Vinte Linhas 715

Saudação a Ana Maria na Universidade de Évora

Cheguei a Évora em 1972 e sei que, passados 40 anos, a cidade de 2012 não é a mesma. Nem na paisagem nem no povoamento. Desejo que possas amar esta cidade hoje a cores como eu amei as suas pedras e os seus sons em 1972 a preto e branco. Quarenta anos são muitos dias mas passam por nós em vertigem. Como um navio antigo, há no seu porão vida e morte, lágrimas e alegrias breves, temores e sangue pisado. A minha primeira coisa, na manhã da estreia no Hospital Militar, foi ajudar o meu chefe da contabilidade a preencher uns impressos da PIDE. Naquele tempo era obrigatório dizer que uns amigos tinham pernoitado na nossa casa. Estranhos tempos; era tudo triste, melancólico e a preto e branco.

Em 1972 havia pedras na Rua dos Mercadores e o luar de Janeiro fazia delas pequenos espelhos a brilharem na noite. A Rua dos Mercadores é (com a Rua do Raimundo e outras) uma das mais bonitas da cidade. À noite cai um pesado silêncio sobre os seus telhados e quintais. O frio continental é, para muitos, inesperado e não se deixa vencer nem à custa de cafés duplos. Hoje como em 1972, o frio de Évora é das poucas realidades que permanecem sem alteração. As camionetas eram verdes e chegavam da garagem em Azeitão – João Cândido Belo era o nome inscrito na chapa ao lado de A transportadora Setubalense. Hoje há expressos mais velozes e os motoristas usam telemóvel.

Quando passares pela Rua das Amas do Cardeal, olha que o Cardeal D. Henrique, regente do Reino, perdeu os dentes e pediu às amas-de-leite que lhe dessem o peito no intervalo dos bebés a amamentar. A memória permanece. Já percebeste, Ana Maria, que gosto muito da cidade. Tenho até a ideia de que nunca saí dela pois não me lembro de lhe ter dito adeus.

12 thoughts on “Vinte Linhas 715”

  1. Contra o frio e três anónimos, poeta, nada melhor do que um capote alentejano.
    Tivesse eu “garagem” para o guardar de Verão e não morreria sem o “deitar” pelos ombros, ainda não decidi a cor, cinzento ou castanho, mas há-de ter uma farfalhuda gola de raposa.
    Que seja feliz a sua filha, poeta, em Évora ou em outro qualquer lugar do Mundo e você.
    Jnascimento

  2. Meu Caro Joaquim, não se trata da minha filha Ana, está no Reino Unido. Nem sequer da Marta que lá estudou mas já concluiu. É um simples pretexto mas o lixo humano chega a todo o lado. É um vómito, meu caro Joaquim…

  3. oh poeta! a gaja é directora da gesreal – gestão de resíduos do alentejo lda., ganda tacho para o lindo testo, vai ser reciclar à canzana e ainda te queixas que não vendes.

  4. CORO DAS AMAS DO CARDEAL

    Dar a teta a uma criança
    ou dar a teta a um bispo
    é como entrar numa dança
    em que o corpo não descansa
    porque o velho não amansa
    e eu mais que a teta não dispo.

    E se o bispo é cardeal
    e o cardeal é regente?
    Dar o peito não faz mal
    dar o corpo é natural
    pois quem manda em Portugal
    mama na teta da gente.

    Porém deitada na cama
    não sou dele nem de ninguém.
    Mesmo se o velho me chama
    não me importo de ser ama
    se quem a carne me mama
    me rói os ossos também.

    António Lobo Antunes
    Letrinhas de Cantigas

  5. É simples meus caros Olinda e Zeca Diabo: conheço a rua pois vivi em Évora desde 1972 a 1974 e um amigo meu especialista em toponímia explicou-me a razão de ser. O cardeal perdeu os dente se algumas «amas de leite» deram origem à rua…

  6. Está no Reino Unido….oube lá qué quela lá faz, limpaz casas ou serbe num pabe? E fala inglês, num ma digas, oube shove it up ypur ass, jack ass, que tal? tás a bere, eu sou um poliglota, meu, só num falo a tua lingua.

    Já concluíu? O quê? Oube, meu aspirante a tramposo, tu passa-te pela cabeça quem pode estar daqui, ó trambolho? Devias ser corrido do mapa dos falantes..se fosse doutor ninguém te aguentava, até grababas o curso, mas só deste pró celeiro da escola cumerciale, não é ó saloio da benedita!?

    Nascimento, cresce e aparece, laba a língua pá, ou será que o rabo não te chega para expelires a merdesia toda?

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