Arquivo da Categoria: Valupi

Francisca, a Holandesa

Daí que ontem me tenha surpreendido a comoção com que vi Van Dunem, com quem nunca na vida falei, a avançar, de forma que me pareceu particularmente altiva (imperial, apetece dizer), para a declaração e a assinatura. Tive a noção de estar a assistir a um momento histórico - quase tão importante, à nossa dimensão, como o foi a eleição de Obama nos EUA. E creio que também Van Dunem o sentiu - assim interpretei a maneira como, de olhos levantados, recitou a frase ritual.


Fernanda Câncio – “Uma ministra para a história”

__

Para além do interesse que o artigo tem no seu todo e por si mesmo, esta passagem despertou uma especial curiosidade em quem, como eu, ainda não tinha visto as imagens da tomada de posse quando a leu. O vídeo das assinaturas está aqui – XXI Governo toma posse: Costa promete “alternativa realista” – no segmento das 16h05, e já o vi e revi mais de 10 vezes. Posso confirmar que Van Dunem se levanta, anda, fala, assina, volta a andar e senta-se. Mas não vi o que a passagem citada sugere.

Tenho a certeza de que, no caso de não ter lido a descrição da Fernanda, iria sentir e pensar o mesmo em que consistiu a minha experiência. Vejo uma mulher que avança descontraída, profere o juramento solene com calma profissional e regressa à cadeira no seu passo quase gingão. Trata-se de uma bela mulher. Bela pela projecção de confiança e serenidade. Bela pela aparência exterior, com roupa branca a reforçar o efeito cromático da tez e dos cabelos. E bela à Obama, no sentido de cool. Ou seja, não me ocorreria ver na sua presença nessa ocasião um qualquer manifesto político por estar a ser o primeiro cidadão de fenótipo africano a ser nomeado ministro em Portugal. O que vejo é uma pessoa cuja imagem exterior é sedutora.

Estava às voltas com esta comparação de subjectividades quando li A minha amiga é negra, de Ferreira Fernandes. É um texto onde também se reclama para a pose e modos de Van Dunem no acto da tomada de posse uma manifestação política de contexto e significado racial – embora esse aspecto apareça apenas no início do texto e como um elemento retórico, estético, sendo desconstruído no parágrafo final. Entre princípio e fim, as palavras do nosso maior cronista vivo dão-nos a conhecer um pedaço da sua vida em Angola, o qual fica como testemunho imperdível. E deram-me matéria para sustentar a minha percepção de alguém que encontrara pela primeira vez numa ocasião solene: esta família Van Dunem fazia parte da aristocracia angolana. Ou seja, a mulher que eu vira a deslocar-se de um lado para o outro no Palácio da Ajuda não tinha só uma echarpe elegante e uma voz pausada. Tinha berço.

Na variedade de olhares dirigidos ao mesmo rosto e ao mesmo corpo, não partilho da sensibilidade emocional da Fernanda a respeito da ocasião, talvez por não ser mulher, mas estou com ela na consciência da importância histórica de se entregar tão alta responsabilidade a uma portuguesa com África na pele e a Holanda no sangue.

Serviço público

Na quinta-feira, o Fórum TSF foi sobre “A polémica da sobretaxa”. Na abertura, foram passadas as últimas afirmações de Paulo Núncio no Parlamento, onde negou ter sido feita uma promessa eleitoral e onde se defendeu recorrendo à palavra “metodologia” – isto é, disse que a culpa pela trapaça não é dele nem de ninguém que ele conheça, é da “metodologia”. Minutos depois, no programa, passaram-se as declarações de Passos Coelho em campanha onde não só prometia os tais 35% aludidos como deixava no ar que se ia devolver tudo e mais alguma coisa. Para um retrato ainda mais completo: Gente que fez cálculos que batiam certo com a propaganda do Governo

Chamo a atenção para duas intervenções. A primeira, de Helena Garrido, a qual começa no minuto 19 da 1ª hora. Desde que está a dirigir o Jornal de Negócios, as suas opiniões passaram a ter um indelével travo a Cofina. Não sei se sempre foi assim embora não me apercebesse disso antes, até recordo ter dela uma imagem de opinadora que respeitava a nossa inteligência. Não é essa a avaliação que faço nos últimos dois anos. Nesta intervenção no Fórum TSF, aparece a relativizar e desvalorizar a ocorrência, disparando em duas direcções: contra a “classe política” e contra Paulo Núncio. Ou seja, isto aconteceu porque os políticos são todos iguais (entenda-se: os outros, os do PS, fazem o mesmo) e porque o Núncio é um tosco (ou seja, Passos, Portas e Maria Luís não têm qualquer responsabilidade, foram vítimas da inépcia do secretário de Estado). Pelo meio, ainda teve tempo para nos dizer que os cofres estão cheios; portanto, Costa, nem tentes vir com desculpas. Que dizer? Dizer que é um espectáculo triste ver alguém a mostrar que não precisa de ter honestidade intelectual para abrir a boca em público.

A segunda intervenção que realço é a de José Heitor, começando ao minuto 40 da 2ª hora, e a qual encerra o programa. Se não sabes quem é o José Heitor, o que faz ou fez e onde mora, estás como eu. Tinha umas coisas para escrevinhar a respeito mas faço apenas o convite para que se sinta – e se veja – o que a sua voz exprime. Eis um pedaço do melhor de Portugal.

Técnicas de guerrilha do Guerreiro

É a grande surpresa deste governo, com que António Costa consegue resolver ou pelo menos dissolver um problema bicudo: o caso Sócrates. A entrada de Francisca Van Dunem para a Justiça é praticamente à prova de bala do ponto de vista das suspeitas de interferência no processo, tendo em conta a sua reputação de seriedade e de coragem.


Pedro Santos Guerreiro

__

Qual a importância do Expresso na sociedade portuguesa? Que significa ser-se, ou reclamar-se, imprensa de referência? Estas questões preliminares para enquadrar uma passagem, a que ninguém deu importância, inclusa num texto já esquecido 3 dias passados desde a sua publicação.

Santos Guerreiro não é um mero colunista, é o director executivo deste jornal. E o que podemos ler na citação está em português e não tem erros de gramática. Lá vem declarado que existem suspeitas de interferência no Processo Marquês a mando de governantes ou militantes socialistas. Segundo a sua opinião, essas suspeitas ficam mitigadas em grande parte, mas não desaparecem de todo. E tal diminuição do risco deve-se a qualidades de carácter aparentemente extraordinárias, ou raras, de “seriedade” e de “coragem”. Isto é, antecipa-se que Van Dunem vai ser contactada e pressionada, mas que irá resistir aos criminosos.

Resumindo, o director executivo do Expresso, num texto em que comenta da forma mais abreviada possível a nomeação de Francisca van Dunem para o cargo de Ministra da Justiça, considera que o mais importante é falar de Sócrates e dos interesses que existirão no Governo de Costa para o favorecer através de ilegalidades não definidas mas que pressupõem inevitavelmente a corrupção de agentes da Justiça, sejam procuradores e/ou juízes. Só uma natureza heróica atribuída à senhora pelo articulista é que poderá conter essas forças malignas.

Esta insinuação sonsa e caluniosa passa como normal no ambiente de decadência que a actual direita instaurou no espaço público, pelo que estar a falar do assunto é passar por tontinho posto que ninguém percebe onde esteja o problema. Entretanto, o populismo contra os políticos engorda enquanto uma classe jornalística de merda faz do poder mediático de que desfruta um espelho para narcisismos destituídos de ponta por onde se lhes pegue.

Pedro, de que suspeitas estás a falar? E, acima e antes de tudo, de que suspeitos? Os do costume?

Turcaria

O que é que passou pela mona dos turcos quando decidiram abater o caça russo? É um episódio que se presta imediatamente a sustentar teorias de conspiração, tão desvairadas como desvairada é a real situação no terreno em guerra, mas igualmente automática é a conclusão de ser algo que se torna muito provável dada a complexidade e o caos do conflito. Tal como nos acidentes por “fogo amigo”, há erros que acontecem no palco de operações militares apesar de todos os esforços para os evitar.

Neste caso, porém, parece haver outra origem para o ataque para lá de um qualquer procedimento disfuncional. Ninguém acredita que o piloto do F-16 turco tivesse tomado a decisão autonomamente, e ninguém acredita que o poder militar tivesse agido sem aprovação política. Pelo que voltamos ao quadro de giz na mão e sem saber o que escrever ou desenhar. Porque bastaria que os F-16 turcos se aproximassem do caça russo e gravassem a ocorrência para já se ter material para um protesto que daria para alimentar o caso durante o tempo que Erdoğan quisesse – e não haveria agora um piloto russo morto pelo que parece um absurdo gratuito, e ainda um Putin ferido na sua imagem de líder de uma potência militar muito superior à Turquia.

Como ouvi há anos a uma barbeira, o mundo foi feito um bocado à pressa.

O precipício do editorialista

O país entrou em bancarrota em 2011 e o Presidente da altura não era Costa Gomes, não era Ramalho Eanes, não era Jorge Sampaio, era ele mesmo, Cavaco Silva. Foi ele quem assinou muitos dos diplomas que vieram do executivo ou do Parlamento e que ajudaram a conduzir o país ao precipício.


André Macedo

__

Não tenho forma de medir a influência, política e/ou social, de qualquer editorial de um qualquer meio de comunicação social. Seguramente, não deste do DN e do André. Mesmo que estivesse a olhar para os números dos eventuais leitores, não o saberia calcular. Mas desconfio que não movem montanhas. Pelo que o interesse é de mera curiosidade acerca dos mecanismos mentais que levam a este registo de permanente sectarismo.

Quem for leitor e espectador do André sabe que ele pertence ao grupo daqueles que utilizam a situação que levou ao resgate de emergência como arma de arremesso contra o PS e, em especial, contra Sócrates. Fazê-lo só se entende como vantagem do ponto de vista da actual direita, interessada desde 2008 em reduzir o combate político à culpabilização por resultados negativos na economia e finanças. Pelo que assim ficamos a saber do seu gosto partidário, mas nada mais. Que saiba, e penhoradamente agradecido ficaria se alguém me mostrasse estar errado, nunca o André explicou quais foram os factores da exclusiva responsabilidade dos Governos de Sócrates que possam ser objectivamente apontados como causadores do pedido de resgate. Porém, isso não o impede de martelar sempre que pode a tese da culpa do Governo português da altura. É o que volta aqui a fazer, voltando a nada explicar.

Compreendo facilmente que nada explique. Para o fazer, teria de despir o fato de editorialista que manda bocas da plateia montado no seu jornal ou na sua cadeira de estúdio e vestir o do investigador multidisciplinar. Para isso, ele já não terá tempo. Pelo menos. E com isso ficamos sem saber se, intimamente, acredita que teria sido possível evitar o que aconteceu quando aconteceu, bastando aos socialistas não terem feito aquela cena ou terem feito a outra. Como se esses socialistas não estivessem limitados pela Europa, não estivessem boicotados pela oposição e pelo Presidente da República e pudessem adivinhar o futuro. Às tantas, o André até acredita que foi Sócrates quem enterrou a Grécia, a Irlanda, o Chipre e mesmo a Espanha (embora aqui, não tendo conseguido levar o seu trabalho até ao fim), e nós não estamos a poder aprender com o seu entendimento da realidade.

Sim, a imaginação é coisa maravilhosa.

10 anitos de iniciação à aprendizagem

Convencionou-se que o dia 25 de Novembro seria a data da fundação do Aspirina B, embora a primeira publicação tenha ocorrido dois dias antes. Em 2005, ano do lançamento, era o Luis Rainha quem regia a orquestra, tendo partido dele a ideia de criar este pardieiro. Talvez tenha partido dele, igualmente, a colagem ao 25 de Novembro, por oportunidade e subtexto. Se alguma vez falámos sobre isso, já o esqueci. O elenco inicial era retintamente esquerdolas, versão agitprop, daí a eventual graçola.

Há 10 anos, este blogue surgia como um híbrido. Ainda com a vitalidade do que era novo em Portugal, mas já marcado pela consciência de ser velho pelos que tinham começado nisto um par (ou dois pares) de anos antes. Em 2005, estávamos à beira de abandonar os blogues como locais da crescente socialização digital e migrar felizes e em massa para o Facebook já inventado e para o Twitter a inventar no ano seguinte. O que manteve a relevância sociológica dos blogues por mais um lustro foi só o calendário eleitoral e o facto de terem servido, à direita, como associações de apoio a doentes de socratopatias, agremiações de famintos do pote e colégios de pulhas profissionais até 5 de Junho de 2011. O que ainda resiste da outrora “blogosfera política”, à esquerda e à direita, está como a rádio local para as televisões nacionais. Existem umas coisas espalhadas por aí, mas ninguém a não ser os viciados e os malucos sabe o que lá se passa. Obviamente, há excepções nesta paisagem, conformes ao estatuto mediático dos autores respectivos.

Agora que se cumprem 10 anos, e umas palavras solenes se impõem como praxe, a minha atenção vai, primeiro, para os colegas de escrita que por aqui passaram, em tempos tão diferentes e com tão diferente motivação. Sem nada publicado, ninguém aqui viria parar. Para mim, prazer e honra por esta partilha de brincadeiras adultas, nuns casos, infantiloides, em muitos outros. Logo depois, a minha atenção vira-se para os leitores e comentadores. Em especial, para os que desapareceram e que fizeram parte desta estranha e mutilada forma de conviver. Alguns terão morrido, outros adoecido, algo estatisticamente muito provável. Mas a maior parte simplesmente não voltou porque se fartou passada a novidade, ou deixou de comentar porque perdeu o encanto e até a simpatia com as constantes vagas de agressividade demente que este canal de comunicação não só permite como acirra nas caixas de comentários. Outro factor é a inevitabilidade de se quebrarem os laços afectivos porque em algum momento algum autor deixou de representar uma qualquer preferência, ou passou a representar uma qualquer aversão, quebrando-se a confiança moral e o sentimento de identificação. Por fim, como força principal para a efemeridade das afinidades, a consciência implacável de que há muito mais e melhor para fazer com o tempo que resta do que estar a assistir à banalidade alheia. Pelo menos, é essa a minha opinião a respeito do que escrevo.

Existe um conceito grego que descreve o acto de expressar verbalmente a sinceridade do pensamento: parrésia. Foucault deixou-nos uma célebre reflexão sobre a sua importância – The Courage of Truth: The Government of Self and Others II – First Lecture – que é em simultâneo uma lição de política. O que está em causa nesse exercício é a ousadia de ser fiel à consciência mesmo que se arrisque o perigo máximo. Nesta celebração dos 10 anos deste passatempo irrelevante chamado Aspirina B, reclamo o mérito de ele servir para a iniciação à aprendizagem da parrésia. E que nos faça bom proveito.

Não podemos concordar mais, sr. Presidente

O aviso veio esta quarta-feira de manhã do Presidente da República: o mundo já não vive sem as tecnologias de informação e comunicação (TIC), mas “quando tudo se torna digital”, as instituições e a sociedade em geral ficam mais “vulneráveis à acção criminosa de indivíduos solitários ou de organizações, ao activismo político subversivo, aos conflitos entre Estados soberanos."


Cavaco, 2015

“Quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o presidente da República, basta ir ao site da Presidência. Lá, está a verdade.”


Cavaco, 2010

O mano Costa pede sangue

O mano Costa, inspirando-se no zeitgeist, quer ver cabeças a rolar. Vai daí, lançou uma campanha para que Cavaco vete ministros socialistas, pelo menos um: O Presidente pode vetar algum ministro? No artigo dá-se a ler a jurisprudência que coligiu entusiasmado de forma a que em Belém não haja dúvidas nem hesitações. Simultaneamente, consegue a proeza de ter dois artigos lado a lado, no espaço digital do jornal, onde defende posturas diametralmente opostas. Enquanto neste artigo promove o vale tudo contra os candidatos ministeriais sem necessidade de explicações por parte do Presidente, no Cavaco optou pela única solução que tinha canta o faduncho do formalismo, das regras constitucionais e do institucionalismo no afã de se justificar por ter defendido um Cavaco sectário e irresponsável. Não contente, ainda conseguiu pôr a anedota do Bernardo Ferrão a ir buscar Sócrates para o atirar contra Van Dunem. O mano Costa é mesmo aquela máquina a despachar serviço.

Ora, os candidatos socialistas a ministros de Costa exibem retintos e perigosíssimos socráticos. Santos Silva, Vieira da Silva e Capoulas Santos, qual deles o pior; e estes são apenas os mais cabeludos. O Capoulas carrega a chaga de ter sido a primeira visita de Sócrates em Évora. O Vieira da Silva também lá foi ao beija-mão. O Santos Silva, julgo que não foi a Évora, mas nem precisava. Estamos a falar de mais um Santos Silva, como se o outro bandido não chegasse, pelo que não é preciso dizer mais nada. Para além destas vergonhas que Costa foi desencantar só para afrontar o chefe de facção que ocupa Belém, é impossível que Cavaco já se tenha desmemoriado do que sofreu com esta gente quando os três eram auxiliares do Diabo. E para quem nada aprende e nada esquece, a pulsão para a vingança deve estar no máximo da força.

É para esse desfecho que o mano Costa trabalha. Não chega fazer exigências pataratas e indicar que não se indigitou o outro Costa para formar Governo. É preciso que haja mesmo sangue a valer. Foram 7 anos seguidos de impunidade e rancor para o líder da direita portuguesa, o ciclo tem de terminar num festival de pulhice – berra a claque paga pelo militante nº 1 do PSD.

Saraivadas

Que saiba, não existem estudos, académicos ou outros, acerca dos efeitos sociológicos, mediáticos, antropológicos, e até psicológicos, que a presença de Sócrates na vida política portuguesa gera. Pelo que estamos reduzidos à observação avulsa, empírica e superficial. Mas, a existirem esses estudos, a figura e textos do Nuno Saraiva poderiam oferecer paradigmáticos exemplos do que acontece em grande escala.

Tome-se o seu último espasmo – Com amigos destes… – para análise. Trata-se de um editorial, primeira e significativa nota. Significa, portanto, que representa institucionalmente o corpo redactorial do jornal, a sua visão directiva ou posicionamento como agente político que emite opinião. No caso, a opinião pode sintetizar-se assim: Sócrates pretende prejudicar Costa e o PS. Em subtexto, a seguinte mensagem: Sócrates devia estar calado; isto é, não devia emitir opiniões políticas, não devia exercer os seus direitos políticos. A ligação entre uma coisa e outra, ou a razão pela qual o Saraiva se assume como defensor do PS, não fica exposta nem é fácil de descobrir. Se é que existe.

Pelo meio do texto, enchendo o chouriço, tropeçamos numa tese de arrebimbomalho. Afiança o Saraiva que Sócrates faz o que quer de Cavaco. E explica: ao ter falado neste domingo do chumbo do PEC IV, Sócrates acordou Cavaco da letargia, ou ter-lhe-á dado um sopro de alma, que resulta em mais problemas para Costa. Tivesse Sócrates ficado calado e o Sr. Aníbal nem percebia o que se estava a passar com essa malandragem do BE e do PCP que não é de fiar. O zelo e minúcia do Saraiva com este argumento foi tal que até deu ideia de querer à força que a sua carta fosse entregue em Belém. Para que depois ninguém dissesse que ele não tentou avisar a gente séria do palácio.

Esta estupidez tem método, no entanto. O Saraiva viu uma oportunidade e aproveitou-a. Só que tudo se resume a dizer que não gosta de Sócrates, que não suporta aquele gajo que insiste em aparecer por aí, e cada vez mais, e cada vez mais acompanhado. É muito aborrecimento junto. Ao menos, o Costa podia mandá-lo fechar a matraca, pensou o Saraiva. E toca de teclar. Ainda por cima, pagam-lhe por isto, assim se provando que há quem tenha mesmo encontrado o céu na terra.

A enorme maioria da opinião política publicada pelos editorialistas e comentaristas limita-se a este número. Dizer-se que não se grama fulano, sicrano e beltrano. E depois ficar agarrado a essa paixão enquanto houver força nos dedos.

Casos de estudo.

O regresso da múmia paralítica

O Presidente da República não estará presente na cerimónia do 5 de Outubro, porque terá de "se concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias", disse à TSF fonte de Belém.

"Dado o atual momento político, o Presidente da República (PR) tem que se concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias. Desta forma, não poderá estar presente na cerimónia comemorativa da Implantação da República", disse a fonte.


Fonte

Do mesmo autor da “Inventona de Belém”

Em 2009, Cavaco não impôs quaisquer exigências a Sócrates para o indigitar como primeiro-ministro de um Governo minoritário. Acima e antes de tudo, não lhe foi sequer perguntado como é que ele ia aprovar Orçamentos e passar moções de confiança. Isso não foi feito porque nesse tempo o que estava em causa era garantir que esse Governo minoritário fosse queimado em fogo lento, servisse de saco de pancada e tivesse apenas o tempo de vida necessário para que Cavaco obtivesse a reeleição.

De 2010 a 2011, com o início da crise das dívidas soberanas na Europa e o crescente risco de os juros da dívida obrigarem a um resgate de emergência, tal como acontecia na Grécia e na Irlanda e se previa poder acontecer inclusive na Espanha e Itália, não vimos Cavaco a contribuir para a estabilidade e a confiança, mas o contrário. Nesse tempo, usou o cargo presidencial para desgastar, denegrir e boicotar o Governo socialista, servindo-se da violência da crise internacional para influenciar o resultado das eleições legislativas que colocaram esta direita decadente no poder. Um dia, não resistirá a escrever como conseguiu destruir o diabólico Sócrates, indiferente a com isso ter lançado o País inteiro para a pior das soluções e feliz da vida por o ter conseguido fazer enquanto se vangloriava de estar acima dos partidos e dos políticos.

De facto, temos de reconhecer que Cavaco é um dos maiores defensores da estabilidade que o nosso regime democrático já viu passar. Infelizmente, tragicamente, a estabilidade que ele preza é a da pulhice. A sua.

Revolution through evolution

Couples who have sex weekly are happiest
.
The search for happiness: Using MRI to find where happiness happens
.
Honesty varies significantly between countries
.
Eating to impress: Men eat more food when dining with women
.
College studies may reduce risk of dementia for older adults, research finds
.
More than half of ‘children’ misperceive or reject parents’ political party affiliations
.
See! I Was Right
Continuar a lerRevolution through evolution

Mano Costa e o “pathos” socrático

Não deve haver muitos portugueses que não tenham uma opinião formada sobre José Sócrates. Normalmente essa opinião é extremada, seja contra ou a favor. O estilo abrasivo e provocador do ex-primeiro-ministro foi sempre um ótimo catalisador de ódios e paixões. Foi assim no poder, foi assim no regresso de Paris e nos comentários televisivos, está a ser assim na gestão do seu caso judicial, o momento mais difícil da sua vida e que ainda está numa fase inicial. É, assim, normal que a Operação Marquês seja quase sempre vista de forma apaixonada.

mano Costa

__

Ricardo Costa anda a repetir a mesma fezada desde que Sócrates foi preso. Que vamos ter acusação, que vamos ter condenação e que ela será, no mínimo, sobre fraude fiscal. Mas, com sorte e esforço, será também sobre branqueamento de capitais e corrupção. A partir deste pressuposto, reduz a defesa às manobras de boicote e atraso para esse desfecho. O seu receio é o de que a Procuradoria não se consiga organizar a tempo para chegar a tribunal e sair de lá em triunfo.

Se calhar, o Ricardo sabe de algo que ainda não é público, estando aí a origem da sua certeza. Ou talvez seja apenas o seu destino de iluminado, aqui reforçado por conhecer de muito perto o animal que quer ser dos primeiros a despachar para o matadouro. Não faço ideia, e se ele tiver razão não me irei surpreender. Porém, também não me surpreenderei com uma absolvição de Sócrates. Tudo é possível, afiança-me a minha ignorância.

Onde ainda me surpreendo, felizmente, é na constatação de que para o director do Expresso, figurão do comentário político em Portugal, é não só possível como até recomendável que se façam balanços acerca do Processo Marquês sem revelar uma singela caloria de indignação, sequer de incómodo, acerca da dimensão política do caso. Politicamente, é relevante que se tenha prendido Sócrates sem se saber exactamente porquê (dado que as hipóteses para a corrupção foram mudando ao sabor da investigação), que se tenha prendido Sócrates para o investigar, que se tenha prendido Sócrates para o difamar e caluniar (usando para isso a maioria da imprensa) e que se tenha prendido Sócrates num calendário que casa perfeitamente com um plano para prejudicar António Costa, primeiro, e o PS, depois. Aliás, o mano Costa não esconde o gozo antecipado ao imaginar que Sócrates está acabado politicamente, aconteça o que acontecer. O que nos leva para a citação do parágrafo inicial do seu texto.

O que ali temos é uma projecção de si mesmo – fenómeno ubíquo até na academia em contextos científicos, quanto mais na palhaçada irresponsável e inconsequente do comentário político – onde se revela como um apaixonado. Nesse estado, ele não consegue encontrar posições moderadas, objectivas e racionalizantes. A sua pulsão é maniqueísta, por isso acusa quem não pensa como ele de ter uma opinião “extremada”. E não se fica por esta distorção, apaixonado como está, aproveitando para culpar Sócrates pelas paixões à sua volta. Ao referir-se a um “estilo abrasivo e provocador” poderemos não saber factualmente do que está a falar, mas não ficam dúvidas acerca do que alimenta a sua sensibilidade.

Calhando alguém obrigar o Ricardo a identificar aqueles que têm opiniões “extremadas” e “apaixonadas” a favor de Sócrates, quem seriam os nomeados? Iria falar do grupo “Sócrates Sempre”? Iria falar dos advogados de Sócrates? Iria falar dos amigos de Sócrates? De Soares? Será Costa capaz de encontrar algum defensor de Sócrates, mesmo sem ser extremado ou apaixonado, nos dirigentes e deputados do PS? E nos directores de jornais, editorialistas e publicistas, quantos deles têm assinado opiniões a favor de Sócrates?

Embora existam paletes de incansáveis coadjuvantes da acusação em jornais e televisões, não existem defensores de Sócrates no ecossistema que domina a comunicação social portuguesa. O que há são vozes isoladas cuja paixão é o Estado de direito, a decência cívica e a legitimidade democrática. Algo que o mano Costa espezinha no fervor da sua paixão.

Pedro&Paulo, desde 23 de Março de 2011 a papar otários

CM Sobretaxa

Capa do esgoto a céu aberto a uma semana das eleições. Hoje sabe-se que esta mentira se tratou de uma pulhice das antigas. Mas a intenção do pasquim faz recordar, no deboche “jornalístico”, uma célebre capa do CM, salvo erro em 1980, onde se juntavam duas notícias diferentes lado a lado de forma a permitir uma leitura conjunta na horizontal do começo dos títulos respectivos. Seria qualquer coisa como isto “Amanhã vamos votar para as legislativas” + “AD fez último comício em Lisboa”. Resultado gráfico da composição no eixo horizontal, esta parangona: “Amanhã vamos votar AD”.

Claro que o CM, neste caso da sobretaxa, poderá alegar que se limitou a publicar o que os pafiosos garantiram ir acontecer. Portanto, que se limitou a passar com estardalhaço o recado ao eleitor, sempre na perspectiva do interesse público – isto é, de um certo público. E nós acreditamos, que diabo, não há como este pasquim para despachar serviços altamente especializados de apoio ao trato da coisa pública pela gente séria.

__

O nosso amigo Vicente de Lisboa deu-se ao trabalho de encontrar o exemplo a que me referi de forma errónea, acrescentando-lhe mais uma peça.

CM AD

Só 18?

"O antigo líder do PS defendeu esta quarta-feira a sua tese de mestrado sobre a reforma de 2007 do Parlamento - que ele encabeçou enquanto deputado. Obteve 18 valores.

Ao analisar o período em causa, António José Seguro concluiu que a reforma de 2007 aumentou o controlo político do Parlamento em relação ao Governo ao conferir às oposições, por via regimental, instrumentos de que não dispunham na Constituição."


Seguro concluiu mestrado com 18 valores

Baldaia finalmente livre

Com esta inédita e virulenta opinião – Um Presidente a gozar com o pagode – Paulo Baldaia anunciou urbi et orbi que já não papa cavacadas ao pequeno-almoço. Foram muitos anos de mastigação, sabe-se lá com que penosas indigestões, mas Baldaia está finalmente liberto da tortura. Agora, é um homem livre e já se pode juntar à comunidade que assiste perplexa e à beira do desvairo a mais uma manifestação de prepotência e irresponsabilidade do chefe da direita portuguesa.

Cavaco, desde 2008, que é isto. Não estamos perante qualquer novidade. Há um padrão no seu comportamento, e há causas óbvias. Ele fez de Belém, ou deixou que se fizesse no caso de ter sido manipulado, um forte avançado para comandar tropas e lançar ataques contra o inimigo, o PS. Em termos psicológicos, há abundante literatura que explica o fenómeno. Em termo políticos, Cavaco serviu com diligência e mérito os interesses da oligarquia. E em termos cívicos, ficarei a gostar um bom bocado menos deste meu país caso Cavaco saia da Presidência sem que se organize uma manifestação de repúdio pelo vergonhoso e aviltante exercício do cargo.