José Eduardo Martins – Uma coisa que está em cima da mesa é que há um período diferente de todos os outros. É o período em que o engenheiro José Sócrates pretendeu controlar a política, a economia, a media, tudo ao mesmo tempo. O papel que a Caixa teve nesse período da nossa História, e para que não se volte a repetir, era importante percebermos até ao fim. E, eu, isso acho que não basta uma auditoria forense, que temos mesmo de saber...
Pedro Adão e Silva – Ah, então a comissão parlamentar de inquérito é ao engenheiro José Sócrates...
José Eduardo Martins – Não, não é... É a este período...
O Outro Lado_21 de Junho
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A ideia de que Sócrates tentou “controlar a política, a economia, a media” e “tudo ao mesmo tempo” tem sido repetida na actual direita caluniadora e decadente desde que a golpada do “Face Oculta” foi lançada em princípios de 2009. Até lá, tinha sido o “Freeport” a fazer as despesas da campanha negra a mielas com a convulsão nascida da queda do BPN e do BCP. Não tendo dado em nada, e esgotado o prazo de validade do casal Moniz na TVI, passou-se para algo ainda mais saboroso posto que incluía escutas deliciosas entre Sócrates e Vara prontas para serem exploradas até à última vogal. Escutas a um primeiro-ministro, realizadas sem a devida autorização legal, e a partir das quais se tentou envolver esse mesmo primeiro-ministro num processo judicial estando-se a poucos meses de eleições legislativas e autárquicas. A manobra foi impedida pelo Procurador-Geral da República e pelo Presidente do Supremo, os quais passaram igualmente a ser alvo de ataques difamatórios e caluniosos. Apesar de as escutas circularem livre e impunemente e das ilegalidades na sua origem, apesar de uma comissão de inquérito parlamentar onde até o Crespo foi para lá gozar com a Assembleia da República, apesar de o Pacheco se ter fechado numa saleta do Parlamento para cheirar e lambuzar os cueiros de Sócrates, o facto dos factos é o de que não apareceu qualquer prova do “atentado ao Estado de direito” cozinhado em Aveiro. Ou seja, nem a espiarem esse primeiro-ministro criminoso e restantes bandidos associados conseguiram trazer para as suas poderosas máquinas mediáticas algo que puxasse carroça. Hoje sabemos muito bem o que o juiz Carlos Alexandre e demais juízes da Relação teriam feito com essa matéria-prima calhando terem oportunidade para tal.
A política, tal como se pratica na oligarquia desde que há memória, e tal como é feita por esta direita sem projecto outro que não seja o poder pelo poder, implica ocupar a quase totalidade do tempo mediático e parlamentar a atacar os adversários. O objectivo consiste em desqualificar e denegrir quem apareça como ameaça para a conquista ou manutenção do poder. Existem factores antropológicos e cognitivos estruturais que implicam que essa dinâmica seja assim onde quer que se dispute o poder, os quais remetem para a instintiva cobiça dos recursos disponíveis e para a aversão à sua perda. Logicamente, há uma proporção entre o volume, a intensidade, a tipologia dos ataques e a força percebida nessa ameaça. A julgar pelo que se fez e continua a fazer com Sócrates – o primeiro secretário-geral do PS, e único por enquanto, a conseguir uma maioria parlamentar absoluta – não se imagina que alguma vez venha a aparecer ameaça maior para esta direita. É que o nível seguinte na escala da violência política implica pegar em armas, tudo o resto abaixo foi aplicado numa campanha de ódio sem paralelo conhecido na História da democracia portuguesa. Ainda hoje uma incendiária como Helena Matos ou um bronco como Luís Pedro Nunes, para dar dois exemplos caricaturais, despejam no espaço mediático o seu pavor erótico agitando o fantasma do regresso de Sócrates ao poder. Nem que o soubessem exilado nas Desertas, ou em Elba, dormiriam descansados.
Porém, não custa nada admitir que possa haver um fundo de verdade, quiçá a verdade inteira, naquilo que sem prova é retinta calúnia. No campo das possibilidades, e no terreno das probabilidades, descobrir-se que Sócrates ambicionava controlar a TVI para se vingar da Moura Guedes e impor um reinado de terror com o sinistro fito de manipular o pobre povo com censura política, perseguições e ameaças mafiosas a jornalistas (algo tão fácil de fazer e de manter, segundo a nossa direita especialista na matéria) seria tão-só mais um capítulo da historia universal da infâmia. Ter provas de tal corresponderia a uma enorme vitória sobre as forças do mal, ficando como exemplo da superioridade da comunidade, da decência e da democracia. Acontece que não testemunhámos esse serviço à República ao longo destes anos de ininterrupta estratégia caluniosa. Precisamente ao contrário, o “fazer política” à direita desde finais de 2007 consistiu exclusivamente em emporcalhar o espaço público com mensagens populistas e teorias da conspiração cada vez mais escabrosas. Da “asfixia democrática” à devassa e violência do esgoto a céu aberto.
Aquilo com que lidamos, da parte deste PSD, deste CDS, do anterior Presidente da República, e de uma legião de jornalistas de topo na chamada “imprensa de referência”, não passa de um discurso que se posiciona nos entrefolhos do Estado de direito, espalhando suspeições como estas do Eduardo Martins acima reproduzidas, mas que acaba por nem coiso nem por sair de cima. Um discurso ideal para empatas e impotentes. Frouxos. E cobardolas.


