Vinte Linhas 399

Uma bandeira esfarrapada na Escola da Rua da Rosa

A Escola Primária Padre Abel Varzim na Rua da Rosa apresenta uma bandeira municipal completamente em farripas. Aquilo já não é uma bandeira; é um trapo, uma ruína.

Os meus filhos nasceram aqui no Bairro Alto em 1978, 1981 e 1985, tendo todos os três sido alunos desta Escola Primária. Todos têm dela uma memória feliz. A mais velha ainda hoje se dá com a sua professora (a Dona Piedade) e o meu neto é presença assídua em «mails» das duas, trocados de Londres para Lisboa.

Não peço muito, só peço que algum responsável (se os houver) retire os farrapos da bandeira da Escola Padre Abel Varzim na Rua da Rosa. Se não puder substituir o farrapo por uma bandeira nova, é preferível não estar lá nada. Mas façam alguma coisa.

Gostava de aproveitar o facto de esta escola ter o nome do Padre Abel Varzim para sugerir aos leitores que procurem saber algo mais sobre esta grande figura humana do nosso século XX. Nascido em 1902, viria a morrer em 1964, amargurado e perseguido, recolhido à sua terra natal (Cristelo) depois de uma vida inteira dedicada aos problemas sociais. Conheceu Joseph Cardijn em Lovaina, aí se doutorando em Ciências Politicas e Sociais enquanto conviveu com o fundador da JOC. Mais tarde fundou o jornal «O Trabalhador» (perseguido e fechado pela censura do Estado Novo) e foi pároco da freguesia da Encarnação entre 1951 e 1957. Havia então centenas de prostitutas e Abel Varzim procurou ajudar muitas dessas raparigas: aprenderam a costurar e fez com que cada uma tivesse a sua máquina. Alguns puritanos geraram uma vaga de escândalo que o magoou profundamente. Mário Soares atribui-lhe a Ordem da Liberdade em 1994.

7 thoughts on “Vinte Linhas 399”

  1. Excepcional este texto, obrigado Carmo Francisco.
    Não sou religioso, já fui muito na minha adolescência, agora considero-me descrente em qualquer deus(ateu?) – apenas acredito naquilo que o Carl Sagan e outros cientistas do género têm divulgado genialmente com base nas suas pesquisas.
    Mas sei destrinçar entre um religioso fanático e um religioso GRANDE HOMEM como o Padre Abel Varzim, que acabei de conhecer pelo jcj.
    É por isso que nem sequer se podem comparar Mário Soares e Cavaco Silva – de facto, seria INIMAGINÁVEL ver o cavaquista-mor atribuir fosse o que fosse ao Padre Abel Varzim – penso eu!
    Continuem! Obrigado

  2. é verdade, também ouvi falar do padre Abel Varzim. Triste sina esta dos homens bons serem perseguidos e escorraçados, basicamente sempre pela mesma razão: afrontam o sistema nalguma(s) da(s) sua(s) injustiça(s) e pagam-nas. Não se percebe esta injustiça, mas enfim.

  3. Gostei muito do texto, e por favor não leve a mal, mas deixe-me perguntar-lhe se já tentou falar com alguém da escola, da junta de freguesia ou da Câmara, se já fez os seus possíveis para que o seu desejo de substituir a bandeira seja cumprido? Além de escrever a sua indignação neste espaço, claro.

  4. importante, mesmo, é estar definido, no recreio, o ponto de encontro e a escolinha estar dotada de meios de primeira intervenção.

    (digo eu – que, para mim, é nestes pormenores que o nacionalismo se faz notar).:-)

  5. Sinhã, o Nacionalismo era isto.
    Manhã de sete de Outubro de mil novecentos e cinquenta e seis. Saí de casa acompanhado pela minha mãe para dar início ao meu primeiro ano escolar. Para mim é novidade para minha mãe não. Antes dois anos tinha feito o mesmo com a minha irmã mais velha, Amélia. Depois da chamada ali fiquei com mais trinta e tal crianças todos do sexo masculino – naquela altura havia as escolas masculinas e femininas, era proibido juntar meninos e meninas – a partir daquele dia ficamos a ser companheiros, a maioria deles pela vida fora. O Sr. Professor Valente, já na casa dos sessenta anos, mas ainda bem conservado e uma disciplina rígida, era um mestre-escola, que hoje em dia a Ministra Lurdes Rodrigues, necessitava nas suas fileiras. Quando por algum motivo não podia dar aulas, era substituído pela sua esposa «também professora» mas na sala era a anarquia total. Era de uma bondade extrema e para se segurar numa turma como a minha era difícil, só pessoas do género do professor Valente, ou como mais tarde na quarta classe – andei até à terceira classe com o professor Valente – vim a encontrar, a Sr.ª professora Adelina.
    Passei a ter aulas no período de tarde. Todos os dias de manhã deslocava-me à cantina escolar para ir tomar o leite em pó. Naquela altura os mais necessitados socorriam-se destas dávidas para matar a fome. Morava a cerca de um km da cantina e a minha mãe esfarelava um bocado de broa velha e punha um bocado de açúcar numa malga para ir tomar o dito leite em pó. Como ficava um pouco distante a fome e a lambarice eram mais fortes quando chegava à cantina já tinha devorado tudo, depois só bebia o leite. Ao meio dia lá aparecia para comer o caldo e que bom que era, com um feijão vermelho grande, era uma delícia. Nos dias do óleo de fígado de bacalhau bem me apetecia não ir, mas a fome… fechava os olhos e tapava o nariz, era assim que o tomava. Quando vinha para o recreio tinha colegas, poucos, com mais posses, desembrulhavam uns pequenos embrulhos e de lá tiravam o lanche e não ofereciam a ninguém. Não podiam oferecer senão não comiam nada. Entre esses ditos abastados havia um que todos os dias me pedia para copiar os meus deveres o que eu deixava. Como não me oferecia do seu lanche a partir de um certo dia pus-lhe como condição ou me dava um pão com manteiga – era o que ele lanchava – ou ia bater a outra porta. Todos os dias ansiava pela hora do recreio.
    A partir da terceira classe veio uma ordem em que os alunos eram obrigados quando entrassem na sala a vestir uma casaca da mocidade Portuguesa, e a cantar o lá vamos cantando e rindo.
    Recordar é viver.
    Coisas da vida.

  6. :-) e também o meu pai conta, assim como tu, coisas dessa vida que já não há e jamais volta. (e ainda bem, né?).:-)

    mas nacionalismo não é – isto – o que queriam que fosse. pois não, mp?:-)

  7. eU TIVE MUITA SORTE NUM ASPECTO – EM vILA fRANCA DE xIRA QUEM MANDAVA NA mOCIDADE PORTUGUESA ERA O SR. mOREIRA POR ISSO FUI DISPENSADO COM AMAIOR DAS FACILIDADES

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