Vinte Linhas 395

A tragédia do Bairro Alto

Os meus três filhos, nascidos no Bairro Alto, quando chegaram à idade adulta não encontraram condições para viver neste seu espaço. Vivem todos longe do Bairro onde brincaram, onde foram à Escola e onde deixaram os pais e os amigos. A Câmara Municipal de Lisboa nunca teve tempo para olhar pela melhoria das condições de vida no nosso Bairro. Tinha e tem outras prioridades. No passado mês de Junho um residente no Bairro morreu de noite num sofá, incapaz de aguentar o ruído, a prepotência e os insultos dos proprietários de um bar instalado no seu prédio. Na Assembleia de Freguesia fiquei ao lado da viúva e percebi nos soluços a profundidade do seu drama. Em vez de fechar o bar a Câmara enviou os bloqueadores da Polícia Municipal para multarem os residentes que tinham colocado as viaturas no muro do Instituto de S. Pedro de Alcântara onde não há janelas nem portas. E, não contente com a carnificina dos bloqueadores no dia 16-6-2009, autorizou os bares a abrirem até mais tarde. Logo na primeira noite um rapaz morreu vítima de uma navalhada numa esquina. Depois de um idoso, vítima da ganância de uns e da estupidez de outros, morreu um jovem na flor da idade. Os donos dos bares não podem pensar que só eles existem a não ser que a Câmara Municipal já lhes tenha prometido transformar o Bairro num espaço sem ninguém. Assim como o Bairro das Meninas de Amesterdão. Eu estive lá em 1977. Os meus filhos foram expulsos do Bairro, a nós estão a dar cabo da vida para que a paisagem seja apenas povoada pela ganância e pela estupidez. O nosso Bairro que já foi espaço de vida é hoje campo de morte e será dentro de pouco tempo uma gaiola das malucas. Os dois mortos são a factura já paga.

10 thoughts on “Vinte Linhas 395”

  1. Pois. Como é que hei-de começar? O Bairro Alto, como o meu amigo bem sabe, foi sempre um bairro especial: muitos “tascos”, muitos bares, as mais afamadas casas de fado, casas de meninas, etc. Uma espécie de “ex-libris” da cidade. Vir a Lisboa e não ir ao Bairro Alto, só terá acontecido a um fulano da Mata.
    Eu vim para o ICL no longínquo ano de 1972 e passava por ali com regularidade. Era um sítio deprimente. E o bairro propriamente dito continua a ser deprimente. À noite, obviamente. Passo por ali aos fins de semana e sei do que fala. Mas não tenho nenhuma solução. E neste momento, acho que ninguém sabe tratar do menino.
    Pior, só na Bica! A minha solidariedade. Abraço.

  2. A bandeira da Escola da Rua da Rosa, onde os meus três filhos estudaram até à quarta classe, está toda esfarrapada. É um vergonha. Tão esfarrapada como as desculpas da Camara e da EMEL para reduzirem cada vez mais os lugares de estacionamento dos moradores. Passei por lá há minutos e é deprimente. Tudo aqui é deprimente e parece de propósito para afastar os moradores – assim ficam só os bares. Nessa altura o Bairro será uma gigante «gaiola de malucas».

  3. Como é que o autor deste texto quer mudar, ou que mudem, um bairro que sempre assim foi. Como diz M da Mata, as tascas, as casas de fado e as prostitutas sempre lá estiveram, brigas, tiros e facadas, sempre os houve, com uma diferença, facadas no corpo das vítimas, não me recordo, e vivo na Rua de São Marçal há vinte e seis anos, de alguém ter morrido com «uma navalhada na esquina», até achei graça. O Bairro Alto hoje nem será tão deprimente como já foi, quer se goste ou não, é um bairro castiço como é a Mouraria ou Alfama, são os bairros antigos de Lisboa e há quem lhes chame “zonas nobres”. Mas porque razão o autor não se muda para as chamadas avenidas novas, resolvia também o problema do estacionamento. A compra ou aluguer de uma garagem pode ser outra solução. Os filhos não moram no bairro, moram longe. E aqueles cujos filhos têm de emigrar, não contam? Há quem só olhe para o seu umbigo e para as suas conveniências.

  4. Ò Zé do Carmo!, eu sou partidário da ordem e da defesa dos símbolos nacionais; porém, tenho de perceber que a cidade tem de ter zonas de lazer. Se calhar, o Bairro Alto está condenado a ser uma gaiola para os actuais moradores.
    Há dias fiquei a saber que vem ao Parque das Nações beber um GIN açoreano. Desde a realização da Expo, foram feitas várias tentativas para animar aquela zona da cidade. Vicissitudes várias, que um dia poderemos discutir, têm falhado. Nomeadamente a área de bares da zona sul, por manifesta falta de animação da marina.
    Se calhar, um dia destes tem de se mudar aqui para perto do meu olival. Ganha paz e bem-estar e perde o estar perto das novidades literárias, políticas e outras. É uma questão de escolha, meu amigo.

  5. Pois a minha filha mais velha teve que emigrar para o Reino Unido mas isso são pormenores. O Importante é que teve que sair daqui porque aqui não tem condições. Quanto à navalhada numa esquina só mesmo por mau gosto… Ao menos podia respeitar a dôr das pessoas. E do senhor qeu morreu no sofá nem falou. Pois é. O umbigo e a bandeira esfarrapada no mastro da Escola da Rua da Rosa. É tudo a mesma coisa.

  6. Meu Caro Ferreira Marques eu também não sabia mas é possível que achassem interessante o texto – de facto há quem queira rebentar com os que ainda vivem no Bairro Alto para fazerem disto uma enorme «gaiola de malucas».

  7. eu fugi, do porto, quando – pelos cabelos – atiraram, do 3º andar, deliberadamente, um balão cheio com água para o meu carro. tenho, até hoje, a chapa metida dentro – a polícia agiu – por bem – a favor do balão.:-)

    (e eu faço questão de olhar para a marca do balão – assim, não esqueço a marca da cidade).:-)

  8. Eu até passei aqui por acaso mas logo li sobre o Bairro Alto. Senhor Francisco a sua filha emigrou porque não tinha condições no Bairro Alto. Quando é que os bairros têm de ter condições de empregos em Lisboa? O meu emigrou porque não tinha condições na terra que o viu nascer no Teixoso, não sei se conhece, concelho da Covilhã. Estava com a mãe e foi para a Holanda. Posso não escrever bem mas sei ler bem, a “navalhada na esquina” não é mau gosto meu mas seu, que parece que não sabe escrever e atira o mau gosto para as costas dos outros. E diz que os outros não respeitam a dor das pessoas. Não sei muito mas sei ver quando as pessoas escrevem mal e mostram que são egoístas. E tem mais na sua resposta «E do senhor que morreu no sofá nem falou». Também é mau gosto meu ou o senhor acha-se tão importante que nem aceita que lhe apontem quando escreve mal? «o sofá nem falou», admirava era se falasse. Desculpe mas há tanta coisa mal neste país e só fala numa bandeira esfarrapada e no estacionamento à sua porta. Olhe aprendi na escola que dor não leva acento como o senhor escreveu.

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