Um esgoto transbordante

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TOCAR NA IMAGEM PARA LER

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Em Portugal, vigora uma tradição – europeia, ocidental – que confere à profissão de jornalista direitos e deveres especiais. Com a revolução de Gutemberg, século XV, a comunicação social ganhou tecnologias industriais e torna-se um espaço de violenta tensão e opressão política. O poder da palavra passou a assustar cada vez mais os que detinham a palavra do poder. À crescente facilidade técnica para reproduzir e publicar em grandes quantidades, correspondeu uma crescente censura que começa por ser de origem religiosa, intensificada pela Inquisição, e que rapidamente virá também das monarquias. Nos séculos seguintes, acompanhando os triunfos do iluminismo e do liberalismo, a que corresponde um inerente enfraquecimento das forças religiosas e monárquicas, não só a imprensa se constitui como fenómeno sociológico, político e cultural ubíquo como passa a ser reconhecida como manifestação da liberdade do “povo” ou do “cidadão”. A Revolução Americana e a Revolução Francesa, entre outras ocorrências, consagram a figura da “liberdade de expressão” como um valor civilizacional incontornável. As peripécias que se seguiram até aos nossos dias, os avanços e recuos nas liberdades jornalísticas ao sabor da História, não alteraram o essencial: temos querido viver num regime onde os jornalistas tenham a capacidade de descobrir autonomamente factos/informações/notícias de interesse público. Ou seja, não concebemos uma vivência republicana e democrata em plenitude política e cívica sem a existência de uma imprensa livre. É daqui que vem a grandeza de um romantismo heróico que continua a despertar vocações – apesar dos cínicos e dos pulhas que, inevitavelmente, usam essa liberdade para perverterem o ideal que a justifica.

Também desde cedo se percebeu que o poder de expressar mediaticamente uma opinião livre podia ser usado em prejuízo de outros bens morais e jurídicos. Publicitar uma mentira, dando-lhe uma força, rapidez e alcance que não seriam imagináveis sem os meios e as técnicas da comunicação social, pode ter efeitos devastadores e graves implicações individuais, sociais e políticas, inclusive para a segurança nacional dos Estados. A problemática da regulação e da auto-regulação acompanha a evolução do estatuto de jornalista e do vasto quadro legal desenvolvido ao longo dos séculos na procura dos compromissos entre a liberdade de uns e de outros com a responsabilidade de todos. O ponto a que se chegou, nos Estados de direito democrático, confere à prática do jornalismo uma categoria de protecção superior tanto no acesso a fontes como na capacidade para fazer respeitar a sua condição autoral. Resumindo: diz-me como trabalham os teus jornalistas, dir-te-ei qual é a liberdade da tua sociedade.

Pés na terra. No final de Agosto, o esgoto a céu aberto publicou em dois dias seguidos os “direitos de resposta” acima exibidos. Ainda antes de irmos ao seu conteúdo, repare-se nestas curiosidades. Não mostram a data em que foram escritos, o da Octapharma aparece no seu canal digital mas a sua leitura apenas está acessível para assinantes, o do Grupo Lena nem sequer foi publicado digitalmente, na edição em papel o texto da Octapharma aparece bem destacado na página com grafismo de apoio e publicidade por baixo, na edição em papel o texto do Grupo Lena aparece ao fundo da página sem grafismo de apoio e tendo por cima uma notícia relativa a suposta corrupção ligada ao combate aos fogos, ambos não trazem associado qualquer declaração editorial a justificar as notícias protestadas ou a anunciar futuras informações que aumentem a sua verosimilhança ou as comprovem. Porquê estas diferenças? Não faço a menor ideia, se alguém conseguir explicar agradecerei a lição.

O conteúdo respectivo é semelhante, consistindo nestas três declarações não contestadas pelo pasquim:

– O CM não contactou o Grupo Lena nem a Octapharma antes de publicar as notícias em causa.
– O que o CM noticia é pura invenção, não existindo factos que a sustentem.
– O CM viola a Lei e a deontologia do estatuto que lhe permite a actividade jornalística com fins comerciais e/ou outros.

Nada de novo, certo? Certíssimo. Mais vexante do que a impunidade com que um jornal actua persecutoriamente contra alvos seleccionados mediática e politicamente é a conivência de toda a sociedade portuguesa com esta prática. Os pares na imprensa não mostram qualquer incómodo com as violências destes seus camaradas, e os partidos dividem-se entre os que aproveitam o trabalho sujo e os restantes que não tugem nem mujem e que igualmente aproveitam a porcaria de acordo com as agendas próprias. Tem interesse reflectir na ausência de semelhante perversão da missão jornalística à esquerda, algo que a existir permitiria constatar como igualmente se faria aqui tal denúncia. Porém, mais interessante é reflectirmos no que revela das nossas elites partidárias e sociais esta cumplicidade entre ex-ministros, juízes, líderes partidários e futuros primeiros-ministros, como no caso de António Costa e provável caso de Fernando Medina, com um órgão de comunicação social cuja agenda é a conspurcação da democracia ao serviço do lucro e o uso da liberdade outorgada pela Constituição para violar direitos de terceiros. Como é que estas pessoas adormecem sabendo onde estão a deixar o nome? Adormecem em paz no que a esse aspecto das suas vidas diz respeito, né? Pois, eis a mais terrível das suspeitas.

17 thoughts on “Um esgoto transbordante”

  1. Ena, estou sem tempo mas li algures a abrir que a Revolução Industrial é do século XV (eu lembro-me de ler qualquer coisa sobre isso, um pouco depois o New York Times era criado pelo Cristóvão Colombo e pelos holandeses e, nessa altura, Correio da Manhã era vendido a dois cruzados sorte de quem o conservou por herança familiar e que teve a sorte dele ser considerado hoje um incunábulo… mas amanhã leio o resto, prometo.).

  2. ò érica! deves sonhar com incunábulos impressos a vapor. fala com o sá leão que é gajo para fazer um filme disso.

  3. Bem pregas, Caro Valupi, mas o portunismo politico-partidário prevalence sempre. Ninguém está interessado em mexer nas porcarias em que se transformaram a comunicação social e a justiça. Quem tem poder para mudar as coisas não tem consciência da necessidade e da urgência dessa mudanças porque ainda não foi atingido por elas e/ou não quer deixar de colher os benefícios resultantes das desgraças dos (adversários) que são perseguidos pelos jornalistas/magistrados e magistrados/jornalistas. Os que têm consciência da necessidade dessas mudanças já não têm poder paras as desencadear ou então já não têm credibilidade para o fazer. E, assim, se vai conspurcando a República até à destruição o estado de direito democrático.

  4. apetece-me perguntar ao universo, e pergunto, se a mediamorfose de Roger Fidler previa a parte em que deixar o nome no esgoto traz paz à alma. depois, ocorre-me ter a paz a mesma subjectividade que a verdade. porca miséria. :-(

  5. Valupi, até um analfabeto como o Ignatz consegue perceber a salganhada que é todo aquele primeiro parágrafo que acabei de ler agora. Fico por aqui, mas não deixo de sublinhar que para ti que te assinas e que dizes que as Revoluções Americana e Francesa foram “ocorrências” como eram antes, sei lá, os acidentes rodoviários registados por todas as Brigadas de Trânsito deste mundo (o Ford T nasceu com essas revoluções, certo?), porque o segundo parágrafo nem se percebe do que estás a falar.

    [Eu não sei como é que está formatada a tua cabeça mas, como diz o poeta para si próprio, ó homem ama o Longe e a Miragem, os abismos, as torrentes, os desertos e, não, não vás por aí.]

  6. Eric, a importância que tu te dás não encontra na minha pessoa a audiência que mereces e tão afanosamente procuras. Mas podes continuar a mandar postais pois aqui o serviço é gratuito.

  7. Valupi, desculpa ler-te de raspão e humildemente comentar por vezes as tuas atoardas.

    [Sobre uma alegada ufania e ainda mais sobre uma alegada audiência, como diria o outro, (s)ocorro!]

  8. Vivemos num sistema pós-democratico de impotência politica generalizada. No nosso caso, o voto não serve para alterar muito, estamos presos entre a boa vontade europeia e as suas regras e as impossibilidades internas com as suas limitações.
    Aqui ao lado, nuestros hermanos crescem mais que os outros sem governo há quase um ano e a Bélgica passou por uma fase semelhante sem qualquer problema. Se a politica ficar reduzida a quatro ou cinco indices, crescimento, defice, desemprego, divida, etc.. para que serve exactamente um governo? se não para mudar estruturalmente e equilibrar o poder dentro de uma sociedade? Não existe já um nível de integração a nível europeu e global (superestrutura) que torna o crescimento e outros factores mais dependentes de factores exógenos e variáveis externas? O risco de uma sociedade “apolitica” movida apenas por motivos mesquinhos e de ódio conforme se vê em todo o lado é o resultado da falta de capacidade de transformação das sociedades pela politica.

    Ontem à noite, no meio do ténis, parei um pouco pelo debate na 3 no preciso momento em que Rui Tavares defendia a falta de pensamento estratégico de Costa para o País e a inacção em varias áreas. Caracterizou o Costa tal e qual como um Hayek à esquerda, sem intervenção na economia e reformas muito micro. Vai demorar tudo muito tempo porque como todos sabem estas coisas demoram tempo. Sim, mas onde apostar? Quais os sectores? Em que termos? Um PM ou qualquer gestor médio não tem que ter visão e horizontes? E não são as apostas estruturais com financiamento público que geram investimento? (Agora já começam todos lentamente a concordar com o obvio depois de 4 anos de irrealismo e seguidismo da receita de direita)
    A defesa de tudo e mais alguma coisa pelo simples simbolismo de ser de esquerda explica também que o Livre não passava de uma coordenada de gps politico, um mero posicionamento, um sítio sem conteúdo.

  9. Joe, parafraseando a malta do BE que neste particular vai directamente ao cerne da questão (antecipando-se à tua conclusão): quem é o Rui Tavares?

  10. o rui tavares se fosse chamado a fazer mudava de opinião e é isso que ele quer quando diz essas tretas fora de tempo à espera que o relógio acerte. se não acertar, tamém ninguém lhe cobra por isso.

  11. O Rui Tavares é uma pessoa com muito valor mas com pouco espaço politico. Quero que o BE se foda. Genericamente sou de esquerda mas não tenho clube. Free agent.

  12. Inácio, fiz-me entender mal. O Tavares defendeu o q (não )está a ser feito pelo Costa mas de uma forma que parece a receita de Hayek, nada fazer q o mercado por si só dará sinais de transformação e isso leva o seu tempo. Eu e q discordo e acho q o governo se está lá deve ter uma ideia de transformação e modificação do País e explicita-la . Parecia os tipos do Paf na legislatura anterior a defender o Passos. Acho q ao Governo falta um horizonte para lá do acordado com o pc/be, apesar das dificuldades. Mais definição.

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