Os putos do Bloco Central de Interesses

«Vai haver muito boa gente em Portugal do PS e do PSD interessado em que não se investigue nada e que não se esclareça nada, porque evidentemente que há responsabilidades do chamado bloco central de interesses da gestão da Caixa, sobretudo nos anos entre 2005 e 2010.»

Marques Mendes, 31 de Agosto

«O Presidente da República considerou este domingo que na política portuguesa há actualmente duas visões em confronto, e que "isso é bom porque podia haver um pântano, um bloco central de interesses", mas que o povo está distendido.»

Marcelo Rebelo de Sousa, 4 de Setembro

«O Presidente da República quer uma reforma da Justiça que parta dos profissionais do setor e não dos partidos. Pela primeira vez, uma iniciativa de cariz político entrega aos juízes, procuradores, advogados, polícias, oficiais de justiça a tarefa de se entenderem para mudar o que há a mudar e não a um abstrato legislador político que comporta em si a indústria das vírgulas e alçapões da lei.

A ideia seria boa se não fosse um presente envenenado. Se não se entenderem – o mais provável –, o poder político fica totalmente legitimado para fazer o que quiser. Para cortar a direito. Como gostariam algumas luminárias do Bloco Central dos Interesses que assim fosse.»

Eduardo Dâmaso, 5 de Setembro

«O pior que pode acontecer é a sedimentação de um bloco central de interesses que acabe por inviabilizar o que é preciso fazer na Justiça. É precisamente contra esse risco que os parceiros sociais da Justiça têm uma palavra a dizer, levando mais longe experiências de anos de trabalho e de reponderação conjunta. Sabendo que, a não ser aprofundada essa experiência comum, a afirmação do bloco central de interesses será inevitável, bloco que terá todo o empenho em que nada que lhe não convenha mude.»

Marcelo Rebelo de Sousa, 7 de Setembro

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«Com o PSD acabou o Bloco Central de interesses.»

Relvas, 18 de Abril de 2010

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Temos um Presidente da República que partilha com comentadores alcoviteiros e capos da indústria da calúnia a mesma visão de Portugal, o tal país dominado por um “bloco central de interesses” que verga a Justiça de montante a jusante, garante esta rapaziada. A sinistra entidade consegue impedir investigações parlamentares e reformas no Estado apesar de a sua existência e modus operandi serem do conhecimento das autoridades políticas, judiciais e policiais. Se nos deslocarmos um bocadinho para a esquerda, ou se o alvo for atingir o PS pela direita, descobrimos que a coisa é igualmente eficaz a martelar negócios fraudulentos entre o Estado e particulares. Aparentemente, não se pode fazer nada de nada contra o “bloco central de interesses” a não ser cerrar fileiras, como pede Marcelo aos coitados dos magistrados e advogados, e lutar desesperadamente pela salvação.

Uma das chatices de não existir imprensa em Portugal é esta de não haver um jornalista – um que fosse – que obrigue Marcelo a explicar, fundamentado-as, as suas palavras. Quem quer o quê? Quem não quer o quê? E porquê? Talvez os jornalistas portugueses, e quem lhes paga o salário, não achem que o assunto mereça que se perca tempo com ele. Afinal, as matérias da Justiça são chatas como o raio que as parta. Idem para as da corrupção que possam atingir algum amigo dos jornalistas ou de quem lhes paga o salário. Ou talvez esses mesmos jornalistas, e esses mesmos que lhes pagam o salário, perfilhem da mesma impotência do Presidente da República, dos partidos, da sociedade, do Marques Mendes e até do Dâmaso do esgoto. Todos unidos no gozo com que usam uma expressão que, até ver, não quer dizer rigorosamente nada de nada. É puro artifício retórico, manobra de prestidigitador, levando o olhar do público para um lado com uma das mãos enquanto a outra trata de esconder a moeda.

Existe vida económica, social e política sem “interesses”? Devem os “interesses” da sociedade ser planificados e fiscalizados pelo Estado, de forma a evitar que se criem monstros deste calibre? É ilegal ter “interesses” iguais aos de terceiros e tal gerar aproximações e alianças? Ou a simples existência de qualquer coisa que possa ser nomeada como um “interesse” deve acto contínuo produzir legislação para ser criminalizada e entrega em mão da gatunagem ao juiz Carlos Alexandre? A hipocrisia reinante nesta questão leva-nos para este grau de estupidez e absurdo.

Marcelo, com 50 anos de carreira brilhante como rock star da oligarquia no tal país dominado pelo “bloco central de interesses” não se sabe desde quando, que muito provavelmente se fartou de ganhar dinheiro a servir essa gente que agora abjura ou simula abjurar mas que não identifica, anuncia para quem o quiser ouvir que o Estado de direito neste quadrado à beira-mar plantado é uma anedota. E a malta ri-se; ou nem isso, apenas boceja. Face ao poder desta anestesia, desconfio que o “bloco central de interesses” é constituído por miúdos da pré-primária.

9 thoughts on “Os putos do Bloco Central de Interesses”

  1. António Vitorino que não resistiu à Sisa da datcha de Almodôvar mas que resistiua tudo porque é super-resistente como o Dr. Miguel Relvas deve entrar por aqui, don’t forget.

  2. A existir algum bloco central de interesses, gente que se dá com Deus e com o Diabo e que fala o que pensa que o povéu quer ouvir, dificilmente encontra melhores representantes, em Portugal, do que os autores citados. Tem graça falarem nisso numa altura em que o resultado das eleições há muito tempo não dava tanto poder às franjas do espaço político.

  3. A entrevista/lavagem do Alex vai entrar para os anais da psicanalise.
    Frase a reter: “tomei oleo de figado de bacalhau numa bicha em pirilau”

  4. – o xôtor come?
    – deixei de almoçar fora por causa dos microfones escondidos nos garfos, agora como espartanamente em casa.

  5. – Alguma vez se arrependeu de alguma decisão que tomou ?
    – Não, … pois assim …alguma vez que eu tenha dito para mim que errei porque depois me aconteceu isto ou aquilo …não, nunca !!!

    Pudera, sabemos bem que o sôtor pode errar à vontade e que nunca lhe acontece nada, e que é justamente por isso que nunca se arrepende, até porque isto de ter consciência é só para alguns espécimes que vagueiam por outras profissões, como por exemplo a minha, em que quando erramos podemos acabar a prestar contas perante um dos da classe dele, e com a carreira e a vida lixada.
    Mas ele não, como errar nunca teve consequências, o sô ter Juiz acha que nunca errou … e portanto nunca se arrependeu de nenhuma decisão tomada!
    É pá, digam lá se não está na altura de MUDAR ISTO !
    Que é o Presidente Celinho acha disto, hein ?

  6. Entrevista patética. Ridícula.
    Por exemplo, um juiz a publicamente fazer insinuações subreptícias mas evidentes sobre processos que tem em julgamento. Um juiz a levantar suspeitas torpes sobre escutas a si próprio, como anteriormente já tinha feito sobre a morte do seu cão, procurando atingir, por sugestão, os envolvidos nas suas decisões.
    Depois de ver o habitual choradinho por mais dinheiro para as corporações do sistema, rica maneira de começar o ano judicial.
    Quem zela pelo regular funcionamento das instituições democráticas tem aqui uma bela oportunidade de não mostrar indiferença à sua degradação confrangedora. Não a aproveitar significa que estão aquelas bem entregues.

  7. Não vi, e se o post da Estrela Serrano é informativamente fiel nada de novo “aconteceu” durante a entrevista à SIC sobre as idiossincrasias do super-super do TIC que não foosem já conheidas. Nomeadamente, aflige o aparente desprezo com que se refere à necessidade de complexização da sua arte, à complementaridade ou, pelo menos, a alguma actualização bibliográfica e teórica que as pós-graduações, os workshops e/ou o diálogo intelectual com os outros permitem (no campo dos direitos fundamentais, por exemplo). Sobre a sua elasticidade mental vi, algures, umas imagens pareceram-me que numa promo (?) em que o tipo citaria Kant sobre a moral (outro que, tal como o Henrique Monteiro, diz que quem lhe tira o Kant tira-lhe tudo). Parece-me que canhestramente, o que não estranharia porque exemplo atrás referido é ele próprio um mau sinal.

    [Nota, aos interessados. O post da Estrela Serrano surge cheio de erros, e não apenas de edição. Conheçce nomes?, por exemplo, que permite aos leitores fazer a arqueologia da coisa: depreende-se que a postante escreveu, primeiramente, conheçe e que, depois, corrigiu o verbo mas que ficaram grafados ambos. Ora, confesso que até tive necessidade de agora olhar para o teclado para ver onde estão as teclas respectivas no QWERT. Longe, e bastante.]

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