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Revolução Francesa, reloaded

Cidadão ou muçulmano, perguntava Sahir. Boa pergunta.

“Estamos todos na merda, os muçulmanos”

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Em termos históricos, indo para o alto das pirâmides olhar o calendário, o triunfo da democracia e do secularismo aconteceu há um bocadinho. E só numa parte do Mundo, à custa das maiores violências que se conhecem, mais aquelas que se possam imaginar. Não ter passado por essas lutas, tragédias e glórias, só conhecer da grande História o que cabe em livros e ecrãs, leva-nos para a ilusão etnocêntrica de já não ser preciso convencer mais ninguém da legitimidade deste nosso modo de viver uns com os outros em territórios que nos pertencem por herança, ocupação e defesa. Ora, há quem insista em provar-nos que tal ilusão deve ser abandonada.

O terrorismo de bandeira islâmica tem diversos planos de análise onde cabem perspectivas de todas as ciências humanas sem excepção. A desvairada complexidade religiosa e política das suas causas é incontestável, agravada pelas interpretações ideológicas dessa mistela. O resultado é o de ninguém se entender e já todos terem perdido a esperança de vir a entender. Entretanto, estes recentes crimes de Paris – precisamente por já terem sido previstos há anos e anos, ainda termos fresca a memória do massacre no Charlie Hebdo e coincidirem com o atentado contra o avião russo no Egipto – introduziram uma urgência que é nova na intensidade e no aparato. De facto, algo no plano militar se alterou, estando a criar-se à velocidade dos dias alianças inauditas entre as diversas potências com capacidade para derrotar o “Estado Islâmico” com bombardeamentos e operações especiais. De caminho, e em resultado do que se antecipa possa ser uma destruição da estrutura no terreno dos terroristas como ainda não se viu até agora, a solução política para a Síria e a estabilização do Iraque poderão dar saltos decisivos. Não se trata de resolver todos os problemas e passarmos a ter Suíças no médio-oriente, pois pelos séculos fora haverá conflitos de variegada tipologia, mas de viabilizar como Estados esses territórios, conferindo-lhes poder para organizarem a sua segurança interna e para serem parceiros da pacificação das regiões hoje devassadas pela guerra e pela miséria.

Entre nós, está em causa reconhecer que quem apela a crimes contra cidadãos tem de ser punido. O discurso que o faça, tenha a origem que tiver, já é uma ameaça. Os muçulmanos que ajam como entenderem na reacção a mais estes crimes, o secularismo não quer saber de credos religiosos a não ser quando eles se invocam para violar a legalidade livremente estabelecida. São os cidadãos que devem exigir ao poder político um regime de tolerância zero para o apelo ao ódio e à morte. Se parte desses cidadãos forem também muçulmanos, tanto melhor. Não podemos é ficar à espera de quem não aparece nem se sabe se vai aparecer.

Revolution through evolution

Marriage has morphed into a means of supporting intensive investments in children
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Movies as a tool to assess acceptability of intimate partner violence
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Sexism Rules in the Voting Booth Unless Voters Have More Information
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Polling station environments matter: Physical layout can impact the voting experience
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People Routinely Attribute Moral Obligations to People Who Cannot Fulfill Them
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Is Your Boss A Tyrant? An Unhappy Home Life May Be To Blame
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Why We Look at Pretty Faces
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Levanta-te, Europa

Desde o Verão que acompanho diariamente o que se passa, e não se passa, em Ramadi. O interesse por esta cidade iraquiana nasceu do interesse por uma cidade curda-síria, Kobani. Aqui, a um período de intensas notícias sobre o cerco e invasão do “Estado Islâmico”, seguiram-se meses sem que os nossos noticiários dessem conta do que por lá acontecia. E todos os dias algo ocorria com a resistência curda e os bombardeamentos de aviões norte-americanos. O mesmo fenómeno com Ramadi, em que os noticiários deixaram de se ocupar da cidade depois de ter caído nas mãos dos assassinos. Ora, passei a procurar outras fontes de informação.

O que aprendi nos últimos 6 meses não será, em boa parte, distinto do que qualquer especialista militar sabe: que o exército iraquiano foi destruído com a queda de Saddam e ainda não existe, que o “Estado Islâmico” deve as suas proezas estratégicas ao facto de estar a ser liderado militarmente por ex-oficiais de Saddam e que bastaria existir vontade militar dos países da região para se reduzirem os assassinos que restassem depois da razia à clandestinidade. Tal não acabaria com o terrorismo enquanto fenómeno indestrutível, mas acabaria com esta marca de terrorismo que continuará a espalhar violência crescente enquanto aparentar conseguir resistir ao poder militar daqueles que escolhe como inimigos.

Ontem, até às notícias dos ataques em Paris, parecia que os assassinos estavam a ter um dia particularmente funesto: tinham perdido Sinjar, uma cidade iraquiana que lhes permitia a ligação entre a Síria e Mosul, tinham perdido al-Hawl, vila síria importante por causa da produção de petróleo, tinham visto o “Jihadi John” feito em pedaços (ou assim consta) e até em Ramadi se aperta cada vez mais o cerco pelo exército iraquiano, milícias e aviação internacional, para além de outros pequenos ganhos territoriais aqui e ali e de um tiro ao boneco da aviação internacional cujas parcelas correspondem a dezenas de mortos todos os dias. Algo neste cenário terá mudado com os acontecimentos de Paris? Não, quando muito estará em causa é acelerar o processo.

Não posso concordar mais com Jeremy Corbyn quando este diz que preferia ter levado o “Jihadi John” a um tribunal britânico em vez de o saber morto à bomba. A mesma boa intenção civilizada e civilizadora para qualquer outro criminoso do “Estado Islâmico”, muitos que serão igualmente vítimas das mais variadas formas de miséria e violência e podendo nós questionar até que ponto foram livres nas escolhas que os levaram para o crime. Porém, não podemos ignorar que este tipo de terrorismo se distingue de outras formas de espalhar o terror por não existir algo que possa ser negociado. Não há nada para trocar com quem vive obsessivamente o delírio fascista de anular a Humanidade. Tem por isso toda a razão Obama quando ontem lembrava que os ataques de Paris eram crimes contra a humanidade. Não são, pois, apenas mais uns números a somar às fatalidades criminais de outra tipologia.

Os crimes não são todos iguais, e é essa uma destrinça fundamental que está na origem da noção de Justiça que perfilhamos na actual fase da Civilização. Esta é também a consciência de que os refugiados que procuram a Europa, os quais fogem do mesmo inimigo, são nossos irmãos em sofrimento e esperança.

União europeia

Caso se confirme ter sido uma acção organizada, ou inspirada, pelo “Estado Islâmico” – como tudo parece levar a crer – o ataque desta noite em Paris deveria gerar uma resposta militar conjunta da Europa. Isto é, a situação na Síria e no Iraque tem de ser finalmente resolvida através da erradicação completa dos terroristas e da instituição de soluções políticas que sejam mais fortes do que as divisões religiosas e étnicas.

Um dia de atraso para esse desfecho é mais um dia de perigo para a liberdade na Europa.

A cobra e o monhé

Ontem, dentro de um táxi, o motorista anunciou-me ir contar um provérbio que, garantiu, tinha larga popularidade no perdido Ultramar. Que foi este: “Se encontrares uma cobra e um monhé, mata primeiro o monhé”. Não conhecia. Aliás, não julguei possível tratar-se de um provérbio e comecei a olhar pela janela à procura de um sítio propício para sair, no mais curto espaço de tempo, da esfera de influência sonora e rodoviária daquele tresloucado, plano de fuga dificultado por estarmos a transitar em pleno eixo Norte-Sul.

O que nos tinha levado para o monhé foi a intenção do taxista em discutir comigo a iminente inundação de dinheiro que Costa vai fazer no País. Ele estava contra e recitou-me o cardápio completo das malfeitorias que os socialistas tinham cometido desde o tempo de Soares. Igualmente me informou de ter votado sempre no Cavaco porque este o tinha livrado da tropa, informação que não explorei. E ainda conseguiu explicar que essa inundação de dinheiro, afinal, apenas corresponderia ao aumento de 1 euro nas pensões, mas que com os socialistas era sempre assim, só bancarrotas. Ah, e que o Costa tinha atraiçoado toda a gente, a começar pelo Seguro. Seguro esse em que ele teria votado, não fosse o monhé.

Mais tarde, fui à procura de outros exemplos desse suposto provérbio. E eles existem, tenham ou não origem em África. Tal como existe um padrão na política nacional. Um padrão onde há forças partidárias e sociais que exploram os défices cognitivos, a iliteracia e o medo da população para alimentarem um estado de violência permanente. Quem assim se entrega a esta forma de “fazer política” não está na base da pirâmide, está no topo. Tem acesso aos mais poderosos meios de comunicação social, ou até é deles proprietário ou director, e almoça e janta com os mais diversos poderes fácticos. Não possuem anos disto mas séculos. A sua pulsão oligárquica é genética.

Tanto o veneno que produzem e espalham no espaço público que se entende na perfeição a lógica deste “provérbio” racista e colonizador. Nasce do mais puro instinto de sobrevivência.

Não sejam piegas e saiam lá da vossa zona de conforto, rapidinho

A meio da campanha eleitoral para as legislativas de 2015, tal como o documento acima testemunha, o “primeiro-ministro-presidente do PSD-pafioso-mor” dirigiu-se ao povo para lhe dizer o seguinte:

Que o valor da estabilidade deve ser o critério supremo a comandar a acção das forças políticas responsáveis.

Que ele já sabe que Costa vai chumbar um eventual Governo nascido de uma maioria relativa da direita.

Que sem maioria absoluta não há condições para esta direita se manter no poder, sendo necessário ir para eleições no mais curto espaço de tempo por não existir alternativa governativa que ofereça estabilidade.

Ou seja, e de forma cristalina, Passos pediu ao eleitorado para se pronunciar sobre o cenário político que se vive em Portugal desde 4 de Outubro. E não poupou no catastrofismo, dando como certo aquilo que veio, de facto, a acontecer – apenas lhe escapando a inaudita dialéctica do PCP. Ora, tal presciência contradiz a retórica da surpresa e do escândalo com que os direitolas têm enchido o espaço público para lidar com a evidência: podem ter ganhado na noite eleitoral, perderam de forma absoluta neste dia parlamentar.

Chama-se democracia, é aguentar no caso de estar a doer.

Ninguém aqui tem dúvidas, Pedro, podes ficar descansado

A repetição de que os eleitores do PS não queriam um eventual acordo entre socialistas, bloquistas e comunistas tem de ser um dos argumentos mais exuberantemente pífios que já invadiram o espaço público em muitos e muitos anos. Como toda a direita, e sua legião de adeptos disfarçados de jornalistas, repetem assanhadamente essa cassete, é provável que não encontrem mesmo mais nada para dizer perante uma possibilidade de maioria parlamentar que é a única a poder oferecer estabilidade governativa. A única.

Queriam os eleitores do PS, do BE e do PCP a continuação da devastação causada pelos maiores mentirosos – e traidores – que a história da democracia regista? E quem votou PAF queria que depois das eleições a direita viesse anunciar que, afinal, o programa do PS é que era bom? Será que os direitolas vão continuar a tratar os portugueses como se tivessem 5 anos de idade, já sem qualquer noção do ridículo que os consome?

Outro argumento lerdo é esse de os pafiosos terem ganhado as eleições, daí só eles poderem governar. Imaginemos que tal estupidez estava inscrita na Constituição, qual seria o resultado? O Parlamento deixaria de ter autonomia para encontrar qualquer outra solução governativa perante bloqueios políticos onde a oposição era maioria e teria de se repetir as eleições as vezes que fossem precisas até aparecer um partido ou coligação com maioria absoluta. E se não aparecesse? Ficaríamos com um Governo de gestão por anos e anos, talvez décadas. É esta a lógica que se prepara para ser repetida ad nauseam nos próximos dias, meses e anos.

Mas chega do meu paleio simplório e passemos a quem percebe mesmo do assunto. Aqui em baixo temos o Pedro, com a vantagem de estar em campanha eleitoral que é quando ele se revela decente e patriota, a dizer umas verdades aos portugueses acerca do que é e para que serve o Parlamento. Brilhante e incontestável discurso.

Revolution through evolution

Religious Upbringing Associated with Less Altruism, Study Finds
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Teen sex talks with parents, especially moms, associated with safer sex
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Singing’s secret power: The Ice-breaker Effect
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Chopin, Bach used human speech ‘cues’ to express emotion in music
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Empathetic teachers enhance children’s motivation for learning
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The surprising trick jellyfish use to swim
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Bond’s Beatings Would Leave Britain’s Best-Loved Spy with Double-O Vision

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Sem brincadeiras, por favor, alguém me ajude

De quem é que partiu, no grupo Impresa, a estrambólica ideia de tentar fazer do Bernardo Ferrão uma personagem minimamente respeitável no jornalismo político? Aposto que foi do mano Costa, essa inteligência ofuscada que nos conduz pelo meio das trevas. Mas o desafio será equivalente ao de se esperar que uma banheira cheia de merda se transforme numa barra de ouro à pala de ladainhas chonés e paciência infinita.

Enfim, talvez tenham de recuperar o Crespo para dar formação ao novel talento pois só o convívio com o José Gomes Ferreira e o Medina Carreira é capaz de não chegar.

Exactissimamente

A justiça parece, de facto, fazer-se em todos os lugares excepto nas salas dos tribunais. E com a bênção do Ministério Público. Como é possível que quando existem tecnologias informáticas que permitem saber quem abriu e fechou um ficheiro, quem o enviou, exportou ou importou, tecnologias que inclusivamente tornam impossível que alguém não autorizado abra um documento, o MP nunca consiga saber de onde vieram as fugas nem tão-pouco determinar quem foi o responsável?

E se a lei permite que jornalistas se constituam assistentes de um processo, e se parte do processo aparece no dia seguinte nas páginas dos jornais, como é possível que não haja uma reacção imediata de quem tem a obrigação de preservar a inocência de um cidadão até a uma condenação formal? É que, se o tivessem feito, não teriam sentido providências cautelares que, por serem requeridas pelo arguido, geram sempre a suspeita de que a justiça aceitou lançar um manto escuro sobre a liberdade de expressão.


Isabel Stilwell

De comunas a comunistas

A actual situação política inédita que temos vivido desde as eleições só se tornou possível por causa do PCP. A sua disponibilidade para entrar em negociações com o PS é histórica e tem riscos, mas apenas para o PCP. O PS nada perde porque não são os socialistas que estão a mudar qualquer pilar da sua identidade, são os comunistas. Para os socialistas, conceber a democracia como um sistema onde se trocam cedências ideológicas e programáticas por acordos de governação não é uma novidade, ainda menos um defeito ou um erro. É a essência mesma da democracia liberal, onde essa liberdade sustenta a praxis e conduz a um potencial criativo ilimitado (para o melhor e para o pior, imperfeição que aceitamos por não existir alternativa preferível, como disse o outro). Daí haver algo simultaneamente romântico e compassivo nesta experiência de vermos uma entidade de cariz religioso a fazer o seu aggiornamento. Mesmo que não o consigam concluir, todos acreditamos que estão genuinamente a tentar, e espera-se que no pior dos cenários fiquem pelo menos as sementes para acabar de vez com o bloqueio parlamentar à esquerda.

Quanto ao Bloco, está com a Catarina a cumprir a promessa que foi a de Louçã no começo da sua caminhada. Promessa substituída por uma megalomania estéril e, por fim, destrutiva. Os tempos de euforia no BE são também, contudo, a manifestação da sua volatilidade. Este partido continua a ser uma manta de retalhos, e precisará de consolidar a sua liderança para se conseguir perceber o que pode valer nos actos eleitorais seguintes. A conjuntura que lhe deu os votos de simpatia socialista muito provavelmente não se vai repetir tão cedo.

Finalmente, é provável que o eleitorado do centro, que está sempre no mesmo sítio e cuja vocação é ser charneira, esteja a ver com muito bons olhos a perspectiva de um Governo da esquerda unida. Sociologicamente, estaria de acordo com o resultado das urnas. Politicamente, corresponderia não à radicalização do PS mas à reconversão dos radicais. E antropologicamente, seria uma exuberante concretização do ideal de Abril onde a comunidade fazia finalmente as pazes com o seu passado, ficando com energias acrescidas para se agarrar ao presente.

Um comuna é um sectário na cidade, um comunista é um companheiro dos cidadãos. Dos primeiros estamos fartos, dos segundos estamos com saudades.

Revolution through evolution

Gender Equality Gives Men Better Lives
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Male/female brain differences? Big data says not so much
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Rare warrior tomb filled with Bronze Age wealth and weapons discovered
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Soothing words do more than pills to calm anxious patients
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Singing calms baby longer than talking
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Older beats younger when it comes to correcting mistakes
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Count your bites, count down the pounds
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