Levanta-te, Europa

Desde o Verão que acompanho diariamente o que se passa, e não se passa, em Ramadi. O interesse por esta cidade iraquiana nasceu do interesse por uma cidade curda-síria, Kobani. Aqui, a um período de intensas notícias sobre o cerco e invasão do “Estado Islâmico”, seguiram-se meses sem que os nossos noticiários dessem conta do que por lá acontecia. E todos os dias algo ocorria com a resistência curda e os bombardeamentos de aviões norte-americanos. O mesmo fenómeno com Ramadi, em que os noticiários deixaram de se ocupar da cidade depois de ter caído nas mãos dos assassinos. Ora, passei a procurar outras fontes de informação.

O que aprendi nos últimos 6 meses não será, em boa parte, distinto do que qualquer especialista militar sabe: que o exército iraquiano foi destruído com a queda de Saddam e ainda não existe, que o “Estado Islâmico” deve as suas proezas estratégicas ao facto de estar a ser liderado militarmente por ex-oficiais de Saddam e que bastaria existir vontade militar dos países da região para se reduzirem os assassinos que restassem depois da razia à clandestinidade. Tal não acabaria com o terrorismo enquanto fenómeno indestrutível, mas acabaria com esta marca de terrorismo que continuará a espalhar violência crescente enquanto aparentar conseguir resistir ao poder militar daqueles que escolhe como inimigos.

Ontem, até às notícias dos ataques em Paris, parecia que os assassinos estavam a ter um dia particularmente funesto: tinham perdido Sinjar, uma cidade iraquiana que lhes permitia a ligação entre a Síria e Mosul, tinham perdido al-Hawl, vila síria importante por causa da produção de petróleo, tinham visto o “Jihadi John” feito em pedaços (ou assim consta) e até em Ramadi se aperta cada vez mais o cerco pelo exército iraquiano, milícias e aviação internacional, para além de outros pequenos ganhos territoriais aqui e ali e de um tiro ao boneco da aviação internacional cujas parcelas correspondem a dezenas de mortos todos os dias. Algo neste cenário terá mudado com os acontecimentos de Paris? Não, quando muito estará em causa é acelerar o processo.

Não posso concordar mais com Jeremy Corbyn quando este diz que preferia ter levado o “Jihadi John” a um tribunal britânico em vez de o saber morto à bomba. A mesma boa intenção civilizada e civilizadora para qualquer outro criminoso do “Estado Islâmico”, muitos que serão igualmente vítimas das mais variadas formas de miséria e violência e podendo nós questionar até que ponto foram livres nas escolhas que os levaram para o crime. Porém, não podemos ignorar que este tipo de terrorismo se distingue de outras formas de espalhar o terror por não existir algo que possa ser negociado. Não há nada para trocar com quem vive obsessivamente o delírio fascista de anular a Humanidade. Tem por isso toda a razão Obama quando ontem lembrava que os ataques de Paris eram crimes contra a humanidade. Não são, pois, apenas mais uns números a somar às fatalidades criminais de outra tipologia.

Os crimes não são todos iguais, e é essa uma destrinça fundamental que está na origem da noção de Justiça que perfilhamos na actual fase da Civilização. Esta é também a consciência de que os refugiados que procuram a Europa, os quais fogem do mesmo inimigo, são nossos irmãos em sofrimento e esperança.

24 thoughts on “Levanta-te, Europa”

  1. o que é que se chama a uma invasão contra a ordem internacional, baseada em mentiras, preparada numa ilha bem longe dos “holofotes do mundo”, que teve como resultado a morte de milhões de civis, à bomba, ao tiro, à facada, à degolada, por enforcamento, fuzilamento, violação de mulheres e crianças, etc.. ? no ocidente chama-se “que se foda”, no oriente médio chama-se “vão pagá-las caro”. portanto hoje apetece-me dizer, coerentemente, que se foda e o dr. valerico também.

  2. é isso mesmo, Val, muito mais do que nacionalismo é uma questão de solidariedade humana – e é isso que deve mover o esforço na erradicação do estado islâmico, no enfraquecimento da sua força enquanto “estado”.

  3. Também é importante não perdermos de vista que quase tudo o que discutimos hoje são invenções norte americanas. Tanto no que diz respeito ao Médio Oriente como à maior crise financeira do nosso tempo. Sobretudo já com outro Bush à porta.

  4. Enapa, todo sabemos essa mentira mas só falta dizer q o saddam era um tipo bestial…por cá, tb há q tenha saudades do salazar.?

  5. BPN da Grande Direita, até podias ser da grande Esquerda:
    Pela parte que me toca, tranquilizo-te já. Nunca considerei o Saddam uma florinha de cheiro! Mas isso é apenas uma questão (que nesse tempo dizia antes de mais, respeito aos iraquianos!) entre outras questões que são fundamentais, e nos dizem respeito a nós e à nossa vida.
    Depois da Torres Gémeas, e da inesquecível campanha do Bush contra o TERROR, o triunvirato da cimeira dos Açores, mais o valete que lhes serviu os cafés, “mostraram” ao mundo as evidentes provas de que o Saddam tinha umas armas “maciças” para destruir este mundo e o outro. O próprio Collin Powell, figura menos sinistra da administração americana, jurou-nos que tinha visto as provas disso. Quer dizer, ele terá visto alguma coisa que os serviços secretos fabricaram, com fins pré-determinados. Para que o Bush, essa marioneta bêbada, mandasse invadir o Iraque e destruir o Saddam na luta contra o grande TERROR, ao abrigo dos poderes do Patriot Act, um outro curioso resultado da implosão das Torres Gémeas. Porque os poderes do presidente, antes do acto patriótico, não eram os que depois passaram a ser!
    E lá foram eles, e não viram armas nenhumas, e aniquilaram o Saddam, que afinal não queria destruir este mundo e o outro. Destruíram sim o equilíbrio sunita, e deixaram à solta os xiitas, o que não terá sido a melhor ideia. E acusaram o Saddam de dar guarida à al-Qaeda, o que era uma calúnia facilitadora. E eles sabiam-no. Mas apoderaram-se dos poços de petróleo (que era muito e era fácil) e da posição estratégica do Iraque, fundamental naquela região. De caminho, destruíram aquela porra toda, e aquele exército todo, que apesar de tudo a pata do Saddam mantinha controlada. E voltaram para casa a cantar a Stars &Stripes e a beber a sua coca, e mandaram para lá empresas americanas que ganharam não poucos dividendos a reconstruir aquilo. O que lá ficou foi um ovo da serpente a chocar ao sol do deserto, donde havia de nascer o monstro do ISIS, que comeu por dentro a própria al-Qaeda e a passou a patacos.
    A Europa, essa pobre, dirigida por lacaios serviçais da terra da promissão que é a grande América, nem chegou a saber bem no que a meteram. Viu falir o Lehmann Brothers, e a Enron e umas seguradoras, mas isso era na América, os tipos que se arranjem. E logo a seguir apanhou em cheio com a crise do sub-prime, que a América lhe mandou por correio azul. Os já ditos lacaios que mandam na Europa trataram de distribuir o mal pelas aldeias, e explicaram-nos, a nós, os povos dela, que andámos a comer demais, e tínhamos que gramar com a austeridade, porque era mais que lógico.
    Agora, dos países do Sul, que eram mais frágeis das pernitas da economia, a Grécia é já um campo de ruínas, que vende ilhas a magnatas americanos. E Portugal talvez escape ao destino, as margens são muito estreitas, logo vemos. E há a Itália, e a Espanha, e a Bélgica, e a Irlanda, e tudo a mamar com a austeridade morigeradora no pêlo e o coraçãozito aos saltos. Para alimentar os bancos e a finança, que estão no fundo disto tudo. Entretanto a América pôs a rodar a máquina dos dólares. e adeus ó sub-prime! Nós na Europa cortamos nos salários, e nas pensões, e na saúde, e na educação, e na dignidade, e no direito a viver em democracia, porque o que te vou mostrar são palavras textuais desse bárbaro holandês, o Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo das finanças, depois das nossas eleições de 4 de Outubro próximo passado: “As eleições não mudam nada nos países do euro com economias mais fracas. Porque estes países, se pretenderem manter-se dentro do euro, têm de se submeter, convictamente ou forçados, à continuação da austeridade, às privativações, à perda dos direitos laborais, ao desemprego, à precariedade, aos baixos salários e a um estado social encolhido, e para pobres.” E o Tsipras do Siryza que o diga.
    A coitada da Europa, nas mãos destes canalhas, não sabe o que há-de fazer aos migrantes e refugiados, e muito menos sabe o que fazer aos nazis e à direita xenófoba e racista, e muitíssimo menos ainda ao tal Exército Islâmico. E a desgraça maior dela é acabar por não saber o que fazer de si própria, e da União, e de Schengen, e de todos os outros tratados, que não lhe servem para nada. O que lhe vinha a jeito era uma guerra nova, à moda antiga, das que sepultam tudo em ruínas, em sangue, em sofrimento humano. em desolação. Disso tem a Europa uma vasta experiência e largos tirocínios. E alguma coisa nova sempre há-de surgir, é o que pensam alguns.
    Eu penso apenas que a Europa foi, e é, e continuará a ser, para o bem e para o mal, a Mãe deste planeta. Que continua a precisar dela como de pão para a boca.

  6. Para o Jornal I a enésima entrevista de António Barreto a malhar na esquerda, e no caso a malhar no acordo, é muito mais importante do que os atentados em Paris.

    O que os desgraçados sequer entendem é que quando Barreto sugere que ainda estamos na idade da pedra isso só faz sentido, precisamente, face a coisas como a organização de prioridades do jornal I.

    Estes brutos não conhecem limites.

    http://jornaisdodia.com/imgjornais/20151114_Jornal_i.png

    Porca miséria.

    João.

  7. Valupi: “Tem por isso toda a razão Obama quando ontem lembrava que os ataques de Paris eram crimes contra a humanidade.”

    E tens tu toda a razão quando dizes que tem toda a razão Obama em tão piedosa afirmação. Lamentável é que a relevância desse brilhante “pronunciamento” do conhecido entertainer da Casa Branca sobre o que aconteceu em Paris seja equivalente à resposta óbvia à clássica pergunta “De que cor era o cavalo branco de Napoleão?”.

    Mas não é para admirar, dado tratar-se do mesmo Obama que ainda há três dias (3-DIAS-3) afirmava, sem que lhe caíssem os dentes, que, graças aos bombardeamentos americanos, “o Estado Islâmico está contido” e perdeu capacidade operacional.

    É claro que mais não se pode pedir a uma criatura mais conhecida (e reconhecida) como comediante, entertainer e exímio participante em talk shows do que por outra coisa qualquer. Ah, antes que me esqueça, também é indiscutivelmente bom em stand-up comedy, embora essa seja uma variedade a que se dedica mais esporadicamente.

    Em todas estas actividades, o pobre Obama é universalmente reconhecido como profissional exímio. Quanto ao cargo que, mal ou bem, o vai despejar nos livros de História, bom, aí eu diria que ficará provavelmente registado mais como “uma espécie de presidente” do que outra coisa qualquer, já que as suas grandes bandeiras, as grandes missões que o levaram à Casa Branca, ficarão averbadas como vergonhosos flops. Permitam-me, porém, que reconheça que o homem é também de uma indiscutível elegância quando se exibe a passear o cão.

  8. Também diariamente, no twitter, passo pelas cidades de Kobane, Ramadi e Kirkuk. A que tem sido a principal ferramenta de propagação do mal pode também ser a principal arma que lhe faz frente.
    Parece claro que os êxitos militares do Daesh se devem tanto a ex-oficiais do regime de Saddam como, sobretudo, a terroristas chechenos que o Ocidente acarinhou (e treinou até). Só os néscios podem acreditar que sem a instigação internacional (UE, EUA, Turquia e Sauditas)a Síria teria caído numa guerra civil. A Europa está a colher o veneno das plantas que andou a semear ou com cuja sementeira foi conivente.

  9. Joaquim Camacho,
    Não me parece que Obama seja o principal obreiro da ocidental estratégia suicida para o Médio Oriente. Até dá ideia que ele tenta conter o mais que pode a falcoaria tresloucada de Washington. Qualquer outro Presidente eleito que não Rand Paul, pelos republicanos, ou Bernie Sanders, pelos democratas, fará o mundo chorar de saudades dele.

  10. A eficácia dos bombardeamentos americanos contra o Estado Islâmico só melhorou um pouco quando os brilhantes estrategistas do outro lado do Atlântico se aperceberam da, essa sim, eficácia real dos bombardeamentos russos, que deixaram os bandos de assassinos à rasca, com dificuldade em encontrar calhaus debaixo dos quais se pudessem esconder. E melhorou porque a falta de eficácia da acção americana até à entrada da Rússia não se ficava a dever a falta de pontaria, mas sim a uma política deliberada de faz-que-anda-mas-não-anda. Quando o mundo inteiro começou a assistir às barbaridades cometidas pelos energúmenos, provocando indignação generalizada, era preciso fazer qualquer coisa. Mas essa qualquer coisa nunca poderia passar por uma diminuição real das capacidades militares dos assassinos, considerados pelos brilhantes estrategistas dos EUA como ferramenta essencial para derrubar Bachar Al-Assad. E isto porque os famosos “rebeldes moderados” que alegadamente pretenderiam uma democracia na Síria são praticamente uma não existência, um produto da imaginação de meia dúzia de líricos, que serve apenas para garantir o apoio das opiniões públicas ocidentais ao derrube de Assad. Assim, sempre na ilusória burrice de que, consumado o trabalho sujo, conseguiriam controlar os bandos de assassinos, a estratégia dos EUA tem sido a de fingir que querem acabar com eles, limitando-se na prática a fazer-lhes umas cócegas de vez em quando, para inglês ver.

    A possibilidade cada vez mais evidente de não conseguirem controlar os bandidos é, porém, o lado para que o entertainer da Casa Branca e seus brilhantes estrategistas dormem melhor, já que, com o Assad preso, morto ou exilado, uma Síria unida, com as fronteiras que tem hoje, reconhecidas internacionalmente, tornar-se-ia completamente inviável no clima actual, o objectivo de desmembramento do país estaria concretizado e restaria apenas formalizar a divisão do território entre as quadrilhas com presença no terreno. O resto não interessa a esta gente. Os 130 mortos de Paris, os 250 mil mortos sírios, os milhões de refugiados, um país (mais um) destruído, nada disso tem para eles a mínima importância, são danos colaterais que não lhes tiram um minuto de sono.

    Estou perfeitamente de acordo, Valupi, em que aquela cambada engula bombas até ser reduzida a pó e não me interessa sequer minimamente “questionar até que ponto foram livres nas escolhas que os levaram para o crime”, como dizes. Estou-me nas tintas para isso. Mas desde que essas bombas sejam eficazes e não de faz-de-conta, como foram até à entrada dos russos na dança. E se for preciso as famosas “boots on the ground” para limpar o sarampo aos assassinos, e não para os levar civilizadamente a tribunal, pois que seja, desde que a convite e em coordenação com o Governo legítimo do país. Tornou-se lugar-comum a afirmação (que me parece não passar de um mito) de que os sucessos militares do Estado Islâmico se devem à experiência militar dos oficiais e outros militares do exército de Saddam que a tropa jihadista absorveu, depois de os americanos dissolverem o exército iraquiano e os xiitas no poder os deixarem sem emprego. Mas não são esses ases do gatilho instantâneos os mesmos que foram fácil e estrondosamente derrotados durante a invasão americana de 2003, quando tinham à sua disposição meios muito superiores, tanto em material como em homens? De cobardes e incompetentes a fugir com o rabo entre as pernas converteram-se de repente em tropas invencíveis e de uma eficácia capaz de fazer inveja a Ho Chi Minh? É mais fácil e racional acreditar no Pai Natal.

    Para ti, Valupi, os mortos de Paris “não são, pois, apenas mais uns números a somar às fatalidades criminais de outra tipologia”. Também não o são para mim. Mas acredita que, para quem escreveu o guião do “filme” a que assistimos, não passam disso mesmo: “mais uns números” que apenas lhes interessam na medida em que os possam utilizar para manipular opiniões e prosseguir as políticas e agendas que lhes defendem os interesses.

    Quanto ao pobre do Obama, se um dia tivesse a desdita de me cruzar com ele, só tinha uma coisa a dizer-lhe: “Eh pá, vai dar banho ao cão!”

  11. Lucas Galuxo, também não me parece que Obama seja o principal obreiro da estratégia, que é desenhada por uma máfia de que ele tem medo, mas isso não o desresponsabiliza, dado que, por cobardia, lhe dá cobertura. O entertainer da Casa Branca deixou que o reduzissem a uma completa irrelevância, consentiu que o arrumassem numa prateleira da Sala Oval como simples ornamento, bibelot decorativo, prova viva da excelência e superioridade do “american exceptionalism” que a “indispensable nation” WASP a si própria atribui. Dessa prateleira apenas consentem que saia para participar em talk shows e debitar ocasionais banalidades, graçolas, clichés, lugares-comuns e subtilezas de elefante. Ele às vezes até parece que tenta, como dizes, conter “a falcoaria tresloucada de Washington”, mas é só para inglês ver. Sabe bem o que lhe acontece se mijar fora do penico.

    Repara no saldo de dois mandatos de Obama na Sala Oval e arredores:

    – O Obamacare ficou reduzido a uma manta de retalhos, ou um queijo suíço, se preferires.
    – O controlo de armas nas mãos de civis é um zero absoluto, por mais que o entertainer arrote umas postas de pescada a cada massacre de adolescentes, ou seja, mais ou menos dia sim, dia não.
    – O Afeganistão, como todos sabemos, é um caso de sucesso, com atentados e dezenas de mortos quase todos os dias, os talibãs quase a reconquistar o poder e a produção de heroína que inunda os mercados europeus e americanos a quebrar, de ano para ano, record sobre record (97% da produção mundial).
    – A guerra no Iraque é outro reconhecido sucesso, como está à vista de todos, com ainda mais atentados e mortos do que o Afeganistão e o Estado Islâmico a dominar uma grande parte do território.
    – A Síria é o work in progress que também toda a gente pode ver e as suas metástases, anteontem, em Paris, produziram a razia que sabemos.
    – A “implantação da democracia” na Líbia, ou melhor, a “exportação da democracia” para a Líbia, é outra comovente prova da qualidade dos excelentes produtos do Ocidente civilizado e da eficácia dos mecanismos de exportação.
    – O prometido encerramento do campo de tortura de Guantánamo não aconteceu nem acontecerá. E ainda temos de aturar a candura idiota do comediante a debitar pérolas como esta: “Yes, we tortured some folks.” (https://www.youtube.com/watch?v=QBLNohqquRk ) Como se a admissão dos crimes de modo tão ligeiro e displicente os branqueasse por magia e arrumasse o assunto na prateleira das prescrições. Quase como o católico que confessa ao padre os extraconjugais pensamentos libidinosos que a bunda da vizinha nele despertou. “Tá bem, meu filho, três padre-nossos e duas ave-marias, ego te absolvo, vai em paz, tens a semana livre para pecar de novo, volta cá quando reincidires.”
    – A “independência energética” dos EUA, que seria alegadamente incentivada pela expansão das energias alternativas, está afinal a ser melhorada através da exploração de petróleo e gás de xisto, com consequências ambientais muitíssimo mal estudadas e esclarecidas, mas que muitos, no mundo científico, auguram como catastróficas. Ironia das ironias, as questões ambientais eram outra das bandeiras do comediante.
    – A questão da Palestina só não se pode dizer que está na mesma porque está francamente pior, com o país bandido e Estado ladrão sionista e racista de freio nos dentes, acelerando despudorada e arrogantemente a construção ilegal de colonatos em terra ocupada e diariamente roubada aos palestinianos, empurrados para o desespero total de uma completa e implacável ausência de futuro e condições de vida dignas de seres humanos. “Mas o que posso eu fazer?”, perguntará o entertainer. “Se pressionar o Estado ladrão a cumprir a legalidade internacional e a respeitar regras morais mínimas comuns a toda a humanidade, a Mossad dá-me um tiro nos cornos e ainda arranja maneira de atirar as culpas para o Hamas, o Hezbollah, a Al-Qaeda ou o Bachar Al-Assad.” O que pode ele fazer? Bom, para começo de conversa, podia ter um bocado de coragem e dignidade. Ou cojones, como lhe poderia dizer uma parte dos seus compatriotas.

    Enfim, caro Lucas, quando o Obama foi eleito pela primeira vez, o maluco do Joaquim Camacho recomeçou a chamar América ao país que durante muitos anos epitetou como Amérdica. E também recomeçou a chamar Casa Branca ao casebre que no tempo dos brancos Nixon, Reagan, Clinton, Bush e outros referiu sempre, pejorativamente, como Casa Preta. Bueno, nos últimos anos da era Obama, a Amérdica regressou ao meu léxico, e a Casa Preta só não regressa porque quem não conheça o background da alcunha tenderia a classificar-me como racista, e eu não teria tempo nem paciência para explicar a história de cada vez que a alma me saltasse para a língua.

    Mas repara que quando comecei a chamar América à Amérdica e Casa Branca à Casa Preta não o fiz por considerar o actual inquilino melhor do que os que o precederam por ser preto e eles brancos (o que seria uma variante de racismo tão estúpida e cretina como a “tradicional”), mas porque tinha a lúcida percepção de que a eleição do Obama preto só tinha sido possível com os votos de milhões de americanos brancos. Foi isso que me reconciliou com a América, confesso que até à lágrima no canto do olho, porque há coisas em que sou um irrevogável piegas. É uma pieguice de que não me envergonho, mas sou obrigado a reconhecer que, no caso em apreço, ela resultou de alguma ingenuidade.

  12. Boa ideia. Levanta-te, Europa, e caminha, como Lázaro.

    E sobretudo aumenta os bombardeamentos e as ameaças, que é para incentivar mais uns quantos milhões de desgraçados que não têm culpa nenhuma a atravessar o Egeu, rumo ao paraíso do futuro — multicultural à inglesa ou integracionista à francesa, ainda não se sabe bem — e do mesmo golpe purificar de crentes insuficientemente fundamentalistas todo o Califado, que não precisa deles para nada. Só vai precisar é da ajuda dos filhos que vão nascer na Europa. Isso sim, é que vai começar a ser outra loiça, lá para os anos 30 ou 40, se não for mais cedo.

    Para já, para já, e sobretudo, nem penses em isolar Israel e deixar de favorecer a ocupação de Gaza e da Margem Ocidental, porque nada disso tem alguma coisa a ver com os ressentimentos regionais, uma vez que toda a gente sabe que o que mais enfurece o mundo islâmico, absolutamente indiferentes a tais problemáticas e às bombas, são a permissividade sexual e as caricaturas de Maomé.

  13. É difícil a Europa levantar-se.

    Porque a Europa não está preparada para a guerra.

    Depois da II Grande guerra a Europa desistiu de ter mais guerras.

    Durante muitos anos, na Europa após a II Grande Guerra, só a França e Portugal sustentaram vários anos uma guerra, que foi a guerra do Ultramar.

    Angola, Guiné e Moçambique, Argélia e Indochina (Vietnam)

    Mas dentro da Europa, nada de guerra.

    Até com a antiga Jugoslávia foi a América a resolver.

    “Se queres a paz, prepara a guerra” diz um velho ditado latino

    A Europa, não quis, não deixaram, ou desistiu de se preparar para a guerra,…agora sofre as consequências.

    O meu ídolo de Santa Comba não via com bons olhos o comportamento da Europa de braços caídoss.

  14. Caro Val,
    se dos 15 maiores produtores/exportadores de armamento 10 são europeus, achas que a Europa estará interessada em acabar com as guerras?
    Achas que umas centenas de mortos, para além de fazerem vibrar de notícias os jornais e televisões e concomitantemente encher os bolsos a comentadeiros da treta, tapar buracos nos ‘pogramas’, e lutar pelas audiências preocupam os governantes?!
    Acreditarás que esta fornada de políticos da treta que se regem pelos mercados e por tabelas experimentais de Excel, se importam, de facto, com aqueles que dizem representar?
    Não me digas que te estás a deixar contagiar pelo sonho do Costa?!
    Acorda Val. Isto vai de mal a pior! Ontem Paris, amanhã, infelizmente, num qualquer lugar perto de nós.

  15. Tatas, o que distingue a Europa a que pertencemos é o direito que reconhecemos à democracia para gerar decisões políticas. Por isso, diria, são aqueles que não assumem o seu poder democrático que precisam de acordar. Se os cidadãos europeus quiserem, tudo é possível. Não é outra a história da civilização.

  16. Caro Joaquim Camacho, aprecio o nível da tua análise e ilustração. Mas acho que estás a ser um bocado pessimista e parcial. Obama não tem mais responsabilidade nas observações que fazes do que os “líderes” europeus, seguidistas, submissos e sem vontade própria. Até tem sido muitas vezes a França, com a vaidade de quem se está armar ao pingarelho e com o beneplácito de muita da opinião pública europeia (não te escondas, por exemplo, Rui Tavares), o principal instigador da agressão aos regimes seculares do Médio Oriente. Esta tragédia pode ser a oportunidade de muita gente, do lado de cá e de lá do Atlântico, cair em si e reparar nas merdas a que tem dado alimento nos últimos anos. Se nem assim, vai tudo para o galheiro.

  17. Nada de novo acrescento por isso :

    – sim, os monstros tem sido criados para aniquilar outros que não os criadores estúpidos.
    – é só esperar o próximo monstro bem treinado e armado para matar e servir a hipocrisia das liberdades e, de novo ter de ser eliminado como Cadafi e Sadam o foram.
    – não fosse a Rússia ter aprendido no Afeganistão e já nem o pedaço da Síria e Líbano estariam pedra sobre pedra para aguentar o horror.
    – primeiro que tudo deixem de comprar petróleo ao isis depois expliquem muito bem explicado à Arábia Saudita que já basta e, finalmente, deixem Bashar al Assad ir de novo a votos.
    – Pobre Europa, pobres europeus inocentes apanhados pelas estratégias dos idiotas que governam um mundo de interesses desumanos e fabulosos negócios de armamento.

  18. Lucas Galuxo: “Obama não tem mais responsabilidade nas observações que fazes do que os “líderes” europeus, seguidistas, submissos e sem vontade própria. Até tem sido muitas vezes a França, com a vaidade de quem se está armar ao pingarelho e com o beneplácito de muita da opinião pública europeia (não te escondas, por exemplo, Rui Tavares), o principal instigador da agressão aos regimes seculares do Médio Oriente.”

    — É verdade, sim senhor, concordo sem reservas. Mas não é menos verdade que os verdadeiros líderes são as grandes petrolíferas, os fabricantes de armamento (principalmente americanos, ainda que não só) e outros mafiosos. Esses, sim, são os verdadeiros chefes dos pseudolíderes Obama, Hollande, Cameron e companhia. Esses, sim, são os principais responsáveis pela maior parte das desgraças que nos batem à porta, e incluo neste “nos” os mortos de Paris, Londres, Madrid, Síria, Iraque, Afeganistão e até de Nova Iorque e Boston. E depois, como diz o primaveraverão, “expliquem muito bem explicado à Arábia Saudita que já basta”. O único problema é que os gatos gordos de Gidá chamam logo à pedra as petrolíferas americanas e europeias e dizem-lhes: “Vejam lá se metem um bocado de juízo naqueles palhaços que se julgam líderes dos vossos países. Se se armarem ao pingarelho, dêem-lhes um tiro nos cornos, convençam os vossos respectivos pagodes de que o responsável foi o Assad (os media que vocês controlam e os vossos comentadores televisivos avençados não terão dificuldade em fazê-lo) e acabem de vez com aquele gajo, para passar rapidamente à divisão da Síria em bantustões, que já tarda. Se estas instruções não forem seguidas, já sabem o que pode acontecer aos vossos negócios.”

  19. Anónimo das 18:41

    Também acho que não é a bandeira francesa, parece-me a holandesa .

    Comparem aqui
    Nota : a bandeira holandesa tem faixas horizontais, a francesa tem faixas verticais .

    Hasteada na Assembleia
    http://expresso.sapo.pt/politica/2015-11-14-Bandeira-francesa-visivel-na-fachada-da-Assembleia-da-Republica

    Bandeira da Holanda (igual à que está hasteada no Parlamento)
    http://geo5.net/bandeira-da-holanda/

    Bolas, mais uma barracada da edilidade .

  20. Não há problema nenhum. Não se trata de içar num mastro uma bandeira nacional com proporções exactas segundo regras vexilológicas rigorosas. Trata-se simplemente de ostentar as cores nacionais da França.

  21. Um exemplo paralelo seria a ostentação das cores portuguesas neste formato:
    https://flagspot.net/flags/pt_vert.html

    Não ha erro nenhum. Há só variações admissíveis dos padrões vexilológicos ou heráldicos. E que regras devem presidir a essa admissibilidade? Antes de mais as da fidelidade simbólica e da estética.

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