanho. A cidade não é daqueles que estão contra o presente em nome de um passado sacralizado e de um futuro delirante, é daqueles que acolhem os contributos do passado e as sementes do futuro para fazerem do presente a sua casa.
É bom que haja quem despreze os pobres, quem diga que este país é de madraços e estroinas, quem nos queira castigar porque gastamos recursos públicos a tentar que a Educação e a Saúde cheguem ao maior número de pessoas, quem apenas consiga fazer política pelo ódio, quem ache que a Constituição não passa de um papel pintado com tinta. É bom, mas só porque é bom viver em liberdade. Quanto ao resto, já que se trata de referendar um modelo de sociedade e uma lógica comunitária que levaram perto de quatro décadas a desenvolver, o voto resolve. O voto é precisamente aquilo que o doutor receita para lidar com um Governo que conseguiu juntar a indigência intelectual, a escória das negociatas, o fanatismo ideológico e a violência dos tecnocratas. Uma proeza. E nenhum dia melhor do que o 25 de Abril para decidirmos se é com estes trastes que queremos continuar ou se está na hora de sair do pesadelo e acordar para a vida.
