Um livro por semana 269

«Fonte das Escadinhas» de Adelina Soares

Esta narrativa de 184 páginas parte da vida de Maria (n.1921) e alcança o seu amplo sentido, logo inscrito na capa, de «homenagem a uma geração.» A heroína da história poderia repetir uma quadra divulgada nos livros escolares do tempo: «Quem teve a grande desgraça/De não aprender a ler/Só sabe o que se passa/No lugar onde estiver». Daí o fascínio de Maria pelas viagens. Seja à Ericiera («já tinha visto o mar de longe mas nunca estivera na praia») seja ao Parque Mayer onde funcionam quatro teatros: «ABC, Maria Vitória, Variedades e Capitólio». Mas o assunto analfabetismo não é só pessoal («uma mistura de revolta, desilusão e profunda tristeza») mas também geral: «a culpa é do país miserável onde vivemos onde só os ricos podem ir à escola, percebes?»

Depois de um namoro frustrado pelas convenções da época com Joaquim, a narrativa do percurso de vida de Maria, com dois casamentos seguidos de suicídio (Caetano em 1944 e Alberto em 1950) leva-nos por temas pouco abordados na época. Seja a homossexualidade («durante a noite Diogo partilhava a cama do Ti Chico , a Ti Felismina dormia noutro quarto»),seja o aborto: «havia uma cortina branca e por trás dessa cortina uma velha maca de ferro, já enferrujada».

A vida na aldeia onde existem clínicas e as lavadeiras tratam da roupa das freguesas da cidade não é fácil. Oscila entre a doença («bastava que um doente tossisse, falasse ou espirrasse para que o micróbio da tuberculose se propagasse») e a cura com o senhor Sousa: «percorrendo a pé ou de motorizada toda a freguesia e arredores, muitas vezes à chuva e de noite, para dar injecções, quantas vezes sabendo que as pessoas não tinham dinheiro para pagar».

Há nestas páginas um mergulho na memória de um certo tempo português na região saloia através de palavras hoje em desuso. Como regimento (40 dias depois do parto), jantar (2ª refeição do dia), dias alumiados (dias santos), rapé (tabaco em pó), espinhela caída (mal da coluna), bucho virado (mal do estômago) ou enganada para definir rapariga que deixou de ser virgem e passa a usar um lenço na cabeça como aviso formal e público da nova situação.

(Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Prefácio: Carlos Severino, Revisão: Levi Condinho)

5 thoughts on “Um livro por semana 269”

  1. gostei tanto de beber desta fonte. é como se, de facto, estivesse a subir umas escadinhas enquanto lia – uma curiosidade levantava-se, ou subia, mesmo antes de avançar para outra.

    e agora fiquei a pensar na lógica do lenço na cabeça e se será por isso que na modernidade as mulheres tanto gostam de tingir o cabelo de outras cores que não a original. :-)

  2. Já passou à história. Em algumas terras os rapazes «livres» da tropa só casavam com viúvas novas ou raparigas enganadas… Por alguns vinham a chorar.

  3. “do percurso de vida de Maria, com dois casamentos seguidos de suicídio (Caetano em 1944 e Alberto em 1950)”
    2 maridos que se suicidaram? Isso não é nada. Eu conheci uma srª. que mandou 6 para a cova. Era a D. Celeste, chefe da seção de datilografia, onde havia cerca de 20 meninas a escrever à máquina. Lindas de morrer. Tanto assim que quando a gente lá ia, em serviço, claro, dizíamos: Vou ao jardim da Celeste. Mas 6 é obra. 2 é pouco.
    E a propósito dessa quadra:
    “Quem teve a grande desgraça/De não aprender a ler/Só sabe o que se passa/No lugar onde estiver”
    Às vezes nem onde estamos sabemos o que lá se passa. Se eu não vos contasse isto vocês nunca saberiam:

    Fui p’ra ela decidido,
    o “pinto” ficou caído
    e o sexo recusou.
    Agora mijo sentado,
    não dou a mão ao safado
    que tão mal se comportou!

    E esta oh Xico!!! Esta não conhecias, confessa lá à gente!

  4. Já tive a sorte de me terem oferecido este livro, talvez por saberem que nas minhas veias corre sangue saloio.
    Este livro é sem dúvida uma homenagem a esta gente GRANDE que muito sofreu e muito lutou. Trata temas de há 50 anos mas que à luz da história da humanidade são mínimos…mas… e que diferença, que transformação sofreu a nossa sociedade neste meio século? Apenas os temas e os sentimentos se mantêm inalterados.
    Aconselho vivamente a sua leitura.

  5. Aconselho vivamente a leitura deste magnifico romance que tão fielmente retrata como se vivia no século passado.

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