Vinte Linhas 504

Elegia para a memória da turma de 1962

Havia nestes 31 rapazes os sonhos mais diversos, ainda não era o tempo das escolhas. Só no ano seguinte se decidia o futuro: Curso Comercial, Montador Electricista ou Formação de Serralheiro. Na fila da frente recordo três nomes: o Zé Carlos Lilaia, o Horta e o Campino. Uma vez foi um grupo ver a secretária do Lilaia porque era o único a ter uma: o pai fez o pequeno móvel com as tábuas onde vinham os tecidos vendidos a metro. Na segunda fila o Álvaro Pato com um sorriso teimoso e era o que tinha mais sofrimento na vida: com o pai na clandestinidade, só o conheceu aos nove anos. Na terceira fila o Horta («Boguinhas»), o Catoja («Talita»), o Vidaúl, o Zé Bolota, o Abreu e o Nuno, filho do senhor Manel sacristão. O Horta jogava hóquei-em-patins no recinto do Jardim. Municipal. O Catoja tem uma clínica de fisioterapia na Castanheira. Deveria ter começado pelo senhor Nicolau, sempre disponível a apagar fogos, a apaziguar conflitos, a ajudar. No caso da foto foi ele que se juntou à turma porque não havia professores disponíveis e o homem dos retratos apareceu sem avisar. Quando se começou a popularizar o frango assado no espeto, o senhor Nicolau servia à mesa no Zé dos Frangos. E ao fim da tarde havia os pipis. Um pipi e um papo-seco com um copo de gasosa era um lanche de rei. Na quarta fila o João Alfredo Danado Picanço, o Zé António e eu. O Zé António continuava a falar da vida boa que havia em Roterdão: pagavam bem e o trabalho era só colocar carimbos vermelhos em sacas de café. Sonhava com a Holanda todas as noites. Eu também sonho mas é com este Mundo que aos poucos desapareceu da minha memória, com os nomes que perdi.

9 thoughts on “Vinte Linhas 504”

  1. A nostalgia nem sempre é recomendável. No entanto, revisitar fotografias deste tipo é sempre muito bom: não só deixa “memória” às novas gerações, como ainda nos obriga a pôr os pés na terra, a contextualizarmos os factos e, neste caso especifico,a reinterpretarmos o destino de cada um! Dos sonhos que cada um trazia consigo nesses anos do Portugal salazarento quantos foram tornados realidade? Poucos, se nos ativéssemos só à origem social; muitos se também tivermos em conta o desejo de viver da geração. Por analogia com outros casos .. e outras fotos tiradas em outros lados, tenho a certeza que muita gente da fotografia deu a volta por cima e mandou às ortigas o destino que o sistema social-escolar da época lhe apontava!

  2. E daqui surgiram os zezinhos patifórios e corruptos. Já tinham pinta de quem comer a liberdade e a democracia. Só que a história não tem um final feliz: só pensaram neles, não nos outros. Et voilà.

  3. Destas pessoas só conheço uma e vagamente – aliás não a vejo há perto de 40 anos! Cláudia, todavia, os seus “zezinhos patifórios” raramente saem destes grupos sociais e muito menos destes grupos sociais do inicio dos anos 1960*.

    * Se juntar um mais um e se pensar um pedacinho rapidamente chega à conclusão que não foram destes grupos sociais. que saíram os tais patifórios. Os da fotografia eram ao 25 de Abril homens feitos, tinham empregos simplesmente melhores que os pais e viviam nas chamadas periferias operarias; os seus patifórios ainda andavam de calções lá pelas aldeias rurais e pelas vilas atrás do sol posto…… e foram rápidos a chegar a ministros, a disfarçarem-se de banqueiros e coisas do género. Penso que a Cláudia, se tem “mundo”, estará a pensar como eu em três quatro personagens com este perfil.

  4. Não, ECD, a Cláudia não está a pensar em ninguém. É apenas má-língua…. e talvez um pouco de falta de vergonha.

  5. Pois é C. Serra, eu também vou por aí. É uma pena. Diria, mais do que pena é uma ofensa gratuita. As pessoas da fotografia – que têm um nome, uma família e uma história de vida que, no concreto e no abstracto, nos merece respeito – viram-se de um momento para outro vilipendiadas por uma qualquer Cláudia sem vergonha na cara que se esconde debaixo de “un petit nom” (ou “Cláudio”, naturalmente).

    Estes pequenos azares não tiram em nada o mérito do post de JCF.
    Já agora aproveito para saudar V (VF) e pedir a JCF que publique mais coisas destas.

  6. Obrigado. Outros textos estão na calha com a respectiva foto. É uma questão de oportunidade. E vale a pena apesar de todos os percalços e de todas as escarradelas.

  7. Gostei da 1ª definição do ECD e é verdade em tenho uns perfis na cabeça. Os que saltaram da aldeola para determinados cargos estão completamente estragadinhos… e corruptos. Não têm qualquer tipo de valores: venderam pai, mãe e irmãos. Muito maus exemplos. Por trás dos “Senhores Doutores”, só desvendamos autênticos farsolas, gente podre, criada em estrume.

  8. Pois é, ECD concordo consigo quando diz que o(s) tal(ais) que “saltaram da aldeola para determinados cargos” é impossível serem os da fotografia, porque às tais “aldeias rurais e vilas atrás do sol posto” não iam os fotógrafos por aí não terem clientes, tal era a miséria daqueles sítios. No entanto, de facto, há um caso ou outro de aldeõezinhos que chegaram bem longe e depressa se esqueceram das suas origens para fazerem parte do grupo restrito dos que “comem tudo e não deixam nada”.
    Quanto à fotografia, sou uma apreciadora destes objectos: a textura do papel duro e as habituais dedicatória a tinta permanente que geralmente trazem no verso são marcas de uma ápoca em que o simples gesto de oferecer uma fotografia tinha o peso de um presente valioso e, por isso, tão religiosamente guardado no fundo das gavetas até hoje.

  9. Obrigado pelos comentários. Valeu a pena o esforço. As fotos estavam num velho álbum do tempo em que as fotogarfias eram raras – vinte anos cabem num pequeno caderno.

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