Afinal, a abstenção não diminuiu, aumentou.
Este desfecho é o mais lógico face aos números da emigração, à crise demográfica, à persistente desactualização dos cadernos eleitorais e a um contexto social e político que promoveu a abstenção de potenciais votantes no PS.
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Afinal, o LIVRE não elegeu vivalma.
Foi um sonho lindo que, neste momento em que escrevo, não se sabe se resiste à manifestação da sua absoluta irrelevância para a comunidade. Teve o meu voto, e confirmou-se como um projecto falho de estratégia ao ter desaparecido em campanha. Em vez de terem procurado dialogar com abstencionistas e com comunistas, saltando para os cornos do sectarismo esquerdola, ficaram-se num imobilismo incompreensível, quiçá convencidos de que as sobras do PS dessem para juntar mais uns votos aos 70 mil que julgavam garantidos a partir das europeias. O eleitorado preferiu outro tipo de animais, não tão domesticados.
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Afinal, o Marinho e Pinto ficou a ver navios.
Esperava-se, ou esperou-se, que a campanha do Marinho fosse um contínuo circo populista, atirando-se às canelas de tudo o que mexesse e passasse por perto. Em vez disso, vimos um candidato a passeio sem chama nem discurso. A ver se algum jornalista, ou o próprio, explicam o fenómeno num destes dias de rescaldo.
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Afinal, os pafiosos ficaram longe da maioria.
No começo da noite, essa possibilidade foi avançada e, a juntar à falsa previsão da diminuição da abstenção, até levou os pafiosos a celebrarem as primeiras projecções como se viesse aí uma nova aparição da Nossa Senhora de Fátima para entregar um crucifixo novinho em folha ao Pedro. Mas não, era engano. Os votos que tiveram foram só daqueles que acham muito bem serem enganados, maltratados e toureados. Que os há.
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Afinal, o Bloco vale mais sem Louçã do que com ele.
O histórico triunfo do Bloco, realmente subindo a terceira força política nacional, nasceu exclusivamente da Catarina Martins, a qual rompeu com o modo imbecil de aparecer irada contra o mundo que a esquerda pura e verdadeira cultiva por contingência pulsional, vocação maniqueísta e ontologia totalitária. Como isso foi feito consistentemente ao longo dos debates, e estes foram vistos na televisão pelos públicos-alvo, o eleitorado do centro, flutuante e não politizado, pôde voltar a acreditar que no Bloco há pessoas razoáveis que merecem a confiança, ou a esperança, das restantes pessoas razoáveis. Numa campanha em que os parolos encartados declararam a morte dos cartazes como peça de propaganda eficaz, só porque assim poderiam bater mais um bocadinho no PS, os cartazes onde duas mulheres jovens e atraentes deram a cara por uma mensagem vácua e hipócrita acabaram por serem louvados como instrumentos fulcrais de uma “excelente campanha”. O grande Louçã da esquerda grande caiu do totem.
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Afinal, o PC continua a somar vitórias patrióticas e de esquerda.
O PCP é o melhor aliado que a direita possui neste miserável e adorável pais, e isto desde que Cunhal aterrou na Portela em 74. Trata-se de uma agremiação religiosa, imune a qualquer tentativa de diálogo com a democracia que ultrapasse o plano autárquico. Nas presidenciais, quando o PCP apoia um candidato democrata é só porque esse é o mal menor perante a eventualidade de ser acusado de ter favorecido o candidato da direita. Daí a obsessão com a retórica primária e febril das “vitórias” em nome do “povo”. Um povo que insiste em lhes dizer que o comunismo se deve concentrar na limpeza das ruas e nas manifestações bem comportadas, só com gente séria.
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Afinal, as sondagens estavam todas certas.
Incluindo as erradas. Todas certas nisso de terem registado uma real alteração nas intenções de voto, a qual ocorreu precisamente ao contrário do que o PS antecipava: à medida que se aproximava a data das eleições, mais o eleitorado desertava do campo socialista e ia-se espalhando por tudo quanto era outro poiso, em vez de aparecer a dinâmica de maioria. Também um dos efeitos previsíveis face a sondagens adversas não se registou, o tal toque a reunir perante o pânico de uma vitória da direita. Conclusão: o problema nunca está no mensageiro.
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Afinal, Costa fez uma campanha que ultrapassou a imaginação de todos, inclusive a sua.
Ninguém poderia ter imaginado que a campanha iria correr tão mal. Ninguém de ninguém. E as razões para tal são da exclusiva responsabilidade de Costa. Não dizem respeito a qualquer eventual falta de recursos financeiros ou humanos, só à falta de estratégia e de liderança. Terminou a campanha a dizer que “o PS aprendeu com os erros passados”, sendo que pelos erros passados se referia a decisões de investimento de Governos socialistas tomadas num certo contexto nacional e internacional que em nada compara com o actual. Um desastre justamente punido nas urnas.
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Afinal, Costa, Jerónimo e Catarina poderão completar o 25 de Abril.
O 25 de Abril está por completar desde que o PCP tentou impor uma ditadura comunista e o PS de Soares ergueu-se para defender a democracia liberal. De lá para cá, o bloqueio do sistema à esquerda perverteu o regime e talvez seja a principal causa da cidadania larvar e do afastamento da política de tantos. Agora, de repente, por milagre, estamos esperançadamente atónitos, e lucidamente descrentes, com os sinais de abertura do PCP. Mesmo que não dê em nada, também nada voltará a ficar igual depois de os comunas terem atravessado o Rubicão em direcção à cidade.
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Afinal, a política continua a ser o que sempre foi e será.
A invenção da liberdade.