Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 719

Bairro Alto – o magoado adeus de Joel Neto

Numa crónica publicada no «Notícias Magazine» de 15-1-2012, Joel Neto despede-se do Bairro Alto, local que conhece há vinte anos e onde trabalhou e residiu nos últimos sete anos.

Citemos: «à medida que vou percorrendo as rua e ruelas que amei e cumprimentando os velhos e os junkies que me conhecem pelo nome, já não é a arquitectura que me salta à vista, nem sequer a dimensão humana da malha citadina, nem tampouco o fado e os fadistas, os jornais e os jornalistas, ícones do Bairro de que, de resto, há cada vez menos exemplos. O que me salta à vista é a sujidade, os mau cheiro, os gritos histéricos das adolescentes ainda sem idade para ir à mercearia quanto mais para sair à noite – e, naturalmente, as multas, as muitas multas, as muito mais multas do que aquelas com que era suposto uma cidade soalheira castigar os seus amados habitantes pelo simples facto de a habitarem».

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Vinte Linhas 718

Leonardo Coimbra – as palavras e o mundo

Em momentos de confusão como os actuais, gosto de ler textos fortes, palavras com âncoras no meio da tempestade. Leonardo Coimbra (1883-1936) foi o fundador da Universidade Popular depois de ter sido anarquista e foi por duas vezes ministro da Instrução em 1917 e 1923. Criou a Faculdade de Letras do Porto e as Escolas Primárias Superiores e escreveu vários livros dos quais destacamos «A alegria, a dor e a graça». Segundo Sant´Anna Dionísio «uma das ideias nucleares do seu pensamento é a de que toda a existência é social». Vi morrer António José Saraiva na Associação Portuguesa de Escritores depois de se ter emocionado a falar de seu pai e de Leonardo Coimbra, visita de casa. José Hermano Saraiva confirmou-me na circunstância: «Falou no pai e em Leonardo Coimbra, foi isso, foi a comoção».

Do livro acima referido Leonardo Coimbra vale a pena citar um excerto: «O homem carece de palavras que, do Universo, respondam às fraquezas da sua vida, de amistosas mãos que o levantem e amparem, de alguém que do invisível centro da Vida, seja presente ao esforço do trabalho quotidiano. É-lhe preciso um amor claramente significado, uma transfusão de vida que dê à sua existência o apoio de outras existências. Atingiu a palavra e a sua solidão será maior que nunca, se essa palavra morre sem eco, de encontro à cerração dos outros seres. E como é difícil que a palavra substância, a palavra elemento cósmico, penetre e viva na intimidade hostil das outras criaturas! (…) Há tanta gente que, para conhecer a vida e entender os homens, compra um dicionário!»

Conclusão: vale a pena ler de novo Leonardo Coimbra, um homem que escreveu tão velozmente como morreu, numa curva sinuosa dos pinhais de Baltar.

Vinte Linhas 717

Símbolos maçónicos presentes na capa da primeira revista brasileira

Agora que tanto se fala em Maçonaria e símbolos maçónicos, virá a propósito lembrar a revista «As variedades ou Ensaios de Literatura» que foi publicada na Baía (Brasil) em 1812 e 1814 nas oficinas de Manuel António da Silva Serva.

A revista integrava os seguintes materiais: «reflexões, algumas novelas, extractos de viagens, resumo da história antiga, pedaços de autores clássicos quer em prosa quer em verso, anedotas curiosas – tudo, em uma palavra, que pode compreender-se na expressão geral de Literatura». Além de Manuel António da Silva Serva (chegou de Portugal em 1797 e fez da sua tipografia a primeira escola de artes gráficas da Baía) era redactor desta revista pioneira, outro português – Diogo Soares da Silva Bivar.

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Vinte Linhas 716

Viola Delta 48 – Edições Mic – poemas sobre Fernando Pessoa e outros textos

Este recente volume da colecção Viola Delta que é publicada sem interrupção desde 1977, integra 15 autores e tem por tema geral o poeta Fernando Pessoa. Abel Sabaoth refere-o num prosopoema: «O senhor Pessoa de Campo de Ourique, conquistador e bicho derrotado em milhentos quartos de bacio e lavatório, passou a vida a fugir das montanhas de terra e cardos, o seu único pico foi o Chiado onde as nuvens eram tecidas de borras de café».

Em paralelo, o volume faz homenagem ao poeta Mário Machado Fraião (1952-2010) que, por coincidência, viveu na Rua Fernando Pessoa em São João do Estoril. Estreou-se em 1980 com «Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer», publicou diversos livros de poemas e de crónicas, está representado nas antologias «Nove rumores do Mar (Eduardo Bettencourt Pinto) e «On a leaf of blue» (Dinis Borges) além de ter participado em 15 volumes colectivos das Edições Mic.

Homem bom de vida breve, 58 anos apenas vividos entre a Horta e Cascais, onde «os barcos levam nomes de mulheres» como no título de um dos seus livros, fica um excerto de um poema de Mário Machado Fraião: «Foi uma estrada longa / já nos limites do coração. / O que eu recordo era aquela pastelaria com cheiro bom / e os seus quadros / – um chapéu sobre o mar. / O resto era o cansaço dos dias / e os rostos passavam anónimos / dentro dos autocarros.»

Um livro por semana 272

«Rio sem margem» de Zetho Cunha Gonçalves

Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) viveu a infância e a adolescência no Cutato (Kuando-Kubango) estudou no Huambo e em Santarém, tendo-se estreado em livro com «Exercício de Escrita» em 1979. Poeta, tradutor, autor da área infanto-juvenil, organizador de antologias e edições especiais (Fernando Pessoa, Mário Cesariny, António José Forte, Natália Correia), Zetho Cunha Gonçalves regressa neste livro à sua Angola a que chama «pátria inaugural da Poesia».

Partindo da poesia de tradição oral de Angola, Moçambique, Etiópia e México, o autor que dedica o livro a Óscar Ribas e Ruy Duarte de Carvalho, desenha uma gramática do Mundo nestes 27 poemas. Vejamos a geografia num poema Cabinda: «Tem uma mulher três filhos:/dois com o juízo perfeito, /o terceiro é demente/ – o Céu, a Terra / e o Mar». A vida e a morte surgem num poema Kwanyama: «Figueira-brava. / De um lado, /os ramos / carregados de frutos maduros. / Do outro /jovens folhas despontando. / Assim os homens:/ – uns a morrer, / outros a nascer.» O título do livro nasce de um poema Umbundu: «Aprende a andar /pequena gazela /aprende a andar: / -um dia, / encontrarás / rio sem margem!…» A busca de Deus na tradição Umbundu («Deus está tranquilo. /Deus é como o vento. / Deus é feiticeiro.») liga-se ao olhar sobre a morte da tradição Cabinda: «Uma criança / morreu / – é um morto. / Um velho, rico e poderoso, / morreu / – é um morto».

Esta poesia pode ser vista por muitos como primitiva mas para o autor é a «mais moderna, a mais viva e imperecível ou seja: a derradeira guardiã da memória da Humanidade».

(Editora: NÓSSOMOS, Capa: Gravura rupestre do Kaningiri – Angola)

Vinte Linhas 715

Saudação a Ana Maria na Universidade de Évora

Cheguei a Évora em 1972 e sei que, passados 40 anos, a cidade de 2012 não é a mesma. Nem na paisagem nem no povoamento. Desejo que possas amar esta cidade hoje a cores como eu amei as suas pedras e os seus sons em 1972 a preto e branco. Quarenta anos são muitos dias mas passam por nós em vertigem. Como um navio antigo, há no seu porão vida e morte, lágrimas e alegrias breves, temores e sangue pisado. A minha primeira coisa, na manhã da estreia no Hospital Militar, foi ajudar o meu chefe da contabilidade a preencher uns impressos da PIDE. Naquele tempo era obrigatório dizer que uns amigos tinham pernoitado na nossa casa. Estranhos tempos; era tudo triste, melancólico e a preto e branco.

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Balada dos telhados de Lisboa

Telhados da minha cidade

Com as gaivotas a gritar

Avisos de tempestade

Lá para dentro do mar.

Que o mar à nossa frente

É mais a figura de estilo

Mar da palha e da gente

Só no Verão está tranquilo.

Rompe defesas no Inverno

Traz a palha dos animais

Para o estuário moderno

Que vive de outros sinais.

Que vive de outras medidas

Sem fragatas nem faluas

As pontes de ferro erguidas

Enchem de carros as ruas.

E digo adeus aos telhados

Da cidade debruçada

Sobre vapores lembrados

Numa memória de nada.

Vinte Linhas 714

Em 1966 ainda havia destas flores no Chiado

A propósito da Livraria Portugal na Rua do Carmo que foi vendida e vai mudar de ramo depois do fim de Fevereiro, descobri num alfarrabista nas Escadinhas do Duque nº19-A a Revista «Ver e Crer» de Abril de 1950 com os jornalistas Mário Neves a director e José Ribeiro dos Santos a editor. Uma florista do Chiado começa por recordar o passado («Veja o que acontece com as mesas dos restaurantes e hotéis ou das casas particulares! Em regra só nos dias de festa ou de banquete aparecem floridas. Antigamente não.») para chegar ao presente: «Compreendo, o tempo mudou. Os homens endureceram. Já não há ternura pelas flores. Entre os milhares de pessoas que sobem diariamente o Chiado, veja se encontra um cavalheiro que ostente um cravo na lapela ou uma dama uma rosa sobre o peito. E antigamente? Só na minha loja havia duas raparigas para carregar flores para casa dos fregueses – fora os moços de esquina que, bem remunerados, aliás, levavam raminhos para a madame tal… Eu até conhecia as fases do namoro pelas flores oferecidas…»

Mas não fala só de flores; disserta também sobre relações humanas: «Um freguês começou o namoro com dois lindos cravos de pataco. Aquilo foi subindo. Houve intervalos – era quando andavam amuados. Mas quando ele voltava ao estabelecimento – o temporal tinha passado. Por fim deixou de comprar flores. Pronto, foi certo. Tinha-se casado… Veja lá se fosse hoje! No primeiro dia telefonava-lhe. No segundo convidava-a para o cinema e no outro, logo a seguir, iria tratar dos papéis. Que tempo este! Até as pessoas parece que crescem como as flores adubadas…» O tempo voa – o texto é de 1950 e em 1966, quando comecei a trabalhar na Rua do Ouro, ainda havia destas flores no Chiado.

Um livro por semana 271

«Campinas – A mulher ribatejana, o canto e a dança» de Aurélio Lopes e Bertino Martins

O Estado Novo sempre insistiu na trilogia «Ribatejo-Toiros-Campinos» rasurando não só a Charneca e o Bairro em detrimento da Lezíria mas ofuscando os outros habitantes da Lezíria: os camponeses e os pescadores. O discurso dominante em Portugal endeusou a figura do campino; esta situação já tinha sido estudada por Aurélio Lopes em «Vale de Santarém: o Bairro e a Lezíria». A intuição dos escritores sempre esteve contra a corrente. Não é por acaso que José Loureiro Botas em 1938 no conto «A Leandra» dá voz à mulher (não ao homem) no relato do naufrágio no Tejo de um barco de Avieiros no seu livro de 1940 «Litoral a Oeste».

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Vinte Linhas 713

Nuno Artur Silva e Fernando Venâncio – ou as livrarias esquecidas

Vivo em Lisboa desde Setembro de 1966 e sempre que uma livraria desaparece sinto que fico mais pobre. Só um exemplo: a Parceria A. M. Pereira foi o local onde conheci mais pessoas importantes por metro quadrado. Por exemplo: José Palla e Carmo, Ruben A., Natália Correia, Luiz Pacheco, Romeu Correia. Soube agora que a Livraria Portugal na Rua do Carmo foi vendida e vai mudar de ramo.

Desde sempre me lembro de comprar livros os mais diversos (também livros escolares para os meus filhos) naquela livraria e fui assinante do seu Boletim Bibliográfico. Uma das últimas conversas que tive com o Fernando Venâncio foi no rés-do-chão desta livraria. É uma tristeza tal como já foi o desaparecimento da Romano Torres em São Mamede, da Diário de Notícias no largo das Duas Igrejas, da Guimarães na Rua da Misericórdia sem esquecer a Bocage na Calçada do Combro. Uma livraria que fecha faz da cidade uma coisa mais escura e bem menos iluminada.

Outra coisa passou-se com uma reportagem na Revista do Expresso de 7-1-2012 com o título «Nuno vai aos livros». Nuno Artur Silva vai a seis livrarias mas só cinco aparecem nas fotografias e no mapa da cidade. A livraria que ficou de fora no resumo da reportagem chama-se Letra Livre e fica na Calçada do Combro nº 139. Aparece no texto mas não no mapa nem nas fotografias de Tiago Miranda.

Não bastava já haver livrarias à venda no centro histórico do Chiado como a Portugal que até vai mudar de ramo, aparece horas depois uma livraria a ficar escondida numa reportagem do Expresso. Um mal nunca vem só.

Um livro por semana 270

«Não escrevo para vender livros – Fotobiografia de José Marmelo e Silva» de Arnaldo Saraiva

José Marmelo e Silva (1911-1991) não foi tão referido pelos jornais como os seus confrades Alves Redol e Manuel da Fonseca no ano do centenário mas não deixa de ser também um grande escritor português. Esta fotobiografia tem um título que nos chega ao arrepio do ar do tempo. O autor de «Sedução» («audacioso, simples, enérgico e irregular») nunca escreveu para vender livros como algumas (cito Júlio Conrado) nulidades televisivas da nossa época.

Marmelo e Silva nasceu no Paul, no Moinho das Lages, tal como recorda num apontamento de 1980: «O moinho ao rés da água. /Os animais ao rés do chão. /Nós no andar de cima. /Recordo os sonos infantis da tarde./Ao despertar os pesadelos diluíam-se». A vida na sua terra, conhecida pelas procissões, romarias e canções que ficaram nas fitas magnéticas de Michel Giacometti, Lopes Graça e Rodney Gallop, terá levado o autor a um desejo tenaz de superação daquela aridez de granito, da miséria e da resignação da sua gente. Os seus anos de estudo no Seminário do Fundão, do qual terá sido expulso por ter na sua posse o livro «O crime do Padre Amaro», deram origem a uma nota na reedição de «Adolescente Agrilhoado» de 1967: «O internato era naquele tempo uma usina de revolta e desespero. Eu e o Vergílio ousámos trazer a público o nosso testemunho entre amargurado e combativo. E quem sabe se este não contribuiu um pouco ou em muito para a re-humanização educativa dos internatos!».

Sendo impossível resumir um trabalho de 135 páginas num pequeno texto como este, aqui se regista uma carta de Carlos de Oliveira a Marmelo e Silva sugerindo-lhe uma aproximação à Editorial Estúdios Cor: «Não estranhe a entrada intempestiva desta carta pelas portas dentro. É que julgo salutar o aparecimento doutros «Depoimentos», doutros «Adolescentes», neste país de génios em 400 páginas pelo menos e quanto mais confusas melhor».

(Edição: Centro de Estudos José Marmelo e Silva, Design: João Machado)

Vinte Linhas 712

Esta é que era a Rita que eu conhecia

Há tempos foi publicado no «Aspirina B» um post sobre as patacoadas ditas por três pessoas no programa televisivo de Herman José. Uma delas era Rita Ferro mas não esta com quem convivi na Revista Ler. Era outra: posterior, repetitiva, bocejante. Nos anos de 1997 a 2001 falei muitas vezes com a Rita Ferro que está na foto. No jornal O MIRANTE fiz entrevistas a figuras das Artes, das Letras e do Desporto no Ribatejo. Uma dessas entrevistas foi com Luiz Pacheco e está referenciada no livro «Puta que os pariu!» de João Pedro George. Visitei Rita Ferro em Vale de Óbidos e São João da Ribeira. Conheci os filhos Marta e Salvador. A mãe (Pauline) como estrangeira tinha dificuldades e chamava «grade» a uma caixa de madeira. Conheci a sua irmã Mafalda em Lisboa num dia em que lhe dei boleia.

Esta Rita Ferro diferente da que eu conheci entre 1997 e 2001 limita-se a reproduzir o digest da manha do Correio da Manhã. Aquela patacoadas contra José Sócrates surgem na TV com o sarro das tabernas em cujas mesas esse periódico circula. Quem diz tabernas diz barbeiros humildes. O sarro é o mesmo. Poderiam ter falado do PR que tem amigos na prisão e outros a caminho da dita cuja. E que não se lembra de ter feito a escritura da casa. Ou do BPN onde o nosso dinheiro (pago 133 euros por mês e paguei 350 no Natal) vai tapar buracos. Agora são uns padres de Fátima que se dizem enganados pelo BPN e nós, gente como eu que trabalha e desconta há 45 anos, foi enganada por quem? E o dinheiro das pensões dos bancários que nem o Salazar conseguiu sacar dos Bancos sai com passos perdidos e portas fechadas para tapar buracos do Orçamento Geral do Estado. É uma roubalheira mas isso a Rita Ferro de hoje não coloca em cima da mesa. A Rita da foto acima não deixava escapar. De certeza.

Vinte Linhas 711

«Quantos livros desses é que vendeste?» perguntou o cabresto

Um dos sinais da crise, além das loucuras do governo de «passos perdidos e portas fechadas» é a quantidade de patacoadas ditas e parvoíces cometidas de modo transversal em toda a sociedade portuguesa. Ainda agora um senhorio (grande cabresto…) mandou o electricista mudar o temporizador da luz da escada. Para poupar, parecia. Mas não: uma senhora que ia colocar o lixo no rés-do-chão caiu e partiu o colo do fémur. Aqui no «Aspirina B» o sinal da crise é o aparecimento de um (ou talvez mais) cabresto a dar pinotes nas linhas dos comentários. A propósito do meu encontro com Fernando J. B. Martinho, o poeta que fez parte do Júri do prémio da APE em 1980, o grande bandalho, tentando tratar-me por tu, deu um coice e escreveu – «Quantos livros desses é que vendeste?».

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Um livro por semana 269

«Fonte das Escadinhas» de Adelina Soares

Esta narrativa de 184 páginas parte da vida de Maria (n.1921) e alcança o seu amplo sentido, logo inscrito na capa, de «homenagem a uma geração.» A heroína da história poderia repetir uma quadra divulgada nos livros escolares do tempo: «Quem teve a grande desgraça/De não aprender a ler/Só sabe o que se passa/No lugar onde estiver». Daí o fascínio de Maria pelas viagens. Seja à Ericiera («já tinha visto o mar de longe mas nunca estivera na praia») seja ao Parque Mayer onde funcionam quatro teatros: «ABC, Maria Vitória, Variedades e Capitólio». Mas o assunto analfabetismo não é só pessoal («uma mistura de revolta, desilusão e profunda tristeza») mas também geral: «a culpa é do país miserável onde vivemos onde só os ricos podem ir à escola, percebes?»

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Vinte Linhas 710

Dos semáforos de Telheiras e dos outros sentimentos

Numa das avenidas de Telheiras, uma tarde destas, um longo e agressivo apito logo seguido de uma forte buzinadela atacam um homem negro, meio perdido na cidade e a atravessar fora das passadeiras. Há um anacronismo na cena que parece saída de um filme de Charlot. O africano atravessa a avenida onde lhe parece mais a jeito. No seu país não há semáforos, é tudo a direito. É uma questão cultural; ele não despreza uma realidade que não conhece.

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Balada da Calçada do Combro ou o «28» de Oleg Basyuk

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem

A sombra de Deus

Um dia, aí por 1983, na principal rua de Algés, um senhor desconhecido e vindo não se sabe de onde, segurou, súbito e enérgico, o meu filho Filipe pelo seu pequeno kispo azul e, assim, o salvou de morrer esmagado por um Mercedes Benz. Eu estava do outro lado da rua, a mãe e as tias estavam distraídas e atravessar a rua mais movimentada de Algés não era para ele um problema. Mas podia ter sido se esse misterioso senhor não tivesse sido rápido e eficaz. Ainda hoje penso no que lhe gostaria de dizer. Por isso lhe chamo hoje ainda, quase trinta anos depois, a sombra de Deus.

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O pão, o vinho e a carne

Eu também comi desse pão e bebi desse vinho

Entre o sol e o pó na luz da tarde dum arraial

Eu era o rapazinho que transportava a carne

Na travessa com um ramo de louro por cima

Era eu que gritava Quem dá mais ó debotes!

Mesmo sem saber que devia dizer ó devotos!

Sem saber nada e não saber nada era ser feliz.

Era eu que tropeçava nas pedras soltas da rua

Debaixo do pálio ia com a naveta do incenso

Com o turíbulo a deixar no ar o imenso doce

Passando ao lado dos mais humildes currais

Onde os sons da filarmónica faziam responder

Todas as vozes de todos os animais da terra

Cansados dos seus trabalhos de todos os dias.

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Vinte Linhas 709

Brooklands School – Tomás e o fascínio das seis estrelas

Feliz Natal Tomás, para ti, para o Lucas, a Mamã, o Papá e avó Joan.

Obrigado pelo teu desenho com o Pai Natal muito ocupado a trabalhar com o guindaste. Sempre gostaste de guindastes. Ele leva as prendas para o armazém, esta é a época do ano com mais actividade. O Pai Natal, para ti o homem de azul no lado direito do desenho, tem que se preocupar com as prendas dos meninos de todo o Mundo a quem os pais não podem comprar as lembranças da época de Natal.

A meio do desenho, a tua árvore de Natal estilizada tem ao lado seis estrelas. Cinco são para vocês aí em casa (Tomás, Lucas, Mamã, Papá, avó Joan) e a sexta estrela é para a memória do avô Alistair. E depois há o homem da neve, com quem tu em York te deixaste fotografar feliz, no usufruto dum encontro mais que perfeito.

A tua Escola (de nome completo Brooklands Primary and Nusery School) aparece na Internet como a segunda melhor Escola de Londres e a 25ª Escola de toda a Grã Bretanha. Esse é o melhor cartão de Boas Festas que os pais dos alunos podem receber.

O Mundo à nossa volta tal como tu o percebes, registas e inscreves no desenho editado pela tua Escola de Brooklands, é um lugar onde tudo está organizado. O Pai Natal trabalha com um guindaste e arruma as caixas das prendas dos meninos de todo o Mundo que não recebem prendas dos pais.

Do outro lado do desenho, entre as casas e as árvores, entre as ruas e a neve, todos sabem que os sacrifícios são premiados, os esforços obtêm a recompensa e as dúvidas se resolvem no furor inesperado da plena alegria.

Um livro por semana 268

«Ovas & Outros Sentimentos» de Francisco Milheiro

Livro dedicado ao leitor e a Teixeira de Pascoaes, as suas páginas revelam essa divisão funda entre duas figuras e dois modos de fazer literatura. A começar pelo título, há neste livro breve (31 páginas) uma dupla inscrição: Natureza e Cultura, Pascoaes e Pessoa.

O poeta vive perto da Natureza («As folhas verdes /crescem, sobem, /de repente. As folhas / mortas, precipitam-se / em queda livre / sobre o solo.) mas lê o Mundo através da Cultura. Depois da advertência («Há demência em toda a poesia»), o poeta dialoga com autores diversos: Al Berto, Luís de Camões, Brecht, Mário Cesariny, Herberto Helder e Fernando Pessoa: «Tudo existe em sua/ ilusão de existir./ Tudo é, nada é sentir.»

Num quotidiano dominado por códigos («O ácido números do código de barras») e computadores («O papel com o nib está lá dentro, perdido») o horizonte está cada vez menos humanizado: «A vida é assim, e / o humanismo, uma / minudência de cristal. /Trespassa-se.» Só o amor resgata essa hostilidade: «Pende sobre mim /a memória dos teus cabelos/ o cheiro a amoras frescas: / aromatizante enriquecido/ com óleos naturais, lê-se/ no contra-rótulo da embalagem.» Ou, dito de outras maneira: «Cai, dolente, o mundo/ sobre os teus ombros.»

(Editorial Hespéria, Capa: Salomé Duarte, Design: Fernando Estevens)