Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Mundial 82

(á memória de Edilberto Coutinho)

Certo.

Houve neste Mundial grandes jogos.

O Itália – Brasil com três golos nos primeiros vinte e cinco minutos.

O Alemanha – França com 8-7 nos pontapés da marca de grande – penalidade

depois de dois empates sucessivos.

O Itália – Polónia em Barcelona.

O Brasil – Argentina.

O Polónia – França jogado em Alicante no desconsolo do terceiro lugar.

O Itália – Alemanha no Santiago Barnabéu com Breitner insuficiente para Altobelli, Rossi e Tardelli.

Certo. Houve neste Mundial grandes jogadores.

Vimos Schachner a iluminar a Áustria

Vimos Maradona, Trevos Francis, Boniek e Platini, Rummenigge e Zico,

o escocês Jordan, Sócrates e Falcão, Tigana e Éder, Paolo Rossi enfim –

o homem dos golos decisivos, dos golos inesperados, dos golos impossíveis.

Certo.

Mas a imagem mais forte deste Mundial é a de um animado jogo de cartas no avião de regresso a Roma.

Cauzio e Zoff jogam com Bearzot e com o presidente Sandro Pertini.

Jogam no usufruto dum tempo suspenso,

intervalo entre o esplendor na relva e as condecorações no Quirinal.

Jogam a partida contra o tempo dos relógios.

Eles sabem: quando o trunfo é morte nada mais podemos fazer que assistir.

Palavras em jogo 03

Charneca, Lezíria e Bairro

Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 e fui colega de turma do Álvaro Pato mas só há muito pouco tempo soube da existência do livro de contos do seu tio Carlos Pato que a PIDE matou com 29 anos de idade em 26 de Junho de 1950.

O livro «Alguns contos» foi editado por Alves Redol em 1951 e contém apenas três contos. O primeiro («Ao receber a jorna») tem como heroína Maria Alexandrina, trabalhadora rural que leva duas filhas para o campo porque não há creches nem infantários. Depois da semana de trabalho chega o dia de receber a jorna: «Uma cantou para que o tempo passasse; as outras ouviram caladas».

O segundo conto («Valados») mostra que o campo não é só paisagem («Tejo bom quando dá pão, mau quando o leva e não o dá») mas também lugar de luta. A falta de assistência médica é o drama em gente desta história.

O terceiro conto («Graxas») fala de um grupo de miúdos que brinca no Tejo. Nesse grupo de engraxadores nem todos sonham com o campo. Divididos entre trabalho e desporto, entre a Estação da CP e a aberta do Tejo onde nadam, eles são um elo na corrida de estafetas por um mundo melhor. Também perguntam entre si «Quando virá o dia que a gente muda de vida?» para logo um deles responder: «Não vem longe, Chico!».

Carlos Pato poderia ter sido um grande escritor. Há na tessitura dos seus contos a ampla respiração de um talento criador e um domínio perfeito da nossa língua. Mas a PIDE não deixou. Tal como não o deixou conhecer os filhos: a Clara tinha 8 meses quando o pai foi preso, o João Carlos nasceu em 2-12-1949 ou seja 5 meses depois da prisão do pai.

Vinte Linhas 514

CML – O vandalismo oficial ou os assassinos dos girassóis

Depois de ter destruído o Jardim de S. Pedro de Alcântara (é hoje um miradouro) e de ter assassinado maia de 60 árvores no Príncipe Real (deixando nuvens de pó a sujarem gargantas, roupas, comidas, bebidas, jornais e automóveis) a CML, actuando como uma quadrilha selvagem, veio de madrugada destruir os girassóis da Rua Augusto Rosa frente à Livraria Fábula Urbis e junto à loja de artesanato «A arte da terra». Foi no passado sábado dia 17-7-2010 que uma equipa camarária veio, furtivamente, destruir a beleza dos girassóis deixando apenas as couves e a alfazema. Houve uma senhora que os viu e os identificou pela farda e pela viatura da CML. Caso contrário pensaria tratar-se de vandalismo fortuito. Mas não é. Tudo isto é concertado e sistemático. Haver arquitectos paisagistas que odeiam árvores, arbustos e flores é o mesmo que haver editores que querem queimar livros. Fico a pensar que a Livraria Municipal pode começar (se não começou já) a destruir os livros editados pela CML sobre Lisboa – como, por exemplo, o meu «Transporte Sentimental».

Vivo em Lisboa desde Setembro de 1966, pago os meus impostos, derramas e contribuições autárquicas, arrisquei a pele no «25 de Abril» por um Mundo melhor, tenho um louvor na caderneta militar por isso mas vivo numa cidade cada vez mais suja, feia e desertificada. Gostava que quando começarem a queimar os livros me avisem por causa do meu neto. Ele é pequenino, faz hoje 4 anos mas há-de gostar de saber que o avô escreveu o «Transporte Sentimental», um livro que a CML editou sobre Lisboa – nele ela era uma cidade mais limpa e mais bonita porque povoada de beleza e de paz.

Vinte Linhas 513

Carta aberta a João Adelino Faria – que talvez não a leia…

Acabo de ouvir no telejornal da RTP 1 das 20 horas de hoje 21-7-2010 o «pivot» João Adelino Faria a confundir «maturity» com «maturidade» que são duas coisas completamente diferentes. Tratava-se de empréstimos bancários de um país e obviamente, neste contexto, «maturity date» quer dizer «vencimento» e nada mais. Naquele que é para mim (opinião discutível) o melhor dicionário de inglês do Mundo – o Webster´s Seventh New Collegiate Dictionary – da empresa G & C Merriam Company Publishers de Springfields, Massachusetts, USA – lá está bem explicado na página 522 palavra «mature». No nº 4 dos sinónimos surge: «mature» – «due for payment» e, entre parêntesis, a palavra-chave para perceber tudo – «loan».

De facto tratando-se de um empréstimo («loan») a palavra «maturity» significa vencimento ou, por outras palavras, dia de pagamento.

Lidei entre Setembro de 1966 e Novembro de 1996 no Departamento de Estrangeiro do BPA com outros e com estes assuntos mas, mais do que uma questão técnica, trata-se de uma matéria de cultura geral.

Nós, os jornalistas, temos especiais obrigações neste campo. O campo das palavras. Reparei por exemplo que o João Adelino Faria confundiu o Largo do Rato com o Largo do Caldas ou seja, trocou o PS pelo CDS e nem sequer brincou com o facto de haver no Largo do Caldas um rato da política ou, para muitos, um ratão. Mas isso é outra conversa. Não foi ironia, foi apenas uma confusão. Obviamente percebe-se que o erro não pode ser atribuído ao «pivot» mas foi o «pivot» que deu a cara…

Filigrana

Na filigrana do momento inicial
Do rosto juvenil fixei as linhas
Tinhas acabado o tempo liceal
Sem horas vazias nem sozinhas

Trinta e sete anos depois da visão
Entre casa e jardim numa colina
O teu rosto organiza uma paixão
Continuas hoje a ser essa menina

No momento de chegar a Lisboa
Voltando as suas costas ao passado
Para construir o perfil duma pessoa
E deixar saudades em todo o lado

Seja em lojas, bancos ou hospitais
Caminhos dum percurso cada dia
A tua voz sem limites nem sinais
Desenha em filigrana uma alegria

Vinte Linhas 512

Na leitura de «A queda dum anjo» de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco (1825-1890) fez versos, tradução, teatro, crónica, biografia, pesquisa erudita, história e crítica literária além de jornalismo mas onde a sua personalidade se afirmou de modo incomparável foi na novelística e na polémica. Reli há dias «A queda dum anjo» e foi, de novo, uma festa.

Calisto Elói, deputado por Caçarelhos, anjo na sua terra, acaba em demónio na vida parlamentar de Lisboa que o promove a barão: «Eu tenho o desgosto de ter nascido num país em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia e as cantarinas, segundo me dizem, ganham quarenta moedas por noite». Calisto Elói descobre um Parlamento onde tudo é especial, insólito e diferente: «os representantes da Nação, conquanto jurassem fidelidade à religião, eram aliás ateus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-no nas gazetas; jurando fidelidade à Nação, avexavam-na de tributos e alguns a queriam fundir na Espanha».

Casado embora, Calisto descobre em Lisboa o amor: «Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Estremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte anos, há-de pagá-lo aos quarenta e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o Demónio que eu não sei ao justo quem fiscaliza estes mal-aventurados sucessos de amor, que a história conta e a humanidade experimenta cada dia». No fim da história Calisto e a amada Ifigénia salvam-se com dois bebés (Mem e Egas) enquanto sua mulher Teodora e o primo Lopo se salvam com a sua criança Barnabé: «O amor é tão engenhoso como a natureza».

Vinte Linhas 511

Cristiano Ronaldo e José Travassos – dois violinos num banco de Alvalade

No dia 17 de Março de 1998 sugeri ao Vinícius Carriço esta fotografia dos meninos à volta de José Travassos. Do lado direito temos o Cristiano Ronaldo, do lado esquerdo o José Américo e do outro menino não recordo o nome. Doze anos depois o principal parece-me ser a atracção exercida pelo Zé da Europa sobre os miúdos. Alguém, talvez Aurélio Pereira, Osvaldo Silva, Isabel Trigo de Mira, Paulo Cardoso ou Leonel Pontes, lhes deve ter contado que aquele senhor foi o primeiro jogador português a participar numa selecção da UEFA, corria o ano de 1955. O encontro foi disputado em Belfast tendo a selecção da Europa alinhado contra a equipa da Grã-Bretanha. Travassos nasceu em 1926, veio da CUF para o Sporting em 1946 e alinhou em 35 jogos da selecção nacional portuguesa. Anos depois desta foto, o Cristiano Ronaldo seguiu os passos do seu colega de banco que gentilmente o senhor coronel Cunha Bispo colocava ao dispor do grupinho onde eu muitas vezes também tomei lugar. Ao sair para o Manchester United em 2003, o jovem madeirense seguiu de facto os caminhos do senhor José António Barreto Travassos – ingressou numa esquipa que também é uma selecção da UEFA pois inclui alguns dos melhores jogadores de futebol da Europa. Se, como dizia o poeta Vinícius de Moraes, «a vida é a arte do encontro», então Cristiano Ronaldo pode lembrar esta imagem do seu encontro com José Travassos como um prenúncio feliz de uma carreira na Europa. Bem diferente do primeiro Zé da Europa pois em 1955 não se colocava a hipótese de jogar no estrangeiro dado que o nosso José Travassos estava mais preocupado com a sua empresa de frigoríficos ali no Bairro de Alvalade.

O Zé

O Zé-Povinho na minha pequena memória catarinense

A casa onde nasci (13-2-1951 – Santa Catarina) já não existe pois está reduzida a um monte de entulho entre telhas podres, barrotes com bicho, tábuas velhas e caliça tão antiga que já ninguém se lembra das casas feitas com cal, pedras da Serra e areia.

Mas, num canto do armário da casa de fora, se ninguém o retirou a tempo para o colocar a bom recato, ainda deve estar um Zé-Povinho que o meu avô José Almeida Penas trouxe das Caldas da Rainha há muitos anos de um, mais um, 15 de Agosto.

Na minha terra, pelos idos anos 50, sempre me lembro de ver nas inúmeras tabernas os bonecos de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) a ilustrarem uma frase e um gesto: «Queres fiado? Toma!»

Como sou o mais velho da minha geração, também me lembro de as pessoas amigas dizerem às crianças da minha família, quando estavam ao colo de alguém: «Faz-lhe um toma, palerma!». E a reacção era sempre oposta: se uns diziam «Coitadinho do cachopo, não lhe ensinem isso!» já outros diziam «Já está em boa altura de aprender!»
Continuar a lerO Zé

Fotojornalismo (sobre foto de Pedro Cruz)

Vi-te sempre entre o campo e as pistas

Mas sem poderes dar largas à emoção

Tens que ser rigoroso no que registas

No rolo onde fica a marca da tua mão

Não tens tempo ou espaço para preparar

Os melhores ângulos para a fotografia

Na breve demora entre a mão e o olhar

Não há tempo para fotografar a alegria

Ou a tristeza que se derrama da derrota

Do clube que tu trazes dentro do peito

No intervalo tu fotografas uma gaivota

Embora saibas que não é esse o preceito

Nem reparaste que eras tu o fotografado

Continuaste com o teu olhar profissional

Estás para além do teu colete numerado

E do espaço dos teus trabalhos no jornal

Vinte Linhas 510

Cristiano Ronaldo – deveres de quem sabe e de quem não sabe

Depois de ter sido colaborador (Agosto 1988 – Dezembro 1996) passei a ser redactor do Jornal «Sporting» de Janeiro de 1997 a Novembro de 2006. Nessa circunstância muitas vezes entrevistei Cristiano Ronaldo. Porque conheço um pouco da sua história, revolta-me ainda mais o conteúdo de muitas afirmações que alguns comentadores despejam na imprensa, na rádio e na TV sobre o jovem madeirense. Mesmo depois de se ter transferido para o Manchester United falei com ele várias vezes em Alvalade, em Odivelas e em Barroca de Alva. Revoltam-me os comentários de quem afirma ser uma violência criar uma criança sem mãe quando o próprio jogador viveu a situação de ter um pai ausente nos tempos em que com ele convivi. Não por acaso a sua transferência do Nacional para o Sporting foi tratada pelo seu padrinho, o senhor Fernão, e pelo magistrado Dr. Marques de Freitas. Não por acaso nos primeiros tempos nos infantis do Sporting ele teve grandes amigos como Aurélio Pereira, Isabel Trigo de Mira, Osvaldo Silva, Paulo Cardoso e Leonel Pontes. Os dois últimos eram responsáveis pelo Lar do Jogador no Estádio José Alvalade. Leonel Pontes muitas vezes se levantou à meia-noite para o ir buscar ao Aeroporto da Portela, tratando-o com especial amizade pois também é Madeirense e conhece bem as circunstâncias da vida do jovem jogador. Para mim a trajectória do Cristiano é um milagre e eu admiro-o por ter atingido este ponto apesar de todas as contrariedades. Estive a seu lado em 1999 quando uma taquicardia lhe poderia ter destruído os sonhos num jogo com o Casa-Pia. Por isso considero que ele merece respeito tanto de quem o conhece como (ainda mais) de quem nada sabe da sua vida.

Balada da Serra dos Candeeiros

Grande parte da minha vida

Feita de paz e sem guerra

Foi numa casa construída

Com pedras daquela serra (Mote)

Na Serra dos Candeeiros

Parava o vento do mar

Eram lentos os carreiros

Com os olhos a cantar

Traziam pedras gigantes

Para a mão dos britadores

Fazer em poucos instantes

As pedras dos construtores

Os pedreiros sujos de cal

A pegar no fio de prumo

Que traça numa vertical

Lugar do fogo e do fumo

Sem desenhos ou papéis

Nascia a planta dum lar

Quatro canas dois cordéis

São os limites dum lugar

Na Serra dos Candeeiros

O azeite era o mais puro

Os ventos tão verdadeiros

A cantar por sobre o muro

Vinha a água das cisternas

Sempre boa e sempre fria

Sem as técnicas modernas

A limpeza era uma enguia

Vinha o leite já fervido

Vinha o queijo saboroso

O dia era mais comprido

Tudo era mais vagaroso

A pedra que me defende

Do Verão e do Inverno

Não se paga nem se vende

É um valor forte e eterno

Vinte Linhas 509

Dissertação sobre uma fotografia de 1958

(a Francisco José Viegas)

Os enviados especiais a Munique vestiam fatos completos, escreviam em blocos pequenos, usavam canetas de tinta permanente, fumavam, alguns com o respectivo cachimbo. As notícias eram breves e os jornais feitos em granéis de chumbo e caixotins nas mesas de mármore das tipografias. São irreais, feitos da substância dos sonhos, os nossos camaradas de 1958 a caminho de Munique. Os seus nomes foram omitidos como se não tivessem, também, morrido, como se só houvesse jogadores no avião sinistrado, como se a morte dos jornalistas não fosse também um pano no casaco, um vazio na família e um lugar a menos no Pub da esquina. No The Ring nos anos 20 havia combates de boxe à hora do almoço. Esses combates clandestinos não vinham nos jornais. Os enviados especiais a Munique usavam colete. Nos seus bolsos guardavam as canetas e as cigarreiras prateadas. Os blocos só cabiam nos bolsos do casaco. Nesse tempo, a lentidão perseguia a comitiva do Manchester United. Veloz apenas a morte que ceifou os jogadores e a posteridade que esqueceu os jornalistas das fotografias de 1958. Tu não sabias, não tinhas sequer nascido nesse ano do desastre de Munique. À beira do Rio Douro chegavam no comboio da tua infância O Século e o Diário de Notícias ao fim da tarde nos maços defendidos por um cordel em cruz. Anos depois foste director de um jornal desportivo e aprendeste o ofício árduo de separar a cada momento o pó do esquecimento da luz da posteridade. Nem tudo o que se ouve se escreve, nem tudo o que se escreve se publica. Hoje estes homens distraídos da morte não páram de me chamar. Não morreram. Um ginger ale espera por mim no Pub da esquina. Chama-se The Ring.

Vinte Linhas 508

Uma memória para a professora Gabriela

O seu nome é inesquecível – Gabriela Alluni Basilissi Serra. Quarenta e quatro anos depois continua a memória desse nome e do seu som assim pronunciado. Era a minha professora de História e sempre que podia dava um saltinho às suas paixões italianas de fora dos manuais – Miguel Ângelo e Dante. Nunca se cansava de falar do Renascimento e de Francesca, a primeira criação feminina na «Divina Comédia».

Um dia soubemos que a nossa professora fazia anos e resolvemos pôr a tocar um gira-discos (julgo que era da Marieta) com uma canção da Rita Pavone. Era o que a gente conhecia. Hoje podia ser «A força do Destino» de Giuseppe Verdi ou um extracto de «Aconteceu no Oeste» de Ennio Morricone.

Como professora era competente, exigente e intransigente mas uma vez «passou-se» com um rapaz de nome Vítor Manuel Cachado Lourenço, o «Chichas», que vinha da Azambuja. Já perto do fim do ano lectivo, perante as suas evidentes fragilidades de conhecimento, avançou com uma pergunta: «Vítor, diga-me você uma coisa que saiba para eu lhe poder perguntar!» E o Vítor respondeu a sorrir: «Aquilo das palafitas e da pré-história, setôra!». Foi o estrondo geral em riso na malta toda da turma. Rapazes e raparigas numa explosão de humor – o que ele queria eram perguntas sobre as primeiras páginas do manual, a Revolução Francesa era muito chato.

Descobri esta fotografia de Gabriela Alluni Basilissi Serra numa conferência da nossa professora de História na Biblioteca-Museu Municipal Dr. Vidal Baptista. Os temas eram os do costume – Miguel Ângelo e Dante – e todos ficavam encantados no fim.

Vinte Linhas 507

VISÃO – entre o panegírico e a falta de visão

Na edição de 1/7 de Julho a revista VISÂO apresenta um trabalho intitulado «Sebastião Alves – Sempre tive uma grande curiosidade pelo mundo» assinado por Miguel Judas. A sua leitura sugere que o autor não fez o trabalho de casa e se limitou a registar o que ouvia sem sequer anotar as incongruências e os absurdos. Comecemos pelo princípio: não há uma empresa AtralCipan. Os Laboratórios Atral são uma coisa; a CIPAN é outra. Os Laboratórios Atral nascem como A. Travassos Lda. e o senhor Alves deu continuidade a uma empresa já existente; não a criou a partir do nada como o texto sugere. Depois está mal explicado se ficou em primeiro lugar num curso de enfermagem como é que ia mudar, sem mais nem menos, para «fiscal de lanifícios» (sic). Seriam talvez as novas oportunidades daquela época. Falta uma pergunta sobre a guerra colonial, o período mais feliz no Grupo. Trata-se de facto de um Grupo, não de uma empresa: CIPAN, ATRAL, TECNODIDÁCTICA, MEDIQUÍMICA, GRAXAS, SOTIMA, etc. Mas o mais engraçado (sem ter graça nenhuma) é a referência aos processos em Tribunal de Trabalho. Está escrito no texto que as pessoas protestaram depois de receberem a indemnização. Ora isso é mentira; as pessoas, dezenas e dezenas de pessoas, foram para o Tribunal de Trabalho porque não receberem as indemnizações a que têm direito – um mês de ordenado por cada ano de trabalho. Não se pode chamar indemnização a um diferencial entre o valor do ordenado e o valor do fundo de desemprego. Uma nota final – Conselho de administração com «c» duas vezes será erro de ortografia ou é já em brasileiro?

Balada da Praça da Fruta

(a Carlos Querido)

João Cristo, sua cocheira

Onde o meu avô sabia

Que a burra trabalhadeira

Era a dez tostões por dia

Ficava ela a descansar

Nas cocheiras da cidade

Desconfiada do lugar

E moscas em quantidade

Minha tia Francelina

Nascida no Zambujal

Vinha vender obra fina

Os bichos do seu quintal

Numa carroça pequena

É que o seu mundo cabia

Sempre calma e serena

Dava-me um beijo e sorria

Exame era uma guerra

Bebemos uma gasosa

O grupo da minha terra

Não levou uma raposa

Nos armazéns do Chiado

Pronto-a-vestir é um fato

Nunca tinha reparado

Neste novo artesanato

Meu exame da terceira

Foi feito sem companhia

Em Abril, segunda-feira

Já não me lembro o dia

Chamado para a inspecção

Sou dado como capaz

Dentro duma contradição

Não sou guerra mas paz

Minha prima Deolinda

Professora de crianças

Na doçura que não finda

Dava-me muitas esperanças

Suas torradas matinais

A caminho do regimento

Davam-me forças especiais

Para marcha e movimento

Fosse das suas orações

Ou fosse da entrevista

Eu passei sem ralações

E fiquei em contabilista

Com três filhos crescidos

E acrescentado um neto

Compro beijinhos pedidos

E cavacas no Gato Preto

Praça da Fruta eterna

Onde o mundo nunca pára

És tão antiga e moderna

Porque és uma praça rara

Povoada por mil paixões

Todos nós mesmo distantes

Trouxemos nos corações

A força dos teus instantes

E mesmo na chuva londrina

Tomas, meu neto à escuta

Recorda Santa Catarina

E lembra a Praça da Fruta

Vinte Linhas 506

Ser «leão» e voltar as costas a Costinha

Este ano o Sporting Clube de Portugal não participou na final do campeonato nacional de bilhar na Figueira da Foz por falta de fundos. Ao mesmo tempo pagava oitocentos mil euros de indemnizações a dois «fabianos» que deveriam ser eles a indemnizar o Clube tantas as tropelias que protagonizaram. O Sporting é, depois do Barcelona, o clube europeu com mais títulos europeus – basta somar os de atletismo com os do hóquei e os do futebol. Basta recordar Manuel de Oliveira, Joaquim Agostinho, Fernando Mamede, Carlos Lopes. Mais de cem atletas olímpicos em cem anos de olimpíadas. Irrita-me que os jogadores formados na Academia de Barroca de Alva sejam dispensados para outros clubes enquanto se gastam fortunas de dinheiro que não há em jogadores estrangeiros que todos os dias enchem as primeiras páginas dos jornais. Para jogar para o 4º lugar não é preciso gastar tanto dinheiro nem tentar imitar o Benfica com as manchetes diárias dos três matutinos desportivos nacionais. Foram buscar o treinador do 5º lugar substituindo o que chegou ao 4º lugar. Não é para perceber.

Não vale a pena quererem imitar o Benfica, nunca o vão conseguir na perfeição. O Benfica é o esplendor da mentira: mente sobre a data da fundação, mente sobre o número de campeonatos ganhos, faz de conta que as Ligas foram campeonatos e que nos anos de 1934 a 1938 não houve campeonato de Portugal, venceu o campeonato de 2004 com um jogo comprado ao Estoril e disputado no Algarve. Festejou o centenário no ano em que de facto celebrou 96 anos. Não compro bilhete de época, ponham no meu lugar uma fotocópia do fato «armani» do Costinha. Sector A19 Fila 31 Lugar 11.

Pintura Naïf na Rua da Misericórdia

Sem discutir sequer o que pode ser entendido por pintura «Naïf», aqui refiro e divulgo uma exposição para quem esteja perto de Lisboa e queria visitar a Allarts Gallery na rua da Misericórdia nº 30 (ao Chiado) de terça a sábado das 10 às 19 horas.

São 30 artistas de vários países do Mundo, todos na linha «Naïf», cujos quadros podem surpreender o visitante pela qualidade da arte final e pela originalidade dos temas escolhidos, ou seja uma «arte livre de convenções e de preconceitos» na feliz síntese do convite. A exposição abre em 15 de Julho mas não é preciso esperar; desde já pode ser visto o conjunto de obras em permanência na Galeria.

Palavras em jogo 04

Gosto mais da gatinha mas não diga nada à boneca (foto Estúdio Goes)

As botas que ontem calçaste lembram-me Vila Franca de Xira e os dias de festa na romaria da Senhora de Alcamé. Íamos nas carroças dos nossos vizinhos, havia farnel, missa campal, procissão, música e arraial entre o sol e o pó. A sede matava-se com vinho branco de Pegões mergulhado num cesto de vime na água fresca do braço dum esteiro do Tejo. Como nos livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. As «jeans» azuis dão à tua silhueta nos passeios da cidade o aspecto de menina do 12º ano mas já sei que a tua resposta adversativa é sempre a mesma: «Ai eu, por detrás Liceu, pela frente Museu». E o enorme sorriso que não termina.

Hoje apareceste de saia cinzenta e vejo nela não só o pedaço de tecido mas também uma bandeira, um pendão, um estandarte. O país és tu, a nação é o teu olhar, o território é o perímetro dos teus passos quando chegas à grande cidade voltando costas à cidade de cimento e ao comboio lento. Se o país é a soma da nação com o território então a tua bandeira representa um pequeno país a Norte deslocado no Sul, longe do azeite e das castanhas, do pão e do vinho, da luz das festas de Verão. Percebo agora melhor porque motivo em Itália se chama «paese» à aldeia natal de cada um. As nossas memórias são uma História particular a que todos temos direito, a nossa capela tem o valor de uma Catedral, a nossa escola o peso de uma Cidade Universitária, os nossos santos privativos a força dos Padroeiros Nacionais.

Hesito muito na escolha entre os teus «jeans» azuis e a tua saia cinzenta tal como a menina do livro da escola primária hesitava entre a gatinha e a boneca.

Vinte Linhas 505

Elegia para a turma de Outubro de 1963

Aqui estão os 19 rapazes da turma com uma professora cujo nome hoje já não recordo. Ela que me perdoe. Esta é a turma do Curso Geral do Comércio, as escolhas já tinham sido feitas. Uns foram para serralheiros e outros para electricistas.

Na primeira fila temos dois futuros lideres: Horácio José Cecílio Rufino, fundador e secretário-geral da JCP e José Carlos Pereira Lilaia, fundador e porta-voz do PRD.

Na segunda fila temos o Novo, o Fernando, o Joaquim Narciso, o Cardoso, o Carlos Félix e o Dias. Os três primeiros vinham de Alenquer e de Cheganças, o Cardoso veio uma vez visitar-me a Lisboa para concorrer a um Banco, o Carlos Félix foi presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, o Dias tinha blocos e canetas do BNU.

Na última fila estão o Bento Fumaças, o Vidaúl Froes Ferreira e o Zé Afonso de A-dos-Loucos. O Vidaúl fundou o MRPP em 1970 numa casa de Benfica com mais três companheiros de aventura. O Fumaças vinha de Samora Correia numa motoreta. O Horácio terá vindo do Couço para Vila Franca porque ali era mais fácil apanhar o comboio para o forte de Caxias onde estava um familiar. Nesse tempo as pessoas deslocavam-se no país por esses motivos. Visitar um preso político não era tarefa fácil para quem vivia na zona de Coruche, daí a família do Horácio ter assentado arraiais na terra do colete encarnado. Bastava dar uma volta à procura de vidros com escritos.

Graças ao jornalista Adelino Gomes recuperei os contactos do Lilaia e do Vidaúl além do Álvaro Pato e do Arnaldo Ribeiro que não estão nesta foto. Sei que o Horácio vive no Algarve mas dos outros pouco ou nada sei. Perdi muitos nomes mas nenhum rosto.

Vinte Linhas 504

Elegia para a memória da turma de 1962

Havia nestes 31 rapazes os sonhos mais diversos, ainda não era o tempo das escolhas. Só no ano seguinte se decidia o futuro: Curso Comercial, Montador Electricista ou Formação de Serralheiro. Na fila da frente recordo três nomes: o Zé Carlos Lilaia, o Horta e o Campino. Uma vez foi um grupo ver a secretária do Lilaia porque era o único a ter uma: o pai fez o pequeno móvel com as tábuas onde vinham os tecidos vendidos a metro. Na segunda fila o Álvaro Pato com um sorriso teimoso e era o que tinha mais sofrimento na vida: com o pai na clandestinidade, só o conheceu aos nove anos. Na terceira fila o Horta («Boguinhas»), o Catoja («Talita»), o Vidaúl, o Zé Bolota, o Abreu e o Nuno, filho do senhor Manel sacristão. O Horta jogava hóquei-em-patins no recinto do Jardim. Municipal. O Catoja tem uma clínica de fisioterapia na Castanheira. Deveria ter começado pelo senhor Nicolau, sempre disponível a apagar fogos, a apaziguar conflitos, a ajudar. No caso da foto foi ele que se juntou à turma porque não havia professores disponíveis e o homem dos retratos apareceu sem avisar. Quando se começou a popularizar o frango assado no espeto, o senhor Nicolau servia à mesa no Zé dos Frangos. E ao fim da tarde havia os pipis. Um pipi e um papo-seco com um copo de gasosa era um lanche de rei. Na quarta fila o João Alfredo Danado Picanço, o Zé António e eu. O Zé António continuava a falar da vida boa que havia em Roterdão: pagavam bem e o trabalho era só colocar carimbos vermelhos em sacas de café. Sonhava com a Holanda todas as noites. Eu também sonho mas é com este Mundo que aos poucos desapareceu da minha memória, com os nomes que perdi.