Arquivo da Categoria: Valupi

Apologia da liberdade

Creio que não há registo de Sócrates ter proferido em público alguma difamação ou calúnia enquanto foi dirigente do PS e governante – e isto apesar dos permanentes ataques e violentações selvagens de que foi alvo. Se houver, peço que me corrijam. Também não há registo de Sócrates ter recorrido a tácticas moralistas e populistas onde quisesse aparecer como “humilde”, “modesto”, “pobrezinho”, “chefe de família”, “cristão”, “sério”, “honesto”, “incorruptível”, “bonzinho”. Pelo contrário, tinha a ousadia de querer ganhar debates no Parlamento e na comunicação social defendendo as suas propostas políticas com ímpeto guerreiro, de aparecer com fatos caros (ou assim diziam os cães que ladravam, que por mim não faço a mínima ideia de quais sejam os preços nesse mercado) e de fazer férias em hotéis de luxo. Era visto com frequência nos melhores restaurantes de Lisboa. Gastava dinheiro a comer, a vestir e a passar férias; e não se importava de ser visto a fazê-lo, para gáudio dos pulhas que lhe mandavam tiros ao carácter. Uma loucura o que aquele gajo fazia com o dinheiro, portanto. Incrível, um estroina do pior. Corolário destas características, igualmente não havia um culto da personalidade de Sócrates no PS. Liderança forte sim, culto da personalidade não. Mas havia um culto da personalidade de Sócrates, em modo diabolização, à volta do PS, em especial na direita. O impacto sociológico e político de Sócrates na direita portuguesa dá para várias investigações em diferentes disciplinas ao longo de muitos anos. E também para hilariantes gargalhadas.

Com a “Operação Marquês”, colocou-se em cima da mesa, como nunca antes se tinha conseguido fazer, a balança que iria pesar a integridade de carácter de Sócrates (pelo menos). Ele chegou a esse processo sem ter sido sequer alguma vez arguido nos diferentes casos onde o seu nome apareceu referido judicial e mediaticamente. Pelo que, ao se deter e prender Sócrates, a Justiça estava a garantir ter recolhido provas suficientes de algo que ficaria como uma mancha indelével na sua biografia, no seu percurso político e no seu carácter. Restaria só descobrir o tamanho dessa mancha. Para Sócrates conseguir sair impoluto do caso, a Justiça teria de ter cometido erros colossalmente grosseiros ou estar ao serviço de uma pura perseguição política. Ora, ao admitir parte das suspeitas inerentes à “Operação Marquês”, o facto de ter usado para os seus gastos pessoais dinheiro que era de um amigo na forma de empréstimos ou dádivas, Sócrates validou a abertura da investigação judicial. E, no plano moral, ficou sujeito a legítimas repreensões de vária monta e origem, inclusive do seu partido e de apoiantes de longa data. Na prática, e independentemente do quadro psicológico que o levou a escolher essas opções ou do desfecho judicial do caso, Sócrates mostrou que preferia o usufruto do conforto material e vivencial possibilitado pela amizade com Santos Silva à realização de um destino político que ainda poderia ter muito para lhe dar. Nesse sentido, Sócrates foi desleal para com a cidade mesmo que o caso acabe sem que venha a ser culpado de crimes de qualquer ordem. É que a ele, na sua posição e com a sua tarimba, não se admite que ignorasse as consequências de vir a ser apanhado neste rol de suspeitas e neste impacto político que a sua condição de arguido como suspeito de corrupção provoca no PS e na democracia. E a probabilidade de vir a ser apanhado era altíssima.

O texto da Fernanda Câncio, “O processo Marquês e eu”, veio aumentar o peso da irresponsabilidade de Sócrates nesta dimensão das suas finanças, porque revelou aspectos da sua relação privada com alguém da sua maior proximidade que ficavam como agravantes danosos para a avaliação do seu carácter. Embora a Fernanda tenha tido precisão cirúrgica na exposição do que estava em causa, o que estava em causa consolidava, ou até cristalizava, uma imagem negativa na opinião pública a respeito de Sócrates como político e como pessoa. Registe-se que Sócrates não desmentiu o texto, pelo que não temos qualquer razão para duvidar do testemunho nele inscrito. As suas posteriores declarações onde volta a ligar a “Operação Marquês” a um suposto boicote à sua candidatura presidencial em 2016 também nada trouxeram de positivo à sua recuperação pública, pois exibem uma preocupante cegueira para as consequências políticas incontornáveis de ter tomado certas decisões privadas que não são compatíveis com o que consideramos adequado ao perfil de um Presidente da República. Isto é, mesmo que Sócrates tivesse razão quanto à existência dessa conspiração, e nada se conhece que permita suportar factualmente uma mera hipótese, continua a perder a razão ao não assumir a sua incompatibilidade para o cargo – pelo menos, enquanto candidato apoiado pelo PS – por causa da exótica forma do seu financiamento pessoal.

Por mim, é-me completamente indiferente para a avaliação do Sócrates político do passado o que se sabe actualmente a respeito do Sócrates privado desse mesmo passado ou do presente. Nada vejo de bizarro na situação de ter um amigo rico que lhe empresta ou dá dinheiro. Eu, que sou um pelintra, faço isso com amigos meus e espero deles que façam o mesmo comigo. Imagino que se fosse proprietário de dezenas ou centenas de milhões de euros, como consta Santos Silva ser, teria a maior liberalidade no uso desse dinheiro para com aqueles que pertencessem à minha intimidade, e não só. No fundo, ver a direita, e em especial os liberais de pacotilha, a babar-se porque Sócrates tem um amigo que faz o que lhe apetece com o que ganhou e é legitimamente seu só evidencia a decadência dessa mesma direita que nos calhou em azar. Outra conversa é a de se vir a provar qualquer tipo de actividade ilegal na origem desse dinheiro de Santos Silva ou no modo como Sócrates o recebeu e gastou – qualquer – pois isso, dada a importância política e histórica de Sócrates, transporta o caso para uma questão de regime. E obrigará o PS a ter uma resposta condizente com a desgraça. Porque será uma desgraça se tal acontecer.

Até ao desfecho do processo, deve Sócrates ficar calado e quieto? Não deve participar em eventos partidários ou políticos de qualquer tipologia? Nós estamos exactamente como no princípio do lançamento público da “Operação Marquês”, com um dos lados a garantir ter apanhado um dos maiores criminosos da História de Portugal e o outro a declarar ininterrupta e veementemente a sua completa inocência. É sabido que as prisões estão cheias de inocentes, no sentido em que há muitos presos com crimes provados que continuam a negar a sua responsabilidade. E também sabemos que os arguidos não têm a obrigação de ajudar na feitura da sua acusação. Esse é o papel do Ministério Público, um papel cheio de nódoas e buracos num processo que devia ter sido exemplar por boas razões e já é exemplar pelos crimes e abusos de poder que vai gerando a partir da Justiça. Não só Sócrates se tenta defender, e vai marcando pontos porque o que a sua defesa mostra vai alimentando as piores suspeitas sobre os procuradores responsáveis e sobre o juiz de instrução, como à sua volta há muitos camaradas e amigos que aparecem publicamente ao seu lado sem temerem a contaminação moral ou política. Neste sentido, e até como forma de homenagear Soares que teve no caso Sócrates um eventualmente último fôlego de combate político, o melhor será que Sócrates leve até ao fim a sua legítima pulsão de se afirmar inocente no espaço público. É essa a melhor forma de respeitarmos esse instituto chamado “presunção de inocência”. Se se revelar um logro, tal será somado à sua culpa. Se se revelar um escudo precioso do Estado de direito democrático, a liberdade terá sido servida.

É a liberdade que nos salva. Sempre e sempre.

Na sombra do Pacheco

Com o lançamento do Na Sombra da Presidência, Fernando Lima permite-nos, e finalmente, saber do que o Pacheco Pereira estava a falar ao escrever isto:

Quando um dia se conhecer melhor o modo como a partir dos gabinetes ministeriais, e em particular o do primeiro-ministro, se conduzem operações de informação, contra-informação e desinformação, usando técnicas dos serviços secretos, alguém terá que pedir contas por tal abuso democrático. Do mesmo modo que veio a saber-se das operações para controlar a TVI, os seus protagonistas e os seus métodos, o país perceberá com que tipo de pessoas tem estado a lidar e o modo como se pratica todos os dias um abuso do poder, no limite da lei senão para além da lei.

Um exemplo é o blogue anónimo Câmara Corporativa, o blogue profissionalizado feito dentro do Governo, com meios públicos, por assalariados com dinheiro dos impostos dos portugueses, e que é uma típica operação de informações, muito provavelmente ilegal, ao usar meios e recursos pagos pelos contribuintes.

Outubro 2010

O Primeiro-ministro José Sócrates, ele próprio, suscita na blogosfera um apoio muito especial, sem equivalente no mundo exterior fora da Rede. Não sei se por desespero,- as coisas não tem corrido bem à persona tutelar, - se por simpatia, no sentido preciso do termo, se por imitação, os blogues socráticos desenvolveram um estilo agressivo de insulto e calúnia pessoalizada, que não tem paralelo com qualquer outra área política (se exceptuarmos algumas personagens passo-coelhistas como Nogueira Leite, conhecido por insultar tudo e todos no conforto do Twitter e do Facebook). Esses blogues, como o Câmara Corporativa, o Aspirina B, o Jugular, escritos muitas vezes sob o anonimato e onde pululam empregados do governo, e às vezes mais acima - o anonimato serve para ocultar os autores, mas o estilo denuncia-os –, representam um mundo aparte na blogosfera que revela as fontes do radicalismo que emana nos dias de hoje do centro do poder socialista à volta de Sócrates. Quem se mete com José Sócrates leva de imediato uma caterva de insultos, que inclui todos os clássicos e é sujeito a uma campanha ad hominem grosseira e, zanguem-se agora a sério, muito miguelista mas sem as qualidades de José Agostinho de Macedo.

A mecânica destes blogues está longe de ser a discussão política, mas uma regra típica dos aprendizes de feiticeiro: a destruição dos adversários a golpes de insultos e calúnias, já que não se pode prende-los, nem censurá-los. Os seus executores são gente mais à esquerda do que o PS, com pretensões intelectuais, mas com a pior das tentações intelectuais, a que vem da desenvoltura e do sentido de impunidade de quem acha que está no poder e tudo lhe é permitido.

Janeiro 2010

É preciso saber mais sobre as "questões de segurança" que refere o Presidente? É. E é preciso saber muito mais sobre a "operação Diário de Notícias". Muito do que é a "asfixia democrática" está presente na "operação Diário de Notícias", em que um jornal para obter um efeito político deliberado, enfraquecer o Presidente, cometeu vários crimes e violou todas as regras do jornalismo. Para quem a preparou valeu certamente os custos, que até agora têm sido poucos, porque há muita desatenção, muita leviandade e muita má-fé, ou seja vale tudo.

Sempre quero ver se esta nota é citada.

Setembro 2009

O Presidente da República tem certamente coisas graves para dizer ao país e entendeu que se as dissesse interferia no acto eleitoral. Muito bem, compreende-se que o faça, embora também se interfira na campanha por omissão. Mas o Presidente rompeu o seu próprio silêncio e "falou" através da demissão do seu assessor de imprensa e, sendo assim, interferiu de facto na campanha eleitoral. Mais valia agora que dissesse tudo para não acordarmos no dia 28 sabendo coisas que mais valia que fossem conhecidas já. Para contarem para a decisão de voto dos portugueses, com cujo resultado final ele já está inevitavelmente comprometido.

Setembro 2009

Pacheco Pereira disse aos militantes que o foram ouvir à "Pizzaria Camões", em Malpique, não ter "qualquer dúvida" de que está em curso uma campanha contra o Presidente da República "que vem em grande parte do PS".

Essa campanha, disse, visa "enfraquecer" Cavaco Silva, "não só para que aquilo que venha a dizer possa parecer mais frágil, como para as decisões que possa vir a tomar sejam não de um presidente forte e respeitado por todos os portugueses mas de um presidente alvo de uma campanha política".

Pacheco Pereira disse à Lusa que esta "campanha" visa "desbastar o terreno não só em relação ao que o senhor Presidente da República certamente dirá sobre as circunstâncias deste 'caso'", mas também sobre o "assalto" que já se deu ao Jornal Nacional da TVI e "se está a dar" ao jornal Público, os dois "alvos" apontados pelo primeiro-ministro, José Sócrates, no Congresso do PS.

Setembro 2009

Fernando Lima e Pacheco Pereira – leia-se, a Presidência da República e a presidente/Direcção do PSD, pois estes dois passarões eram os seus principais influenciadores ao tempo – olhavam para três ou quatro blogues e entravam num estado de excitação cujo diagnóstico vou ensaiar. Há uma primeira resposta, a mais fácil: pura hipocrisia. Eles sabiam que o argumento era ridículo, porém contavam com a ignorância e iliteracia digital generalizada da população para agitarem um tigre de papel. Há uma segunda resposta, cultural: tanto Fernando Lima como Pacheco Pereira, apesar da vasta experiência blogosférica deste último, não compreendiam o universo digital e, com a adrenalina e testosterona à solta, julgavam que o meio poderia ter uma importância hipertrofiada no combate político. Há uma terceira resposta, psicológica: ambos eram, e são, seres egóicos, narcísicos e arrogantes, pelo que iam à procura dos blogues para lerem algo a seu próprio respeito, e a respeito daqueles a quem estavam ligados politicamente. O que encontravam na comunicação social profissional não lhes chegava, eram dois agarrados ao vício de ler perigosos “anónimos” e demais facínoras. Daí a imaginarem que essas opiniões eram da autoria dos que viam como inimigos, e que esses se disfarçavam para lhes mandarem bocas, e logo depois passarem a explorar essa fantasia como suspeita política despejada junto das capelinhas e na praça pública, bastava meio passo. Há uma quarta resposta, clínica: o combate político, em todos os tempos e lugares, cria condições para disfunções mentais do foro paranóide, sendo que a liberdade e frequência de escrita na blogosfera política oferecia vasto material para se construírem teorias da conspiração, das mais banais às mais desvairadas. E há uma quinta resposta, antropológica e política: a blogosfera era o que resistia à verdadeira asfixia mediática, a aldeia gaulesa no cu do império da direita. Então, havia que tentar acabar com esse foco de liberdade através da antiquíssima receita da oligarquia palaciana, a calúnia.

De facto – e factualmente, de facto – quando num país existe o poder e agenda do Correio da Manhã, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, onde se faziam capas a devassar a privacidade de cidadãos só porque escreviam em blogues com pseudónimo e surgiam como defensores das políticas do Governo ou como simpatizantes do PS, Diário Económico do António Costa, Sábado, e ainda a Rádio Renascença e o Marcelo com o seu super-tempo de antena dominical, e deixando de parte a legião de auxiliares que estes meios cooptaram para “fazer opinião”, podemos dizer que mais de 90% (99%?) do espaço mediático politizado não estava apenas na mão da direita, antes era um dos principais instrumentos ideológicos e eleitorais da direita. Em contraposição, o PS não tinha nem títulos, nem canais, nem jornalistas talibãs, nem exército nas trincheiras da baixa política. Esta paisagem dos órgãos de comunicação social em 2009, a que se junta o PCP e BE no berreiro de alvo único, não levou Lima e Pacheco para um estado de segurança, descontracção, ataraxia. Foi ao contrário, tendo eles querido desferir os golpes mais mortais contra Sócrates e os socialistas precisamente a partir da sua posição de superioridade mediática. Toda a operação “Face Oculta”, a qual estará ligada à “Inventona das Escutas” por algo mais do que o calendário, tinha como pressuposto essa mesma vantagem, com a exploração mediática e política de conversas privadas – onde um primeiro-ministro foi espiado ilegalmente por instituições do Estado – a ter começado em cima do período pré-eleitoral e tendo em vista conseguir-se abrir um processo judicial com base na invasão da privacidade de Sócrates e de quem fosse visto como seu próximo. O negócio da PT e da TVI, que nunca existiu, e que a existir poderia gerar algo perfeitamente legítimo a todos os níveis ou até inúmeros problemas ao PS, serviu como combustível inesgotável das estratégias de difamação e calúnia começadas logo em 2008 pelo próprio Cavaco em tandem com a subida de Ferreira Leite à presidência do PSD. A moral oligárquica desta história é a seguinte: os déspotas são déspotas porque não se impõem limites para destruir os adversários políticos.

Hoje, com o relato patético do Lima a respeito de homens com óculos escuros oficiais e jornais brasileiros no sovaco para disfarçar que o estariam a espiar, já sabemos a que “técnicas dos serviços secretos” o Pacheco se referia na sua fase alucinada. Fase onde conseguiu usar o seu estatuto de deputado para se meter numa saleta da Assembleia da República e enfiar os cornos até aos calcanhares na privacidade de Sócrates e Vara. Saiu de lá a gritar que tinha encontrado provas de manigâncias “avassaladoras” sem ter nomeado alguma ou feito qualquer coisa a respeito nos dias, meses e anos que se seguiram. Ao seu lado, João Oliveira, deputado comunista que não tinha qualquer razão para poupar Sócrates ou o PS fosse do mínimo que fosse, declarou que esses mesmos documentos enviados de Aveiro que o Pacheco tinha enchido de baba e ranho não tinham nada de politicamente relevante. Esta radical antinomia é que foi o único dado avassalador do episódio.

Por acaso, dado que este blogue foi visado nos escritos caluniosos do Pacheco, estou em condições de medir com exactidão o grau e amplitude das suas mentiras. Ironicamente, em 2013 um tal de Fernando Moreira de Sá viria contar os segredos das campanhas negras na Internet organizadas pelo PSD de Passos e Relvas. Tão orgulhoso dos seus méritos e confiante no seu talento se mostrou que fez dessa sua experiência uma tese de mestrado. Ou seja, a malta que via assessores de Sócrates, espiões de Sócrates e arregimentados de Sócrates em tudo o que mexesse numa direcção contrária aos seus interesses limitava-se, portanto, a projectar nos outros, os de fora, o que via entre os seus ou o que praticava. Eis uma das mais velhas profissões do mundo.

No Verão de 2009, a 5 semanas de eleições legislativas, o Presidente da República lança, ou aprova que se lance, uma golpada mediática contra o Governo em exercício e o partido que o representa. Ao ser exposto esse plano e essa inaudita, gravíssima e grotesca violação constitucional, a poucos dias de se ir a votos, tanto o autor da golpada como o Pacheco continuavam a disparar publicamente contra Sócrates, contra o Governo e contra o PS. Nunca nenhum pediu desculpa do que fez, antes se agarraram ao ódio e continuaram a tentar usufruir ao máximo das benesses que a República e a indústria da calúnia lhes conferia e confere. O mais provável é que, até ao fim das suas vidas, se mantenham vilmente cobardes e irresponsáveis.

Desta sombra não te escapas, Pacheco.

Revolution through evolution

Hilary Clinton and Donald Trump may have to do a lot more than just say sorry to win back public trust after a misdeed
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Analysis of nearly two-thirds of the world’s languages shows that humans tend to use the same sounds for common objects and ideas
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Research shows that businesses must place equal importance on ethical adherence and quality service in order to be successful
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Laughter-Based Exercise Program Has Health Benefits, Study Finds
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Researchers identify oldest textile dyed indigo, reflecting scientific knowledge from 6,200 years ago
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Four Basic Personality Types Identified: Pessimistic; Optimistic; Envious and Trusting
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Engaging in fantasy play could benefit creative thinking in children

Mapa do esgoto

É mais uma tentativa desesperada de ganhar o jogo na secretaria, tentando aproveitar a onda de indignação seletiva criada pela entrevista de Carlos Alexandre. Sócrates quer evitar o julgamento, que se conheçam as provas, quer obter uma mudança de magistrados que significaria a morte do processo.

Por isso o importante é sublinhar o cuidado com que a procuradora-geral da República está a tratar o caso. Alargou o prazo de forma justificada, sublinhou que há mais indícios de favor em novas áreas de negócios e que a investigação não está parada. É no processo que tudo se joga e não na arena mediática onde pululam os amigos de Sócrates.

Caluniador pago pelo CM – 15 de Setembro

Sócrates dá entrevistas e escreve depoimentos a queixar-se de que o Ministério Público primeiro andava a investigar o favorecimento do grupo Lena, depois o empreendimento de Vale do Lobo e que agora já está na PT. Que é como quem diz: o Ministério Público não encontrou nada e anda desesperado à pesca de qualquer coisa. Estranhamente, ou talvez não, nem José Sócrates nem os seus muitos amigos que continuam espalhados pela política, pelas empresas e pelos jornais admitem a hipótese de não ser “isto ou aquilo”, mas sim de ser “isto e aquilo”. Não se tratam de conjuções alternativas, mas de conjunções copulativas: é o grupo Lena, é Vale do Lobo e é a PT. Como antigamente era a Cova da Beira, era o Freeport e era o Face Oculta.

Caluniador pago pelo Público – 17 de Setembro

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Estas duas vedetas da indústria da calúnia declaram em jornais que conhecem o suficiente de um processo judicial ainda em investigação – portanto, que poderá até nem sequer originar acusação, ou cuja eventual acusação é neste momento impossível de antecipar quanto ao seu conteúdo – para poderem concluir, sem qualquer dúvida, que um determinado arguido é culpado de certos crimes. Como elas não apresentam provas da acusação que fazem, nem nos dizem que já as encontraram mas que foram a correr entregá-las às autoridades e por isso não podem falar delas por enquanto, a táctica comunicacional a que recorrem implica estarmos perante um típico argumento de autoridade. Estes dois caluniadores justificam a validade das suas calúnias por as verterem em órgãos de comunicação social de grande poder e pela intensidade da sua convicção subjectiva – isto é, e neste caso, do seu ódio.

É o ódio e a prepotência que fazem com que não suportem o confronto com qualquer posição que se contraponha ou meramente questione o seu exercício calunioso. Basta aparecer alguém a defender os conceitos basilares de um Estado de direito democrático no que ao direito penal diga respeito – invocando a presunção de inocência, a lealdade processual, a isenção e imparcialidade do juiz, o respeito pelos prazos e um longo etecétera – para que, acto contínuo, os profissionais da calúnia reajam e carimbem esses cidadãos como aliados do alvo que violentam caluniosamente. Isto é, serão “amigos” do tal. “Amigos de Sócrates”, ou seja, cúmplices dos crimes que os caluniadores profissionais exploram como material da sua actividade na indústria da calúnia. Porque é de uma indústria que estamos a falar, como os números mostram.

O caluniador pago pelo Público, exibindo-se em crescente afronta moral e cívica, chega ao ponto de afirmar que “há muito que dezenas de políticos estariam presos” não fora as leis contra a corrupção estarem feitas de propósito para que nunca se apanhe algum. Desconfio que nem nos seus pesadelos mais tenebrosos o Vicente Jorge Silva alguma vez imaginou que o jornal que estava a fundar viria a dar palco a tamanha degradação do que é a missão de informar e formar o público.

Finalmente, um momento de coerência do homem invulgar

"Pedro Passos Coelho mantém-se firme na intenção de apresentar o próximo livro do jornalista José António Saraiva - ex-diretor dos semanários Expresso e Sol - apesar de entretanto já ter percebido que contém revelações sobre a vida íntima de políticos, muitas das quais atribuídas a personalidades que já morreram, e baseadas em conversas privadas.

Eu e os Políticos - assim se intitula o livro, editado pela Gradiva, e que o líder do PSD apresentará no próximo dia 26, no centro comercial El Corte Inglés, em Lisboa. "O Dr. Pedro Passos Coelho aceitou o convite mesmo antes de ler o livro. Este convite foi aceite tendo em conta a admiração que o Dr. Pedro Passos Coelho tem pela carreira e pelo papel que o arquiteto José António Saraiva desempenhou e desempenha no jornalismo português." É este o conteúdo da nota enviada ao DN por um assessor de imprensa de Pedro Passos Coelho depois de o DN o ter questionado sobre se não se sentia "desconfortável" com o teor da obra e o facto de José António Saraiva contar várias histórias que lhe foram contadas em privado, muitas delas de conteúdo sexual.


Fonte

Regra de ouro para juízes: desconfiar dos que gostam muito do que fazem

Em Mação, no tempo da minha infância, havia vários casos, havia sempre vários casos, mas há um caso que me marcou profundamente que foi o de uma pessoa que, já adulta, questionou a sua paternidade incógnita. E quis provar que era filho de um fidalgo. E essa audiência teve imensas sessões, e eu gostava imenso de ir assistir àquilo. A sala de audiências era no primeiro andar do edifício da câmara, nessa altura. Eu gostava de subir as escadarias, esgueirando-me e tal. Enfim, coisas de miúdo, não é? E daí veio aquela, não sei, aquele apego ao sentido de justiça...


[…]

- Mas é verdade que em casa também, às vezes, encenava homilias?
- De facto, é verdade. Isto pode ter sido uma vocação desperdiçada. É que realmente eu... esse ritual da Igreja também me fascinava. Talvez eu seja uma pessoa, então, de rituais, não é? Fiz a catequese toda, fiz o crisma, tudo isso. E, pronto, também me fascinava imenso toda aquela história de Jesus Cristo; que ainda hoje me fascina. E resolvi imitar a missa. Ainda hoje sou capaz de dizer imensíssimas passagens.


[…]

Eu sou um grande cultor, parece um chavão, da lei moral de Kant, que diz sensivelmente isto: "Age de uma forma tal que queiras que os outros ajam em relação a ti da mesma maneira."


[…]

- Obrigada por esta entrevista.
- Eu é que lhe agradeço por esta oportunidade.


O Juiz Carlos Alexandre em Grande Entrevista – Reportagem Especial SIC 8 Setembro 2016

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Se Kant tivesse escrito o que Carlos Alexandre lhe atribui como “lei moral”, os tratados de moral, ética e deontologia dos últimos 250 anos teriam de ser todos reescritos ou apagados. O juiz que se vangloria de não progredir na carreira por estar sempre a trabalhar em vez de ir estudar, como os seus colegas que entram na Relação à custa de tempo gasto em formações e pós-graduações e a escrever livros, tratou como “lei moral” o Imperativo Categórico kantiano, provavelmente pensando na sua primeira formulação, e acabou por apresentar como pretenso conteúdo uma versão da “regra de ouro”, esse princípio de uma moral do senso comum dito transversal a diferentes culturas religiosas e tradições práticas.

A moral kantiana é por vezes caricaturada como sendo apenas passível de cumprimento por anjos. Este remoque alude ao formalismo extremo que se encontra no Imperativo Categórico: “Devo agir de acordo com uma máxima que se possa, por minha vontade, tornar numa lei universal”. Dois problemas gigantes se levantam de imediato, o da elevação ao plano da “lei universal” e, anterior, o da capacidade de agir apenas racionalmente. Não temos berbicachos destes na ideia de que a moral se define pelos meus interesses, tal como subsumido no primado utilitarista invocado pelo Carlos. Se o plano for o de obrigar os outros a agir para comigo de acordo com os meus critérios, então já não precisamos de uma lei universal para nada. Já se a ideia for a de estabelecer um Estado de direito, ou uma mera deontologia, então a “lei universal” funciona como horizonte para que tendem tanto os princípios ordenadores da moral e da ética como as leis do direito e da política. O Imperativo Categórico aponta o dever, não a regra. O chavão alexandrino constrange os outros para que se obriguem à regra imposta por mim no trato comigo.

A postura de auto-publicitada probidade e inflexível força de carácter do juiz com “alguma coragem” e “excelente memória”, cujas bandeiras são a Igreja e a honradez pequeno-burguesa dos pais, encontra no estatuto social e nos privilégios da função judicial uma ecossistema perfeito para disfunções psíquicas com assustadoras consequências para si próprio e terceiros. Até um psicólogo de café consegue ver no relato do seu fascínio infantil por um processo no tribunal de Mação a eventual origem de um voyeurismo amplificado ao seu limite máximo pelos seus poderes no Ticão. A novela do fulano que reclamava ser filho de um “fidalgo”, e registe-se o uso deslumbrado de um termo anacrónico e provinciano, algures no final dos anos 60 ou princípios de 70, num processo que teve “imensas sessões” – isto é, que presumivelmente permitiu invadir a privacidade de terceiros e olhar para os costumes escondidos do tal fidalgo e das suas conquistas na terrinha – deu lugar a “imensas sessões” de devassa caseira, agora com captação directa das porcarias, a partir de escutas aos novos fidalgos da política e da finança. Estarei a errar nesta hipótese? Claro que tal poderá acontecer, mas nada do que Carlos Alexandre disse na entrevista me faz ter dúvidas a respeito da fruição que retira do poder oculto e totalitário posto à sua disposição. Muito pelo contrário.

As ameaças que faz urbi et orbi, alertando para o caudal de informações detalhadas que a sua santificada cabeça guarda, incluindo alcunhas como fez questão de assinalar, são um evidente sinal de profunda perda da noção do que está em causa nas suas responsabilidades. O discurso sobre a ausência de amigos poderá ser um sintoma acrescido a justificar uma especial atenção pelo Conselho da Magistratura quando a sua entrevista for discutida.

Tal como se constata, os partidos políticos não têm nada a dizer perante este espectáculo de um juiz que concebe o seu cargo como uma missão pessoal contra o resto do mundo. Os partidos também não parecem nada preocupados com a utilização da Justiça para perseguições políticas, como se viu no “Freeport”, no “Face Oculta” e vê na “Operação Marquês”. Aliás, poderíamos dizer que todos, inclusive o PS, obtêm ganhos de acordo com as agendas individuais das respectivas lideranças – à excepção de Sócrates quando secretário-geral, ele que tem sido o bode expiatório e o bombo da festa do regime. Quer isso dizer que há espaço na política portuguesa para uma nova força política cujo programa também passe por lembrar aos agentes da Justiça que o seu lugar está ao serviço do Soberano, da República, do Estado de direito, da democracia e, fundamentalmente, da liberdade.

Chichi, cocó, pipi, pilinhas… É só rir no Governo Sombra, ó malta

O Governo Sombra do último sábado não fez qualquer referência a Fernando Lima, Cavaco e demais tópicos associados. Se calhar, não sabiam que o livro Na sombra da Presidência tinha sido lançado durante a semana, e que já na semana anterior os jornais publicaram declarações de Lima a respeito e anteciparam os conteúdos da obra. Estavam distraídos. Pode acontecer a qualquer um, inclusive a um bando de quatro. É uma hipótese.

Se calhar, sabiam disso tudo mas não acharam que tivesse mérito, quiçá dignidade, para aparecer no programa. Nenhum dos participantes valorizou a temática, preferindo dar atenção a questões de outra monta, como a dos cigarros electrónicos e a da rentrée do CDS. É uma segunda hipótese.

Se calharam, sabiam disso tudo, e até acharam muito importante dado que estão em causa nas declarações de Lima suspeitas de violações constitucionais e legais gravíssimas por envolverem um Presidente da República e sua Casa Civil, e também magistrados, só que, por grande azar, essa problemática não cabia no tempo de duração do programa dado que havia outros assuntos que se impunham pela sua relevância e urgência. Um deles consistindo num elogio ao Champalimaud e à geração de grandes empresários espoliados pelo 25 de Abril. Um outro alusivo a um insulto desmiolado que o desmiolado presidente das Filipinas dirigiu a Obama. É uma terceira hipótese.

Não nos serviram Fernando Lima nem Cavaco nesta edição mas tivemos direito a vários momentos de excitação colectiva que se vão constituindo como marca d’água do formato. De água ou de outros líquidos mais espessos, para entrar dentro do espírito da reinação que nos oferecem felizes os foliões nos intervalos de garantirem em directo que Sócrates é um bandido haja ou não acusação, haja ou não julgamento, haja ou não sentença transitada em julgado. Nesta edição, Carlos Vaz Marques aproveitou o mote “dedos” para iniciar o exercício, o qual consiste em produzir trocadilhos e alusões de carácter sexual que qualquer espectador com a 4ª classe, ou equivalente, não só os consiga perceber cognitivamente como, e especialmente, não resista a soltar incontroladas gargalhadas de lascívia e luxúria (ou luxúria e lascívia, a sequência é opcional) quando eles chegam às orelhas. O público em estúdio é prova do sucesso da fórmula, desmanchando-se em risota com as sugestões de dedos a entrar aqui e ali, coisas cilíndricas na boca, o que é que cada um dos artistas já fez ou lhe apetece fazer com o seu pirilau, e variegado material desse fino recorte literário e interesse biográfico. Assinale-se como o Ricardo não perde essas ocasiões para descansar os espectadores quanto à sua capitosa energia erótica, o que se agradece dado o cuidado que essa sua dimensão desperta na populaça. O moderador, irónica ou fatalmente, surge como o mais imoderado, todo ele tremendo na cadeira num frenesim báquico nascido da libertinagem oral televisionada, e exibindo uma curiosa preferência pelo Mexia no que toca a aproveitar as deixas para lançar estes transgressores interlúdios. Honi soit qui mal y pense, pois talvez o Mexia, para o Carlitos, seja dos três brilhantes críticos da actualidade ali presentes o de aparência mais casta, daí a tentação de provocá-lo numa pulsão titilante.

Eu não posso, porque não tenho tempo, mas contribuo com 10 euros para um maluco qualquer gastar uma parte preciosa da sua vida a colar estes segmentos rotineiros e fazer um vídeo com eles. Deve dar para duas horas, pelo menos, de regressão à puberdade. Aposto que seria um estrondoso sucesso em feiras com chouriços pendurados e salsichas de molho. E ainda em escolas EB 2, 3 onde a história dos bastidores e implicações da “Inventona das Escutas” tivesse sido censurada pelo Ministério da Educação.

Revolution through evolution

New study suggests women do ask for pay rises but don’t get them
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Americans More Politically Polarized Than Ever; Independents at an All Time High
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Open Floor Plans May Lead to More Eating
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Researchers debunk ‘five-second rule’: Eating food off the floor isn’t safe
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Midlife Physical Activity Is Associated With Better Cognition in Old Age
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Throughout History, Humans Have Preferred Their Pigs to Be Black, Suggests Study
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Burnout is caused by mismatch between unconscious needs and job demands

A nossa verdade

A Fernanda Câncio desenterrou um texto do Fernando Lima, de 2010, onde ele fez afirmações contraditórias com as que tem espalhado em entrevistas no âmbito do lançamento do livro Na sombra da Presidência, ou que correspondem a citações do mesmo. Eis o texto da Fernanda: Do sótão de Belém Eis o texto do Fernando: A minha verdade

Uma das duas versões acerca da “Inventona das Escutas” propalada pelo infame homem de mão de Cavaco é uma completa, desavergonhada, sórdida e escandalosa mentira. Qual? Felizmente, temos ao dispor a granítica seriedade de Cavaco para nos ajudar neste problema tão difícil. Basta recordar a sua actuação no episódio:

– A 18 de Agosto de 2009 – a 5 semanas das eleições legislativas – o Público lançou com potência máxima a suspeita de estarmos perante uma inusitada e espectacular violação do regular funcionamento das instituições democráticas: o Governo de Sócrates andava a espiar o Presidente da República e a sua equipa, declarava uma fonte da Presidência e o Zé Manel.

– Contexto: oligarquia em pânico com o desabamento do BPN, BPP e BCP; cerco judicial, mediático e político a Sócrates nos meses anteriores com o processo “Face Oculta”, mas no qual não se conseguiu levar Pinto Monteiro a chamar Sócrates ao MP à pala das escutas com Vara; e Cavaco de férias, portanto com uma desculpa para não se pronunciar quando a bomba fosse lançada.

– A bomba foi lançada e da Presidência nem um pio. Um jornal de referência revela que algo nunca antes visto em Portugal, e a justificar a abertura de uma crise de regime, está a acontecer e depois nada acontece. Isto é, a parte denunciadora e vítima da suposta espionagem não actua dentro do seu poder e responsabilidades constitucionais – fosse para assumir a transgressão do Governo, fosse para acabar de imediato com essa suspeita gravíssima. Os partidos apoiantes de Cavaco também nada fazem a não ser gozarem o prato e calcularem os ganhos. Única conclusão: o efeito pretendido estava a ser alcançado por quem tinha inventado a história. O Presidente da República, portanto, aprovava as consequências da calúnia, as quais teriam o seu esperado desfecho na perversão da campanha eleitoral e dos resultados das eleições a ocorrerem dentro de poucas semanas.

– Esta hipótese política de origem institucional só veio a ser reforçada pelos desenvolvimentos seguintes, tendo Cavaco reagido à notícia do DN onde se expunha a golpada afirmando que nada diria acerca dela antes das eleições, e acrescentando que igualmente depois das eleições iria procurar obter mais informações sobre as questões da segurança da Presidência. Ou seja, a poucos dias do acto eleitoral, e perante a descoberta do plano elaborado na sua Casa Civil, Cavaco continua a alimentar a lógica da calúnia contra o Governo e contra o PS.

– Finalmente, a 29 de Setembro, dois dias depois das eleições e para expor a sua opinião sobre o caso, Cavaco fez uma declaração ao País que fica para a História como a intervenção mais sonsa e patética de que há memória vermos um Presidente da República fazer. Aliás, não há nada que se lhe compare em cobardia e miséria políticas que possamos ir buscar a Eanes, Soares ou Sampaio. Nada de nada a vários universos de distância. Só numa mensagem o rei dos sonsos foi claro: o que Lima tinha feito nascera da sua pessoa, directa ou indirectamente:

“Pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas.”

Resumindo e concluindo, e tal como também escreve a Fernanda, só quem não quis ver não viu o óbvio ululante. E ninguém quis ver. O País, da esquerda à direita, de alto a baixo, aprovou a golpada eleitoral e a impunidade de Cavaco. Que o mesmo é dizer que Portugal passou a considerar que os Presidentes da República têm legitimidade constitucional para usarem a imprensa numa campanha de calúnias com o fito de perverter actos eleitorais. Numa próxima ocasião, mantendo-se esta dinâmica, ainda descobriremos que os nossos Chefes de Estado, já que acumulam com serem Comandantes Supremos das Forças Armadas, poderão tranquilamente mandar uns regimentos de infantaria varrer as sedes partidárias de algumas forças políticas que um jornal amiguinho desses Presidentes se lembre de dizer que “andam a espiar” não sei quem. Será o inevitável corolário da doutrina Cavaco elaborada para a “Inventona das Escutas”.

Em 2011, Cavaco foi reeleito. Na noite da sua vitória eleitoral, voltou a inovar ao se apresentar em público num transe de rancor, tendo atacado todos os candidatos derrotados com raiva assassina. É possível que mais nenhum candidato presidencial no Mundo até à data tenha tido comportamento igual. Um mês e meio depois, no acto solene da tomada de posse, usou a Assembleia da República para fazer um comício onde apelou ao derrube do Governo pela rua e onde atacou a classe política – logo, onde achincalhou a democracia. Nas semanas seguintes, tudo fez para que Portugal fosse obrigado a desaproveitar um acordo já alcançado com a Europa para garantir o seu financiamento e a ter de pedir um resgate de emergência que implicaria a queda do Governo, tendo-se negado a servir de mediador e conciliador entre o PS e o PSD. Com o triunfo do casal Passos&Relvas, passou a violar as suas responsabilidades juramentadas, sendo activo cúmplice do ataque à Constituição por que passava parte essencial da estratégia de uma direita que pretendia aproveitar ao máximo o domínio estrangeiro e a reengenharia económica e social que os fanáticos do empobrecimento impuseram como política única.

Cavaco é o mais importante líder da direita desde o 25 de Abril e uma das figuras mais poderosas do regime. Eis a nossa verdade.

Os putos do Bloco Central de Interesses

«Vai haver muito boa gente em Portugal do PS e do PSD interessado em que não se investigue nada e que não se esclareça nada, porque evidentemente que há responsabilidades do chamado bloco central de interesses da gestão da Caixa, sobretudo nos anos entre 2005 e 2010.»

Marques Mendes, 31 de Agosto

«O Presidente da República considerou este domingo que na política portuguesa há actualmente duas visões em confronto, e que "isso é bom porque podia haver um pântano, um bloco central de interesses", mas que o povo está distendido.»

Marcelo Rebelo de Sousa, 4 de Setembro

«O Presidente da República quer uma reforma da Justiça que parta dos profissionais do setor e não dos partidos. Pela primeira vez, uma iniciativa de cariz político entrega aos juízes, procuradores, advogados, polícias, oficiais de justiça a tarefa de se entenderem para mudar o que há a mudar e não a um abstrato legislador político que comporta em si a indústria das vírgulas e alçapões da lei.

A ideia seria boa se não fosse um presente envenenado. Se não se entenderem – o mais provável –, o poder político fica totalmente legitimado para fazer o que quiser. Para cortar a direito. Como gostariam algumas luminárias do Bloco Central dos Interesses que assim fosse.»

Eduardo Dâmaso, 5 de Setembro

«O pior que pode acontecer é a sedimentação de um bloco central de interesses que acabe por inviabilizar o que é preciso fazer na Justiça. É precisamente contra esse risco que os parceiros sociais da Justiça têm uma palavra a dizer, levando mais longe experiências de anos de trabalho e de reponderação conjunta. Sabendo que, a não ser aprofundada essa experiência comum, a afirmação do bloco central de interesses será inevitável, bloco que terá todo o empenho em que nada que lhe não convenha mude.»

Marcelo Rebelo de Sousa, 7 de Setembro

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«Com o PSD acabou o Bloco Central de interesses.»

Relvas, 18 de Abril de 2010

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Temos um Presidente da República que partilha com comentadores alcoviteiros e capos da indústria da calúnia a mesma visão de Portugal, o tal país dominado por um “bloco central de interesses” que verga a Justiça de montante a jusante, garante esta rapaziada. A sinistra entidade consegue impedir investigações parlamentares e reformas no Estado apesar de a sua existência e modus operandi serem do conhecimento das autoridades políticas, judiciais e policiais. Se nos deslocarmos um bocadinho para a esquerda, ou se o alvo for atingir o PS pela direita, descobrimos que a coisa é igualmente eficaz a martelar negócios fraudulentos entre o Estado e particulares. Aparentemente, não se pode fazer nada de nada contra o “bloco central de interesses” a não ser cerrar fileiras, como pede Marcelo aos coitados dos magistrados e advogados, e lutar desesperadamente pela salvação.

Uma das chatices de não existir imprensa em Portugal é esta de não haver um jornalista – um que fosse – que obrigue Marcelo a explicar, fundamentado-as, as suas palavras. Quem quer o quê? Quem não quer o quê? E porquê? Talvez os jornalistas portugueses, e quem lhes paga o salário, não achem que o assunto mereça que se perca tempo com ele. Afinal, as matérias da Justiça são chatas como o raio que as parta. Idem para as da corrupção que possam atingir algum amigo dos jornalistas ou de quem lhes paga o salário. Ou talvez esses mesmos jornalistas, e esses mesmos que lhes pagam o salário, perfilhem da mesma impotência do Presidente da República, dos partidos, da sociedade, do Marques Mendes e até do Dâmaso do esgoto. Todos unidos no gozo com que usam uma expressão que, até ver, não quer dizer rigorosamente nada de nada. É puro artifício retórico, manobra de prestidigitador, levando o olhar do público para um lado com uma das mãos enquanto a outra trata de esconder a moeda.

Existe vida económica, social e política sem “interesses”? Devem os “interesses” da sociedade ser planificados e fiscalizados pelo Estado, de forma a evitar que se criem monstros deste calibre? É ilegal ter “interesses” iguais aos de terceiros e tal gerar aproximações e alianças? Ou a simples existência de qualquer coisa que possa ser nomeada como um “interesse” deve acto contínuo produzir legislação para ser criminalizada e entrega em mão da gatunagem ao juiz Carlos Alexandre? A hipocrisia reinante nesta questão leva-nos para este grau de estupidez e absurdo.

Marcelo, com 50 anos de carreira brilhante como rock star da oligarquia no tal país dominado pelo “bloco central de interesses” não se sabe desde quando, que muito provavelmente se fartou de ganhar dinheiro a servir essa gente que agora abjura ou simula abjurar mas que não identifica, anuncia para quem o quiser ouvir que o Estado de direito neste quadrado à beira-mar plantado é uma anedota. E a malta ri-se; ou nem isso, apenas boceja. Face ao poder desta anestesia, desconfio que o “bloco central de interesses” é constituído por miúdos da pré-primária.

E não há consequências desta golpada eleitoral? O Parlamento, pelo menos, não tem nada a dizer?

Cavaco Silva deu luz verde à denúncia para os media de que Belém estava sob “vigilância” dos homens de Sócrates. Fernando Lima escreve-o no seu livro “Na sombra da Presidência”: “Quando dei conta a um jornalista do ‘Público’ da estranheza, na Presidência, sobre a presença de um adjunto do primeiro-ministro na comitiva de Cavaco Silva que se deslocou à Madeira, foi porque recebi uma indicação superior para o fazer”. O autor garante não ter feito “nada” sem cobertura superior.

“Não fiz nada à revelia da minha hierarquia, como nunca o fizera ao longo da minha vida na relação que, por dever das funções, mantinha com a comunicação social. O assunto era demasiado delicado para que eu avançasse sem mais nem menos”, escreve o ex-assessor de Cavaco Silva, no capítulo em que se dedica ao “intruso” da Madeira.


Fernando Lima culpa Cavaco: “Não fiz nada à revelia da minha hierarquia”

Um esgoto transbordante

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TOCAR NA IMAGEM PARA LER

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Em Portugal, vigora uma tradição – europeia, ocidental – que confere à profissão de jornalista direitos e deveres especiais. Com a revolução de Gutemberg, século XV, a comunicação social ganhou tecnologias industriais e torna-se um espaço de violenta tensão e opressão política. O poder da palavra passou a assustar cada vez mais os que detinham a palavra do poder. À crescente facilidade técnica para reproduzir e publicar em grandes quantidades, correspondeu uma crescente censura que começa por ser de origem religiosa, intensificada pela Inquisição, e que rapidamente virá também das monarquias. Nos séculos seguintes, acompanhando os triunfos do iluminismo e do liberalismo, a que corresponde um inerente enfraquecimento das forças religiosas e monárquicas, não só a imprensa se constitui como fenómeno sociológico, político e cultural ubíquo como passa a ser reconhecida como manifestação da liberdade do “povo” ou do “cidadão”. A Revolução Americana e a Revolução Francesa, entre outras ocorrências, consagram a figura da “liberdade de expressão” como um valor civilizacional incontornável. As peripécias que se seguiram até aos nossos dias, os avanços e recuos nas liberdades jornalísticas ao sabor da História, não alteraram o essencial: temos querido viver num regime onde os jornalistas tenham a capacidade de descobrir autonomamente factos/informações/notícias de interesse público. Ou seja, não concebemos uma vivência republicana e democrata em plenitude política e cívica sem a existência de uma imprensa livre. É daqui que vem a grandeza de um romantismo heróico que continua a despertar vocações – apesar dos cínicos e dos pulhas que, inevitavelmente, usam essa liberdade para perverterem o ideal que a justifica.

Também desde cedo se percebeu que o poder de expressar mediaticamente uma opinião livre podia ser usado em prejuízo de outros bens morais e jurídicos. Publicitar uma mentira, dando-lhe uma força, rapidez e alcance que não seriam imagináveis sem os meios e as técnicas da comunicação social, pode ter efeitos devastadores e graves implicações individuais, sociais e políticas, inclusive para a segurança nacional dos Estados. A problemática da regulação e da auto-regulação acompanha a evolução do estatuto de jornalista e do vasto quadro legal desenvolvido ao longo dos séculos na procura dos compromissos entre a liberdade de uns e de outros com a responsabilidade de todos. O ponto a que se chegou, nos Estados de direito democrático, confere à prática do jornalismo uma categoria de protecção superior tanto no acesso a fontes como na capacidade para fazer respeitar a sua condição autoral. Resumindo: diz-me como trabalham os teus jornalistas, dir-te-ei qual é a liberdade da tua sociedade.

Pés na terra. No final de Agosto, o esgoto a céu aberto publicou em dois dias seguidos os “direitos de resposta” acima exibidos. Ainda antes de irmos ao seu conteúdo, repare-se nestas curiosidades. Não mostram a data em que foram escritos, o da Octapharma aparece no seu canal digital mas a sua leitura apenas está acessível para assinantes, o do Grupo Lena nem sequer foi publicado digitalmente, na edição em papel o texto da Octapharma aparece bem destacado na página com grafismo de apoio e publicidade por baixo, na edição em papel o texto do Grupo Lena aparece ao fundo da página sem grafismo de apoio e tendo por cima uma notícia relativa a suposta corrupção ligada ao combate aos fogos, ambos não trazem associado qualquer declaração editorial a justificar as notícias protestadas ou a anunciar futuras informações que aumentem a sua verosimilhança ou as comprovem. Porquê estas diferenças? Não faço a menor ideia, se alguém conseguir explicar agradecerei a lição.

O conteúdo respectivo é semelhante, consistindo nestas três declarações não contestadas pelo pasquim:

– O CM não contactou o Grupo Lena nem a Octapharma antes de publicar as notícias em causa.
– O que o CM noticia é pura invenção, não existindo factos que a sustentem.
– O CM viola a Lei e a deontologia do estatuto que lhe permite a actividade jornalística com fins comerciais e/ou outros.

Nada de novo, certo? Certíssimo. Mais vexante do que a impunidade com que um jornal actua persecutoriamente contra alvos seleccionados mediática e politicamente é a conivência de toda a sociedade portuguesa com esta prática. Os pares na imprensa não mostram qualquer incómodo com as violências destes seus camaradas, e os partidos dividem-se entre os que aproveitam o trabalho sujo e os restantes que não tugem nem mujem e que igualmente aproveitam a porcaria de acordo com as agendas próprias. Tem interesse reflectir na ausência de semelhante perversão da missão jornalística à esquerda, algo que a existir permitiria constatar como igualmente se faria aqui tal denúncia. Porém, mais interessante é reflectirmos no que revela das nossas elites partidárias e sociais esta cumplicidade entre ex-ministros, juízes, líderes partidários e futuros primeiros-ministros, como no caso de António Costa e provável caso de Fernando Medina, com um órgão de comunicação social cuja agenda é a conspurcação da democracia ao serviço do lucro e o uso da liberdade outorgada pela Constituição para violar direitos de terceiros. Como é que estas pessoas adormecem sabendo onde estão a deixar o nome? Adormecem em paz no que a esse aspecto das suas vidas diz respeito, né? Pois, eis a mais terrível das suspeitas.

Quanto custa a defesa do que é nosso?

A Procuradora-Geral da República (PGR) disse esta quinta-feira que é preciso um “quadro mínimo de recursos humanos” para enfrentar os muitos desafios a que o Ministério Público é chamado, nomeadamente no combate à criminalidade económico-financeira.

Para colmatar a falta de magistrados do MP, Joana Marques Vidal disse ser preciso assegurar a regularidade anual dos cursos de ingresso no Centro de Estudos Judiciários (CEJ), para garantir a “continuada substituição dos magistrados que anualmente cessam as suas funções” e rejuvenescer os quadros.

PGR pede “quadro mínimo de recursos humanos” para o Ministério Público enfrentar desafios

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Há quantos anos, todos os anos, ouvimos esta lamúria da falta de magistrados no Ministério Público? O que nunca ninguém ouviu, nem vai ouvir a ninguém, é uma declaração de contentamento pelo número presente de magistrados nessa instituição. Decorre deste último silêncio que a situação de carência de magistrados aparece como uma realidade consensual, unânime, na sociedade portuguesa. Porque persiste, então? Qual a razão para não ser resolvida, sequer entrar nas promessas partidárias, seja da esquerda ou da direita? E, afinal, qual seria o número de magistrados necessários para que o Ministério Público se declarasse satisfeito no que a essa dimensão quantitativa diz respeito?

Mesmo os leigos e distraídos aceitam como evidência que dispensa discussão a denúncia de estarmos perante um problema onde a permanente especialização dos magistrados do MP é crucial para o combate à prática criminosa que vai sempre à frente das autoridades em inventividade e complexidade. Toda a gente concorda que a investigação dos crimes que envolvam o Estado e os seus agentes merece prioridade dada a extensão dos danos causados e a importância do que temos de proteger por ser público. No entanto, as limitações e fragilidade da MP a respeito dos seus recursos humanos permanecem de ano para ano. Aliás, e à luz do que acontece no paradigmático “Processo Marquês”, o que se regista é uma crescente degradação em conluio com a indústria da calúnia e a baixa política. Degradação que se aceita passiva e impotentemente, por uns, e que se explora rapace e selvagem, por outros.

O partido que fizesse as contas para que não se voltasse a escutar dos Procuradores-Gerais da República este choradinho anual teria o meu voto.