E pachorra para radicais civilizados?

Deve ter sido das poucas vezes, ontem, que concordei com tudo o que disse a Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal. É certo que os temas principais em discussão não eram “de força maior” nem determinantes para o nosso destino como país – tratava-se das touradas e da não redução do IVA para esses espectáculos e ainda das brigadas do IRA nacional – sinal de que tudo corre tranquilo na política, mas, mesmo assim ou talvez por isso, deu bem para ver as posturas de fundo de alguns membros do quarteto. Começo por dizer que o meu total acordo com a Clara se deve ao facto de, tal como eu, ela admitir e reconhecer que as perspectivas das pessoas sobre hábitos, práticas e tradições humanas se podem (possivelmente devem) alterar ao longo da vida. Que aquilo que, na infância, faz como que parte da nossa paisagem, pode ter muito pouco de bucólico perante outros dados. Que as perspectivas podem “evoluir” num sentido crítico à medida que pensamos nessas práticas e tradições, que observamos as mudanças na relação do homem com a natureza da qual depende ou à medida que nos informamos, por exemplo, neste caso, sobre o mundo animal. É evidente que os animais, apesar de por cá andarem exactamente pelas mesmas razões que nós, não são seres humanos, mas isso não equivale a dizer que não sofrem e que seja admissível que se façam sofrer sem qualquer outro fim que não seja o espectáculo. Dito isto, que é forçosamente muito pouco e resumido, as touradas têm um lado de desafio e combate entre homens e bestas que pode fazer esquecer tudo o resto. Os forcados são uns bravos (e os surfistas? E os astronautas?), embora já com o touro debilitado, e os toureiros mais bravos são ao enfrentarem a besta. Só que a besta hoje em dia é criada para o espectáculo e serve para pouco mais. No entanto, a festa tauromáquica lembra e como que reproduz valentias antigas e tal pode ser romântico e poético. Por outro lado, em Portugal os toureiros têm o êxito na arena praticamente assegurado – quer porque estão a cavalo, quer porque podem facilmente fugir se a coisa se complica. Há, portanto, contradições na apreciação deste tipo de espectáculo que levam a que se não possa dizer facilmente que se vai acabar com as touradas por o sofrimento do animal não dever provocar gáudio. Não é só isso que acontece numa arena, mas a extinção acabará por acontecer, penso eu. Por isso, não me parece escandaloso que este tipo de ritual, pelos vistos muito procurado, não beneficie de um IVA reduzido. Trata-se de um marcar de posição do Governo. Não sendo radical, nem podendo ser pelos motivos supra, abre, no entanto, a discussão, o que pode ser positivo.

Passando ao que aqui me traz, o Daniel Oliveira, que não deixa de ser um radical, tinha que vir com o extremismo de exigir que o Governo “tenha a coragem” de acabar com as touradas. Ou, como ele diz, que “seja claro”. Ora, eu penso que o Governo está a ser claro – as touradas, tal como as conhecemos, pelo menos, hão de acabar um dia de vez, como já acabaram em muitos concelhos deste país e em muitas regiões da Europa. Só que ainda não chegou o momento. E, já que têm audiência, não precisam certamente de um incentivo fiscal para existirem. Muito menos deve ser um governo que tem uma perspectiva mais “pró-animal” desse espectáculo a incentivá-lo. Mas sim, no partido socialista e entre os seus apoiantes, assim como na sociedade portuguesa em geral, há muitas pessoas que apreciam a vertente “heroicidade” das touradas e o seu simbolismo em relação a outros tempos, a memória desses tempos em que a nossa sobrevivência dependia de actos de bravura física extrema contra as “forças da natureza”. Não é pecado. Compreende-se, respeita-se. Vê-se nisso uma certa beleza, mas não faz mal lançar a discussão. Faz até muito bem. O Daniel queria uma medida política extrema, que, já que refere o Bloco e a sua “clareza” (fácil enquanto se mantiverem à margem das responsabilidades à séria), o Bloco jamais tomaria se governasse. Mas o Daniel é “civilizado” em matéria de animais. Acho bem. Não sei é se um radical pode ser considerado muito civilizado em geral.

Quanto ao Pedro Marques Lopes, ultimamente anda a dizer asneiras demais. A defesa intransigente de Rui Rio, José Silvano e Emília Cerqueira – cujo alegado desconhecimento do sistema de marcação de presenças na Assembleia é anedótico – roça o delírio e faz pensar em amiguismo. Nesta matéria das touradas, fez claramente pouco esforço para pensar. Mas “fiat lux” de um dia para o outro só mesmo na Bíblia, não é?

5 thoughts on “E pachorra para radicais civilizados?”

  1. Histórias da ponta de um corno.

    Bravura ou boçalidade?

    De rajada, imagens de um adulto que, com uma criança num braço e um pano noutro, desafia um touro e consegue dar um passe. Estas (imagens) saltam de imediato para as chamadas redes sociais e despertam comentários de todo tipo e, por último, chegam à televisão nacional.

    Na ilha Terceira, as touradas e os touros são assunto que desperta paixões talvez tanto quanto o futebol.

    Na escola primária de São Carlos, onde fiz as primeiras três classes, tive o primeiro contacto com essas paixões (no sítio onde vivia e vivo não havia nem há festas populares). E entre os rapazes havia partidos taurinos. Os que preferiam os touros do Parreira, os do Baldaia, e não me recordo se do Albino já existiam. E citavam proezas terríveis de certos touros, o Descornado, o Mulato e outros. O Mulato era o que mais medo metia e quando o citavam corria pela pele um frémito de terror. Arregalando os olhos, contavam que tinha ido buscar um homem acima de uma árvore, um velhote numa cisterna e outras situações de igual proeza.

    Ainda hoje, as touradas dividem opiniões e há quem julgue que o futuro do turismo na ilha Terceira está ligado a esta actividade e promova estátuas de touros de dimensão apreciável ou de forcados. Promove-se também a exibição de imagens ad nauseam de cornadas em lugares públicos, por ex. no aeroporto, levando alguns turistas, de boca aberta, julgar que a actividade lúdica da preferência dos terceirenses é apanhar cornadas.

    Julga-se que a existência de touros nesta ilha é anterior aos castelhanos (de má memória). É possível que tenham vindo para entretenimento da fidalguia de então e para os seus jogos de valentia. Rapidamente, passou para a tourada à corda e foi integrada nas festas populares do Espírito Santo.

    Na ilha Terceira, para além das touradas à corda muito populares, também fazem touradas de praça. Estas são de cariz diferente e também aqui as opiniões se dividem. Uns julgam tratar-se de uma prova de valentia, de coragem e sublime arte. O toureiro nas suas colãs apertadinhas e sapatinhos de ballet ensaia frente ao touro uns pinotes, convidando-o a investir. Este, quando investe, marra na capa e segue em frente. Por vezes, marra no toureiro. Segue-se a arte das bandarilhas que, em termos simples, resume-se em cravar no animal umas farpas afiadas tipo setas presas a uns pauzinhos coloridos. Quando acertam, o animal berra de dor e ensanguenta-se. A cavalo, o toureiro apresenta-se obviamente sem a capa e, fundamentalmente, crava as farpas em modo longo ou curto. O touro sangra mais.

    A segunda opinião, para além da primeira que tende a acentuar a arte, descreve este divertimento público como uma barbárie medieval em que os espectadores confortavelmente sentados e longe do perigo, se babam e excitam com a tortura pública de um animal.

    A tourada à corda é um pouco diferente pois, embora o touro esteja amarrado pelo pescoço, não lhe espetam farpas e este (touro), a acreditar nas imagens já referidas, sempre vai distribuindo marradas a torto e a direito a quem voluntariamente o tenta capear.

    Voltemos ao nosso capinha do início da estória. Flagelado nas redes sociais por ter submetido uma criança de tenra idade a um perigo imenso, teve honras de ser defendido no diário local por quem achou excessivo o tratamento dado. Convém pois tirar a limpo esta estória e saber se estamos perante um ato de valentia idiossincrática ou de uma pura boçalidade. Assim convidamos o leitor a participar num simples questionário com o objectivo de esclarecermos em definitivo esta situação.

    Como classifica o ato:

    A – Valentia

    B – Boçalidade

    C – Bravura

    D – Crime

    E – Inconsciência

    F – ………………

    G – ………………

    H-………………

    I-…………………

    J-……………………

    Convidamos o leitor a introduzir mais classificações, as quais podem até ser em puro vernáculo, acrescentando assim algum colorido aos substantivos.

    A conclusão da classificação final do ato tira-se somando as respostas. Convém não misturar As com Bs ou Cs com Ds pois assim será difícil concluir.

    Para ajudar a tomar uma decisão, convido o leitor a analisar o seguinte cenário: o touro acerta no capinha, a criança é violentamente atirada ao ar e morre ou fica com lesões irrecuperáveis.

    Angra, Mui Nobre e Sempre Leal cidade do Heroísmo, aos 29 dias de Julho de 2018

  2. CRIME
    (exposição de uma criança a perigo de morte)

    Punível com pena de prisão EFECTIVA.
    Seis meses na choldra sózinho com os seus pensamentos a reflectir na merda que fez.

  3. “O que é que desta escrita devemos deduzir quanto à elaboração de um pensamento, quando é preciso ir além da ordem gestionária da política pragmática”

    António Guerreiro in “Público” (Livro de Recitações)de 16.11.2018

    Nota-se logo que AG é pensador e escreve somente sem ter necessidade alguma de importar-se ou responsabilizar-se pela gestão de qualquer ordem pragmática de gestão de pessoal ou governação de um povo.
    Contudo eu posso pensar, e a mui intuitiva actuação política de AC ajuda-me a pensar assim, que o seu pragmatismo político consiste neste caso precisamente, e por isso respondeu por escrito a MA, na sageza gestionária política do caso o leva a que, mantendo uma neutralidade de liberdades de parte a parte, promover uma discussão pública sobre a questão, o que está acontecendo fortemente.
    E inclinando-se à partida para um dos lados da opinião pública, aquele que está em crescendo na sociedade portuguesa, dá o sinal certo para que, pela discussão e em total liberdade das partes, subtilmente o caso tenda para uma solução, “pragmática” que no final seja contestada por poucos e já sem força de oposição para interditar a morte da tourada.
    Ser pragmático é saber relativizar dialéctica e adequadamente as prioridades e em liberdade para solucionar questões, especialmente, de uma grande complexidade entre “civilização e cultura” como diz o autor.
    Parece que, no entender de AG, o governante “devia ir além da ordem gestionária da política pragmática” impondo uma solução de poder.
    Pois é, mas AC escreveu o que escreveu, penso eu, porque para além de escrever tais coisas depois tem de gerir politicamente as consequências do que escreve e AG só tem de expor o seu pensamento como uma ideia mais ou menos complexa ou simples e se errar esquece e não fala mais no assunto.
    O DO, como bom catavento radical amante de soluções de poder e fundamentos idealistas de valores absolutos e pureza ideológica, provavelmente, leu e logo o seu intelecto se quis igualar ao considerado elevado estatuto intelectual de AG.

  4. Emília Cerqueira – cujo alegado desconhecimento do sistema de marcação de presenças na Assembleia é anedótico

    Ela não disse que desconhecia o sistema. Ela disse que entrava no computador do colega sem ter em conta que, ao fazê-lo, estava “inadvertidamente” a assinalar a presença dele no parlamento. Ou seja, ela conhecia o sistema de marcação de presenças, mas não tinha em conta estar a ativá-lo quando decidia entrar no computador do colega.

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