Soube agora que no passado dia 15-11-2008 o jornal ABC no seu suplemento «Las artes y las letras» publicou este poema traduzido por Vicente Aráguas e com uma nota biográfica de Amália Iglésias. Penso que é uma curiosidade para todos nós leitores do «aspirinab» esta revelação. Trata-se de um excelente e bem diversificado suplemento cultural e ter lá uma página é uma coisa agradável que merece ser compartilhada com todos nós.
ATÉ ESSE MOMENTO
Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó
Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas
Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas
Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece
Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas
Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz
Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do Outono
Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo
Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto