O comissário e o trabalho doméstico

Fui ver o Governo Sombra de sexta-feira passada. Agora que o Tavares passou a notável, há que ouvir o que diz (engasgada ainda). Sobre o caso da alegada violência policial no bairro Jamaica, que ocupou grande parte do programa e até pôs o Ricardo Araújo Pereira a assumir uma pose seriíssima por longos segundos enquanto defendia a posição do PCP – respeito pelos camaradas – (possivelmente para provar ao Alberto Gonçalves que é mesmo de esquerda, e isto é cómico), dizia eu, o Tavares mostrou-se altamente defensor dos indignados habitantes do bairro. Tão altamente defensor que eu dei por mim a perguntar-me se, fossem estes os tempos do governo de Passos, este homem assumiria assim a defesa dos oprimidos sem exigir saber o que espoletara a desordem local. Muito provavelmente acusaria os habitantes do bairro em geral e os mais inflamados em particular, e ainda a rapariga que filmava, de não quererem sair da sua zona de conforto (no caso da rapariga, a janela). Mas enfim, estamos a falar do que, segundo o Presidente, há em Portalegre e nas televisões em geral: a culpa pode sempre ser do PS, nomeadamente por não controlar os polícias ou pela desertificação do país. Fica a sugestão aqui e ficou a pairar ali.

Ora, mais adiante, o nosso comissário referiu como exemplo de que o elevador social não está a funcionar para os afro-descendentes em Portugal o facto de, no prédio dele nas avenidas novas, as senhoras empregadas domésticas serem todas negras e incluírem mulheres jovens. Ou seja, para ele, 1) a profissão de trabalhadora doméstica é para negras e é aviltante (e aí atenção que ele próprio tem, pelos vistos, uma empregada dessas; por acaso já tive uma ucraniana com curso de contabilista e não moro longe das avenidas novas) e 2) se há mulheres jovens e afro-descendentes a exercerem essa profissão é porque o Estado, o sistema, o que quiserem, mas seguramente os governos PS, não lhes proporcionaram condições para exercerem profissões mais dignas. E nesses bairros então, querem lá saber. Pelo que, sim, há racismo. (?) Mas não na avenida da Liberdade, vá lá.

 

Bom, tirando o poder local da equação, o qual não foi sequer mencionado  (o Seixal é governado pelo PCP/CDU), quanto a isto tenho a dizer o seguinte: não só o trabalho doméstico é uma profissão tão digna e importante como qualquer outra (por vezes mais, como sabe quem tem filhos), como também, ainda mais crucial, é capaz de se ganhar mais do que em muitas outras profissões e com menos impostos. Dou um exemplo ilustrativo muito próximo. Quando vivia em Bruxelas, tinha uma empregada doméstica portuguesa, oriunda da região de Amarante. O filho rapidamente foi trabalhar para as obras como o pai. Porque os dois assim quiseram, dado o desinteresse do rapaz pelos estudos. A filha estava a tirar um curso de educadora de infância e, antes de o concluir, resolveu desistir e ir trabalhar para as casas como a mãe. Espantei-me, mas o espanto não durou muito. Pareceu-me bem claro que a rapariga fez contas e concluiu que ficaria bem melhor financeiramente e não teria de sujeitar-se a concursos nem ao risco de ir parar a algum infantário distante. Portanto, há razões de ordem vária, que não necessariamente a falta de empenho estatal, ou a falta de formação, para que as filhas de afro-descendentes, tal como as filhas de “arianas” puras, trabalhem no serviço doméstico.

 

Em conclusão: nota negativa ao comissário no que respeita à apreciação do trabalho doméstico e ao seu desempenho enquanto (provável) patrão. Somítico. Explorador.

26 thoughts on “O comissário e o trabalho doméstico”

  1. Não vi, não vejo, nem nunca vou ver…
    Entendo perfeitamente a causa das coisas.
    Há muita gente negra que não é empregada/o doméstica, até há gente bem sucedida lá fora, modelos famosos e etc…mas, ainda ontem nos United States (benza-os deus), um actor negro fez um discurso sobre o racismo na “classe” cinematográfica.
    Em Portugal o racismo e a xenofobia está presente todos os dias e não me venham dizer que os portugueses não são racistas e ser um povo admirável que recebe de braços abertos todas as comunidades.

    A filha de uma amiga minha disse: “tia eu não tenho nada contra os pretos (pretos), não sou racista, não gosto que os meus filhos vão para uma escola onde haja pretos (pretos), no fim temos de chegar à conclusão que são doutra classe social”.
    É isto assim!

  2. Não creio que o trabalho doméstico em Portugal possa ser comparado com esse trabalho na Bélgica. Nos países do norte da Europa o trabalho doméstico há já dezenas de anos que é muito escasso e, portanto, muito bem pago. Portugal ainda está longe disso.
    Em particular, não creio que uma empregada doméstica em Portugal ganhe mais do que uma educadora de infância. Especialmente se essa educadora estiver no ensino público, no qual se ganha muito melhor do que no privado.

  3. Oh spin doctor de algibeira, tens de ser muuuuito mais subtil. Essa conversa já cheira a mofo oh “lavouras” ahah Vai comer a sopinha vai…

  4. Ainda gostava de saber quantos portugueses conhecem todos aqueles que agora advogam que os portugueses são racistas. Dizer que quase todos os poderes instituídos em Portugal – e na grande generalidade do Mundo – são racistas é uma coisa e até há vários factos que o comprovam, dizer que os portugueses são racistas é outra totalmente diferente.

  5. Claro que há racismo e é estrutural, aliás o Costa admitiu-o de uma forma muito infeliz.
    Fazer equivaler uma portuguesa em Bruxelas com portuguesas em Portugal sendo que a primeira o faz por uma questão de escolha e não saber nada, ou não querer saber, sobre as possibilidades de escolha das segundas revela um bias primário e uma falsa equivalencia . Há uma suposta esquerda reaccionaria que nadou a agarrar-se à boia do Pacheco que tresanda ao discurso alt right americano.Pois bem, se ser pobre é mau, ser negro (ou cigano, ou homossexual…) e pobre é bem pior e ser rico e negro não muda nada. Money can’t buy love or respect.

  6. O problema está na educação e cultura dos cidadãos em questão e na forma como exercem a cidadania, independentemente da sua cor de pele. Porém, as condições materiais e culturais das famílias podem condicionar a educação dos cidadãos e consequente integração na comunidade.
    “Racismo”, a existir, observa-se entre classes sociais numa sociedade dividida e polarizada.
    Ontem, assisti a um concerto da orquestra sinfónica do Conservatório Nacional que integrava alguns jovens músicos negros educados nessa escola pública. Sublime!

  7. Joe Strummer: Não percebeste o ponto. Eu explico: o trabalho doméstico nem é degradante nem é mal pago, mesmo em Portugal. Nem está reservado às mulheres afro-descendentes. Ser rico e negro não muda nada? Como assim?

  8. Mas o trabalho doméstico está neste caso ligado aos anseios e expectativas, ao elevador social, ao Portuguese Dream, tal como a questão foi posta pelo Tavares. Se é bem ou mal pago, elas não tem grande escolha, pois não? E a questão não é só económica claro, o dinheiro só dá acesso a coisas mais caras não a um tratamento igual. Não imaginas as vezes que vi amigos meus lavados em lagrimas pelas humilhações e micro agressões a que estão sujeitos. Desenvolvem uma segunda pele, a da insensibilidade, a dormência, a inexistência. É de uma violência intima impressionante, que apesar de não a sofrer também a sinto. Dói muito.

  9. A imagem, noutros empregos, onde têm de contactar com pessoas, conta; saber falar e escrever correctamente a língua do país onde se trabalha, conta também. Limpezas em casa dá para qualquer tipo de pessoa fazer, mulheres de bigode, gordas,meio idosas, de “cor” ,muito feias, das berças, mudas , a falar axim, ou axado,analfabetas e tal. Cozinheira também. Repositora de super? talvez. aposto que não há muitas mulheres giras, sem atrasos de desenvolvimento mental, a saber falar e com o mínimo de escolaridade a fazer limpezas a tempo inteiro. e legalizadas no país. claro.

  10. e também é preciso clarificar o que entendem por elevador social. é o dinheiro? errado. o ronaldo é podre de rico e continua a ser classe baixa.

  11. Dizer que há portugueses racistas não é a mesma coisa que dizer que os portugueses são racistas. Claro que há portugueses racistas e por norma os piores são sempre os direitolas ou porque é que acham que o CDS anda com aquele espécime há tantos anos na AR? Ele próprio presta-se para ver se crava uns votos a uma comunidade a que nunca pertenceu. E não é um caso de preso por ter cão preso por não ter, é mesmo hipocrisia pura, como aliás sempre nos habituaram. A mesma hipocrisia do Santana esta semana no bairro da Jamaica. Mas a grande maioria do povo português já deu provas do contrário! Quem é que não se lembra, por exemplo, da solidariedade com o povo de Timor?

  12. dificilmente o “elevador social” poderia funcionar nesses bairros, levaria 3 ou 4 gerações e exigia que essa pessoas fossem super exigentes com os filhos, tinham de lhes impor disciplina e rigor, obrigá-los a ir a escola, tentar que conseguissem algum capital cultural e social para depois ser transmitido aos netos. é completamente impossível por essas pessoas a beber chá de pequeninos. uma ou duas, com maior força de vontade, lá singrarão . e não tem a ver com governos ou políticas, tem a ver com educação, com falta de exemplos e com sociabilidades maradas.

  13. Eheh Mais um dia de descoberta neste país fascinante que respeita os direitos humanos e as minorias e que respira democracia.Uns não conhecem o país onde vivem outros ainda vivem no país de há 50 anos.
    A situação por cá é ainda mais insidiosa por causa disso mesmo, enquanto noutros países o racismo é porventur mais violento mas sinalizado e expresso, mais identificável e por isso mais previsivel para quem o sofre, por cá é escondido, insidioso, traiçoeiro, não assumido, como tantas outras coisas de que não nos orgulhamos. Denial is a river in Portugal.

  14. O que tem a cor da pele a ver com a pessoa em si? Falar disso já não é normal. E o governo sombra está cheio de bolor e de cotão. Um já foi agraciado com um título honorífico em 9 de Junho de 2015 e o outro vai ser designado para não sei quê a 10 de Junho de 2019 para não sei o quê e ninguém estranha que um trabalhe no programa do CDS? Com gente desta Portugal será sempre um país invisionável, bem basta toda a vitalidade portuguesa assentar na religião e o que fizeram por Portalegre depois disto;
    Nada com nada em sua volta
    E algumas árvores no meio,
    Nenhuma das quais claramente verde,
    Onde não há vista de rio ou de flor.
    Se há um inferno, eu encontrei-o,
    Pois se não está aqui, onde Diabo estará?
    Passa bem, ó tu
    F. Nogueira Pessoa
    P.S. Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

  15. ” e também é preciso clarificar o que entendem por elevador social. é o dinheiro?

    deve ser. nos elevadores sociais é tudo à molhada e o nos privados até dá para ouvir o andré rieux.

    “errado. o ronaldo é podre de rico e continua a ser classe baixa.”

    classe baixa és tu, apesar do esforço que fazes em bicos de pés a tentar lamber os colhões aos ricos.

  16. Strummer,

    Eu acho que no limite – além de casos individuais – continuas a confundir os poderes instituídos com o povo português. Que ainda não elege a cor dos deputados, por exemplo. E digo acho porque não estou para ver quem tem a pila maior do conhecimento real do país. Um povo é solidário ou racista. As duas coisas ao mesmo tempo nunca vi. E se o povo português tem dado provas de alguma coisa nos últimos anos é que continua a ser um povo solidário. Como foi sempre aliás.

    P.S. Também acho piada a tentativa de desvalorizarem a recepção dos portugueses aos imigrantes. Até porque não conheço nenhum indicador melhor. Basta aliás ver como são tratados os nossos emigrantes no centro da Europa sempre que soam as campainhas do desemprego.

  17. e estava capaz de apostar que és de esquerda ferrenho pela importância que dás à estratificação social. mecânico de elevadores, querias ser dono da companhia , não era? trabalha..

  18. Bem, venho só comentar uma coisita, que é a contita de quanto ganha uma empregada doméstica. 1120 euros, segundo a Penélope. Pois, mas isso depende, né? Com mais esforço, até se chega aos 2000… O problema é que a grande maioria das empregadas domésticas agora trabalha para empresas, já não são as tradicionais antigas mulheres a dias que trabalhavam por conta própria para as senhoras. Vá ver quanto pagam à hora aquelas que trabalham para as empresas.
    Eu sou neto de uma antiga empregada doméstica (interna) e a minha mulher já trabalhou cerca de seis anos como empregada de limpeza, para uma empresa. Deixou, porque o corpo começou a ressentir-se. A rapariga que conheceu em Bruxelas que faz limpezas (com mais privilégios até do que as suas colegas em Portugal) talvez chegue igualmente um dia destes à conclusão que, por mais que ganhe, a “carreira”, digamos assim, não lhe compensa as mazelas.
    Eu tive familiares em França que, como tantos outros emigrantes, por tradição, faziam limpezas em casas particulares. Ganhavam bem, claro, até porque faziam montes de horas extraordinárias. Entretanto, faziam uma vida de cão, extenuante. Nenhum deles, sem excepção, apesar de, sim senhor, terem uma profissão digna, queria que os filhos continuassem a sua profissão. O que ganhavam era para assegurar que os filhos pudessem ter uma vida melhor, incluindo um curso superior. Poderia a Penélope cantar-lhes esse fadinho paternalista, que tem séculos, de que todas as profissões são dignas…

  19. Penelope; no dia em que a minha amiga pronunciou essas palavras deixou de ser minha amiga. deveria ter escrito ex-amiga. erro meu.
    efectivamente sou extremamente elitista com aqueles a que chamo de amigos. cortei relações.
    sou assim, é o mesmo com a extrema-direita, não sou permeável a ideias extremistas, assim sendo poder-se-á admitir que não sou 100% democrata, pode até acontecer que lhes cuspa em cima…normalmente chamo-lhes de tugas merdosos, já de si uma “bosta” de um termo.

    no meu blog, somos dois e o termo tuga merdoso foi “inventado” pelo outro, foi posteriormente adoptado por alguns. os comentários estão democraticamente fechados devido às bosta de comentários que a bosta dos tugas merdosos lá deixavam…

    e esta é a verdadeira verdade sobre a minha pessoa.
    Com licença!

  20. Penélope,

    20 dias a 7 euros à hora e levas ao fim do mês 1120 euros, se trabalhares oito horas por dia

    Sim, mas o serviço doméstico é geralmente trabalho ocasional, feito em part-time. Ou então trabalha-se para diferentes pessoas, manhã aqui e tarde ali, dificilmente se faz oito horas por dia todos os dias da semana.

    Para trabalho feito nessas condições, não é bem pago. Em ambiente rural, eu pago a trabalhadores 5 euros à hora ou mais, para trabalhos da mesma natureza ocasional (sem recurso a máquinas). O serviço doméstico é realizado em cidades, onde o custo de vida é mais elevado.

    De qualquer forma, o que eu disse foi que uma educadora de infância ganha, em Portugal, bem melhor (no ensino público). Na Bélgica talvez não, mas em Portugal sim.

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