Vinte Linhas 714

Em 1966 ainda havia destas flores no Chiado

A propósito da Livraria Portugal na Rua do Carmo que foi vendida e vai mudar de ramo depois do fim de Fevereiro, descobri num alfarrabista nas Escadinhas do Duque nº19-A a Revista «Ver e Crer» de Abril de 1950 com os jornalistas Mário Neves a director e José Ribeiro dos Santos a editor. Uma florista do Chiado começa por recordar o passado («Veja o que acontece com as mesas dos restaurantes e hotéis ou das casas particulares! Em regra só nos dias de festa ou de banquete aparecem floridas. Antigamente não.») para chegar ao presente: «Compreendo, o tempo mudou. Os homens endureceram. Já não há ternura pelas flores. Entre os milhares de pessoas que sobem diariamente o Chiado, veja se encontra um cavalheiro que ostente um cravo na lapela ou uma dama uma rosa sobre o peito. E antigamente? Só na minha loja havia duas raparigas para carregar flores para casa dos fregueses – fora os moços de esquina que, bem remunerados, aliás, levavam raminhos para a madame tal… Eu até conhecia as fases do namoro pelas flores oferecidas…»

Mas não fala só de flores; disserta também sobre relações humanas: «Um freguês começou o namoro com dois lindos cravos de pataco. Aquilo foi subindo. Houve intervalos – era quando andavam amuados. Mas quando ele voltava ao estabelecimento – o temporal tinha passado. Por fim deixou de comprar flores. Pronto, foi certo. Tinha-se casado… Veja lá se fosse hoje! No primeiro dia telefonava-lhe. No segundo convidava-a para o cinema e no outro, logo a seguir, iria tratar dos papéis. Que tempo este! Até as pessoas parece que crescem como as flores adubadas…» O tempo voa – o texto é de 1950 e em 1966, quando comecei a trabalhar na Rua do Ouro, ainda havia destas flores no Chiado.

6 thoughts on “Vinte Linhas 714”

  1. o que não falta é chinoca a vendele flô balata, mas se estás tão preocupado com desaparecimento é altura de fazeres qualquer coisa pelo teu país, alista-te como florista.

  2. «Até as pessoas parece que crescem como as flores adubadas»

    ó francamente caralhete, se as peçoas não crescessem, ainda tábamos da altura dos macacus, pá,penças que todos são da altura do postigo da porta da tua casa na terra do teu avô torto, o penas, ehhhheheheheh

  3. Não Olinda, não apareço na foto. Vou lá muitas vezes pois tenho amigos com banca montada na primeira mesa da Brasileira da parte da manhã.

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