Balada da Calçada do Combro ou o «28» de Oleg Basyuk

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem

7 thoughts on “Balada da Calçada do Combro ou o «28» de Oleg Basyuk”

  1. Bom Ano, Poeta, não escreva ainda a última quadra.
    Vá pelo ditado “o que há-de ser nosso, às mãos nos há-de vir ter “, nas tintas para cunho machista do dito e continue viagem.
    Diga que fui eu que disse !
    Jnascimento

  2. Um abraço caro amigo. Obrigado. Tenho um pedido de desculpas a fazer: enganei-me no nome do autor do quadro. Chama-se Ruslam Botiev não Oleg Basyuk. Como sou admirador dos dois enganei-me. Não há-de ser nada. Vou agora falar com os dois – Oleg no miradouro de São Pedro de Alcântara e Ruslam na livraria Sá da Costa.

  3. Mas hoje parece tudo a preto e branco como antigamente.

    As calçadas dos passeios com ondulações e pedras soltas, são um perigo para os velhotes.

    De madrugada deviam lavar diariamente as calçadas com mangueiras como antigamente mas esqueceram-se porque a água é cara.

    Os primeiros segundos terceiros andares não sabem o que é tinta nos caixilhos das janelas portas e paredes.

    Isto visto de dia, porque à noite, nem quero imaginar.

    Tenho tanta pena de Lisboa, a nossa capital.

  4. Meu caro à noite é de fugir, isto hoje é uma terra queimada. Ainda agora um cabrão me colocou uma garrafa de litro debaixo de um pneu – foram mais 80 euros…

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