Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana – Especial

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«Praça da Fruta» de Carlos Querido

Para muitos de nós, caldenses de nascimento ou de adopção por vivências escolares, pessoais e militares, a Praça da Fruta é um lugar mágico de onde todos trouxemos algum pó público nos sapatos particulares. Os meninos do meu tempo de menino tinham (os que podiam) um fato dos Armazéns do Chiado no dia do exame da quarta classe.

O ponto de partida para esta ficção narrativa é o próprio lugar: «A névoa das manhãs do Oeste dissipa-se sempre devagar. É então que surge um momento de luz perfeita, quando céu já é azul e o chão ainda reflecte o orvalho da noite. Nesse instante único, em que a limpidez do olhar chega a tornar-se insuportável, surpreendo-me a observar as imperfeições da calçada. Marcas do tempo, cicatrizes, rugas, sinais de envelhecimento que nos passam despercebidos por os vermos todos os dias».

É neste espaço mágico que se articulam duas histórias paralelas: a do Narrador com Marília e a da viúva do Casal da Areia que mandou matar o marido muito mais velho do que ela. Do primeiro caso temos a história e o enredo; do segundo apenas a memória. Em ambos a diferença de idades é flagrante. Mas não só: os sonhos também são opostos. O Narrador é um empregado de uma Repartição; Marília é professora. Um apenas regista; outra semeia. Um gosta dos papéis do passado, outra ouve a música do futuro. Conheceram-se na Praça da Fruta quando Marília vendia pêssegos para ajudar a família. Juntou-se o peso da Cultura com a força da Natureza. Um dos momentos mais conseguidos da narrativa é a chegada do Narrador à casa da família de Marília num dia de matança do porco. Leva na mão um ramo de flores que não consegue entregar à mãe do seu amor porque a mesma se encontra integrada nas tarefas inadiáveis de não deixar coalhar o sangue do animal pendurado no tecto. E é o avô de Marília que o integra no espaço e no tempo com uma espécie de radiografia antropológica do que era viver na nossa terra nos anos 40 e 50 do século XX.

Surge neste livro a eterna disfunção entre Natureza e Cultura, entre o rodar maquinal e certeiro das sementeiras e das colheitas (Marília) e o fascínio dos velhos alfarrábios, jornais, livros, cartazes, actas camarárias e postais antigos (Narrador). Mesmo com livros comprados na livraria «107» e lanches na pastelaria Machado, a ligação entre Narrador e Marília começa a perder-se. Falta de comunicação num tempo em que há comunicação em excesso. Tal como a viúva Marreiros, Marília procura algo mais. A primeira teve um criado espanhol, a segunda tem a Internet. Diria um leitor cínico: «Se tivessem um bebé já nada disto acontecia!». Mas se assim fosse já era outra história. Não era esta história que começa na vida de um lugar e atravessa a vida da vila que foi da cidade que hoje é e do país do qual faz parte. E nos envolve a todos, porque todos os que lá estiveram e passaram nunca mais deixam de estar e viver. Lá ficaram mesmo quando não parece. E cabem todos nas 160 páginas deste livro. Um livro a não perder, sem falta.

(Editora: Corrida de Letras, Prefácio: Álvaro Laborinho Lúcio, Capa, Design e paginação: Inês Querido)

Vinte Linhas 404

«Boca de palhaço» do Batman é outra coisa – aqui é muito pior

Faz agora 43 anos (9-9-66) que comecei a trabalhar e a descontar para o Estado. Dos 600 escudos 16 foram para o «fundo de desemprego» de onde nunca tive nem poderia ter nada para mim. Sendo bancário não podia ir para a Segurança Social.

Toda a minha vida foi hipotecada a uma ideia: comprar uma casa bonita com vista para o Tejo e para a Serra da Arrábida mediante empréstimo bancário a 25 anos. A casa foi armazém do «Mosquito» e da revista «Távola Redonda». Vivo no Bairro Alto desde 1966 e acabei de pagar a casa em 2005. Se eu morrer de súbito (sou doente crónico) o que tenho para deixar à família é esta casa. Por isso reajo com veemência aos atropelos que nos fazem aos moradores aqui no Bairro Alto.

Agora corre o chamado boato urbano de que grupos de assaltantes fazem o golpe da «boca de palhaço» baseado no filme Batman. Desses não tenho eu medo. Tenho medo é dos trambolhos da EMEL que se colocam de cócoras perante a Câmara e da Câmara que se coloca de cócoras perante os trambolhos dos Sapadores Bombeiros. Tenho medo é da Junta de Freguesia que nada faz para defender os moradores e da Polícia Municipal que vem bloquear e multar automóveis à minha rua mas entre a entrada do Bairro e a minha rua passa por restaurantes que roubam lugares de estacionamento para colocarem assadores, carvão e mesas. E de brasileiros mal encarados que perante as reclamações de quem quer dormir respondem em vernáculo pataxó: «Si quer dórmir, sinhóra toma uma pílula!» Ao pé destes trambolhos o golpe da «boca de palhaço» é uma brincadeira. É um boato urbano. Estes são piores. Muito piores.

Vinte Linhas 403

As gralhas não têm bilhete de identidade

O meu amigo Eugénio Alves é o editor da revista «Tempo Livre» editada pelo INATEL mas pelos vistos não tem tempo para rever (ou mandar rever) os textos que edita nas suas páginas. Num texto da revista deste mês («A telenovela portuguesa nasce na Abrunheira») fala-se de «Vila Faia» e de «Origens», as duas primeiras telenovelas portuguesas. Passamos por cima do «nasce» num texto de memórias.

Primeiro problema: se a telenovela portuguesas nasceu na Abrunheira as gralhas não se sabem onde nascem. Só sabemos onde poisam.

No texto do cabeçalho aparecem dois cinemas que existiam em 1982 com nomes patuscos: Cantil e Atar. Se no caso do primeiro cinema podemos presumir ser o Castil já do segundo se torna mais complicado. Atar, Atar, assim de repente não estou a ver. Será o quê? Outra gralha muito engraçada é no nome do escritor Luís de Sttau Monteiro que surge na página 41 da revista do INATEL como Status Monteiro. De facto uma gralha assim tem outro estatuto.

Mais à frente surge outro problema mas aí já não se trata de gralha «propriamente dita» mas sim de um lapso – faltou a palavra «portuguesas» no fim da frase. Vejamos «Muita água correu sob as pontes mas aqui fica o que foi o principio de tudo em matéria de telenovelas». Se vos disser que ainda há pouco tempo safei em cima da hora uma gralha que colocava «Focinho» em vez de «Pocinho» como terra natal do escritor Francisco José Viegas, percebe-se melhor que elas andam por aí e que elas, as gralhas não têm bilhete de identidade. Só sabemos onde poisam. Não sabemos onde nascem.

Vinte Linhas 402

A vida é simplesmente um mau quarto de hora feito de momentos esquisitos

Dou um passeio pela Baixa e sou solicitado no Rossio a dar indicações a dois jovens estrangeiros sobre onde fica o Largo do Carmo. Tudo bem. Falamos do «25 de Abril» cuja cena principal foi aqui com Salgueiro Maia e Marcelo Caetano nos papéis principais. No Largo da Misericórdia sou abordado por um simpático casal de holandeses que procura o Príncipe Real. Aproveito para lhes mostrar o miradouro de São Pedro de Alcântara e o jardim anexo que foi recentemente recuperado. Adoram o local de prometem voltar amanhã. Perguntam-me se sou professor, respondo que não sou mas mudo de conversa e digo que já estive no seu país em 1977 – Amsterdam, Delft, Rotterdam, Alkmar, Scheveningen, Den Hague e não só.

Estou quase a terminar a minha caminhada nocturna depois da digestão mas, de repente, descubro uma figura humana minha conhecida dos jornais desde 1988. Apanhámos muita chuva e muito sol juntos em jogos de futebol dos chamados escalões jovens. Tenho o roteiro completo do país desportivo a esse nível. Chamo-lhe «sobrevivente» e volta-se de imediato. Ele estava no Brasil no dia daquele voo da Air France e esteve quase a mudar o seu voo (anterior ao voo da morte) para estar mais algum tempo na praia. Ainda bem que não cedeu a essa tentação. Teria desaparecido no oceano como os outros. Dou-lhe um abraço. Circula alguma emoção entre nós. Pouco falamos e pouco temos para dizer. A vida é muito complicada. Schopenhauer disse um dia que «A vida é um sonho e a morte o despertar» mas penso mais em Óscar Wilde – «A vida é simplesmente um mau quarto de hora feito de momentos esquisitos». Ou isso.

Vinte Linhas 401

Um tal Mr. Jason Cowley do jornal «Observer»

Em Julho de 2007 há um texto meu no «aspirinab» sobre a casa de Charles Gounod, casa essa que fica muito perto do local onde todos os dias o meu neto Thomas Francisco anda de bicicleta até se cansar e pedir o ursinho para fazer óó. Foi «As raposas de Charles Gounod». No dia 29-7-2207 às 22,39 horas eu enviei ao editor do suplemento desportivo do «Observer», o tal Mr. Jason Cowley, um texto no qual discordava de modo claro (embora respeitosamente) do seu artigo sobre Lasse Viren.

Numa perspectiva estúpida, nacionalista e errada, ele referiu-se aos «rivais» do polícia finlandês mas ficou-se pelos nomes de Brendan Foster, Dick Quax, Yfter e Rod Dixon esquecendo de modo imperdoável o mais importante rival de LasseViren – Carlos Lopes. Tão importante e tão rival que foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1976 e medalha de ouro em 1984. Esqueceu também de modo ostensivo e estúpido a figura de Fernando Mamede, recordista europeu e mundial dessa época.

O grande problema para esse Mr. Jason Cowley era simples – nem Carlos Lopes nem Fernando Mamede são dos países da Commonwealth. Ora a sua capacidade de raciocínio estava limitada aos países que usam o inglês como língua e a libra como moeda – seja ela de transacções correntes ou de referência para câmbios arbitrados. É uma tristeza cujas raízes não são apenas a ignorância mas também o orgulho estúpido de quem não percebe que o Mundo é maior do que parece. Ou como escreveu José Régio de modo magistral – «há mais mundos». Ao deitar para o lixo o mail que escrevi em inglês nesse dia de 2007 aqui compartilho convosco esta chamada de atenção. Dois anos depois, ainda a tempo.

Vinte Linhas 400

A melhor equipa que eu vi jogar entre 1997 e 2006

O jogo de ontem à noite do Sporting em Coimbra veio revelar mais um novo aspecto da prata da casa – o jovem Carlos Saleiro que criou por si um golo no qual Yannick Djaló apenas assinou a conclusão.

Colaborador que era desde Agosto de 1988 com a crónica «As palavras em jogo», fui convidado em Dezembro de 1996 a integrar os quadros redactoriais do jornal Sporting, o mais antigo jornal de clube do Mundo, com publicação ininterrupta desde 1922. Este jovem Carlos Saleiro fez parte da equipa-maravilha de Iniciados de 2000/2001 treinada por Rui Palhares e Paulo Cardoso. Ganharam tudo o que havia para ganhar (28 jogos seguidos) mas no fim não foram campeões nacionais por falta de adversário. Marcaram 196 golos e sofreram apenas 5 golos mas as toupeiras do futebol criaram um imbróglio e não houve fase final nacional.

Dessa equipa de 200/2001 jogaram em Coimbra Miguel Veloso, João Moutinho e Carlos Saleiro mas poderiam ter jogado outros dois jogadores chave – Emídio Rafael e André Vilar. O primeiro (capitão dessa equipa) foi dispensado para Portimão e o segundo perdi-lhe o rasto ainda júnior, estava ele no Alverca. Paulo Bento é de simpatias – só assim se explica que Silvestre Varela, jogador das escolas leoninas, brilhe no F. C. Porto e na selecção de Esperanças mas não no SCP. O caso de Emídio Rafael é flagrante: era o capitão da equipa, jogou no Sporting toda a sua vida desportiva, foi campeão nacional de juniores mas depois disso Paulo Bento quis impor André Marques (que é mais novo) e Emídio Rafael foi despachado para Portimão. É tudo uma questão de simpatia.

Vinte Linhas 399

Uma bandeira esfarrapada na Escola da Rua da Rosa

A Escola Primária Padre Abel Varzim na Rua da Rosa apresenta uma bandeira municipal completamente em farripas. Aquilo já não é uma bandeira; é um trapo, uma ruína.

Os meus filhos nasceram aqui no Bairro Alto em 1978, 1981 e 1985, tendo todos os três sido alunos desta Escola Primária. Todos têm dela uma memória feliz. A mais velha ainda hoje se dá com a sua professora (a Dona Piedade) e o meu neto é presença assídua em «mails» das duas, trocados de Londres para Lisboa.

Não peço muito, só peço que algum responsável (se os houver) retire os farrapos da bandeira da Escola Padre Abel Varzim na Rua da Rosa. Se não puder substituir o farrapo por uma bandeira nova, é preferível não estar lá nada. Mas façam alguma coisa.

Gostava de aproveitar o facto de esta escola ter o nome do Padre Abel Varzim para sugerir aos leitores que procurem saber algo mais sobre esta grande figura humana do nosso século XX. Nascido em 1902, viria a morrer em 1964, amargurado e perseguido, recolhido à sua terra natal (Cristelo) depois de uma vida inteira dedicada aos problemas sociais. Conheceu Joseph Cardijn em Lovaina, aí se doutorando em Ciências Politicas e Sociais enquanto conviveu com o fundador da JOC. Mais tarde fundou o jornal «O Trabalhador» (perseguido e fechado pela censura do Estado Novo) e foi pároco da freguesia da Encarnação entre 1951 e 1957. Havia então centenas de prostitutas e Abel Varzim procurou ajudar muitas dessas raparigas: aprenderam a costurar e fez com que cada uma tivesse a sua máquina. Alguns puritanos geraram uma vaga de escândalo que o magoou profundamente. Mário Soares atribui-lhe a Ordem da Liberdade em 1994.

Um livro por semana 134

lábio cortado rui almeida

«Lábio cortado» de Rui Almeida

Sabe-se (Erich Fromm) que o homem é o único animal para quem a própria existência é um problema do qual não pode fugir e que só ele pode solucionar pois só ele pode aborrecer-se, ficar descontente e sentir-se expulso do Paraíso. Este livro de Rui Almeida venceu o Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara Municipal de Águeda e reflecte sobre essa circunstância: «O homem que se olha ao espelho sabe / que vai morrer. Não sabe quando ou como / mas reconhece a finitude da vida / – da sua vida, de cada vida.»

Poeta jovem (n. 1972, Lisboa) Rui Almeida sabe que o corte («É o lábio cortado que molha o ventre») pode ser lido em sentidos vários – desde um corte real provocado pela escaramuça de um quotidiano de luta e hostilidade ao corte figurado entre duas maneiras de fazer poesia. De um lado a canção; do outro a reflexão. Sem esquecer a filosofia à volta do poema enquanto objecto: «À pequena raiz do poema / chega a memória como um centro / Algo mais do que o ruído metódico das sílabas / e desaba paulatinamente na mão / que molda a frase, pousada na caligrafia.»

Num primeiro livro o poeta fala sempre de si: «Esta coisa de estar parado a assistir a nada / consciente da cor de cada objecto à minha frente / enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro». Um poema regista a violência como banalidade («Quando o mundo nos entra com violência / para dentro do peito soluçamos») mas outro poema já advoga o encontro e o amor: «Tudo será dito sem memória nem futuro / Sujeito à solidão das vagas / Porque só as pessoas se amam».

(Editora: Livro do Dia, Capa: Inês Ramos, Nota apresentação: Paulo Sucena)

Vinte Linhas 398

UEFA – A encomenda foi entregue; está conforme

Aprendi desde 1979 em muitos anos de contacto directo com o (sub) mundo do futebol (dez dos quais a tempo inteiro) que os árbitros são sempre influentes e muitas vezes decisivos. O Sporting foi eliminado não porque o seu adversário italiano tenha marcado mais golos mas porque um árbitro estrategicamente nomeado para o jogo da primeira mão em Lisboa (um húngaro com má cara, um monte de esterco sem categoria) resolveu fingir que não viu uma agressão a Liedson logo nos primeiros minutos e trocou o cartão vermelho pelo amarelo. Já na segunda parte, ao ver o gesto repetido do auxiliar a chamar a atenção para uma falta grave sobre Moutinho (segundo amarelo) ele fugiu para o outro lado do campo. Era preciso fazer o frete e o frete foi feito. Já está.

Há uns anos foi Paulo Baptista que anulou um golo válido ao Hugo Viana contra o Braga destruindo a sua carreira no Sporting. Tempos depois um tal Kyros Vassaras destruiu a carreira do Miguel Garcia «invertendo» uma falta na grande área leonina. Lucílio Baptista fez aquela memorável entrega da Taça da Liga ao Benfica num jogo no Algarve (já é sina, foram lá campeões com um jogo comprado ao Estoril). Ainda esta semana houve três desvios com a mão em três jogos mas só o desvio do defesa do Braga é que não foi sancionado. No passado os árbitros eram todos do Benfica com a excepção do Décio de Freitas (Belenenses) e do Joaquim Campos (Sporting) mas agora, como o Porto domina o sistema desde 1983, já há muitos árbitros do Porto. A grande luta vai ser entre os árbitros do Benfica e os do Porto. Essa é que vai ser a luta decisiva. Hoje a encomenda foi entregue. Os bandidos de colarinho branco da UEFA ainda falam em fair play.

Um livro por semana 133

chave de ignição ruy ventura

«Chave de ignição» de Ruy Ventura

«Chave de ignição» é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.

O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»

A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.

Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»

Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».

(Editora: Labirinto, Capa: de Matos Duarte, Prefácio: Gonçalo M. Tavares, Apoio: Câmara Municipal de Sesimbra)

Vinte Linhas 397

Aviso ainda a tempo – aos incautos e aos outros

O facto de o meu texto «A tragédia do Bairro Alto» ter aparecido num blogue (presumo) de apoio a Santana Lopes não faz de mim um colaborador desse blogue. Aliás este assunto é demasiado grave para poder ser tomado em termos pessoais: nada tenho pessoalmente contra António Costa, fui amigo de seu pai a quem sempre tratei carinhosamente por «marajá». Também nada tenho pessoalmente contra Santana Lopes com quem trabalhei no Sporting durante o seu tempo de presidente da Direcção sendo eu jornalista dos quadros do semanário leonino fundado em 1922, o mais antigo jornal de clube do Mundo. Os moradores do Bairro Alto com viatura própria viveram em paz desde Novembro de 1999 a Novembro de 2002, quando foram obrigados a trocar o seu dístico por um dispositivo para poderem entrar no coração do seu Bairro. A EMEL ao propor a troca escreveu uma frase assassina – «Os moradores poderão estacionar livremente com o uso dos identificadores da EMEL» mas há mais dispositivos do que lugares e (ao contrário do que havia antes) não há alternativas – lugares na zona 12 e na zona 5. Tudo isto porque os homens da EMEL desse tempo eram competentes e honestos – sabiam que os carros não cabem todos aqui e por isso davam-nos alternativas. Agora é anunciado um cartão mediante o qual pagando 15 euros por hora os visitantes (???) podem estacionar. Mas aonde? Nos nossos joelhos? Naqueles lugares que alguns restaurantes ocupam ilegalmente para colocarem mesas, assadores e carvão? O facto de o meu texto ter sido publicado noutro blogue não quer dizer nada. Eu não mudei. Vivo aqui desde 1976 e faço parte da carne para canhão para povoar a gaiola das malucas.

Vinte Linhas 396

Quando um cão é tinhoso todos lhe atiram pedras

Acabo de ouvir revoltado (mas não surpreendido) uma pobre «pivot» da RTP1 a dizer três vezes quase seguidas que o Sporting perdeu de novo um jogo de futebol. Não sei (nem tenho que saber) se é por ignorância ou se é por maldade e má fé mas a verdade é que o Sporting perdeu pela primeira vez este ano. Depois dos empates com Twente, Nacional da Madeira e Fiorentina, esta foi a primeira derrota. Nunca mas nunca se pode dizer de novo quando é a primeira vez.

O problema é que as expectativas do Benfica estão muito altas: foram gastos milhões de euros e entraram na equipa nove jogadores novos. O problema é que o F.C. Porto mantém as expectativas que existem naquele clube desde 1983 – «é preciso ganhar sempre, custe o que custar e doa a quem doer».

Eu sei que o treinador do Sporting, além de outros erros, prescindiu do melhor dos quatro guarda-redes (titular da sua selecção nacional) e que teima em apresentar na baliza um jovem ainda muito verde. Mas isso não explica que a mesma «pivot» não tenha dado relevo ao facto de, logo aos 3 minutos, o árbitro ter passado ao lado de uma grande penalidade na grande área do Braga. Pois. Essas coisas não interessam mas dizer que o Sporting perdeu de novo quando foi de facto a primeira derrota, isso já interessa.

Se juntarmos a isto o facto de os do F.C.Porto andarem a fazer barulho por causa da expulsão do Hulk (que só pecou por tardia) para desviarem a atenção do escandaloso fora-de-jogo com que foram salvos em Paços de Ferreira, percebe-se melhor o alcance das coisas. Quando um cão é tinhoso todos lhe atiram pedras.

Vinte Linhas 395

A tragédia do Bairro Alto

Os meus três filhos, nascidos no Bairro Alto, quando chegaram à idade adulta não encontraram condições para viver neste seu espaço. Vivem todos longe do Bairro onde brincaram, onde foram à Escola e onde deixaram os pais e os amigos. A Câmara Municipal de Lisboa nunca teve tempo para olhar pela melhoria das condições de vida no nosso Bairro. Tinha e tem outras prioridades. No passado mês de Junho um residente no Bairro morreu de noite num sofá, incapaz de aguentar o ruído, a prepotência e os insultos dos proprietários de um bar instalado no seu prédio. Na Assembleia de Freguesia fiquei ao lado da viúva e percebi nos soluços a profundidade do seu drama. Em vez de fechar o bar a Câmara enviou os bloqueadores da Polícia Municipal para multarem os residentes que tinham colocado as viaturas no muro do Instituto de S. Pedro de Alcântara onde não há janelas nem portas. E, não contente com a carnificina dos bloqueadores no dia 16-6-2009, autorizou os bares a abrirem até mais tarde. Logo na primeira noite um rapaz morreu vítima de uma navalhada numa esquina. Depois de um idoso, vítima da ganância de uns e da estupidez de outros, morreu um jovem na flor da idade. Os donos dos bares não podem pensar que só eles existem a não ser que a Câmara Municipal já lhes tenha prometido transformar o Bairro num espaço sem ninguém. Assim como o Bairro das Meninas de Amesterdão. Eu estive lá em 1977. Os meus filhos foram expulsos do Bairro, a nós estão a dar cabo da vida para que a paisagem seja apenas povoada pela ganância e pela estupidez. O nosso Bairro que já foi espaço de vida é hoje campo de morte e será dentro de pouco tempo uma gaiola das malucas. Os dois mortos são a factura já paga.

Vinte Linhas 394

«Tornar-se pessoa» de Carl Rogers – um livro «novo»

Em boa hora a Padrões Culturais Editora reeditou este já clássico «Tornar-se pessoa» (On becoming a person) de Carl Rogers. Publicada nos EUA em 1961, a edição original deste livro vendeu milhões de exemplares num tempo em que os milhões não eram habituais no mundo editorial. Segundo o autor, este livro «trata do sofrimento e da esperança, da ansiedade e da satisfação que invadem o gabinete de consulta de qualquer psicoterapeuta».

A psicanálise freudiana sustentava que os impulsos humanos (sexo e agressão) eram inerentemente egoístas, custosa e dificilmente contidos pela força da cultura. No modelo freudiano a cura dava-se por meio de uma relação que frustrava o paciente, fomentando a angústia necessária para que o mesmo aceitasse as penosas verdades do analista.

Rogers acreditava que as pessoas necessitavam de uma relação na qual são aceites. As perícias que este terapeuta utiliza são a empatia e a «consideração positiva incondicional». A hipótese está na frase «Se posso proporcionar um certo tipo de relação, o outro descobrirá dentro de si mesmo a capacidade de utilizar aquela relação para crescer e a mudança e o desenvolvimento pessoal ocorrerão». Para Rogers crescimento é um movimento na direcção da auto-estima, flexibilidade, respeito por si e pelos outros. Sendo o homem «incorrigivelmente socializado nos seus desejos, quando o homem é mais plenamente homem, ele é digno de confiança». «Tornar-se pessoa» continua a ser hoje um livro estimulante para quem quer estudar de modo competente as tensões que ocorrem nas relações humanas sejam elas interpessoais ou intergrupais.

Vinte Linhas 393

Árbitro húngaro, EMEL lisboeta, a mesma brutalidade

A recente miserável arbitragem do árbitro húngaro que ostensivamente fingiu não ver uma agressão a Liedson e, já na segunda parte, ignorou o apelo do seu auxiliar do lado dos «bancos» para uma falta gravíssima sobre Moutinho e consequente cartão vermelho por acumulação, lembrou-me o calvário dos moradores do Bairro Alto que estão sujeitos à brutalidade da EMEL. Umas obras numa travessa aqui ao lado roubaram 8 lugares de estacionamento mas a EMEL nada fez para remediar o assunto. Há diversos muros de conventos (e outros edifícios) nos quais se podem estacionar automóveis sem problema para ninguém pois ali não há portas nem janelas mas a EMEL, escudada nos Sapadores Bombeiros, não legaliza esses estacionamentos. Fingem depender dos Bombeiros mas eles são municipais; portanto eles é que dependem da Câmara. Se já se percebeu que ele não prestam a Câmara que arranje outros. O meu vizinho do 3º andar pagou 120 euros de multas em dois dias. Trata-se de uma embirração que está a sair cara a muita gente. De italianos já tenho a minha conta. Em 1966 comecei a trabalhar e vi um grupo de cartas de bancos italianos cujo cabeçalho dizia «Banco Português do Atlântico Rua do Ouro Lisboa Spagna». Em 1998 fui enviado especial a um Bolonha-Sporting no qual o árbitro belga (um trambolho) não mostrou cartões amarelos a nenhum dos jogadores do Bolonha que constava da lista da UEFA como tendo já 4 cartões acumulados. O Collina (árbitro careca) esteve com eles no beberete e não os largou com recomendações. A encomenda foi entregue mas isto não vai durar sempre. Não é por repetirem a brutalidade que nós nos vamos habituar a ela. Nem na UEFA nem no Bairro Alto. Nem em lado nenhum.

Vinte Linhas 392

Para o Castelo de São Jorge, já!

Esta de o António Lobo Antunes estar «apaixonado» por uma rapariga brasileira mais nova 30 anos lembrou-me logo o Saramago e a sua espanhola espalhafatosa – também tem menos 30 anos. De vez em quando aparecem na Imprensa uma bojardas do Nobel 98 que (percebe-se logo) são sopradas pela voluntariosa espanhola. Ele é a integração em Espanha (que só tem vantagens), ele é o salário mínimo (que é muito melhor) mas nunca falaram de Olivença. Ele já está integrado e por isso é que aparece tão entusiasta – os maiores fanáticos são os recém-convertidos. Esta história da integração na Espanha é antiga; no tempo da ditadura do João Franco as nossas províncias já estavam designadas e até tinham governador anunciado: Rodrigues de Freitas para o Porto (capital de Entre Minho e Douro), Teófilo Braga para Lisboa (capital de Entre Douro e Sado), Jacinto Nunes para Évora (capital de Entre Sado e Guadiana) e Eduardo de Abreu para Funchal (capital das Ilhas Adjacentes). Agora esta rapariga de 30 anos é golpe do Brasil para o acordo ortográfico. Com uma rapariga bonita ao lado do escritor famoso, o acordo pode vencer obstáculos mesmo que o resultado seja um português com mais pataxó que português. Agora António Costa tem um problema a juntar ao caos do Bairro Alto, aos dois mortos recentes (um de ataque de coração e outro de navalhada) e à vergonha do quiosque de São Pedro de Alcântara que não existe apesar de ele anunciar quinze novas esplanadas (só se for ao colo dos moradores) para além dum delirante «cartão de visitante» que permitirá «estacionar» a 15 euros por hora. Depois da Casa dos Bicos para o Saramago só pode dar o Castelo de São Jorge ao Lobo Antunes. E com obras…

Senhora da Boa Viagem

As mais belas colchas nas janelas

Flutuam como bandeiras dum país

Nas filas da Filarmónica paralelas

Eu sou de novo um menino feliz

Vi o rapaz da Biblioteca no andor

Reconheço um anjinho disfarçado

O vento que nos refresca do calor

Diz que já andou por todo o lado

Perdido entre andores e bandeiras

Entre o pálio e pendões dispersos

Sinto logo saudades verdadeiras

Da poesia sem linhas e sem versos

Um tempo onde tudo era imenso

E a morte na verdade não existia

Na mistura do sol com o incenso

A procissão era o lugar da alegria

Lizandro

Do alto deste ginger ale com limão

Uma paisagem povoada pelo vazio

Estas areias trazidas em turbilhão

Não deixam passar as águas do rio

Bolinhas que entram na espuma

A atravessar o areal tão povoado

Na festa de fazer coisa nenhuma

No mundo que fechou a cadeado

Do alto deste ginger ale com limão

Sobejam bolas de prazer e frescura

Na cultura do chinelo e do calção

Não fazer nada é uma licenciatura

Muitos ficam até já não haver luz

Altar do ócio, liturgia terminada

A praia é fábrica que não produz

Férias são a indústria mais pesada

Um livro por semana 132

onde há crise, há esperança vasco pinto de magalhães

«Onde há crise, há esperança» de Vasco Pinto de Magalhães

Vasco Pinto de Magalhães (n. 1941) foi um conhecido jogador de rugby, tornou-se sacerdote em 1974 e é hoje especialista em Bioética. Através de 366 entradas, o autor (licenciado em Filosofia e em Teologia) organiza uma leitura do nosso tempo.

De um lado a dor («Uma das grande fontes de sofrimento é a nossa falta de solidariedade, num mundo em que não recolhemos o homem caído à beira da estrada») do outro lado a alegria: «Às vezes até arrepia estar a falar de alegria a uma pessoa que está a sofrer e que nessa altura não vê nada, sente tudo escuro e negro à sua roda». Como única resposta e caminho surge a esperança («O maior roubo que se pode fazer a alguém é tirar-lhe a esperança») e a paz: «Para caminhar para paz há três meios fundamentais: ouvir as dores do mundo, tornarmo-nos sensíveis a esses gritos dos marginalizados e dos excluídos e ouvi-los mais do que os outros gritos que temos dentro de nós, de desejo, de prestígio e de honra, sem dúvida mais sedutores». Para o autor a felicidade («Feliz vem de felix que quer dizer fecundo, produtivo.») passa pelo perdão («Perdão não é desculpa nem esquecimento») ou pela misericórdia: «Misericórdia significa um coração sensível, um coração atento à miséria, à necessidade, ao pobre».

No fim (e lembrando o rugby) o autor fala em poder de encaixe: «Nas famílias e nas escolas devia haver ensino prático de poder de encaixe, isto é, de se tornar capaz de, no insulto como na bolada no estômago, a seu tempo e a seu modo, voltar ao ponto de partida, mais sábio e consciente.»

(Editora: Tenacitas, Prefácio e contracapa: Nuno Tovar de Lemos, Capa: do autor)

Um livro por semana 131

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«Pobre e mal agradecido» de Rui Tavares

Trata-se aqui de uma «miscelânea» organizada a partir de textos do blogue «Barnabé» mas não só. Nestas 200 páginas podemos ler digressões sobre as obras de Francisco Goya, Albrecht Altdorfer, Primo Levi, Ítalo Calvino, David Hume, W.G. Sebald, Haruki Murakami ou George Orwell: «A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, é como se a pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer».

A propósito do 11 de Setembro de 2001 o autor escreve: «ouvi dizer que precisamos de um novo Salazar, reintroduzir a pena de morte, é pena os drogados não morrerem mais depressa e muitas outras coisas equivalentes». Sobre a expressão «orgulho de ser branco» afirma: «esse imbecil ainda não entendeu que ele nem sequer teve responsabilidade em ser branco. É só branco por acaso. Tem muito pouco de que se orgulhar».

Este livro passa por Paris («uma cidade mortalmente aborrecida») e pelas palavras de Woody Allen: «quando chegarem atrasados usem a desculpa dele – como o Universo está em expansão, demorei mais um bocado a achar a minha roupa». Passa também por Santana Lopes («o governo de Santana Lopes será tão lembrado quanto a revolta do grelo ou a guerra das laranjas») e pela Irmã Lúcia: «Estamos numa igreja de homens: agradecem-lhe o não ter atrapalhado. Estamos numa igreja experiente: agradecem-lhe o ter-se tornado numa relíquia viva». Sem esquecer uma das paixões do autor: «Corria o ano de 1772 e quatro dos melhores censores portugueses gastavam boa parte do seu tempo a tentar definir o que era a superstição».

(Editora: Tinta da China, Prefácio: Ricardo Araújo Pereira, Capa: Vera Tavares, Composição: Olímpio Ferreira)