O pão, o vinho e a carne

Eu também comi desse pão e bebi desse vinho

Entre o sol e o pó na luz da tarde dum arraial

Eu era o rapazinho que transportava a carne

Na travessa com um ramo de louro por cima

Era eu que gritava Quem dá mais ó debotes!

Mesmo sem saber que devia dizer ó devotos!

Sem saber nada e não saber nada era ser feliz.

Era eu que tropeçava nas pedras soltas da rua

Debaixo do pálio ia com a naveta do incenso

Com o turíbulo a deixar no ar o imenso doce

Passando ao lado dos mais humildes currais

Onde os sons da filarmónica faziam responder

Todas as vozes de todos os animais da terra

Cansados dos seus trabalhos de todos os dias.

No fim da procissão logo começava o almoço

No fim do almoço tinha o coreto e a quermesse

Um copo de vinho amolecia as cavacas duras

O sol derretia todo o gelo na tina das gasosas

Enquanto eu derretia todos os tostões em rifas

E os músicos chamavam «marcha tripas a ferver»

À marcha militar «Stars and stripes for ever».

Era o Espírito Santo e eu nesse tempo não sabia

No pão, no vinho e na carne vendida num leilão

Havia em tudo a humidade das lágrimas de Deus

Porque só às crianças cabia o preço do resgate

Dum Mundo cada vez mais longe da Sua Luz

Onde as primaveras já não eram uma estação

Mas um cenário de plástico e de papelão cinzento.

Era o Espírito Santo e eu nesse tempo não sabia

Mas saber não era para mim o mais importante

Porque naquele tempo vivia a festa por dentro

Mas hoje já não há nenhum lugar para mim

Nem na procissão nem nas rifas da quermesse

Nem na mesa do almoço onde não está ninguém

Nem no coreto de onde todos os músicos fugiram.

O poema é uma candeia acesa no meio da noite

Quer ser uma oração a juntar o tempo que ficou

No lado de lá do vazio, da noite e da infância

Lá onde não há pontes a ligarem duas margens

Lá onde o poeta ajoelha num altar de sombras

Para rezar de novo nas mais longas ladainhas

Um poema tão triste, tão teimoso e tão tardio.

8 thoughts on “O pão, o vinho e a carne”

  1. Não está mal, não senhor. Consegui ler até ao fim, o que não era garantido. Bota mais recordações de infância, que parece bom caminho.

  2. é verdade: a festa vive-se por dentro, por dentro do vinho, do pão, da carne, das rifas, das quermesses e das dores, que é onde Deus – que não tem religião nem mantras – está. é o espírito, não santo, infantil. gostei muito de ler a tua versão. :-)

  3. Obrigado Olinda! Apetece sair por aí com uma peça de carne numa travessa, um ramo de louro e o grito – «Quem dá mais ó devotos»

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