Quem diria que o desafio sério, interno, à “Europa” chegaria em força, não com as bandeiras da extrema-esquerda (sempre risonhas, mas utópicas, datadas ou descredibilizadas), mas com as da extrema-direita (e tirem o “risonho” da equação). Ou seja, com ideias mais extremadas à direita do que as da tradicionalmente “direitista” Alemanha e a sua CDU, por tantos odiada durante a última crise, e com bastas razões. A perplexidade actualmente é que os dois movimentos anti-Europa se aproximam, somando contestação à contestação, e portanto números e alarido, mas também criando maior confusão e indefinição, por, teoricamente, deverem ter motivos diferenciados.
Na prática, menos intromissão de “Bruxelas” (como se “Bruxelas” não fosse o Conselho dos chefes de Estado e de Governo eleitos dos diferentes países), menos controlo político e judicial, menos tratados orçamentais, menos controlo financeiro ou mesmo fim do euro, da União Europeia, mais independência são as reivindicações gritadas por uns e por outros! Ambos dizem “não querer esta Europa”. Por cá, sei que o PC não quer Europa nenhuma e nunca percebi se a Marisa Matias quer mais Europa ou menos Europa e, em Espanha, não sei se o Vox quer mais ou quer menos ou ainda não pensou nisso. Tal como em França, as redes sociais materializadas em coletes amarelos não querem nada do que existe, querem tudo e o seu contrário, que é o mesmo que dizer que não sabem o que querem. Ou antes, há quem saiba: a Marine le Pen, por exemplo, quer chegar ao poder. E a Rússia acha que é uma óptima ideia.
A União tem vantagens de peso face ao histórico de conflitos no continente. Toda a gente que passou por uma escola sabe disso. As fronteiras, no mundo actual de enorme mobilidade e facilidade de transporte, são um anacronismo. Mas o novo dado da “islamização” da Europa devido à forte imigração muçulmana (a que já está instalada e a que pretende vir) veio suscitar um compreensível repúdio pelas políticas de abertura total e, queiramos ou não, tem sido um bom fantasma para se agitar a par do nacionalismo. No entanto, vemos nas televisões que a maior parte dos incendiários de automóveis e partidores de montras em Paris são jovens muçulmanos filhos dessa mesma imigração que buscava uma vida pacífica e melhor. Por fim, a crise recente e as consequentes austeridades ainda fazem sentir os seus efeitos nas classes média e média baixa em alguns países europeus. A juntar à confusão, penso que a Alemanha, tanto a mais como a menos extremista, quer ainda coisas muito distintas de todos os outros países em matéria europeia, dada a sua posição dominante. E depois há o euro, que tem que obedecer a regras. O euro, que nenhum país, nenhum povo, tem coragem de abandonar de tão prático e simbólico que é.
Mas sobre os dirigentes nacionalistas, que cavalgaram a crise migratória, leio (aqui) que Matteo Salvini, o populista/nacionalista líder da Liga do Norte italiana, agora vice-primeiro-ministro de Itália e ministro do Interior, se vai encontrar com o líder do partido do governo polaco para se aliarem e concertarem forças no ataque às instituições europeias já nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Ambos se dizem eurocépticos, mas, ao contrário dos “snobs” britânicos, não querem sair da UE (compreende-se: questão de fluxos de fundos). O que querem, aparentemente, é conquistar uma grande maioria no Parlamento Europeu e certos lugares-chave na Comissão para, alegadamente, alterarem as políticas actuais, consideradas demasiado impositivas. Salvini, o populista, tem até vontade de presidir à Comissão Europeia, para, presumo eu, ficar a cumprir as instruções de um bando de nações que se odiarão mutuamente e cortar com o que há de comum e mais conseguido actualmente, incluindo o ambiente e a livre circulação (já a agricultura, aguardo notícias do nacionalismo nesse ramo). Seria um “concerto de nações” lindo de se ver.
O polaco não gosta que a Europa o obrigue a respeitar o tratado de adesão que assinaram, que contém regras sobre o Estado de Direito, a democracia e outras, descaradamente violadas pelo seu governo, cada vez mais ditatorial e que está até a ser investigado por essas violações. Mas não existe euro na Polónia. Nem portos de entrada de migrantes. Pelo que o problema não é exactamente o mesmo que o da Itália. Existe um exemplar parecido na Hungria, surgem outros noutros países, mas desconheço se querem constituir um trio, um quarteto ou um quinteto de eurocépticos. Como as coisas estão, talvez nem haja necessidade de alianças. O italiano quer liberdade monetária e financeira, esquecendo-se que a sua moeda é o euro e que é o euro que a população quer e, não sabendo que volta dar ao país para o tirar da estagnação, se é que isso verdadeiramente o interessa, como populista que é, acusa as instituições europeias de serem a causa do fracasso nacional e quer ir para Bruxelas governar a Itália. Estamos mesmo a ver. O que o homem sabe é que não quer migrantes, e bem martelou essa tecla até conquistar o poder. Mas não querer migrantes não chega para definir melhores políticas monetárias e económicas a nível europeu que beneficiem o seu país.
Também há Putin, o potencial dinamitador da União, de quem Salvini gosta e de quem Kaczynski e os polacos em geral nem querem ouvir falar. Um ponto de discórdia, portanto.
Em suma, os cenários que se perspectivam não são risonhos para o projecto europeu. Irão os chamados “eurocépticos” conseguir dominar o Parlamento e as restantes instituições? Que raio de Europa teremos nesse caso e, se tal não vier a acontecer, que acontecerá se a própria direita europeísta, que tem dominado em França, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, enfim, nos países fundadores, e também no PE, sair fragilizada do processo de estraçalhamento democrático em curso e se dessa fragilização não resultar um reforço da social-democracia europeísta?
Não sabemos. Será difícil voltar atrás na Europa sem um sério conflito. Será isso que gente como o Salvini ou a Le Pen procura, ou fechar as fronteiras e admitir regimes ditatoriais no espaço europeu fará toda a gente feliz e europeia?