Tancos também é fogo posto

 

Vai uma festança na direita com o caso de Tancos. Para além dos desocupados do costume, mas ansiosos pelo pote – Assunção Cristas, CDS em geral, PSD-Rio e PSD-Observador – ele são também os órgãos de comunicação social, como o Expresso ou hoje o Público a procurarem uma guerra entre o PM e o PR com base num suposto concurso de ansiedade entre um e o outro… Ao mesmo tempo vemos também Marcelo a rebaixar-se ao ponto de se explicar perante a Sandra Felgueiras e as suas reportagens dramáticas, “série B”, sempre superficiais, em 98% dos casos orientadas contra o Governo. Isto, claro, não é festa nenhuma e eu nunca pensei ver Marcelo nesta posição. Os maldosos dirão que o Governo sentiu os calos pisados bastas vezes pelo Presidente, mas, sinceramente, não acredito. Vingança através da Sandra Felgueiras??

 

Recapitulemos. Um certo material de guerra foi dado como desaparecido no ano passado. Passados uns meses de alarido da oposição a pedir demissões destes e daqueles (e estão com sorte por não terem exigido eleições), o material reapareceu (embora com faltas) após uma operação da PJM (à altura a responsável pela investigação). Perante um e outro acontecimento, surgiram muitas perguntas, a maior parte das quais mantêm a sua pertinência.

  1. Sobre o roubo

O material desapareceu como? Desapareceu mesmo? Se sim, quem o retirou do paiol? Quando exactamente? Como é que alguém se lembra de roubar material de guerra sem ter o seu escoamento garantido? Houve roubo ou não?

  1. Sobre a recuperação

Implicou a colaboração e o encobrimento do “ladrão” ou não? Havia um ladrão? Se houve encobrimento do ladrão, o Ministro da Defesa foi informado? Não saberiam os militares da PJM que lhes seria fatal mencionarem o encobrimento do ladrão ao comunicarem a recuperação do material ao ministro? O que é que alguns intervenientes militares pretendem agora? Transmitir a ideia de que o Governo estava com eles contra a PJ (entretanto encarregada das investigações)? E quem está a envolver o PR? Tem o actual governo algum interesse em perturbar o geral bom entendimento com o PR? Enfim, são perguntas e mais perguntas, mas que não podem levar a que se perca o principal foco – o roubo. Verdadeiro ou fictício.

 

E chega a comunicação social.

O aproveitamento político destes mistérios foi descaradamente assumido pelo Expresso e, hoje, pelo Público: ambos visam minar as boas relações entre o Presidente da República e o Governo ao deturparem por completo as declarações de António Costa. Basta olhar para o que ele disse ontem e para as interpretações abusivas dos títulos.

 

O senhor Presidente da República, aliás, não se tem cansado em expressar publicamente a sua ansiedade e o Governo, naturalmente, deve ser mais contido em expressar a sua ansiedade, mas não é menor. Acho que ninguém compreenderia em Portugal é que, relativamente a este crime, não se chegasse ao final da investigação punindo quem deve ser punido e esclarecendo tudo o que deve ser esclarecido”, salientou António Costa.

Para o primeiro-ministro, “não é possível procurar-se criar uma névoa política sobre aquilo que é a actividade das autoridades judiciárias”.

Mas, neste ponto, António Costa foi mais longe, criticando “teorias conspirativas bastante absurdas, como procurando ver qualquer confrontação entre o Presidente da República e o Governo sobre esta matéria, quando, quer um, quer outro, têm tido uma posição absolutamente convergente desde o primeiro dia”.

Os títulos, depois de “trabalhados”:

 

Tancos: Costa sugere a Marcelo que contenha “a ansiedade” (Expresso)

Tensão entre Marcelo e Costa sobe por causa de Tancos (Público)

(este título, lê-se depois na notícia, tem por única e exclusiva “fonte”, pasme-se, as bocas do Marques Mendes na SIC… e o suposto mal-estar da parte de Marcelo é automaticamente deduzido da falta de resposta de Marcelo a uma pergunta de um jornalista sobre isso)

Ou seja, atira-se a tocha e depois vende-se ao público que há fogo. Eles divertem-se e, mais importante ainda, se for o caso, vendem mais uns exemplares ou ganham mais uns assinantes. Mas não deixam de estar a fazer um nojo de jornalismo/encomenda.

11 thoughts on “Tancos também é fogo posto”

  1. Penélope, esqueces uma pergunta que a meu ver é fundamental para perceber esta novela: quem fez chegar a noticia do “desaparecimento” à comunicação social ? E ainda esta: quem foi que avançou com a história do “buraco na vedação” para explicar o “roubo” ? É nestas questões que está a chave.

  2. Claro que existe uma estratégia da extrema direita para derrubar a “geringonça” e,
    para tal não olham aos meios usados e eventuais danos colaterais, a sequência é
    coincidente, entre os maiores fogos muitos de origem criminosa, a cereja no topo
    do bolo seria um “assalto” a um paiol militar … a folha para despachar a MAI já es-
    tava meio preenchida, se lhe juntassem o distraído MDN, era meio caminho para
    o descrédito do Governo, obrigando o Presidente Celinho a tomar fortes medidas!
    No último “eixo do mal” e contra a corrente da Impresa, o Pedro Marques Lopes
    que, até se diz de centro direita, abriu o “livro” citando alguns dos nomes envolvidos
    nesta campanha da direita desmiolada e sem programa político, associando-os aos
    movimentos vistos na Europa e agora no Brasil! Claro que, o Ganda Nóia no seu
    papel de “comadre” do comentário atirou com o mau relacionamento entre o Gover-
    no e o Presidente logo, apanhado no ar pelos intriguistas que ganham a vida nos
    meios de comunicação escrita (Expresso e Público) os títulos foram feitos por intri-
    guistas e nãp por jornalistas que, cada vez são menos!!!

  3. Ferra, para chegar a uma explicação precisaria sempre de saber aquelas respostas. Para já apenas sei que os vários incidentes do processo (exemplo: aquela de se produzirem memorandos de operações clandestinas…) são demasiado extraodinários para tudo isto ter sido um roubo convencional de material de guerra ( leia-se: “desvio” interno por encomenda )

  4. Estou com MRocha. A única coisa com interesse no tema Tancos é perceber a forma como uma pintelhice engrena em maningancias mediático-judiciais para se transformar uma peça de combate político-partidário expiatório.

  5. Estranho e ninguem querer saber quem foram os autores do roubo de armamento. estao mais interessados na erosao que o caso esta a fazer na geringonça e agora nas relaçoes do PR e 1.º Ministro. Por esse motivo e facil concluir que o mesmo foi uma manobra orquestrada para por em causa o governo. Tudo tem sido tentado para por em causa este executivo governativo e quem o apoia. Sao manobras nunca vistas anteriormente duma comunicaçao social, conotadas com oposiçao de direita que nao se importa de recorrer a casos dubitos para baralhar e tornar a dar.

  6. Muito bem observado, Penélope! O motivo do “crime” está à vista, bem como quem lucra com ele.
    Resta saber quem mandou atear o fogo, ficando atrás da moita a ver o circo arder.
    Prendam-se os suspeitos do costume?! Nãããããã…

  7. Assim falava Manuel Maria:
    Conta-se que o Comandante do Regimento de Tancos, ao chegar ao regimento um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do paiol.
    Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar o seu armamento.
    Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar passar pela rede do gradeamento com as suas armas, disse-lhe:
    -Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos instrumentos de marte, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito do meu paiol, levando as minhas armas à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo… mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de militar digno e honrado, dar-te-ei com a minha arma fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada, mesmo que o Ricardo Sá Fernandes se venha a armar em tolo de elevada perfídea.
    E o ladrão, confuso, diz:
    -Comandante, afinal levo ou deixo as granadas?!

  8. Uma pergunta que salta nesta fase é como é que é possível a televisão pública manter no ar um programa travestido de jornalismo de investigação como o sexta às nove quando nem jornalismo é? Se algum dia a sensacional Sandra vos bater à porta não esperem pelo direito ao contraditório, algo que nunca deve ter ouvido falar. Aconteceu com uma médica amiga – logo num dos primeiros programas – testemunho que ignorou olimpicamente para poder prosseguir mais convenientemente. Pobre Sandra. Bastava levar o apelido ao psicanalista.

  9. Cópia do P
    Uma pergunta que salta nesta fase é como é que é possível a televisão pública manter no ar um programa travestido de jornalismo de investigação como o sexta às nove quando nem jornalismo é?

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