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Falar verdade aos portugueses

"Nós tínhamos estudado todos os cenários, também este que está a acontecer, por isso não estamos assim tão surpreendidos na medida em que tínhamos imaginado todas as possibilidades", afirmou Aníbal Cavaco Silva aos jornalistas em Albufeira, ao ser questionado sobre as negociações entre os partidos para a formação de um novo Governo."

Fonte

O cidadão que utilizou a função presidencial para ser cúmplice ou instigador de transgressões constitucionais com o fito de perverter actos eleitorais, entre outras vilanias que consubstanciam a mais nefasta presidência da República desde o 25 de Abril, veio revelar que já tinha estudado o actual cenário. É de acreditar à primeira.

É de acreditar porque o cenário começou com a marcação das eleições por este mesmo senhor para Outubro em vez de Setembro ou ainda melhor Junho, assim criando uma disfunção no processo democrático onde se exploram à direita alarmismos sob capa europeia e orçamental e se faz pressão contra as eventuais negociações que possam ocorrer não havendo maioria absoluta. De seguida, continuou com a recusa do actual Presidente da República em celebrar a implantação do regime que está na origem do seu cargo, alegando precisar de ficar fechado no Palácio de Belém a fazer contas de cabeça. Por fim, consumou-se com o discurso onde veta a entrada do BE e do PCP em qualquer solução governativa. Não contente, anunciou – sem ter consultado nenhum dos partidos com representação no novo parlamento – que prefere ter o presidente do seu partido a formar Governo independentemente dos resultados eleitorais e das negociações possíveis nesse quadro.

Este é o cenário. Estudado ao pormenor por Cavaco, como é o próprio que admite mal disfarçando a gargalhada. Resta só saber se ele também imaginou o que pode acontecer se a esquerda portuguesa conseguir derrotar a sua histórica imbecilidade.

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In claris non fit interpretatio

No dia 16 de Outubro de 2015, a Justiça portuguesa fez saber o seguinte:

"O Ministério Público promoveu, e o Tribunal Central de Instrução Criminal deferiu, que a medida de coação de obrigação de permanência na habitação, aplicada a José Sócrates e a Carlos Santos Silva, seja substituída pela proibição de ausência do território nacional, sem prévia autorização, e pela proibição de contactos, designadamente com outros arguidos no processo.

O Ministério Público considera que se mostram consolidados os indícios recolhidos nos autos, bem como a integração jurídica dos factos imputados. Pelo que, na atual fase da investigação, diminuiu a suscetibilidade de perturbação da recolha e da conservação da prova."

Acontece que a libertação de Sócrates está directamente relacionada com o fim do segredo de justiça, o qual foi imposto pelo Tribunal da Relação ao Ministério Público. Não tendo existido essa decisão de um tribunal superior, e calhando ser essa decisão ainda recorrível com efeitos suspensivos, estaria agora o juiz Carlos Alexandre a libertar Sócrates? A resposta é não, não e não. A acusação levaria até ao fim do prazo limite a prisão daquele que, concomitantemente, é alguém que o próprio Ministério Público admite já não poder estar preso nem mais um dia a contar de ontem.

Pelos vistos, neste país só os advogados de Sócrates se indignam com o que tem de ser um gravíssimo abuso, se não for crime, por parte da Justiça portuguesa através do procurador Rosário Teixeira, do juiz Carlos Alexandre e da procuradora-geral da República Marques Vidal. Mais ninguém quer saber, posto que não se manifestam, e a maior parte até lamentará que um arguido veja os seus direitos reconhecidos e uma injustiça terminada. Uma das piores injustiças concebíveis, a privação da liberdade.

As mesmas interrogações, à luz desta impunidade violenta e violentadora destes mesmos agentes de Justiça, para os fundamentos que levaram Carlos Alexandre a recusar enviar Sócrates para prisão domiciliária sem pulseira electrónica, obrigando-o a permanecer num estabelecimento prisional. Nessa altura, em Junho, Sócrates ainda poderia perturbar o inquérito e a recolha de provas? Como? Quais provas? E como justificou o juiz a exclusão da vigilância policial? Ou tanto fazia e, como se tratava de Sócrates, então que ficasse em Évora durante o Verão em vez de se estar a incomodar a bófia?

A mesma questão para o início deste processo, ficando agora no ar a suspeita de que a decisão de colocar Sócrates em prisão preventiva tenha sido, logo no começo, um abuso de poder. E se o argumento da acusação for o de que o perfil do arguido justificava a prisão por causa da tipologia dos crimes na berlinda e da sua rede de contactos e de influência, há que devolver esse raciocínio para perguntar como se pôde tratar assim alguém cuja prisão preventiva iria ter implicações sociais e políticas inevitáveis, profundas e gravíssimas para toda a comunidade e para o futuro político do regime. Quão frágil, afinal, era a investigação em Novembro de 2014? Quem decidiu que, neste caso e com esta pessoa, a que acresce o calendário eleitoral, se podia prender para investigar?

Por fim, sempre que se analisar este caso temos de concentrar parte principal da atenção no que se passou em Julho de 2014. Quando a Sábado, meses antes da detenção, publicou informações que se vieram a confirmar pertencerem à “Operação Marquês”, não consta que tenha sido por iniciativa de Sócrates ou do João Araújo. Qual foi, então, o propósito? A resposta a esta pergunta conduz a duas conclusões: a de que as informações só podiam ter vindo da investigação e a de que já nessa altura estava em causa provocar um certo efeito político.

Sim, mesmo que Sócrates acabe culpado de alguma ilegalidade, ou de muitas – embora, neste momento, dada a demora na acusação (se é que vai existir) e os erros dos magistrados, seja a persistência da sua condição de inocente que vai refulgindo com crescente brilho – tal não apagará a fundada consciência de que estamos, de facto, perante um processo onde a Justiça portuguesa nos envergonha e deve assustar.

Dos fracos não reza esta história

A direita está furiosa com o PS mas a presente situação política teve origem no PCP. Era para este partido que os ataques deveriam estar a ser dirigidos pelos direitolas caso a política fosse um exercício de lógica ou implicasse módico respeito pela causalidade.

PSD e CDS não anunciaram em 2011 que iriam coligar-se no après-élections, apesar de ser mais do que certo ambos os partidos terem esse cenário como previsível, desejável e meio combinado antes da votação pelos escudeiros e conselheiros de parte a parte. E as razões para tal são evidentes. O PSD teria o poder para condicionar o CDS na exacta medida da sua diferença eleitoral e parlamentar. Inclusive, porque é sempre tudo possível numa eleição, poderia obter maioria absoluta, situação que dispensaria a coligação. Por sua vez, o CDS jamais anunciaria que o voto em si era inútil por já se saber qual o desfecho do panorama à direita. Mais, o CDS poderia legitimamente reservar-se o direito de ir para o Governo com o PS num eventual cenário onde tal fizesse sentido para Portas. Isto não é assim tão difícil de entender, pois não?

No caso presente, a situação é ainda mais clara. O PCP e o Bloco fizeram uma campanha onde atacaram o PS com a gana do costume, não existindo ninguém neste planeta, ou em qualquer planeta vizinho até onde os telescópios alcancem, que admita ter existido um acordo, ou vestígio dele, prévio às eleições entre os três partidos da esquerda. O que se viu, aliás, foi bem outro fenómeno. Na viragem para a segunda semana da campanha, surgiram notícias que davam conta de protestos populares em eleitorado comunista contra a obsessão de Jerónimo com o PS. Em simultâneo, saiu na imprensa que o PSD teria avisado o PCP da perda de votos para o PS, o que estaria a justificar a fúria veterotestamentária do patriarca da gente séria. De imediato vimos o PCP a travar a fundo, como se de repente tivesse pressentido o que viria a acontecer no dia 4 de Outubro. Do lado do Bloco, a proposta de Catarina a Costa no debate não passou de uma encenação que ninguém levou a sério tamanha a contradição com o restante das mensagens antagónicas espalhadas copiosamente, as quais retiravam credibilidade ao convite. Assim, estar a exigir retroactivamente que Costa devia ter anunciado as suas intenções de coligação com BE e PCP é acusação irracional para broncos ruminarem.

Acaso alguém, inclusive dentro do PS, concebe que Costa pudesse recusar o gesto mais importante do PCP desde o 25 de Novembro? Acaso não é óbvio que as presentes circunstâncias de diálogo à esquerda, mesmo que venham a resultar num fracasso imediato ou a médio prazo, são objectivamente históricas? Queriam que Costa fugisse da responsabilidade que os cidadãos portugueses lhe confiaram soberanamente? Até para os interesses do secretário-geral socialista que se segue, venha ele quando vier, é necessário que o PS esgote as possibilidades para a criação daquele que pode ser o primeiro Governo da III República onde se consagra a solidez do nosso regime e a maturidade da nossa democracia.

Perguntas simples

Em 2011, os 2.813.729 eleitores que deram o seu voto ao PSD e ao CDS queriam pagar muito mais impostos, ter cortes nos subsídios e nas pensões, ir para o desemprego ou ver os familiares e amigos perderem o emprego, emigrar ou ver os familiares e amigos a emigrar, ter o País a empobrecer muito mais do que o imposto pelos credores e chegar ao fim dessa devastação sem se ter atingido qualquer mudança estrutural positiva, nem sequer os objectivos do Memorando acabando cumpridos, e ainda ver o défice, a desculpa suprema para todas as vilanias, voltar à casa da partida?

Se não queriam que o seu voto resultasse nessas escolhas políticas, até porque acreditaram na propaganda que jurava o contrário, podemos dizer que Passos&Portas chefiaram um Governo ilegítimo nascido da maior golpada que a democracia portuguesa regista desde sempre e, quiçá, para todo o sempre?

A oligarquia a guinchar, não pode haver melhor sinal de que algo verdadeiramente importante está a acontecer

Quando há já bem mais de um ano escrevi aqui um texto de opinião em que deixava vir à tona das palavras a minha simpatia pessoal por António Costa (e sim, sempre foi pessoal e nada política, o que de resto só piora hoje as coisas), um bom amigo alertou-me: “vais pagar caro esse artigo, e lembra-te disto quando daqui a uns tempos ele te for seriamente cobrado”.

Pois bem, já está a ser. A factura é caríssima, a responsabilidade é minha e não tenho idade nem para dizer que me enganei, nem para fingir que não é “bem assim”. É muito pior que “bem assim”. Sucede que assumir um engano (o meu) desta natureza não o torna automaticamente mais explicável, mais compreendível ou compreensível e é por isso que, – repito – é preciso ir buscar a chave deste alarmante comportamento de António Costa ao pior que pode haver dentro de alguém. E mesmo sabendo nós que na política há ainda mais surpresas do que na vida, o mal está feito: haja ou não haja estreia da peça, António Costa não terá, face ao país ou face a mim mesma, uma segunda oportunidade para se redimir deste seu assalto ao poder.


Maria João Avillez

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Nota

Esta senhora declara que a tentativa de encontrar uma maioria num parlamento corresponde “ao pior que pode haver dentro de alguém“. O pior da natureza humana para a sua consciência moral, portanto, será o usufruto da liberdade num Estado de direito democrático, cujo contexto é uma ambição constitucionalmente legítima e politicamente bondosa. Isto é a oligarquia portuguesa, imutável no seu revanchismo soberbo e parolo há séculos.

Uma ideia a repetir em cada freguesia

Rui Moreira teve uma grande ideia, ou alguém que trabalha com ele: A Câmara do Porto procura fotos antigas e conta com a sua colaboração. A notícia já é de Setembro, e só falo dela agora porque entretanto parece que andámos entretidos a eleger um novo Parlamento.

Existirão, por todo o País e fora dele, milhares ou milhões de fotos passíveis de serem recolhidas, digitalizadas e disponibilizadas ao povo dentro deste conceito da recuperação de paisagens portuguesas perdidas, tanto públicas como privadas. Mas não só às gentes locais e aos curiosos a recolha traria deliciosos momentos de descoberta e nostalgia, quiçá deslumbramento, cientistas de variadíssimas ciências humanas teriam também aí material precioso para as suas investigações.

Em Lisboa contamos com um muito bom arquivo fotográfico digital, onde já gastei dezenas de horas. Mas ele poderia ser muito, muito e muito melhor. Para além de, por vezes, apresentar erros na identificação dos locais fotografados, a sensação que deixa é a de que se trata do átomo na molécula que está mesmo na pontinha do icebergue. Quanto espólio imagético não se terá perdido nestas últimas três ou quatro décadas, só porque ninguém valorizou as suas fotos pessoais e de família como documentos valiosos do ponto de vista histórico?

Mas vamos sempre a tempo de salvar o que restar. É imitar o promissor exemplo do Porto e fazer das freguesias esses centros de recolha. Seria facílimo, bastava ir armazenando o material digital que chegar e digitalizar o que for entregue em papel. E não há pressa nenhuma, isto pode ir sendo feito com a lentidão que apetecer, embora aposte existirem voluntários de todas as idades dispostos a passarem dias e dias nesse encantador trabalho.

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A terceira maioria, e as três minorias

Nem só de duas maiorias se faz o actual Parlamento; uma que liga os partidos do em vias de extinção “arco da governação” ou da Europa, e a outra que liga os partidos da esquerda ou da anti-austeridade. Também há aquela que, nos idos de 2011, Bagão Félix, num momento de grande seriedade política, alvitrou:

"Há uma solução que é um Governo PSD, CDS e PCP."

Para Bagão Félix "há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia ‘provocative'. Não estou a dizer que pode vir a acontecer, mas nós precisamos de abanar a cabeça senão morremos atrofiados. É quase impossível chegar a acordo com o PCP, mas, se alguma vez se chegar a acordo, este será cumprido. O PCP é muito respeitador, institucionalista."

"Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério. A certa altura sinto-me asfixiado pelas soluções equacionáveis. Precisamos de abrir o horizonte teórico das soluções".

"Sendo absolutamente não comunista, respeito o actual PCP e não o ponho no gueto."

Março, 2011

Cá está. Bagão põe as mãos no lume pelo São Jerónimo. O tal Jerónimo que fez uma campanha onde vendeu os comunistas como “gente séria” e nada mais para não atrapalhar a dialéctica do zeitgeist. Pelo que já só falta vir Pedro&Paulo com a pasta social ou do trabalho numa bandeja, quiçá as duas e mais uns trocos, para se reunir esse magote de gente séria e nascer um Governo da terceira maioria profetizada em 2011. Com a enorme vantagem de ser uma solução que Cavaco iria adorar, dado igualmente adorar o adorável Jerónimo e receber deste igual estima.

Entretanto, e independentemente do que vier a acontecer e de qual seja a origem parlamentar do próximo Governo, constata-se que a tomada do PSD por uma direita radical e decadente levou à formação de três blocos socio-ideológicos como nunca tivemos no sistema partidário com estes fundos antagonismos. Do lado direito, dois partidos que chegaram ao poder através do maior logro eleitoralista da história democrática e que não têm qualquer projecto outro a não ser conservarem-se no Governo. Do lado esquerdo, dois partidos sectários que recebem votos de fanáticos, votos de protesto e votos flutuantes. Ao centro, o partido esteio do regime democrático, o único partido que, neste contexto, consegue ser ecléctico e responsável o suficiente para dar origem às soluções de governação mais criativas, mais sólidas e mais eficazes. O seu eleitorado resiste à pressão de uma comunicação social em constante ataque moral e político contra os líderes socialistas.

Se estas três minorias se mantivessem, e se naturalmente levassem ao desaparecimento do CDS e do PCP ou do Bloco, nada se perderia que nos fizesse falta e poderíamos desfrutar do amadurecimento da fórmula que está, literalmente, a dar os primeiros passos em 40 anos de um parto que ainda se mantém com prognóstico reservado.

Autogolos

Alberto Arons de Carvalho publicou O pluralismo da comunicação social depois das eleições. Calendário que não é irrelevante para a temática em causa. De notável no texto, dois aspectos. A sua raridade, posto que nem sequer do universo de filiações ao PS têm vindo denúncias ao longo destes longos anos acerca do poder esmagador que a direita exibe na comunicação social. E a sua superficialidade, posto que não toca nas campanhas de ódio, nos assassinatos de carácter, nos crimes da violação do segredo de justiça e na indústria da calúnia – a que se juntou nesta campanha eleitoral a exploração do estado de saúde de Laura Ferreira, provando-se pela enésima vez que vale mesmo tudo para a actual direita. Quanto ao que deixou escrito, certíssimo, inquestionável.

Para se atentar na vexante posição do PS, enquanto partido com militantes e simpatizantes e não apenas dirigentes, a respeito desta paisagem monocromática e perversa na imprensa portuguesa, vou repescar uma recente afirmação de Vital Moreira:

A democracia liberal supõe um "mercado livre de ideais e de opiniões". Mas como sucede com o mercado de bens e serviços, é precisa uma concorrência efetiva que impeça monopólios no acesso e abusos de posição dominante no debate político nos meios de comunicação, sob pena de se cair na "asfixia democrática" que há anos um dirigente político da direita denunciou com muito menos fundamentos do que hoje.

“Asfixia democrática”

Ora, bá lá ber. Vital considera mesmo que quando Paulo Rangel foi para o Parlamento Europeu berrar que já não vivia num Estado de direito, só porque tinha lido num esgoto a céu aberto que teria sido descoberto em escutas um “plano socialista” para vir a controlar órgãos de comunicação social – e ainda, na mesma vergonhosa peixeirada, ter responsabilizado o primeiro-ministro de então por uma crónica sórdida, doente e caluniosa de Mário Crespo não ter sido publicada no JN – estava o eurodeputado a exibir os “fundamentos” que o mesmo Vital admite existirem para se ter falado em “asfixia democrática” ao tempo? Se não, a que fundamentos se refere? Quais eram os órgãos de comunicação social que, de 2005 a 2011, mostraram defender fosse o que fosse associado com o PS ou com o Governo ou que tivessem calado a oposição, sequer diminuído o tom dos seus protestos febris? O que vimos foi precisamente o contrário: o império Balsemão, a TVI do casal Moniz, o Público de Belmiro e do Zé Manel, o Sol do tresloucado, a Renascença de uma Igreja invariavelmente de direita, um DN do Marcelino onde uma brigada de Passos Coelho tomava conta da secção política, uma TSF onde o Baldaia fez sempre o que pôde para defender Cavaco e desgastar Sócrates e o PS, e uma RTP onde Judite de Sousa tinha chiliques por causa do olhar incandescente do Diabo. Acaso o Vital Moreira conseguiria apontar algum dano à liberdade de expressão ou à liberdade da imprensa durante a governação de Sócrates? Não era evidente que a direita, com a cumplicidade activa da esquerda pura e verdadeira salvo pouqíssimas excepções, fazia o mal e a caramunha, tendo-se até descoberto numa comissão de ética que o Correio da Manhã, em 2009, liderou por larguíssima margem o investimento publicitário do Estado?

Nesta campanha eleitoral em 2015 não se discutiu a intoxicação do espaço público por uma comunicação social sem decência nas mãos de uma direita violenta e decadente, tal como não se discutiu uma Justiça onde parece haver magistrados a cometerem crimes e ilegalidades, tal como não se discutiu a Educação. Não admira, então, que haja em Portugal muito mais adeptos da bola do que do Estado de direito.

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Falácias e fellatios

Em relação à actual direita partidária, há algo que podemos sempre antecipar com certeza absoluta: estamos perante pessoas que concebem a política como um exercício estritamente técnico, destituído de qualquer idealismo ou referente moral, onde a hipocrisia e o cinismo são inerentes à própria elaboração do discurso. Em suma, esta direita mente compulsivamente por não ter outro recurso intelectual à disposição na sua ambição de conquistar e manter o poder. É graças à supremacia desta praxis que um líder tão medíocre como Passos Coelho consegue medrar e ter sucesso, tendo feito uma carreira política onde saltou da JSD para a presidência do partido depois de andar a ganhar aquilo com que se compram os melões não se sabe bem como, e onde já disse tudo e o seu contrário nos últimos 7 anos, por vezes com diferença de minutos ou até segundos. Ao seu lado, na passada legislatura, manteve-se um político gasto que trocou o valor da palavra de honra por um palacete colado ao Jardim Zoológico.

Neste quase onírico período pós-eleitoral, onde estamos confrontados com a real possibilidade de uma inaudita e histórica governação com o pleno apoio, quiçá participação, de toda a esquerda parlamentar, temos visto o crescente desespero dos direitolas. O que dizem, contudo, não passa de merda atrás de merda. Atentemos nestas quatro falácias que repetem maníacos:

– “Seria imperdoável não tirar partido de todos os sacrifícios.

Esta direita está a pedir ao PS para salvar o seu legado. Um legado feito de propostas que violaram as promessas eleitorais, atentaram contra a Constituição, fizeram do abrupto e violento empobrecimento da classe média e dos pobres a única estratégia a seguir, tentaram ir além da Troika e foram mesmo ao conseguirem aumentar a austeridade em muitos milhares de milhões de euros, venderam mal as empresas públicas e alimentaram nesse processo clientelas próprias – chegando ao fim da desvastação não tendo atingido quase nenhum, ou mesmo nenhum, dos objectivos do Memorando, e isto apesar de terem desfrutado de condições externas excepcionalmente favoráveis.

Quão desavergonhados terão de ser para estarem a vangloriar-se destes resultados?

– “O PS não levou a votos a ideia de governar com o apoio/participação do Bloco e PCP.

Isto vindo daqueles que levaram a votos a ideia de acabarem com os sacrifícios, não aumentarem os impostos, não cortarem nas pensões e não fazerem despedimentos, porque já tinham as contas todas feitas e porque iam só cortar nas gorduras do Estado.

Quão estúpidos julgam que somos, e quão biltres se sabem ser, para terem o topete de vir com esta conversa?

– “67,6% de eleitores disseram que não queriam um governo liderado pelo PS. 89,8% dos eleitores rejeitaram a política defendida pelo Bloco de Esquerda. 91,7% votaram em opções diferentes das da CDU.

Exacto. Mas 100% dos eleitores votou para ser representado num Estado de direito democrático, instituindo um novo Parlamento e delegando na Assembleia da República o poder para formar as maiorias que quiser, quando quiser e como quiser. Viva a República!

Quão primários são estes tipos para estarem agarrados a raciocínios infantis e não se importarem com as figuras que fazem na via pública?

– “O PS está mais próximo do PSD do que do Bloco e do PCP.

O PSD anda desde 2004 a tentar meter na prisão dirigentes e governantes socialistas. Toda a sua estratégia, poderosamente realizada numa comunicação social que dominam hegemonicamente e tendo o apoio de agentes da Justiça e das polícias, tem passado por tratar como criminosos os membros do Partido Socialista, seja por actos ou omissões. A história de como se criou o “caso Freeport”, a espionagem feita a um primeiro-ministro em funções no “Face Oculta” e o extenso aproveitamento político que foi feito da mesma, a “Inventona de Belém” e a exploração das violações ao segredo de justiça na “Operação Marquês”, todos estes casos mostram que o PSD tem procurado destruir caluniosa e judicialmente o PS até que este escolha dirigentes que a direita aprove.

Quão pulhas têm de ser estes canalhas, ou quão canalhas terão de ser estes pulhas, para se permitirem uma permanente judicialização da política com vista ao assassinato político de quem mais temem e ainda virem falar em proximidades com o PS?

A actual direita é uma mistura do oportunismo pragmático do casal Passos-Relvas, do deslumbramento fanático da madraça de cientistas políticos na Universidade Católica e do ódio telúrico de um Cavaquistão agonizante. Se o PS de Costa viabilizar mais um Governo destes decadentes, não será por proximidade. Será por se ver de joelhos e ter de rezar.

Perguntas simples

Depois de termos visto o Palácio de Belém transformado num centro conspirativo ao serviço do rancor do chefe da direita portuguesa, estaremos condenados a ver de seguida o Palácio de Belém transformado num circo ao serviço do palhaço do regime?

Afinal

Afinal, a abstenção não diminuiu, aumentou.

Este desfecho é o mais lógico face aos números da emigração, à crise demográfica, à persistente desactualização dos cadernos eleitorais e a um contexto social e político que promoveu a abstenção de potenciais votantes no PS.

*

Afinal, o LIVRE não elegeu vivalma.

Foi um sonho lindo que, neste momento em que escrevo, não se sabe se resiste à manifestação da sua absoluta irrelevância para a comunidade. Teve o meu voto, e confirmou-se como um projecto falho de estratégia ao ter desaparecido em campanha. Em vez de terem procurado dialogar com abstencionistas e com comunistas, saltando para os cornos do sectarismo esquerdola, ficaram-se num imobilismo incompreensível, quiçá convencidos de que as sobras do PS dessem para juntar mais uns votos aos 70 mil que julgavam garantidos a partir das europeias. O eleitorado preferiu outro tipo de animais, não tão domesticados.

*

Afinal, o Marinho e Pinto ficou a ver navios.

Esperava-se, ou esperou-se, que a campanha do Marinho fosse um contínuo circo populista, atirando-se às canelas de tudo o que mexesse e passasse por perto. Em vez disso, vimos um candidato a passeio sem chama nem discurso. A ver se algum jornalista, ou o próprio, explicam o fenómeno num destes dias de rescaldo.

*

Afinal, os pafiosos ficaram longe da maioria.

No começo da noite, essa possibilidade foi avançada e, a juntar à falsa previsão da diminuição da abstenção, até levou os pafiosos a celebrarem as primeiras projecções como se viesse aí uma nova aparição da Nossa Senhora de Fátima para entregar um crucifixo novinho em folha ao Pedro. Mas não, era engano. Os votos que tiveram foram só daqueles que acham muito bem serem enganados, maltratados e toureados. Que os há.

*

Afinal, o Bloco vale mais sem Louçã do que com ele.

O histórico triunfo do Bloco, realmente subindo a terceira força política nacional, nasceu exclusivamente da Catarina Martins, a qual rompeu com o modo imbecil de aparecer irada contra o mundo que a esquerda pura e verdadeira cultiva por contingência pulsional, vocação maniqueísta e ontologia totalitária. Como isso foi feito consistentemente ao longo dos debates, e estes foram vistos na televisão pelos públicos-alvo, o eleitorado do centro, flutuante e não politizado, pôde voltar a acreditar que no Bloco há pessoas razoáveis que merecem a confiança, ou a esperança, das restantes pessoas razoáveis. Numa campanha em que os parolos encartados declararam a morte dos cartazes como peça de propaganda eficaz, só porque assim poderiam bater mais um bocadinho no PS, os cartazes onde duas mulheres jovens e atraentes deram a cara por uma mensagem vácua e hipócrita acabaram por serem louvados como instrumentos fulcrais de uma “excelente campanha”. O grande Louçã da esquerda grande caiu do totem.

*

Afinal, o PC continua a somar vitórias patrióticas e de esquerda.

O PCP é o melhor aliado que a direita possui neste miserável e adorável pais, e isto desde que Cunhal aterrou na Portela em 74. Trata-se de uma agremiação religiosa, imune a qualquer tentativa de diálogo com a democracia que ultrapasse o plano autárquico. Nas presidenciais, quando o PCP apoia um candidato democrata é só porque esse é o mal menor perante a eventualidade de ser acusado de ter favorecido o candidato da direita. Daí a obsessão com a retórica primária e febril das “vitórias” em nome do “povo”. Um povo que insiste em lhes dizer que o comunismo se deve concentrar na limpeza das ruas e nas manifestações bem comportadas, só com gente séria.

*

Afinal, as sondagens estavam todas certas.

Incluindo as erradas. Todas certas nisso de terem registado uma real alteração nas intenções de voto, a qual ocorreu precisamente ao contrário do que o PS antecipava: à medida que se aproximava a data das eleições, mais o eleitorado desertava do campo socialista e ia-se espalhando por tudo quanto era outro poiso, em vez de aparecer a dinâmica de maioria. Também um dos efeitos previsíveis face a sondagens adversas não se registou, o tal toque a reunir perante o pânico de uma vitória da direita. Conclusão: o problema nunca está no mensageiro.

*

Afinal, Costa fez uma campanha que ultrapassou a imaginação de todos, inclusive a sua.

Ninguém poderia ter imaginado que a campanha iria correr tão mal. Ninguém de ninguém. E as razões para tal são da exclusiva responsabilidade de Costa. Não dizem respeito a qualquer eventual falta de recursos financeiros ou humanos, só à falta de estratégia e de liderança. Terminou a campanha a dizer que “o PS aprendeu com os erros passados”, sendo que pelos erros passados se referia a decisões de investimento de Governos socialistas tomadas num certo contexto nacional e internacional que em nada compara com o actual. Um desastre justamente punido nas urnas.

*

Afinal, Costa, Jerónimo e Catarina poderão completar o 25 de Abril.

O 25 de Abril está por completar desde que o PCP tentou impor uma ditadura comunista e o PS de Soares ergueu-se para defender a democracia liberal. De lá para cá, o bloqueio do sistema à esquerda perverteu o regime e talvez seja a principal causa da cidadania larvar e do afastamento da política de tantos. Agora, de repente, por milagre, estamos esperançadamente atónitos, e lucidamente descrentes, com os sinais de abertura do PCP. Mesmo que não dê em nada, também nada voltará a ficar igual depois de os comunas terem atravessado o Rubicão em direcção à cidade.

*
Afinal, a política continua a ser o que sempre foi e será.

A invenção da liberdade.

Na CMTV é que ficava bem

Admito que a situação protagonizada pelo Rodrigo dos Santos em relação ao Alexandre Quintanilha seja apenas um equívoco. Custa-me até conceber que lhe passasse pela cabeça tal forma de violência tão asinina e rancorosa. O facto de ter estado em rodapé, na emissão, o nome do deputado em causa também poderá não ser suficiente para demonstrar que ele estava a ver essa informação.

Já me custa mais aceitar que reclame desconhecer quem é o deputado em causa enquanto figura pública. Não parece ser um caminho que seja avisado trilhar, sob pena de passar por um jornalista que não merece estar com as actuais responsabilidades na RTP.

Finalmente, tenho que o Rodrigues dos Santos é mais um caso, entre tantos na comunicação social portuguesa, de um narcisista que se considera intocável, achando que pode transformar ódios pessoais em processos rasteiros e sonsos de influência política. Que é o que faz sistematicamente há anos.