“Retro-imperialistas” e o divertido mas lamentável panorama britânico

Acabo de ler o termo num artigo no The Guardian, assinado por Martin Kettle.  Ele critica o “fanatismo sinergético da direita retro-imperialista dos conservadores britânicos e do DUP“, ou seja, os conservadores fanáticos da saída do Reino Unido da União Europeia, fixados numa miragem da antiga glória do país.

É anedótico mas penoso – ao mesmo tempo – observar a política britânica por estes dias. Theresa May adia a votação do acordo de saída da UE por ter a certeza de que seria chumbado nos Comuns e, ao mesmo tempo, a oposição trabalhista não quer apresentar uma moção de censura por ter a certeza de que seria igualmente chumbada. E os deputados conservadores, que tanto criticam May, também nada fazem a não ser divertir-se com as andanças da primeira-ministra. Pelo menos até à hora a que escrevo.

Por conseguinte, tenho pena e admiração – sim, as duas – pela Theresa May. Ninguém quer o acordo negociado pelo seu governo, nem mesmo alguns ministros, mas ninguém quer, nem pode, ir para o lugar dela negociar outro, aliás impossível e desconhecido. E ela insiste. Ela, que até era contra o Brexit. Admito que possa parecer um bocado tonta, mas não consigo odiá-la. A pobre tem de continuar o “show” posto na estrada pelo seu predecessor no cargo, David Cameron, que consistiu em pôr os excitados conservadores a fingir, em campanha (mas ironicamente não ele, que era favorável à permanência), que um acordo de saída era facílimo de negociar e ultravantajoso, quando toda a gente devia saber que não era nem nunca seria se a ideia fosse “ficar com a manteiga e com o dinheiro da manteiga”, e a prova está à vista.

É claro que May pode sempre demitir-se. Simplesmente parece não haver ninguém que a queira substituir, pelo menos não sem antes verem que concessões consegue ela obter do”continente” nesta nova ronda. E o tempo está a passar, faltando apenas três meses para a ruptura com a Europa. Mas tudo pode mudar muito rapidamente. Correm boatos desde há pouco que os próprios conservadores vão apresentar uma moção de censura. Veremos para quê.

Uma coisa é certa: são tão palhaços personagens como Boris Johnson ou Rees-Mogg, que dizem querer partir a louça toda com uma saída “musculada”, mas não avançam nem ninguém sabe o que fariam de melhor nem o que representaria essa saída, como são palhaços Jeremy Corbyn e companhia, que lideram uma oposição por sua vez dividida, facto que os faz fazer figuras tristes pela indefinição e insegurança.

Enfim, eu penso que a saída será inevitável, de uma maneira ou de outra. Tenho mesmo dúvidas de que um novo referendo resulte numa preferência clara pela permanência. Possivelmente os 52-48 passariam a 50-50 e nada ficaria facilitado. Uma derrota do Brexit num segundo referendo seria uma humilhação total para os conservadores. Não o vão permitir. Vale-lhes, de momento, o facto de Jeremy Corbyn não ter muitas hipóteses de ganhar umas eleições. Pelo que o circo poderá continuar.

7 thoughts on ““Retro-imperialistas” e o divertido mas lamentável panorama britânico”

  1. “… fingir, em campanha … que um acordo de saída era facílimo de negociar e ultravantajoso”
    É um circo giro de acompanhar … à distância!
    Não seria muito diferente do circo de uma saída do Euro. Tsipras percebeu isso a tempo e recuou mas em Portugal ainda há quem queira ver esse circo (saída do Euro).

  2. Boris, Boris!

    É necessário desdramatizar o ambiente e quem melhor que o Boris para levantar o moral da Brittania? Boris never boring.

    Por outro lado é tempo dos papéis serem desempenhados pelos seus legitimos actores, Theresa can´t…perdão, May, nunca foi uma “leaver” nem Corbyn é verdadeiramente um “remainer”,
    Mesmo que esta crise seja ultrapassada o segundo referendo é inevitavel,basta começar o previsto descalabro economico e a dor começar a atingir cada vez mas pessoas e interesses. E quanto mais tarde for maior será a vitoria do Remain e maior o desconforto de Corbyn.

  3. Os bifes querem é ver-se livres do shengen, e filtrar apenas o que lhes interessa.

    E no fim vão conseguir, com aquela paciência (fleugma)de cornos.

    Levam sempre «à melhor», fdp

  4. Entretanto, todas as sondagens dizem que os ingleses votariam agora pela permanência na UE. Parece que já perceberam o que está em causa.
    Dá gozo ouvir certos imbecis, lá ou cá, a dizerem que um novo referendo seria anti-democrático.

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