Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

A factura de Conceição

Quando nasceste caiu todo o peso da Terra

Sobre os ombros já tão cansados da tua mãe

Venceu a vida sobre a morte em pé de guerra

Que tinha levado o teu pai para outro Além

Não pudeste sentir a força dos seus braços

Quando regressava a casa ao fim dos dias

Nem ele sorriu dos teus primeiros passos

Ou emendou as tímidas palavras que dizias

Agora tu devolves à tua mãe essa ternura

De há cinquenta anos mas em duplicado

É quase como quem paga hoje uma factura

Cujo vencimento nunca foi ultrapassado

Uma factura feita das lágrimas e dos sinais

Uma soma de muitos cuidados e de paixões

Corres por ela nos corredores dos Hospitais

Se pudesses eras tu que fazias as transfusões

Vinte Linhas 334

A irresistível vocação da Revista Visão para a conjuntivite

Esta semana a Revista Visão entra a matar na sua coluna «Radar – figuras» com fotos e comentários sobre quem ganhou cor e quem a perdeu na semana. Transcrevo a prosa: «Lucílio Baptista protagonizou o erro de arbitragem do ano no Estádio do Algarve. Mas foi só ele? E a sucessão de outros erros (contra o Rio Ave e o Belenenses) que permitiu a chegada de Sporting e Benfica à final?» Primeiro erro crasso: o Sporting chegou à final da Taça da Liga porque venceu o F.C. Porto por 4-1 e não porque beneficiasse de um erro do árbitro do jogo Rio Ave-Sporting. Segundo erro crasso: quando o Sporting jogou com o Rio Ave já tinha assegurado o primeiro lugar na sua série pois tinha vencido os outros dois adversários (Marítimo e Paços de Ferreira) obtendo assim seis pontos, pecúlio mais que suficiente para ser o vencedor da sua série onde todos tinham perdido com todos e (deste modo) tanto lhe fazia somar nove como sete pontos. Para o caso era igual.

Esta conjuntivite (olhos vermelhos e infectados) já eu conheço há muitos anos e lá continua a fazer carreira na nossa comunicação social. Comecei a colaborar em A Bola em 1979, passei pelo Record em 1986 e estive no Sporting de 1988 a 2006. Fui o organizador do livro «O Desporto na Poesia Portuguesa» em 1989, sou um dos co-autores de «Glória e Vida de Três Gigantes» de 1995 e conheço o meio. Não falo ao acaso.

Esta tentativa canhestra e mal amanhada de tentar branquear um erro terrível que inverteu um resultado de um jogo decisivo, numa altura em que o adversário do Sporting não conseguia alterar o curso dos acontecimentos, vem provar que hoje como ontem eles andam por aí. Não há pingos para esta conjuntivite; os olhos continuam vermelhos.

Balada da Rua de Baixo

Rua de Baixo, meu mundo

Onde eu regresso cansado

Quando o olhar é profundo

Já andou por todo o lado

São casas sem ninguém

De famílias desligadas

Não se ouve a voz da mãe

Na névoa das madrugadas

Meu berço e minha escola

Minha casa e minha igreja

O amor não pede esmola

Nas esquinas da inveja

Minha paisagem saudosa

Povoada por destroços

Duma sede mais gasosa

Que a água destes poços

Filarmónica formada

Manhã cheia de brancura

Há festa não tarda nada

Na rua desta amargura

Sete ondas repetidas

São sete beijos do mar

Na areia das nossas vidas

Já só podemos cantar

Pode-se cantar um fado

Feito só de melodia

Um homem fica calado

Ao ver a fotografia

Minha rua inicial

A vida, anos primeiros

Onde passou triunfal

A paixão dos baleeiros

Um livro por semana 113

«Deserto de todas as chuvas» de Sidónio Bettencourt

O ponto de partida deste livro é o lugar da infância («ouço-te desse lugar longe que não habito») o espaço ao qual é difícil voltar: «a custo se regressa ao berço, à escola, à casa, à velha igreja». Porque a infância não é hoje o paraíso perdido mas sim «a nostalgia da casa desabitada e a família dividida». A memória fica repartida entre a monotonia da paisagem («lá vão, a carroça, a bilha do leite, o cão, a missa, o vapor, tudo aceite») e as figuras que a povoam: «carregaste sacos, garrafas, cimento e gás / trouxeste e levaste embrulhos e a carne do talho para todos os doutores / rachaste a lenha do forno e cozeste o pão que o diabo amassou / riste de tudo e viveste entre quarto paredes despidas duma casa de cal e sol / partiste sem os braços quentes duma mulher».

Este retrato do «menino Jaime» é uma fórmula subtil para o poeta introduzir o tema do amor e dos seus desencontros: «não sei se te encontrarás algum dia e se me vires não digas palavra / saberei dizer-te no olhar o que me escondeste dos olhos e da voz calada sentirás o poema da partida». Quando o ponto de partida é a infância o da chegada é o regresso a esse lugar: «nunca tive outra pátria, outro rio, outra casa, outra rua, nunca tive outra terra, outro mar, outra mãe, outra mulher, nunca tive outra coisa qualquer».

Pelo meio fica a respiração entre o deserto («o porto é o deserto / a gente / a fome / a gritaria») e a festa possível: «enquanto houver uma farda branca de clarinete, um pacote de amendoins, uma lâmpada entre dois mastros de bandeira e esta saudade imensa, o tio João Alves pode cortar o cabelo para a festa».

(Editora: Salamandra, Capa: Marta Figueiredo, Desenhos: Emanuel Garcia, Prefácio: Eduardo Bettencourt Pinto, Nota da contracapa: Carlos Melo Santos, Apoio: Câmara Municipal das Lajes do Pico e Direcção Regional da Cultura)

Vinte Linhas 331

O vómito algarvio ou segundo caso «very light»

Corria o ano de 1996 quando na Final da Taça de Portugal no Jamor um «very light» atirado de uma claque benfiquista atravessou o relvado e atingiu o peito do sócio sportinguista Rui Mendes destruindo-lhe a traqueia e provocando a sua morte imediata. Treze anos depois no Estádio do Algarve, na Final da Taça da Liga, foi o árbitro setubalense que atirou um «very light» ao peito do jogador Pedro Silva assinalando uma grande penalidade inexistente e expulsando o mesmo jogador. Como o adversário do Sporting não conseguiu o golo, o árbitro «chegou-se à frente» e resolveu a questão. No primeiro caso a FPF foi condenada a pagar uma indemnização pelo Tribunal de Oeiras e o autor material do disparo do «very light» foi preso e condenado mas depressa fugiu de uma prisão de alta segurança. No segundo caso o árbitro não vai ser castigado e o clube vencedor festejou a vitória como se a mesma fosse legítima. Não estranha num clube que celebrou o centenário no ano em que fez 96 anos e ostenta na camisola o símbolo de 31 campeonatos quando são apenas 28 uma vez que as Ligas de 1935 a 1938 foram torneios privados, particulares e onde os clubes entravam por convite; ao contrário do Campeonato de Portugal, único torneio de futebol em Portugal que atribuiu o título de campeão nacional entre 1921 e 1938. Na verdade foi a camisola do jogador Di Maria do Benfica a agitar-se (a papoila saltitante) que marcou a grande penalidade. Tal como o falso centenário em 2004, tal como os três campeonatos fantasma de um torneio que se realizava nos domingos livres entre as eliminatórias do Campeonato de Portugal. Este segundo caso «very light» é um vómito mais sobre este tão pobre futebol português.

Vinte Linhas 330

De como a ASAE me estragou o Dia do Pai ou «Não se pode exterminá-lo?»

Vinha eu embalado num dia quase feliz pois ainda pude almoçar com o meu pai no Dia do Pai e receber três beijinhos dos meus filhos (um deles por telefone) quando de súbito levei um murro no estômago e fiquei com o resto do dia estragado. Parei na Espinheira para um lanche que supunha agradável mas soube que a Associação Cultural e Recreativa de São Salvador / Espinheira foi multada pela ASAE em 4.500 euros por não ter livro de reclamações e por não ter o snooker aferido. É espantoso como aqueles «cérebros» são capazes de castigar assim os indefesos corpos gerentes da Associação. Um livro de reclamações tem justificação para um café que existe para ter lucro mas para uma associação que trabalha desde 1-5-1974 e está aberta desde as 8 da manhã às 11 da noite para apoiar os 180 habitantes das duas localidades é uma brutalidade monstruosa e desajustada para uma equipa de dirigentes que se preocupa em manter uma escola de karate e um espaço de ginástica de manutenção para a terceira idade. Podiam ao menos (se tivessem um pouco de bom-senso) avisar que, apesar de a Associação não ter fins lucrativos mas como único fim o bem-estar da população quase toda idosa, se tornava obrigatória (mesmo assim) a apresentação de um livro de reclamações. Mas não. Bom-senso eles não têm nem fazem ideia do que seja. Querem é passar a multa. Agora lá vai a Associação organizar uma noite de fados e guitarradas para angariar fundos para pagar a multa da ASAE. E eu pergunto: então e a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal e o Governo Civil não podem fazer nada para ajudar a Associação? Eu revoltado digo como o Vanigen encadernador na peça de Karl Valentim: «E não se pode exterminá-lo?»

Um livro por semana 112

«O Marquês da Bacalhoa seguido de A execução do Rei Carlos» de António de Albuquerque

Esteve para se chamar «Enseada Azul» este hoje clássico da literatura de combate contra a Monarquia. Abre um dos capítulos com: «Achava-se ali, nesse à-vontade incomparável das praias, todo o vício elegante, vaidoso e snob da linda e vasta Enseada Azul e se à primeira vista parecia reinar entre os frequentadores da praia uma geral promiscuidade, era um completo engano. Havia profundas separações; barreiras vedando o acesso aos desconhecidos e aos possidónios».

Além do Rei, a Rainha é posta em causa, sendo-lhe atribuída uma ligação a uma das mulheres da corte a quem dirá: «Não sejas criança. Vai desembaraçar-te desse aparatoso vestido e volta depressa…anda. A ti adoro-te, bem o sabes, e ninguém incarna para mim o amor como a tua fragilidade voluptuosa, sincera e ardente». As relações entre as personagens e as figuras reais são evidentes: o Bacalhoa é D. Carlos, João Franco é João Nunes dos Santos, Mouzinho é o coronel Luna, Soveral é Álvaro Negrão.

Sobre «A execução do Rei Carlos», óbvio desenlace do livro anterior, escreve Paulo da Costa Domingos «Limpando os escolhos literários, subsiste na sua pungência original uma passagem da nossa história, das difíceis de se omitir a parte maldita».

Para fugir à polícia de João Franco os livros foram compostos numa «catraia» (pequena oficina) na Rua do Arco do Bandeira embora apareçam em 1908 e 1909 como sendo impressos em Bruxelas. António de Albuquerque era descendente de Afonso de Albuquerque e morreu em 1923 em Sintra depois de pedir perdão à Rainha e a Deus.

(Editora: Frenesi, Prefácio e Capa: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues, Caricatura: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro)

Vinte Linhas 329

Mais de 9.000 livros perdidos na British Library

A notícia deixou-me, como é costume dizer-se na brincadeira, de olhos boquiabertos… Então aquela santa instituição chamada British Library deixou perder mais de 9.000 livros alguns deles perfeitamente insubstituíveis. Vejamos: um guia da cidade de Roma editado no século XVII, a edição de 1876 da «Alice no país das maravilhas» de Lewis Carrol, os «Cantos» («Canzoni») de 1911 de Ezra Pound, «O retrato de Dorian Gray» de Óscar Wilde na edição de 1891, uma carta astrológica de Moses Ben Maimon datada de 1555 e um livro de Wolfgang Musculus de 1556 intitulado «Sobre os cristãos». Todos os livros são mais que valiosíssimos e também impossíveis de substituir.

O mais engraçado é que isto não tem graça nenhuma. Corria o ano de 2006, o calendário marcava o dia 27 de Julho e estive uma manhã quase inteira a responder a uma bateria de perguntas antes de me concederem o cartão de leitor nº 631480 com validade até 27 de Agosto desse ano de 2006. Quiseram saber quem eu era, mostrei a carteira profissional de jornalista e expliquei que estava a ajudar o meu filho recolhendo elementos para a sua tese de mestrado sobre o Marquês de Alorna e o Estado da Índia. Depois obrigaram-me a indicar um parente em Londres com a sua profissão, o seu local de trabalho, a sua morada e o seu número de telefone. Senti-me incomodado por tanta pergunta, por tanta especial vasculhar na minha privacidade (até pediram o número do meu cartão de crédito torcendo nariz ao facto de ele ser apenas silver…) e duas horas depois lá me concediam o cartão. Fiquei irritado, fui tratado como um suspeito mas as exigências são só para alguns. Pelos vistos os tipos que roubaram aqueles livros todos não foram incomodados como eu.

Um livro por semana 111

«De Tempos a Tempos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (Olhão, 1936) é um autor multifacetado (romancista, contista, poeta, ensaísta, biógrafo, contista e tradutor) que publica regularmente desde 1963 e tem textos seus traduzidos em francês, alemão, inglês, húngaro e grego.

Este «De Tempos a Tempos» junta dois livros num volume: antologia pessoal e antologia crítica. Escreveram sobre a obra de Júlio Conrado (entre outros) os seguintes críticos: Ramiro Teixeira, Ernesto Rodrigues, Serafim Ferreira, Maria Estela Guedes, Annabela Rita, Manuel Villaverde Cabral, António Augusto Menano, José Fernando Tavares, Cristina Robalo Cordeiro, João Rui de Sousa, Maria Fernanda de Abreu, Fernando J. B. Martinho, Eugénio Lisboa, Liberto Cruz, Manuel Simões, António Cândido Franco, Urbano Tavares Rodrigues, João Gaspar Simões, Duarte Faria, Luís Miranda Rocha, Maria Alzira Seixo e Fernando Venâncio.

Duas cartas de Fernando Namora e de Eduardo Lourenço completam o volume que inclui uma entrevista conduzida por Luís Souta na qual Júlio Conrado afirma: «Considero-me um ficcionista. Se bom, se mau ou assim-assim, outros o dirão. Mas o ensaio e a crítica são áreas fascinantes que eu não julgo incompatíveis com a ficção e a prova é que, estando a publicar dois romances, anda por aí mais um livro de ensaios, Ao Sabor da Escrita. Não se trata de uma questão de jogo mas sim de interesse intelectual. Tenho sabido separar as águas quando critico a «concorrência». E sou dos que mais tempo na sua vida consagrou a divulgar, através da crítica e do jornalismo cultural, a obra alheia. Pouco devo aos meus contemporâneos. Eles sim, devem-me bastante».

(Edição: Roma Editora, Capa: David de Almeida, Organização: Annabela Rita)

Vinte Linhas 328

O vestido é a bandeira da Primavera

Na cidade não há amendoeiras em flor mas eu vejo no teu vestido de hoje o anunciar da Primavera. O escuro do fundo do tecido contrasta com o verde e o grenat das imagens sucessivas, redondas e repetidas na vertical. Parecem pétalas de flores que o vento agreste dispersa na tarde quente da cidade.

Vejo no teu vestido uma bandeira a anunciar a estação que se aproxima. Vejo nesta geometria de cores o anúncio da vida a ressurgir depois do longo Inverno que fez das albufeiras repletas grandes lagos interiores na nossa paisagem. Entretanto nasce uma certeza: as barragens vão ter longos meses de desafogo.

O teu vestido de fundo escuro com desenhos a verde e a grenat é um anúncio de leveza, de alegria, de movimento. Basta juntar o som da tua voz, basta fechar os olhos para ouvir nela, dentro dela, no seu volume, o rumor do rio que passa na tua terra e a força do vento que empurra as pedras da serra ali mesmo ao lado.

Basta juntar o vestido ao som da tua voz para termos a luz das amendoeiras em flor em plena cidade, entre eléctricos e ambulâncias, entre carros da polícia e autocarros.

Nos semáforos, nas escadas do Metro, no comboio suburbano, no fim de tarde que se desenha à tua volta o vestido continua a ser uma bandeira da estação que tu anuncias um pouco antes do tempo. A Primavera chegou no timbre e na altura da tua voz, no esplendor do sorriso, no ritmo dos teus passos afirmativos e impetuosos. Caminhas nos passeios da cidade com o mesmo ritmo com que atravessas as ruas da aldeia nos dias de festa. Caminhas como se já ali à frente houvesse uma encosta de amendoeiras em flor.

Um livro por semana 110

«Sidónio Pais – Ídolo e Mártir da República» de Rocha Martins

Rocha Martins (1879-1952) foi sempre um jornalista apaixonado pela História. Começou no Diário Popular, passou por A Vanguarda, Jornal da Noite, Ilustração Portuguesa e República. Fundou os semanários ABC em 1920 e Arquivo Nacional em 1932.

Neste seu livro, escrito entre Abril e Outubro de 1921, Rocha Martins faz a sua reconstituição do tempo entre a «revolução» de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918, dia em que o presidente Sidónio Pais foi morto a tiro por José Júlio Costa.

Sobre o fascínio exercido por Sidónio junto das mulheres escreve o autor: «Sidónio Pais conseguira, em poucos meses, captar o maior elemento de triunfo que existe: a Mulher. Não havia uma só que não adorasse o gesto nobre desse homem esbelto e, com o fetichismo da raça, com a paixão do instinto pelo seu futuro, não o julgasse um ser de eleição pronto a remediar todos os seus males. A correspondência recebida pelo Presidente da República tem o aspecto sacro de um livro de orações em favor da Pátria. A mulher é quem guarda o lar, quem o deseja tranquilo, alegre; é ela quem cuida dos filhos e por eles teme; a portuguesa, na sua maioria dona de casa, receando perder o esposo, sonhando sempre com melhores dias, encontra em Sidónio uma esperança e não queria desiludir-se. Era a eterna continuação da lenda medieval do príncipe matando o dragão para salvar a princesinha».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 327

«Os Galegos nas Letras Portuguesas»

A partir das palavras de Fernando Venâncio no semanário «Expresso» de 1-12-2007 organizou Rodrigues Vaz este livro de 234 páginas que inclui autores tão diversos como Sá de Miranda e Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Teixeira de Pascoaes, Ramalho Ortigão e Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis e Francisco José Viegas, Wanda Ramos e Fernando Assis Pacheco.

Escreve Fernando Venâncio no intróito deste livro: «Na península que habitamos, na Europa, mesmo no mundo inteiro, nada nos é mais próximo do que a Galiza, nada deveria ser-nos também, mais caro. Temos ali uma irmã de cultura, no idioma, no modo de ser. Por ali se prolongam tranquilamente as nossas paisagens. Foi dali que, num dia longínquo, nascemos como país, depois de séculos em que o nosso Norte era somente o Sul da Galiza». A edição (Pangeia Editores) conta com ilustrações de Helena Justino e o apoio da Xunta de Galicia.

Fazemos uma única citação breve que pode e deve servir de «apetite» de leitura; eis um excerto do livro «Coisas espantosas» de Camilo Castelo Branco: «Abriu Gregório o seu armazém na travessa de S. Domingos, com uma tabuleta amarela e vermelha, onde se lia este mote em letras verdes O LEÃO DAS ESPANHAS REI DOS PETISCOS. De feito, sobre o dístico, via-se o leão empolgando nas garras um pato assado e um paio de Lamego. Afora este estabelecimento que lavrou créditos não vulgares, Gregório abriu nas hortas de Chelas uma casa chamada RETIRO ADMIRABELE onde os petiscos eram muito melhores que a ortografia».

Vinte Linhas 326

«Colchetes de ouro» não é de Alfredo Marceneiro

Durante umas horas valentes este Blog foi um espojadouro. A propósito da «balada do coletinho» e dos seus dois versos iniciais o Nik deu o mote com a frase infeliz «prefiro a letra do Marceneiro» e o Gandaenjôo atirou-se ao chão, rebolou-se e levantou pó com aquela da «falta de respeito pelo Alfredo Marceneiro». O Nik ficou-se pela ignorância mas o outro foi agressivo. Parecia um solípede nervoso, deitando espuma pela boca e expelindo pelas narinas um som aflitivo e desorientado. Deixei que o pó assentasse e fui confirmar ao livro sobre a vida do Alfredo Marceneiro (que me foi oferecido pelo seu neto Vítor Duarte) aquilo que já sabia. O autor dos versos conhecidos como «Colchetes de ouro» é o poeta Henrique Rego a quem muitos chamavam o príncipe dos poetas do fado. Príncipe porque o rei dos poetas do fado era, para muitos, Linhares Barbosa. A importância da amizade entre Alfredo Marceneiro e Henrique Rego era tanta que há um capítulo especial na Fotobiografia do primeiro sobre os versos do segundo. A moral da história é esta: não se deve acreditar em tudo o que aparece na Net. Só porque o Nik escreveu não pode o outro atirar-se para a frente e dar este espectáculo triste. Parecido com isto só a história da Alice Vieira que foi a uma escola e quando ouviu um aluno a dizer que ia ler um texto sobre ela não percebeu como era possível o miúdo dizer que ela tinha nascido em Braga, era invisual, tinha sido mãe solteira e outras mentiras. Afinal o miúdo tinha ido à Internet e copiado a biografia da primeira Alice Vieira que lhe apareceu. E nem mesmo o facto de estar à frente da escritora o impediu de dizer aqueles disparates copiados na Net. E a professora não fez nada…

Um livro por semana 109

«Portuguesas com história» de Anabela Natário

Acaba de sair o mais recente volume desta série, dedicado às mulheres portuguesas do século XX. Ao todo são seis volumes, com início no século X. No campo das letras e das artes as biografias são as seguintes: Fernanda de Castro, Vieira da Silva, Helena Sá e Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Beatriz Costa, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maluda e Luísa Neto Jorge. Por uma questão de critério ou de espaço outros nomes poderiam figurar (Maria Ondina Braga, Maria Archer, Natércia Freire) mas o importante é sublinhar o facto de haver nestes volumes o «outro lado» da história. A começar pela questão das mentalidades e do papel que a sociedade portuguesa exige que a mulher desempenhe – muito à volta da cozinha, das crianças e da religião. Nesse aspecto concreto é curioso verificar as palavras de Natália Correia sobre o tema «filhos», ela afinal uma mulher que se casou quatro vezes: «A minha maternidade é universal e não biológica». Outras figuras da vida portuguesa como (por exemplo) Virgínia Moura e Catarina Eufémia (acção política), Amália Rodrigues e Cândida Branca Flor (música), Irmã Lúcia (vidente de Fátima), Vera Lagoa (jornalista) ou D. Branca (banqueira do povo), são também biografadas neste volume num total de 30 personalidades da vida portuguesa do século XX. Um olhar bem diferente sobre o tempo português.

(Editora: Círculo de Leitores, Grafismo: António Diogo, Foto sobrecapa: óleo de Amélia de Sousa)

Vinte Linhas 324

O papagaio de Salazar

Agora que se fala muito de Salazar e que há até um filme a passar na TV embora o Salazar namoradeiro que aparece não seja o que me interessa (a mim interessa-me o Salazar do Aljube, de Caxias, de Peniche e do Tarrafal), descobri no alfarrabista «Telles da Silva» o livro de Norberto Lopes sobre a imprensa em Portugal. Chama-se «Visado pela Censura» e foi publicado pela editora «Aster». A história conta-se em breves palavras. No dia 11 de Junho de 1926, na sequência do 28 de Maio, Oliveira Salazar chegou a Lisboa para tomar conta da pasta das Finanças. Norberto Lopes estava no «Diário de Lisboa» e foi à estação de Entrecampos onde entrou no comboio e manteve com o novo ministro uma conversa até ao Rossio mas as respostas foram zero: «Não posso ainda dizer-lhe. Não trago programa. Não tenho ideias a priori sobre aquilo que vou fazer. Sobre a questão dos tabacos por enquanto nada posso dizer-lhe. Ainda é cedo para falar.» Perante a insistência de que havia milhões de portugueses ansiosas pelas suas respostas, Salazar apenas disse: «Os senhores jornalistas são terríveis».

O grande jornalista Norberto Lopes recorda então a célebre anedota do papagaio que um dia foi pedido a um brasileiro que trouxesse para um amigo. Em vez de um daqueles sem papas na língua, o bicho era verde e oiro, parecia ser um palrador de primeira ordem mas nada dizia. «Então o papagaio não fala?» – perguntavam os vizinhos. E logo o dono respondia: «O papagaio não fala, não; mas pensa».

E foi esta anedota inofensiva que o Diário de Lisboa publicou na sua edição do dia 12 de Junho de 1926. Talvez porque a Censura ainda não estava bem oleada.

Vinte Linhas 323

Soube agora que no passado dia 15-11-2008 o jornal ABC no seu suplemento «Las artes y las letras» publicou este poema traduzido por Vicente Aráguas e com uma nota biográfica de Amália Iglésias. Penso que é uma curiosidade para todos nós leitores do «aspirinab» esta revelação. Trata-se de um excelente e bem diversificado suplemento cultural e ter lá uma página é uma coisa agradável que merece ser compartilhada com todos nós.

ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado

A máquina de escrever no chão

Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos

Farás promessas que não vais cumprir

E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho

Iluminado pela luz do teu olhar

À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado

Um gelado presente do indicativo

E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio

Será talvez a memória das noites

O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir

Nos desenhos (nos cadernos escolares)

Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado

Não como pai mas como anónima pessoa

Surpresa a esperar no céu do Outono

Terás nas tuas mãos um retrato

O voo das aves por cima da casa

Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos

Num momento ou talvez num lugar

Na tua idade como um portão aberto

Balada do coletinho

Toma lá colchetes de ouro

Aperta o teu coletinho

O teu peito é um tesouro

Envolvido em carinho

No coletinho vermelho

Que te defende do frio

É que eu vejo ao espelho

A luz em reflexo do rio

Há nos colchetes dourados

Do teu coletinho vestido

Um calor com dois lados

Que faz o frio um vencido

Não me canso na procura

Duma razão ou verdade

Num colete de ternura

Dou o teu nome à cidade

Num bulício de afazeres

E numa intensa corrida

Nas janelas das mulheres

É que a cidade tem vida

São janelas, são sorrisos

E portas do mundo aberto

Todos os sonhos precisos

Vão no teu passo ou perto

Entre as ruas e desgraças

Onde ninguém vai sozinho

Morre o frio quando passas

Dentro do teu coletinho

Quando chega o fim do dia

O teu colete é imagem

Nos colchetes de alegria

Faz a luz da carruagem

Da cidade ao regresso

Nos minutos do caminho

Ouve bem o que te peço

Aperta o teu coletinho

Vinte Linhas 322

O esplendor da ignorância no Diário de Notícias a propósito do derby

O recente Sporting-Benfica do passado dia 14 deu origem a um trabalho jornalístico no Diário de Notícias (páginas 2 e 3 do suplemento desportivo desse dia) e sobre essa publicação o menos que se pode dizer é que ela espelha o esplendor da ignorância dos seus autores. Começa pelas fotografias: apesar de o título referir que se trata de «derbies em casa verde» a fotografia maior das duas páginas é (como não podia deixar de ser…) do estádio da Luz. E não é preciso muita perspicácia para ver a diferença pois os dois estádios sempre foram diferentes – basta ver as escadas de acesso às bancadas. Portanto o erro não está na legenda e os minutos que Eusébio (ex-jogador do Sporting de Lourenço Marques) precisou para marcar um golo ao Sporting Clube de Portugal mas sim a foto em si – aquele é o estádio da Luz. Para além do mais, aquele que é de longe o mais famoso resultado dos derbies em Alvalade (o dos sete a um) tem direito a uma foto pequenina, tipo passe, enquanto a tal foto errada com Eusébio ao lado de Manuel Poeira, árbitro que em 1962 ainda não o era, tem direito a foto gigante. O segundo erro crasso diz respeito ao falso primeiro derby que não foi (nem poderia ter sido) em 23-2-1908 porque o Sport Lisboa e Benfica nasceu em Setembro de 1908. Tendo sido fundado em 13 de Setembro não podia disputar o jogo em Fevereiro. Um clube (em 1908) para existir tinha que ter estatutos entregues no Governo Civil, corpos gerentes eleitos, bandeira e emblema. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado em Setembro de 1908; antes havia outros clubes que se juntaram nessa data e cada um tinha o seu emblema, os seus corpos gerentes, a sua bandeira e os seus estatutos. Não perceber isto é não perceber nada.

Vinte Linhas 321

O horizonte que flutua em frente ao banco de Marta

Há um som de marcha brasileira no pôr-do-sol em frente à última falésia e na linha de espuma na onda repetida, frente ao banco de Marta, com o hotel à esquerda e o oceano em frente. Atrás do grupo das tarolas e dos bombos, surge o músico da trompete e a rapariga do saxofone. São eles que, a partir da pauta em fotocópia, dão a força inicial das melodias. Mais atrás seguem as meninas que tocam clarinete. Há também uma requinta. E pandeiretas que nunca mais acabam.

Vejo o teu cabelo na onda que sobe e enche de espuma a pedra negra de onde todos os pescadores fugiram recolhendo apetrechos e botas oleadas. Vejo, ou julgo que vejo, porque não posso ter a certeza, entre a luz do sol e a breve neblina que se forma nas pedras depois das ondas terem batido a sua fúria.

No pôr-do-sol daqui é o teu olhar que ficou na sexta-feira desenhado nas ruas da cidade a deixar o limite da luz azul e a marcar o horizonte que flutua em frente ao banco de Marta.

São as máscaras que chegam da memória de Veneza no som do Carnaval da marcha das crianças e fazem com que a paisagem se transforme para, de repente, ter o teu cabelo no cimo das ondas.

Já não há por aqui alfândega nem mercadorias para pagarem direitos conforme a pauta aduaneira. Neste lugar passa o som da marcha, passam as imagens e as máscaras do desfile e o ponto alto das ondas acaba por ser, de sete em sete, o recorte do teu penteado que ficou na sexta-feira à tarde em Lisboa. E sobre essa memória nada nem ninguém pode cobrar imposto, taxa ou comissão aduaneira.

Um livro por semana 108

«Histórias de amor» de José Cardoso Pires

Mais do que um livro trata-se aqui de uma lição de história da literatura. Estamos no ano de 1952: Victor Palla e Aurélio Cruz na editora Gleba criam a colecção «os livros das três abelhas» e publicam em Julho estas «Histórias de amor» que em Agosto os serviços da Censura retiram do mercado. José Cardoso Pires, então com 27 anos, escreve uma carta ao director dos serviços de Censura reclamando contra o abuso mas nada consegue. Ficou a história de proveito e exemplo para hoje: é possível pelo sombreado verificar no texto as palavras e expressões cortadas pela Censura: «dor de corno», «filhos da mãe», «saliva de beijos», lábios húmidos», «não me beije», «sua tonta» ou «conversa do catano». Sem esquecer que também cortou nomes de autores como Maiakowski, Eluard, Gide, Pessoa e Debussy. Além dos contos e da novela, este livro inclui as críticas de Óscar Lopes, Mário Dionísio e Luís de Sousa Rebelo – o único a quem, por viver em Londres, foi permitido denunciar o facto de a Censura ter retirado este livro do mercado.

Lido em 2009, há neste livro de 1952 o vigor dum jovem escritor que queria dar o seu recado ao Mundo ao descrever a «rapariga dos fósforos»: «Deixei-a é certo, sozinha e a trincar fósforos. Mas que poderá uma pessoa, unicamente por si, quando se lhe depara uma rapariga tão jovem e com o corpo traçado pela boca esfaimada duma velha, uma rapariga que nada sabe do mundo nem nunca beijou um homem? A menos que um vento sagrado de justiça venha dignificar as razões ultrajadas, os gestos, o olhar.»

(De notar na referência biográfica de JCP a rasura de Vila de Rei; passando da freguesia ao distrito e esquecendo o concelho)

(Edições Nelson de Matos, Capa: Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Contracapa: Júlio Pomar)