A nossa verdade

A Fernanda Câncio desenterrou um texto do Fernando Lima, de 2010, onde ele fez afirmações contraditórias com as que tem espalhado em entrevistas no âmbito do lançamento do livro Na sombra da Presidência, ou que correspondem a citações do mesmo. Eis o texto da Fernanda: Do sótão de Belém Eis o texto do Fernando: A minha verdade

Uma das duas versões acerca da “Inventona das Escutas” propalada pelo infame homem de mão de Cavaco é uma completa, desavergonhada, sórdida e escandalosa mentira. Qual? Felizmente, temos ao dispor a granítica seriedade de Cavaco para nos ajudar neste problema tão difícil. Basta recordar a sua actuação no episódio:

– A 18 de Agosto de 2009 – a 5 semanas das eleições legislativas – o Público lançou com potência máxima a suspeita de estarmos perante uma inusitada e espectacular violação do regular funcionamento das instituições democráticas: o Governo de Sócrates andava a espiar o Presidente da República e a sua equipa, declarava uma fonte da Presidência e o Zé Manel.

– Contexto: oligarquia em pânico com o desabamento do BPN, BPP e BCP; cerco judicial, mediático e político a Sócrates nos meses anteriores com o processo “Face Oculta”, mas no qual não se conseguiu levar Pinto Monteiro a chamar Sócrates ao MP à pala das escutas com Vara; e Cavaco de férias, portanto com uma desculpa para não se pronunciar quando a bomba fosse lançada.

– A bomba foi lançada e da Presidência nem um pio. Um jornal de referência revela que algo nunca antes visto em Portugal, e a justificar a abertura de uma crise de regime, está a acontecer e depois nada acontece. Isto é, a parte denunciadora e vítima da suposta espionagem não actua dentro do seu poder e responsabilidades constitucionais – fosse para assumir a transgressão do Governo, fosse para acabar de imediato com essa suspeita gravíssima. Os partidos apoiantes de Cavaco também nada fazem a não ser gozarem o prato e calcularem os ganhos. Única conclusão: o efeito pretendido estava a ser alcançado por quem tinha inventado a história. O Presidente da República, portanto, aprovava as consequências da calúnia, as quais teriam o seu esperado desfecho na perversão da campanha eleitoral e dos resultados das eleições a ocorrerem dentro de poucas semanas.

– Esta hipótese política de origem institucional só veio a ser reforçada pelos desenvolvimentos seguintes, tendo Cavaco reagido à notícia do DN onde se expunha a golpada afirmando que nada diria acerca dela antes das eleições, e acrescentando que igualmente depois das eleições iria procurar obter mais informações sobre as questões da segurança da Presidência. Ou seja, a poucos dias do acto eleitoral, e perante a descoberta do plano elaborado na sua Casa Civil, Cavaco continua a alimentar a lógica da calúnia contra o Governo e contra o PS.

– Finalmente, a 29 de Setembro, dois dias depois das eleições e para expor a sua opinião sobre o caso, Cavaco fez uma declaração ao País que fica para a História como a intervenção mais sonsa e patética de que há memória vermos um Presidente da República fazer. Aliás, não há nada que se lhe compare em cobardia e miséria políticas que possamos ir buscar a Eanes, Soares ou Sampaio. Nada de nada a vários universos de distância. Só numa mensagem o rei dos sonsos foi claro: o que Lima tinha feito nascera da sua pessoa, directa ou indirectamente:

“Pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas.”

Resumindo e concluindo, e tal como também escreve a Fernanda, só quem não quis ver não viu o óbvio ululante. E ninguém quis ver. O País, da esquerda à direita, de alto a baixo, aprovou a golpada eleitoral e a impunidade de Cavaco. Que o mesmo é dizer que Portugal passou a considerar que os Presidentes da República têm legitimidade constitucional para usarem a imprensa numa campanha de calúnias com o fito de perverter actos eleitorais. Numa próxima ocasião, mantendo-se esta dinâmica, ainda descobriremos que os nossos Chefes de Estado, já que acumulam com serem Comandantes Supremos das Forças Armadas, poderão tranquilamente mandar uns regimentos de infantaria varrer as sedes partidárias de algumas forças políticas que um jornal amiguinho desses Presidentes se lembre de dizer que “andam a espiar” não sei quem. Será o inevitável corolário da doutrina Cavaco elaborada para a “Inventona das Escutas”.

Em 2011, Cavaco foi reeleito. Na noite da sua vitória eleitoral, voltou a inovar ao se apresentar em público num transe de rancor, tendo atacado todos os candidatos derrotados com raiva assassina. É possível que mais nenhum candidato presidencial no Mundo até à data tenha tido comportamento igual. Um mês e meio depois, no acto solene da tomada de posse, usou a Assembleia da República para fazer um comício onde apelou ao derrube do Governo pela rua e onde atacou a classe política – logo, onde achincalhou a democracia. Nas semanas seguintes, tudo fez para que Portugal fosse obrigado a desaproveitar um acordo já alcançado com a Europa para garantir o seu financiamento e a ter de pedir um resgate de emergência que implicaria a queda do Governo, tendo-se negado a servir de mediador e conciliador entre o PS e o PSD. Com o triunfo do casal Passos&Relvas, passou a violar as suas responsabilidades juramentadas, sendo activo cúmplice do ataque à Constituição por que passava parte essencial da estratégia de uma direita que pretendia aproveitar ao máximo o domínio estrangeiro e a reengenharia económica e social que os fanáticos do empobrecimento impuseram como política única.

Cavaco é o mais importante líder da direita desde o 25 de Abril e uma das figuras mais poderosas do regime. Eis a nossa verdade.

17 thoughts on “A nossa verdade”

  1. faltou dizer o mais importante, aquilo que os factos provaram até agora, cavaco mandou escutar o sócras e o seu governo, foi o principal o principal beneficiado dessas escutas ilegítimas que ainda hoje são utilizadas como retaliação do medo que tem dele, assim o confessou o limonadas.

  2. Nem precisa dizer.
    Está na cara para qualquer medianamente atento e pensante normal que junta o efeito pretendido pelos referidos.

    Basta lembrar a tomada de posse, a hostilidade a tremura ansiosa das mãos, e tudo o que com elas, não por de trás do arbusto mas bem à vista, conduziu ao pedido de resgate com a ajuda da aliança negra que hoje se vai redimindo.

    A direita tem medo sim de José Sócrates. Também a esquerda o mostrou.
    Está muito acima de qualquer político desta era ensombrada pela click cavaquista intriguista e medonha e os complexos de uma esquerda obrigada à democracia do voto e ao arrivismo infantil .

    E, o juiz que se diz saloio, tem feito o trabalhinho que só a “justiça” pode fazer para envenenar outros saloios que lêem pasquins e decoram cabeçalhos caluniosos e infames da imprensa dos manipuladores sem vergonha.

    Sei pensar, compreende e interpretar.
    Sou cidadã delongo curso.
    Quase oitenta Primaveras e quentes Verões.
    Está escrito, executado e tem efeito comprovado.

  3. se o cavaco sabia as cenas através do corrupio de juízes e procuras que passavam a vida a entrar e sair de belém, muitas delas públicas e outras nem tanto, foi nessa altura que os sindicatos da justiça andavam bué d’activos, é porque encomendou o serviço. se não tivesse encomendado o serviço e não tivesse que nascer 30x tinha corrido com eles. acreditas que a cena do não-destruímos-as-disk7s é um acto de coragem do vidal jr. e que não tem respaldo do ex-presidôncio, que a mana foi nomeada achadeira geral para quê? que somos todos parvos e engolimos as tretas do ar-de-busto? confissões assinadas só quando lhe apertarem os timtins e mesmo assim a resposta deve ser encravada com foi a permuta da coelha, as acções bpn, os empréstimos do bes à filha e genro para comprar farmácia e barracão atlântico, mais bué da cenas que nos escapam e os espêssos e manhólas passam ao largo.
    http://zap.aeiou.pt/juiz-informou-cavaco-de-escutas-ao-genro-no-caso-face-oculta-128712

  4. só mais uma coisa. porque é que o processo do marquês todas as semanas tem uma pista nova e todas encravam? só há uma explicação, esbarram nos interesses da direita e portanto não se fala mais nisso. qualquer investigação é contraproducente quando aparece o primeiro direitolas que pode comprometer o esquema e atingir o bolicoiso. é um fartote de rir cada vez que estes melros chamam a comunicação social ou passam ao ataque, soa a chocho, enterram-se na merda que montaram e ainda temos que os gramar nos próximos telejornais a desdizerem o que disseram, fora os interpretadores oficiais avençados na comunicação social tipo lena de matos & quejandos.

  5. yah meu, o juíz das garantias manda bocas na televisão sobre a culpa dum arguido para o qual ainda não justificou a prisão preventiva e tu preocupado com o papel 35 linhas que embrulha o estado de direito que só respeita as liberdades e garantias da direita. és burro ou gostas fazer de parvo?

  6. ouve lá ò abrunho! conheces ou ouviste falar da transcrição de alguma escuta feita ao cavaco? mas todos os dias tens conhecimento e ouves falar de escutas ao sócras. se era o cavaco que andava a ser escutado, como é que explicas isto?
    o mal do sócras foi acreditar que governava um estado de direito e que podia falar livremente ao telefone, enquanto o outro palhaço presidia um estado totalitário e usou as prerrogativas do cargo para fugir às responsabilidades e perseguir adversários políticos. é o medo de que fala o limonadas.

  7. Não sei se o Ignatz se está a esticar demais, mas sei de que bandas têm vindo os esticões sistemáticos ao estado de direito. Se os sindicatos da justiça andavam activos porque lhes encomendavam os serviços ou porque estavam a sonhar com a ditadura do magisteriado, também não sei. Mas sei que estou farto de justiceiros parciais, chorões, incompetentes e tiranetes que se consideram acima da plebe do restante funcionalismo público e das próprias leis por que deveriam zelar.

  8. Entrementes, hoje, o Manhócas, orgão por excelência da investigação jornalística de qualidade, sempre em cima do acontecimento, chocantes revelações de há nove anos, em títulos garrafais: «José Boal Paixão [quem?] usou carro de empresa pública ao serviço de Adelaide Monteiro». Foi a investigação do dia, por Tânia Laranjola.

  9. Não sei porquê mas aquela parte da conversa do juiz dos direitos e garantias sobre a sombrinha de chocolate da Regina que lhe ofereciam pelo Natal fez-me lembrar o célebre sketch dos Quatro Remediados do Yorkshire, dos Monthy Python (aqui representado ao vivo em 2014):
    https://www.youtube.com/watch?v=wgsdSOhW1mU

    Depois da fabulosa entrevista do modestíssimo (ex-super) juiz, palpita-me que vamos ter brevemente os sindicalistas do MP da escola Palma (aquela das escutas aos cartões de crédito dos partidos suspeitos) a explicar ao povo que quando eram pequeninos a única coisa que lhes davam pelo Natal era uma estalada (nos outros dias davam-lhes duas)…

  10. É a campanha terminal dos indigentes morais envolvidos no processo da vergonha.
    São os ascetas vampiros aspirantes a salazares de botas rotas comendo ovos produzidos nas capoeiras de São Bento em final de ato.
    Gente medonha, invejosa e despeitada que Deus nos livre de terem o poder de nos prender nas masmorras saudosas duma pobreza obediente ignorante e assustada.
    Esse tal palma é bem lembrado
    Espumava descontroladamente. Medonho.

    E o presidente mais popular de sempre só lhes pede contenção.
    Estranho não lhes exigir que cumpram a Lei como compete a quem jurou defender a Constituição de Portugal.
    Tudo muito espesso e manhoso.

  11. PROFECIA: Dada a imposibilidade de arquivar o Marquês sem mais delongas, à míngua de acusação minimamente coerente e verosímil e em presença de abundantes garantias oficiais de montanhas de provas de não-se-sabe-bem-o-quê (mas vai ter de se saber), repetidas um sem número de vezes, primeiro em vias de consolidação mais que certa e redundante, e depois consolidadíssimas, é evidente que no dia 15 vamos ter das duas, uma: ou um novo truque à margem da lei para prolongar prazos, a coberto de provérbios populares, solidariedades corporativas e murmúrios suaves de apoio mediático, ou uma acusação baseada em falsos óbvios, mexericos, processos de intenção e mentiras chapadas, com toda a robustez do castelo de cartas do vergonhoso processo Casa Pia.

    SINTOMAS: É interessante observar os sintomas discretos que se vão notando, aqui e ali, no comportamento das celebridades mediáticas. O super-presidente da república e amigo público número um recomenda desde já o silêncio aos juízes com tendência para as argoladas reveladoras da miserável justiça que temos e da falta de qualidade dos pedintes que a ministram, e o auditor extra-judicial de escutas — passe o pleonasmo — Pacheco Pereira já fez votos, na última Quadratura do Círculo, de que se arrumasse rapidamente o assunto, fosse como fosse, ou seja com ou sem arquivamento, para não se falar mais no assunto. O que lhe interessa, ao que parece, não é que o povo se possa debruçar demoradamente sobre as garantias de justiça que lhe foram servidas e o incumprimento da lei, e sim que a cortina de silêncio desça rapidamente e o candidato a tirano José Sócrates seja conduzido a casa, a São Tomé ou à fogueira, sem mais problemas.

    Na minha modesta opinião, todos devemos fazer o possível por que os verdadeiros processos Marquês e Casa Pia comecem agora.

  12. Ó Meireles

    Mas acontece que o “candidato a tirano” não está pelos ajustes. Temos pena !
    O homem não morreu, é dos que tem 7 vidas e ainda só gastou a 1ª, portantos …
    E não adianta vir o Presidente do Supremo Tribunal da Injustiça berrar contra o Tribunal Europeu que é “uma espécie de 4ª instância de recurso” ó coisa intolerável que “tem de acabar” porque já não vai a tempo, mais uma vez, temos pena !
    De modos que o Manholas já vem dizer que só lá para Fevereiro … mas para mim o Alexandrino já lhes veio fazer o favor de se meter a jeito para ser fritado no tacho com azeite a ferver … e vai UM…
    Mas consta (fonte Manholas, visita de Pinto da Costa a Évora) que Sócrates juramentou também o procurador …
    E depois há o mandante, o Cavacoiso, e os seus fiéis escudeiros …!!!
    Lamento desapontar o Pacheco Pereira mas isto vai ter de durar …

  13. Esqueci-me de acrescentar: «e pelo caminho, mais poeira a caminho dos nossos olhos»:
    http://observador.pt/2016/09/12/conselho-superior-da-magistratura-vai-analisar-entrevista-de-carlos-alexandre/

    Se calhar vão procurar inspiração neste manual de direito que já foi invocado a propósito das cabras e cabritos («uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto»?):
    http://www.fraseseproverbios.com/proverbios-portugueses.php

    Claro que nem todos são iguais, mas como é que alguém pode confiar na justiça que temos, perante a total incompetência, senão mesmo criminalidade às claras, de tantos pedinchões ressabiados, retorcidos e oportunistas que passam por juízes de direito e procuradores da república?

    Alguém sabe do estado da investigação — se alguma — sobre as fugas estratégicas de informação e os julgamentos populares conduzidos por procuração mediática? Não há nenhuma pista, apesar de os suspeitos se contarem pelos dedos de uma mão sem polegar nem mindinho? As escutas estão mesmo fechadas dentro de um cofre à prova de procissões?

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