Arquivo da Categoria: Valupi

Alegria mesoatlântica

Só descobri esta pérola recentemente, embora tenha ocorrido em 2013. E provando o dito bíblico, ou fundamento capitalista, de que a quem muito tem muito será dado, eis que Caetano Veloso tem isto a dizer sobre o que se passou naquele palco naquele momento: Carminho e o nosso passarinho

Conhecer a história da canção, incluindo o diferendo de género entre Tom Jobim e Chico Buarque e as raízes da letra que vão dar a um poema onde se celebra a independência do Brasil pela mão de um poeta brasileiro nascido de um português e de uma mestiça em 1823, só acrescenta sentido, profundidade e beleza ao que ouvimos dos nossos compatriotas e ao que lemos do nosso irmão Caetano.

Uma péssima notícia a caminho

A hipótese de que Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, o autor da carnificina em Nice, não tenha sido treinado, sequer instruído, pelo “Estado Islâmico” não é uma boa notícia. Significa que para as autoridades poderá haver agora um perfil terrorista completamente imprevisível e potencialmente indetectável a não ser posteriormente ao ataque, durante ou na sua iminência. Lá se vai a prevenção e a contra-espionagem para o galheiro. Esse perfil corresponder a um contexto de psicose em qualquer grau e de qualquer tipologia só aumenta o elemento imprevisível, como se vê por este caso e pelo que se sabe da planificação efectuada.

Mas a hipótese, a confirmar-se, corresponderá a um ainda maior triunfo do “Estado Islâmico” enquanto organização criminosa, porque seria a evidência de estarem a fazer um excelente trabalho de promoção da sua marca. Uma marca cuja força mediatizada estabelece uma dinâmica bipolar – acabando por aparecer tão fascinante para quem a defende e segue como para quem a abomina e teme – que chega e sobra para gerar ataques devastadores contra alvos civis aleatórios sem carência de logística nem sequer de financiamento.

Para quem dirige esta onda de terror, o facto de os seus agentes espontâneos poderem ser doentes mentais que passaram a vida alheados do Islão, ou até a dizer mal do mesmo, é absolutamente indiferente. Melhor, será algo que agradecerão pois permite acrescentar à retórica do martírio a da redenção. Perfeito para quem está a instituir uma forma de domínio político tão violenta e potencialmente destrutiva como a do nazismo. E perfeito numa cultura religiosa onde não existe um centro doutrinário a unificar interpretações do Corão, antes essa autoridade está atomizada e consente todas as intenções que se queiram atribuir aos textos considerados sagrados.

Revolution through evolution

Truth is in danger as new techniques used to stop journalists covering the news
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The moral tipping point: Why it’s hard to shake a bad impression
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Study Shows Stark Differences in How Conservatives, Liberals Value Empirical Data
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New Book Explores Correlation Between Pornography, Violence Against Women
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Workplace Climate, Not Women’s ‘Nature,’ Responsible for Gender-Based Job Stress
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Faking to Finish – Women Feign Sexual Pleasure to End ‘Bad’ Sex
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Dads play key role in child development
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Terrorismo e criatividade, segundo Marcelo

Há duas semanas, José Manuel Coelho desfraldou uma bandeira do auto-denominado “Estado Islâmico” no Parlamento da Madeira e na presença do Presidente da República. Qual era a intenção? Qual foi a mensagem? O homem tinha alguma razão para tal? Ou não passa de um infeliz, mais um chanfrado dos cornos com palco político e mediático? Não faço ideia nem pretendo gastar meia caloria à procura dessas respostas. Fiquei foi cheio de curiosidade a respeito de qual seria a reacção do sistema partidário, da imprensa, dos publicistas e da sociedade em geral. Apenas consegui encontrar uma posição pública, a de Marcelo:

“Este parlamento [da Madeira] é porventura o mais plural, mais diversificado do ponto de vista de opiniões em Portugal. Ainda mais que o parlamento nacional, mais que o parlamento regional açoriano.

Quando votei a Constituição em 1976, votei uma Constituição para ser aberta e ecuménica, [e com] as manifestações mais criativas. Portanto, a nossa democracia tem acompanhado essa criatividade, o que quer dizer que valeu a pena votar a Constituição.”

Usar uma ocasião solene num órgão de soberania onde se expressa a vontade popular de uma dada Região, e na presença do símbolo máximo da hierarquia do Estado, para publicitar uma organização criminosa cuja prática intencional consiste em matar e ferir civis, e ainda em cometer genocídios de invocação religiosa, equivale, para o actual Presidente da República, a expressar legitimamente a criatividade inscrita na Constituição. Como esta pessoa acumula com o seu estatuto presidencial o de principal jurisconsulto do Reino, estamos perante a produção de doutrina. Significa, se a ideia for a de respeitarmos Marcelo como ser supostamente na posse da totalidade das suas capacidades cognitivas e como agente político que fez um dado juramento prévio à assunção do cargo, que o mesmo José Manuel Coelho, ou outro deputado qualquer em qualquer Parlamento português, pode passar a desfraldar onde e quantas vezes quiser essa mesma bandeira, ou outra qualquer de alucinados iguais ou parecidos, e o mais que der na mona e que caiba na categoria “manifestação criativa”.

Na verdade, Marcelo representou na perfeição a comunidade onde exerce o seu magistério. Como se constatou, a ninguém incomodou que o maluco da Madeira fizesse mais uma das suas maluquices. A expressão “Mas já chegámos à Madeira?” não nasceu ontem, nem sequer neste século. São muitos anos de bananal, pelo que agora ninguém levanta sequer o sobrolho ao ver na mesma sala o Presidente da República, defensor juramentado da Constituição, e a bandeira que representa a maior ameaça à segurança e modo de vida das sociedades livres e democráticas. Assim, chutando para canto com uma banalidade de ocasião, escusando-se a sequer simular um módico incómodo, Marcelo levou o País inteiro para uma cumplicidade moral com este tipo de criminosos e seus crimes. Uma cumplicidade feita de complacência, evasão e medo.

Marcelo, que na sua anterior encarnação como “Professor” também se notabilizou por promover a complacência face à degradação e violação do Estado de direito, veio dizer à malta que a simbólica do “Estado Islâmico” tem em Portugal um país de acolhimento ao mais alto nível. Até nos órgãos de soberania ela é não só bem-vinda como fica valorizada enquanto expressão sublime da criatividade inscrita no nosso texto fundamental. E a malta concordou, aliviada.

Dito e feito

Num telejornal da France 24, à hora de almoço de hoje, um francês em estúdio dizia que Ronaldo iria ser alvo de faltas violentas de forma a que ficasse inibido e, com sorte, lesionado. Era o único perigo para a França e, se anulado, a vitória estava no papo. A jornalista sorria de aprovação e terminou a conversa desejando que essas faltas não levassem a cartões nem a grandes penalidades. Os dois riram de satisfação e esperança.

Não há ninguém para responder ao Guerreiro?

Este texto – A jornalização em curso (epílogo) – foi publicado ontem e conta, à hora em que escrevo, com 3 comentários. Esse texto é também um dos mais importantes que foram publicados num jornal português nos últimos muitos anos, digo eu armado em carapau de corrida. Porque denuncia, a partir de uma análise intelectual acessível ao leitor médio, o imperialismo inane dos “donos da opinião”; essa classe onde se misturam directores, editores e publicistas da comunicação social e da imprensa dita de referência. Para comparação, e no mesmo jornal, o texto primário de um talibã publicado um dia antes do de António Guerreiro – Patriotismo? Tenham vergonha – vai com 302 comentários. Cem vezes mais interessante, o fanatismo do fanático? Quem perder o seu rico tempo a ler os comentários saberá que não servem de critério para nada a não ser para confirmar qual é a dinâmica a unir o autor-caluniador aos seus comentadores: fazer de um espaço de opinião num jornal supostamente interessado na qualidade do debate de ideias um palco circense ao serviço do ódio político.

Mas muito mais importante do que a comparação da inteligência que nos ajuda a pensar com a palhaçada sectária e narcísica é a constatação de que os alvos do Guerreiro não tujem nem mugem. Pelo que podemos continuar com os clichés, após três pedradas no charco, estando aqui o charco a representar algo mais tangível do que o seu mero intento metafórico. Calados como ratos, e também como ratazanas anafadas com tanto alimento à disposição, a elite da opinião politica (com as raras excepções) é uma parte fulcral da engrenagem que, para dar um exemplo deste ciclo político, usa e abusa do carimbo “geringonça” por razões estritamente sistémicas. Uma elite que dispara para onde estiver virada, sendo que se vira sempre para o mesmo lado. É que do lado oposto vem o dinheiro que paga esses serviços, e nem sequer é preciso desenvolver um plano secreto para controlar redacções de jornalistas e linhas editoriais. Basta escolher a dedo a mão que se quer usar.

António Guerreiro e João Lopes são duas vozes a clamar no deserto em que se tornou a nossa comunicação social. Um deserto onde o esgoto a céu aberto, o qual ainda se vangloria de ser criminoso para que o achincalho seja absoluto, reina supremo e cada vez mais poderoso. Espelho refulgente onde vemos a cáfila da imprensa portuguesa andar à nora.

Onde é que estavas em Março de 2011, Baldaia?

[...]

O país não precisa de líderes partidários mais interessados em ganhar os debates políticos do que em defender o interesse nacional e europeu. Nada justifica que, a partir de Lisboa, se alimente um debate que só serve o interesse dos falcões europeus, mais preocupados em disfarçar as suas incompetências do que em salvar esta União Europeia que já teve melhores dias.

[...]

Esta é uma nação a precisar de um projecto político sério, assente em finanças públicas saudáveis, para que não tenhamos de entregar a soberania a uns burocratas de Bruxelas. A precisar de uma classe política que não venda gato por lebre também internamente, que não prometa mais do que é capaz de fazer, mas que seja capaz de mobilizar os portugueses para construirmos uma sociedade mais justa e mais próspera.

[...]

Não precisamos de frases feitas que abrem telejornais e noticiários das rádios, ou que fornecem bons títulos para os jornais. Não queremos ir de férias com a confirmação de que são todos iguais. Não queremos um debate centrado na crista da onda, a falar dos assuntos que dominam a agenda mediática, por imposição de spin doctors que sabem de comunicação mas não têm nada para oferecer de relevante e que possa ajudar a melhorar a vida dos portugueses. Elegemos políticos para resolver problemas, não para ganhar debates. Façam o vosso trabalho, que o resto do país cá estará para fazer o dele.

A nação que vende gato por lebre