Mano Costa e o “pathos” socrático

Não deve haver muitos portugueses que não tenham uma opinião formada sobre José Sócrates. Normalmente essa opinião é extremada, seja contra ou a favor. O estilo abrasivo e provocador do ex-primeiro-ministro foi sempre um ótimo catalisador de ódios e paixões. Foi assim no poder, foi assim no regresso de Paris e nos comentários televisivos, está a ser assim na gestão do seu caso judicial, o momento mais difícil da sua vida e que ainda está numa fase inicial. É, assim, normal que a Operação Marquês seja quase sempre vista de forma apaixonada.

mano Costa

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Ricardo Costa anda a repetir a mesma fezada desde que Sócrates foi preso. Que vamos ter acusação, que vamos ter condenação e que ela será, no mínimo, sobre fraude fiscal. Mas, com sorte e esforço, será também sobre branqueamento de capitais e corrupção. A partir deste pressuposto, reduz a defesa às manobras de boicote e atraso para esse desfecho. O seu receio é o de que a Procuradoria não se consiga organizar a tempo para chegar a tribunal e sair de lá em triunfo.

Se calhar, o Ricardo sabe de algo que ainda não é público, estando aí a origem da sua certeza. Ou talvez seja apenas o seu destino de iluminado, aqui reforçado por conhecer de muito perto o animal que quer ser dos primeiros a despachar para o matadouro. Não faço ideia, e se ele tiver razão não me irei surpreender. Porém, também não me surpreenderei com uma absolvição de Sócrates. Tudo é possível, afiança-me a minha ignorância.

Onde ainda me surpreendo, felizmente, é na constatação de que para o director do Expresso, figurão do comentário político em Portugal, é não só possível como até recomendável que se façam balanços acerca do Processo Marquês sem revelar uma singela caloria de indignação, sequer de incómodo, acerca da dimensão política do caso. Politicamente, é relevante que se tenha prendido Sócrates sem se saber exactamente porquê (dado que as hipóteses para a corrupção foram mudando ao sabor da investigação), que se tenha prendido Sócrates para o investigar, que se tenha prendido Sócrates para o difamar e caluniar (usando para isso a maioria da imprensa) e que se tenha prendido Sócrates num calendário que casa perfeitamente com um plano para prejudicar António Costa, primeiro, e o PS, depois. Aliás, o mano Costa não esconde o gozo antecipado ao imaginar que Sócrates está acabado politicamente, aconteça o que acontecer. O que nos leva para a citação do parágrafo inicial do seu texto.

O que ali temos é uma projecção de si mesmo – fenómeno ubíquo até na academia em contextos científicos, quanto mais na palhaçada irresponsável e inconsequente do comentário político – onde se revela como um apaixonado. Nesse estado, ele não consegue encontrar posições moderadas, objectivas e racionalizantes. A sua pulsão é maniqueísta, por isso acusa quem não pensa como ele de ter uma opinião “extremada”. E não se fica por esta distorção, apaixonado como está, aproveitando para culpar Sócrates pelas paixões à sua volta. Ao referir-se a um “estilo abrasivo e provocador” poderemos não saber factualmente do que está a falar, mas não ficam dúvidas acerca do que alimenta a sua sensibilidade.

Calhando alguém obrigar o Ricardo a identificar aqueles que têm opiniões “extremadas” e “apaixonadas” a favor de Sócrates, quem seriam os nomeados? Iria falar do grupo “Sócrates Sempre”? Iria falar dos advogados de Sócrates? Iria falar dos amigos de Sócrates? De Soares? Será Costa capaz de encontrar algum defensor de Sócrates, mesmo sem ser extremado ou apaixonado, nos dirigentes e deputados do PS? E nos directores de jornais, editorialistas e publicistas, quantos deles têm assinado opiniões a favor de Sócrates?

Embora existam paletes de incansáveis coadjuvantes da acusação em jornais e televisões, não existem defensores de Sócrates no ecossistema que domina a comunicação social portuguesa. O que há são vozes isoladas cuja paixão é o Estado de direito, a decência cívica e a legitimidade democrática. Algo que o mano Costa espezinha no fervor da sua paixão.

21 thoughts on “Mano Costa e o “pathos” socrático”

  1. Quem é na comunicação social aparece a defender Sócrates? O desastre do que tem sido esta investigação é também o desastre do mano costa e companhia.

  2. http://artaborigene.tumblr.com/post/82775382014/une-oeuvre-r%C3%A9cente-de-cynthia-wheeler-nakamarra
    Une oeuvre récente de Cynthia Wheeler NAKAMARRA,
    peintre aborigène de Yuendumu, Australie

    [Val, não me agrada comentar o teu post mas acho que a resposta reside na leitura na diagonal que os tipos da Impresa/Sonae e ex-Cofina/Global Media/Media Capital (de onde vêm o visado, o LPN e o JMT, etc.) fazem a alguns blogues portugueses não obrigatoriamente matando a sua sede na/s própria/s fonte/s mas nos seus posts que acabam por ser linkados ou citados na selva do FB e no Twitter. Essa é uma expressão comum aos três aborígenes lusitanos: eu posso, tu podes e ele pode confirmá-lo com vários exemplos.]

    «Calhando alguém obrigar o Ricardo a identificar aqueles que têm opiniões “extremadas” e “apaixonadas” a favor de Sócrates, quem seriam os nomeados?»]

  3. [Nada na manga, Val, apenas não me agrada estar a chamar-te a atenção para um pormenor que a mim me parece claro e que os tipos estejam a referir-se a alguns blogues como o Aspirina B e outros lugares do estilo. O que demonstra a influência dos/as «extremistas» e dos/as «apaixonados/as», assumida ou não no FB ou no Twitter. Mais: há vários posts teus que eu partilho na minha mailing list e que tu não tens que saber que eu o faço.]

  4. RFC, pode ser, claro, que o Ricardo se esteja a referir a blogues e congéneres. Mas, a ser isso, mais reforçada fica a consciência de estar apenas a expressar um fanatismo, pois esses canais não têm influência comparável ao que acontece na comunicação social profissional. Ora, ele está a discursar como editorialista do Expresso, esse o contexto da minha opinião a respeito. Não está a falar com os amigos num café. Ou será que está?…

  5. Na actualidade os valores são efémeros, a vigarice é uma virtude e o que conta são o imediatismo e a protecção do coiro. Assim se enquadra a cega campanha pró-inocência Sócrates e se branqueam as acções deploráveis do António Costa e seu PS.

  6. Val, há uns dias o António Guerreiro escreveu na sua coluna habitual no suplemento Ipsilon do P. algo com um título difícil de memorizar e que, se calhar por isso, passou despercebido (artigo que não encontro agora, terei lido em papel?). Nele escreveu lá no meio uma frase, ou um parágrafo, em que deixava à consideração do leitor imaginar que a direcção editorial da Bárbara Reis decidira mudar a localização do seu artigo e metê-lo na vizinhança dos do João Miguel Tavares. Ora, uma conclusão possível seria de que o que o António Guerreiro escreve semanalmente deixava de ter o seu peso específico porque os dois não usam a mesma linguagem, não têm os mesmos conceitos, em resumo não falam do mesmo, e que o seu artigo passaria a ser confundido com um puro exercício de vaudeville ou parecido. Daí o significado da obra de Cynthia Wheeler NAKAMARRA, que antes linkei, porque no actual panorama mediático lusitano em que o Ricardo Costa e o João Miguel Tavares são peixes de viveiro que se citam e excitam, que publicamente se dirigem um ao outro em réplicas sucessivas não se distinguindo porque falam do mesmo e da mesma maneira. Depois do que escreveu o António Guerreiro perguntarias ainda se ele «não está a falar com os amigos num café»?… A resposta é não e sim, ao mesmo tempo.

  7. Tivesse Ricardo Costa a ser investigado e escutado anos a fio, com dezenas de detectives e investigadores a repassar os respectivos conteúdos para os jornais, e o Expresso já estaria encerrado.

  8. Ricardo Costa é um exemplo de decadência moral. Sem densidade intelectual, embora reconheça que está num patamar acima do Zé Gomes Ferreira, utiliza a técnica ancestral da manhosice.
    Por vezes escorrega-lhe a marreta pra os dedos do pé. Leia-se o que afirmou na “Carta a um irmão”, onde escreveu que a Constança o aconselhou a seguir o exemplo de Paulo e Miguel Portas. Fez bem, dizer a verdade, ainda que só por vezes, só lhe fica bem. Na verdade, como ele o afirma, milita no campo político oposto ao do irmão. Por cobardia não o assume, e acena-nos com o biombo de Diretor do “Expresso”….
    Tem evidentes tendência para a canalhice…

  9. Adenda. Val, está aqui mais e melhor (uma vulgata assim deveria estar na mesa de cabeceira de todos os portugueses com mais de 6 anos, ser impresso no verso dos talões de multibanco e, para quem não se quisesse mexer ou aprender o dialecto, estar disponível online, em podcast, para se fazer download). Estão aqui inteirinhos os 2+1 aborígenes das siglas, de facto.

    António Guerreiro, Exercício de metajornalismo
    http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/exercicio-de-metajornalismo-1713148

    «Um exemplo: se este jornal decidisse que a minha coluna semanal passaria a “contracenar” (segundo um modelo muito difundido) com a do João Miguel Tavares, estaria a desviá-la para uma região que lhe é hostil. Ainda que eu mantivesse o mesmo discurso, acentuava-se a dimensão de entretenimento e criava-se um falso debate entre duas pessoas que não falam a mesma linguagem. Em vez do jogo da oposição, teríamos o diferendo. E não se trata de um ser de Direita, segundo dizem, e outro de Esquerda, presume-se. Se eu quiser criticar os media, verificar que eles estão cheios de profissionais da “opinião”, isto é, de um editorialismo ideológico semelhante ao que Nietzsche chamava “moralina”, asfixiando o ambiente, se quiser mostrar a nefasta invasão dos media pelos políticos-comentaristas que ampliaram uma política Potemkin, servida por um idioma-propaganda que esvazia a linguagem, dificilmente o consigo fazer senão de fora. No interior, o mais certo é sujeitar-me a contaminações ou escorregar na contradição. Mas nem por isso devo deixar de tentar sempre, sabendo que ter uma consciência crítica do lugar de onde falamos e das limitações a que estamos sujeitos é a condição para fugir à doxosofia. Devo esta palavra a Pierre Bourdieu, que baptizou como doxósofos (um vocábulo formado por analogia com filósofos) uma classe específica de intelectuais. São aqueles que devem tudo aos media e às suas paralelas instituições culturais que se arrogam o poder de consagrar “figuras” que eles próprios produzem e fazem prosperar. Ao contrário do antigo intelectual, o doxósofo não traz para o espaço público uma autoridade reconhecida em qualquer campo do saber, da ciência ou das artes: nasce e desenvolve-se na incubadora mediática. No jargon da redacção dos jornais, é a “prata da casa”, uma baixela para todo o serviço a que é preciso sempre puxar o brilho.»

  10. Eheheheh
    Sócrates ao ataque e o jornaleiro da CMTV já delira com candidaturas presidenciais!!!!!!!!!
    E para ver o medo que lhe têm!
    Só porque o homem se atirou ao pescoço do Cavaco e reuniu num almoço mais apoiantes, e mais entusiasmados que todos os outros candidatos presidenciais!
    Até o Dr Mário Soares estava com um aspecto mais animado !

  11. Conhecendo pessoalmente Ricardo Costa das suas deambulações pelas ruas e ruelas da minha mui querida Cidade de Guimarães,gostava de deixar uma pergunta a Ricardito não é bonito andares a enganar:sabes dançar?(…)

    É que,cá no norte,costumamos dizer que homem pequenino ou é pulha ou bailarino!Mas,também é verdade,conheço alguns exemplares que são ambas as coisas em simultâneo.

  12. A inocência de Sócrates assusta a direita que lhe *fez a cama” e ao PS, por causa do assalto ao pote. O desespero não podia ser maior, agora que tudo parece ir por água abaixo, com a tão inesperada quanto surpreendente, para toda gente, união das esquerdas. O Rosário Teixeira vai passando o protagonismo ao investigador do fisco, a fim de que tudo fique resumido a contas mal feitas com a fiscalidade? E vai ficar impune, como no Freeport e na intentona de Belém, a intentona dos gentes judiciais envolvidos?

  13. Maria Abril

    Sócrates colocou o dedo bem espetado na ferida: “começou o jogo do passa-culpas”.
    Foi na política com o triste espetáculo da sobretaxa … e parece que se vai estender à Operação Marquês com o triunvirato investigativo a desentender-se publicamente !
    Mas Sócrates sabe bem qual foi a mão que esteve sempre escondida por detrás dos arbustos: Cavaco !

  14. Concordo, Jasmim. A múmia de Belém assombrou o país por uma década, essa sim, desgraçadamente perdida e assombrada por um PR sempre a pensar no seu umbigo e nos seus amigos “lambe-botas”. Nem no seu partido pensou, pois estou convencida de que os estragos no partido social democrata foram tais que perdeu a identidade. Mas a Europa, ela própria, pode ter virado a página da social democracia. Nesse caso, a múmia de Belém foi providencial para Passos, Portas & Comandita. E, claro, os socialistas acabarão residuais. E, claro, a Europa se encarregará de fazer da aventura das esquerdas portuguesas uma segunda versão do Syriza de Tsipras.
    Costa não pode ter sucesso, pensa o Mariano aqui ao lado, em Espanha. O triunfo da união da esquerda em Portugal seria como um novo Abril e um princípio de uma primavera europeia…Deixem-me sonhar.

  15. Anónimo das 19:22, parece que precisas de alguma ajuda para ultrapassares um eventual analfabetismo ou tratares da tua acuidade visual (e vieste bater na porta certa, como adiante se verá).
    Se te referes às imagens recorrentes que passaram na TVI 24 enquanto peroravam sobre Sócrates o David Dinis e o tipo do DN vestindo hoje uma das melhores pele de cordeiro para se protegerem da chuva e dos resfriados, pareceu-me que eram imagens de arquivo em que também surgia o ministro Vieira da Silva, Isaltino Morais gordinho (não sou visita lá de casa mas sei ele perdeu uns quilos na Carregueira) e a… Leonor Beleza.

    História – Fundação Champalimaud (isto interessa-te)
    http://www.fchampalimaud.org/pt/a-fundacao/historia/

    Como dizia um promissor Bruno Nogueira em 2001, nas noites da SIC:
    «Apesar de as televisões estarem sempre a repetir as mesmas imagens sabem-me dizer se as Torres Gémeas já caíram?»

  16. E o caro anónimo também lá estava, para afirmar o que viu e não viu ? É que se viu pela TV, viu muito pouco de quem lá poderia estar. É que isto de ver, tem muito que se lhe diga, há vistas para todos os gostos, especialmente para aquilo que nos daria mais gosto de ver ou não ver, ainda que alguém não queira ver «o claramente visto»

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