Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 525

Os campinos não usavam telemóvel

A fotografia sem autor sugere a data de 1961. Ou talvez 1962, quando o Tóino vinha de quinze em quinze dias da Lezíria receber o avio da mãe e deixar a roupa para lavar no poço da casa no Bairro do Bom Retiro. A água desse poço era salobra como a da fonte do bairro do Mártir Santo e os irmãos (Manel e Marcolina) iam com os vizinhos buscar água para beber nas bilhas de barro à fonte de Santa Sofia.

Nesse ano Salazar tinha gritado «Para Angola rapidamente e em força!» depois de antes ter agradecido «Obrigado portugueses, temos o Santa Maria connosco!», isto em pleno esforço repressivo com o quadrado da infâmia: Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal.

No Bairro os homens faziam horas frente à televisão no café do senhor Jorge a ver o Benfica e o Sporting nas vitórias europeias – Berna, Amesterdão, Antuérpia. Outros jogavam à malha no terreno anexo, havia sempre espectadores no primeiro balcão. As mulheres, por sua vez, já pensavam na chamada guerra do Ultramar, começada em 1961. Mostravam o exemplo dos campinos e dos rapazes do Parque de Alverca, o outro nome das OGMA. Quem tivesse um sargento conhecido podia aspirar a uma cunha para um filho entrar no Parque. Podia ser um cabo desde que tivesse influência. Diziam entre si, as mulheres do Bairro: «Quem não tem padrinhos morre moiro!». Hoje os campinos usam telemóvel para avisarem da descoberta de um toiro tresmalhado nos confins da Lezíria. Se em 1961 nos viessem dizer, ao Tóino e aos miúdos do Bom Retiro que uma caixinha de plástico nos punha a falar com o Mundo, todos nós teríamos dito: «Pode lá ser!». Mas afinal podia ser. Em 1961 os campinos não usavam telemóvel.

Vinte Linhas 524

TURISMO – A antiguidade e a relativa importância das coisas

Este mapa do concelho de Caldas da Rainha tem uma particularidade: ainda está em distribuição. Há um simpático espaço da Associação de Artesãos no antigo posto da Polícia de Viação e Trânsito à saída das Caldas para Lisboa pela estrada velha (Sancheira, Cercal, Alenquer) onde outro dia me ofereceram um exemplar.

A curiosidade está na comparação que fiz de imediato com o conteúdo de um CD (ou DVD?) editado pela Câmara Municipal sob o mesmo tema: locais a visitar fora da cidade. O copy wright do CD (ou DVD?) é de 2007 e presume-se que o outro documento é anterior. Pois nos locais a visitar fora da cidade só aparece a Ermida de São Jacinto no Coto e as igrejas Paroquial e da Misericórdia de Alvorninha. Digo só aparece porque no anterior documento do Turismo caldense surgem as Dunas e as Ruínas da Alfândega de Salir do Porto, o moinho de madeira do Zambujal, o Paúl de Tornada, a igreja e o cemitério dos ingleses na Serra do Bouro, Almofala (Alvorninha), o castro do Cabeço Castelo e a igreja paroquial de Santa Catarina.

Ora se o castro e a igreja paroquial de Santa Catarina figuravam no folheto só pode ser pela sua antiguidade. Basta saber que a igreja foi construída pelos fregueses em 1428 em litígio com o abade de Cister e com apoio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro que foi arcebispo entre 1586-1625 e chegou a ser vice-rei de Portugal.

Se do folheto para o CD (ou DVD?) passaram anos e tecnologias não percebo como é que a antiguidade que recomendava uma coisa relativamente importante passou de repente e determinar a sua eliminação. Isto é tudo relativo, claro. Mas custa.

O mito do Pepe

Ele não morreu de facto. Apenas está ausente
Apenas não veste a camisola azul com a cruz
Morrer é estar longe mas o Pepe está presente
Morrer é ser a sombra mas o Pepe é uma luz

Nas Salésias, no Restelo, ele fica, permanece
O Clube muda mas no fundo tudo continua
Como quando o rapazinho de súbito aparece
A marcar muitos golos nos jogos daquela rua

Todos os anos lhe trazem um ramo de flores
Este é o lado de fora da angústia instalada
Os mitos não morrem. Renascem nas dores
Da grande alma azul para sempre magoada

Apareceu a cigarreira há muitos anos perdida
É o fumo do cigarro que antecede a sua voz
Ele não chegou a fazer a festa de despedida
Não há morte para quem está dentro de nós

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
A outra metade é feita de tijolos
Tristes porque são todos iguais
Na sua tão repetida monotonia

À volta da avenida fica o arvoredo
Antigo como as casas dos guardas
Lembra um velho tempo de quintas
Com cavalos e carroças no mercado
Hoje só recordado aos domingos

Esquilos nos ramos, corvos na relva
De noite raposas fogem assustadas
Dos poucos táxis a circular na rua
Na escuridão fria da noite inglesa
À hora dos comboios mais raros

Envolvido nas rotinas das escolas
Levo na mão o meu neto de manhã
E vou buscá-lo perto do meio-dia
Pego na pasta azul com o seu nome
E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala
São elefantes, borboletas e ovelhas
Entram na floresta que eu lhe conto
E tremem de medo dos monstros
Como eu tremo de medo da doença

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
Frágeis perante a neve a chegar
Tal como eu frente ao pâncreas
Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos
Maneira de eu dizer adeus à vida
Todos os momentos são preciosos
Para que o meu neto me lembre
E não se esqueça de me recordar

Caminho-1942

O grupo de homens caminha por entre as fardas
Vão olhando em frente, sem receio e decididos
Mais pensativos vão os que levam as espingardas
Porque afinal anos depois serão eles os vencidos

Nesta Lisboa de mil novecentos e quarenta e dois
Chega mais uma leva de homens de Montemor
A fotografia só a descubro muitos anos depois
Mas muito nítida como se sentisse aquele fervor

O grupo de homens caminha por entre as fardas
Mas são eles os condutores no grupo que passa
Para poucos camponeses um pelotão de guardas
Que por tão pouca razão trazem a sua ameaça

Entre todos eles há a força dum olhar verdadeiro
São eles que desenham o seu caminho no chão
Hoje vejo no porte altivo do rosto do primeiro
O esplendor da nobreza de quem sabe ter razão

Vinte Linhas 523

Isto é «Para acabar de vez com a cultura»

Quando alguém está metido numa embrulhada muito difícil de explicar diz-se que a situação é kafkiana de Franz Kafka (1883-1924), autor de vários livros (p.e. «A metamorfose», «O processo») nos quais o absurdo se passeia de situação em situação. Desta vez, e para ir directo ao assunto, escolho não Franz Kafka mas o título de um livro de Woody Allen – «Para acabar de vez com a cultura».

De facto há Associações Culturais e Câmaras Municipais cujo objectivo mais parece ser acabar de vez com a cultura em vez de, como seria lógico, divulgar, promover e dar às pessoas das suas localidades a possibilidade de dialogar em directo com os agentes culturais. Participei há meses num Festival de Poesia e Artes Plásticas e ainda não recebi os valores em euros que paguei para a minha deslocação de comboio. Muito menos o valor dos outros recibos já entregues e, muito menos ainda, o valor do recibo verde respeitante às ajudas de custo da participação no dito cujo Festival.

Tenho fotocópias dos diversos documentos e cópia do recibo verde mas não tenho o dinheiro. Nem é o dinheiro que me mais interessa embora seja importante o reembolso do que já paguei à CP. O maior problema é a atitude negligente de quem me convidou. Porque no fundo o que eu receber (se receber…) passados tantos meses só servirá para compensar o que gastei em licores, bolos e outras recordações regionais. Acabar de vez com a cultura é isso mesmo – convidar e depois afugentar aos poucos os agentes culturais, as pessoas que, com todas as boas intenções do Mundo, não recebem sequer o dinheiro gasto nas duas viagens de comboio a partir de Santa Apolónia.

Saudação a Maria Belmira em 20-7-2010

A tua mãe aqui tinha a idade que tu tens
E trouxe a voz da terra ao espaço do salão
Há códigos na ligação entre filhas e mães
Para os quais não há chave ou explicação

A maneira como coloca o lenço é diferente
A linguagem gestual já faz parte da pessoa
No Lavre, em Montemor entre a sua gente
Ou no meio dos desconhecidos de Lisboa

O seu olhar é profundo como o horizonte
É paisagem revelada em ondas de ternura
Como se a vida fosse resumida no monte
Nas gramáticas do encontro e da procura

No ímpeto e no fulgor deste seu sermão
Há as velhas histórias repetidas à lareira
Ligando dois mundos como em oração
No ritual da sua vida tão plena e inteira

Caminho (Miguel Torga)

Sobre tudo o mais
Um cântico erguido
Das regras gerais
Sempre distinguido
Sem palavras iguais
Nem a fazer ruído
Deixou os sinais
Para ser seguido

Sobre tudo o mais
O amor à terra
Vinhedos, pinhais
A paz e a guerra
Searas e olivais
A neve na serra
Rebanhos, animais
O que a vida encerra

Sobre tudo o mais
Um cântico erguido

Vinte Linhas 522

Seis pintores no Largo do Carmo

Até ao próximo dia 29 de Agosto, no Largo do Carmo, entre as 10 e as 20 horas, estão expostos trabalhos de seis pintores: Márcio Bahia, Ruslam Botiev, «Cartier», Oleh Basyuk, Rui Andrade e Oliveiros Júnior. O título genérico desta mostra é «Lisboa – outros olhos que me vêem» e tem a ver com o facto de todos os seis artistas vindos do estrangeiro residirem em Portugal.

O quadro que reproduzimos como convite à deslocação ao Largo do Carmo é de Oleh Basyuk (n.1965) que chegou da Ucrânia e vive em Lisboa desde 2000. Está fixo no Miradouro de S. Pedro de Alcântara. Marcos Bahia (n.1983) vive em Portugal desde 2007 e alguns dos seus quadros mostram a memória feliz de Portugal no Brasil – Ouro Preto e Baía, por exemplo. Ruslam Botiev (n. 1963) vive em Portugal desde 2002, está no Largo do Carmo e dá-nos uma luz mongol de cavaleiros infatigáveis, navios à procura do novo mundo e guerreiros donos de formidável energia contra os invasores da sua terra. «Cartier» é o nome artístico de Paulo Ramos (n.1977) que vem da joalharia e se afirma nos quadros de grande formato onde organiza a desordem do Mundo. Oliveiros Júnior vem de São Paulo (Brasil) e vive em Portugal desde 2008. Traz memórias de índios acossados pelo progresso que sistematicamente os empurra e faz desaparecer no horizonte da História. Rui Andrade, nascido no Brasil, é o último artista da série. Os seus quadros transportam o ritmo, a cor e a vida dos seus lugares de origem. Lá onde a alegria das mulheres baianas faz de cada encontro uma festa que salta ruidosa do limite dos quadros para as ruas da cidade.

Vinte Linhas 521

Joly Braga Santos nasceu de facto no século XX

Agora, terminado o Festival ao Largo que decorreu entre 26-6-2010 e 27-7-2010 no Largo de São Carlos, em pleno Chiado, com os seus 29 espectáculos ao ar livre envolvendo músicos, bailarinos, cantores, maestros e coreógrafos portugueses e estrangeiros, gostaria de chamar a atenção para um assunto que tem a ver com o programa. Aliás programa brilhantemente comentado por Jorge Rodrigues antes e durante os diversos espectáculos.

Não estive em todos mas procurei tirar o máximo partido do facto de morar perto do Largo de São Carlos. Mas fosse por isto ou por aquilo, fixei-me mais no texto do último espectáculo, a «Noite de Macau» com a Orquestra Sinfónica Juvenil de Macau sob a direcção do maestro Veiga Jardim e com a pianista Ieng-Ieng Lam. A Orquestra executou peças de César Franck, Doming Lam, Hua Yanjuan e Joly Braga Santos.

Aqui é que bate o ponto: o programa refere que Joly Braga Santos nasceu em 1824 mas está errado pois a data correcta é 1924. Aliás é fácil de perceber pois os números referidos no programa (1824-1988) davam uma vida de 164 anos, obviamente fora do contexto da vida real de Joly Braga Santos.

Talvez sinal dos tempos, a verdade é que os revisores estão em vias de extinção nos jornais, nas editoras, nas revistas e, pelos vistos, nos programas musicais. Lembro-me de trabalhar no jornal «Sporting» onde muitas vezes passei largos minutos às voltas com os golos do hóquei em patins. A soma dos golos da equipa tinha que ser igual à soma da lista dos marcadores. Conclusão: a data do Joly Braga Santos não é 1824.

Vinte Linhas 520

Em Vila Franca os grilos não cantavam ao domingo

Vivi no Bairro do Bom Retiro entre 1961 e 1966. Todos os domingos, depois da missa do senhor padre Moniz e da JOC do senhor Vladimiro, íamos ver os juniores ou os principiantes no Campo de Cevadeiro mesmo ao lado do Quartel dos Marinheiros. À noite descíamos á Vila e esperávamos a chegada de uma carroça pequena com um oleado a proteger os jornais da chuva. A loja que vendia os jornais era ao lado da Câmara Municipal mas os jornais vinham de Lisboa de comboio e a estação era paredes-meias com o cais do Tejo povoado de barcos Avieiros e batelões da areia.

Ao domingo os jornais de Lisboa desse tempo (Popular, Lisboa, República) faziam uma edição especial ao fim da tarde com os resumos telefonados dos jogos do Nacional da I Divisão, a classificação e a lista dos melhores marcadores. Lourenço e Figueiredo competiam com Eusébio e Artur Jorge.

No caso particular do Diário Popular (onde me estreei em Agosto de 1978) acontece que, além das notícias frescas do dia (mas visadas pela Censura) a edição de domingo incluía uma crónica assinada por Santos Fernando sob o sugestivo título de «Os grilos não cantam ao domingo». Atarefado e ajoujado ao peso do Curso Geral do Comércio, eu nenhum tempo tinha para outros livros além dos da Escola Técnica. Mas aquela crónica de humor era, muitas vezes, o esplendor do absurdo. Só mais tarde vim a saber que Santos Fernando foi amigo de Luís Pacheco, Vítor Silva Tavares e Ferro Rodrigues (pai). Foi numa dessas crónicas de domingo que li em 1966 uma das frases da minha vida até hoje: «O humor é uma lágrima entre parêntesis».

Um livro por semana 194

«A administração do Marquês de Pombal» de Pierre de Cormatin

Pierre Dezoteux, barão de Cormatin, militar de carreira, nasceu em Paris (1753) tendo falecido em Lyon (1812). Viajou pela Europa e pela África entre 1776 e 1780, tendo participado na batalha de Yorktown em 1781 na Guerra da Independência Americana. Como autor ligado ao iluminismo dominava os temas da Economia, da História e da Filosofia e, na linha dos «enciclopedistas» serve-se desses conhecimentos para a abordagem das políticas do Marquês de Pombal. Este livro surge como desagravo à publicação de uma obra de um jesuíta português em Paris intitulada «Memórias do Marquês de Pombal». Para o barão de Cormatin «O agente de uma coroa que em menos de quatro lustros funda tantos estabelecimentos úteis, promulga tão judiciosas leis e opera tantas reformas necessárias é, sem contradição, homem de estado; os das outras cortes, comparativamente com ele, são simples ministros.»

Analisando o estado da Nação portuguesa, o autor começa pela população («Em geral as portuguesas são belas: todas, ou quase todas, têm lindos olhos, bons dentes, o semblante engraçado e são dotadas de espírito») mas acaba por se demorar na riqueza: «no espaço de 60 anos, isto é, desde o descobrimento das minas até ao ano de 1756, saíram do Brasil novecentos e sessenta milhões de cruzados e, todavia, o dinheiro de Portugal era, em 1754, quinze ou vinte milhões; a nação devia então mais de setenta e dois, isto é, Portugal carecia de cinquenta e dois milhões só para pagar a sua dívida».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução: Luís Inocêncio de Pontes Ataíde e Azevedo)

Vinte Linhas 519

Os microfones à frente do nariz

No «Diário de Noticias» de 1-8-2010, na última página, surge uma senhora, presidente da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, a afirmar que uma senhora autarca de Rio Maior foi «agredida pelo marido, o pai dos filhos e a quem jurou fidelidade e carinho».

Entretanto na página 6 do «D. N.» refere-se, por outro lado, que a senhora autarca em causa é viúva desde 1999, situação verificada quando tinha a idade de 33 anos pois, se tem hoje 44 anos, nasceu em 1966.

Partindo do princípio que é esta a verdade verdadeira (tal como também a li nas páginas do semanário regional O MIRANTE) quem está errada é a senhora da UMAR que, ao jornalista Alfredo Teixeira, inadvertidamente, referiu o namorado não como tal mas como marido e pai dos filhos.

Terá sido a força do lugar-comum, do cliché, do dito normal. Terá sido uma distracção, um lapso, uma facilidade impensada. Mas é sempre grave falar sem saber. Tal como na canção popular – «Ninguém diga o que não sabe nem afirme o que não viu!».

Isto não apaga nem invalida outro erro na mesma página do «Diário de Noticias» que integra uma legenda da foto desta autarca num banco de jardim: «Aos 36 anos, Isaura Matos, viúva, teve de reconstruir a sua vida.» Se tem hoje 44 anos nasceu em 1966 e obviamente tinha 33 anos em 1999 (como consta do texto) e não 36 anos (como consta da legenda).

Há gente que não pode ver um microfone à frente do nariz. É um perigo.

Vinte Linhas 518

Dissertação para Daniela Passeira sobre uma fotografia

Esta fotografia a preto e branco sobreviveu a uma inundação num quarto andar e daí não estar muito explícita nalguns centímetros quadrados mas, no essencial, estão todos: a Ivone Chinita, o J. H. Santos Barros e as gémeas. A fotografia terá sido tirada em 1981 ou 1982 e foi-me oferecida pelo casal na sua casa da Rua do Patrocínio. Só hoje a encontrei, assim como está, algo danificada mas ainda capaz de me emocionar. Há um livro da Ivone Chinita, «Peste Malina» que tem uma parte desta fotografia na contracapa mas não sei dele. Hoje encontrei a fotografia e apresso-me a elaborar a memória justificativa desses tempos breves. As gémeas da Ivone e do Zé tinham 9 anos em 1983 quando o casal morreu em Espanha, logo devem ter 36/37 anos agora. A tua idade, Daniela. Sei que continuas com uma memória muito forte das gémeas pois foram tuas colegas e não é fácil a nossa separação das nossas memórias que, a partir de certa idade, se colam de modo irremediável àquilo que somos. Dizem que o indivíduo que abalroou a viatura era emigrante português e vinha a conduzir sem parar desde a Holanda e o acidente foi no Sul de Espanha. Foram as circunstâncias mas as coisas não são assim tão fáceis de perceber. Eu não sou capaz de pensar sequer no que seriam as minhas filhas hoje com 32 anos e 25 anos e o meu filho hoje com 29 anos se tivessem perdido os pais com 9 anos de idade. Fico arrepiado, fico sem palavras. Mas tinha prometido revelar-te esta fotografia logo que ela aparecesse e aqui estou a cumprir a promessa. Não está em boas condições mas é única e insubstituível. Aqui tens a fotografia possível das gémeas, das tuas gémeas, tal como as deixaste de ver tão de repente.

Um livro por semana 193

«Andanças de pedra e cal» de Álamo Oliveira

Neste seu 17º título de poesia Álamo Oliveira (n. 1945) começa por citar «Viagens ao pé da porta» de Vitorino Nemésio mas as viagens do primeiro capítulo são as do Mundo. O poeta parte com a sua ferramenta invisível («na oficina da poesia o silêncio dói») e passa pelo Corvo («quando chove há um búzio de abrigo para cada um»), por S. Jorge («vista de cima é a exclamação do silêncio»). Vai a Genéve («outubro está no tempo preciso da suíça») e a Struthof («ali não é o frio que adoece nem a fome que dói») antes de passar a Tulare («nenhum índio usa já a palavra de fumo»), Berkeley («nada é mais universal que a universidade do amor») e S. Francisco («a Califórnia é um deserto muito cheio de gente». Por fim o Brasil: Rio de Janeiro («não consigo rir do cheirinho favelado da pobreza») e S. Paulo («vou chamar-te amazónia de betão sem qualquer pudor lírico»).

A segunda parte é uma viagem dentro da Ilha Terceira. Passa pelo teatro angrense («casa dos espíritos: o actor treme / pelas palavras que não tem / e pelo rosto que não é seu») e pela oração na rua («a casa do divino está pintada de fresco / como primavera coroada de encanto») mas desagua em duas referências culturais maiores: António Dacosta («só para destoar dacosta abria / as gavetas da memória / e retirava verdes e mais verdes / para pintar o rosto de cidade») e Vitorino Nemésio: «mas isto era antes das tias / na varanda da casa / com as suas mantilhas e terços de lágrimas / ouvirem anjos deslumbrantes a tocar trindades / nas torres da matriz».

(Editora: BLU, Capa: Rui Melo, Design: Vítor Melo, Foto: Eduardo B. Pinto, Apoio: Governo dos Açores, Junta de Freguesia do Raminho)

Vinte Linhas 517

«Ele foi extremamente desagradável» – disse Rui Patrício de Mário Crespo

No livro «A vida conta-se inteira» de Leonor Xavier (edição Círculo de Leitores – Temas e Debates) Rui Patrício (n. 1932) afirma: «Há dias fui entrevistado por um senhor Mário Crespo e ele achou de muito bom gosto projectar a sala das Nações Unidas meio vazia quando eu lá estive. Ele foi extremamente desagradável. Mostrou a sala meio vazia e perguntou como é que eu reagi. Respondi-lhe que fiz o discurso que tinha que fazer, discurso que teve até uma certa repercussão aqui em Portugal.

Esse Mário Crespo, ainda por cima, é de Moçambique e disse que me conhecia porque tinha ido à cidade do Cabo levar uns mapas que o general Kaúlza de Arriaga me mandava. Falou nisso…

A princípio foi muito cordial. Sobre a questão da sala estar vazia, faz-me lembrar uma história que, infelizmente, o Mário Crespo não me deu tempo de contar. Em 1973 a nossa embaixada em Viena convidou uma equipa da TV austríaca para fazer propaganda da barragem de Cahora Bassa, em construção. A equipa foi à barragem, viu os trabalhos em curso, filmou tudo. O governador do distrito ofereceu um jantar seguido de danças nativas. Correu tudo bem mas dias depois recebi um telefonema do nosso embaixador em Viena a dizer que o programa tinha sido horrível com os jornalistas a dizerem que chegaram à barragem no meio do maior perigo, tendo eles filmado uma parte da batalha…»

Desconfia dos jornalistas em geral? (Leonor Xavier) Sim, muito. (Rui Patrício)

Vinte Linhas 61

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

Vinte Linhas 516

Com que então, entre delírio e alucinação, querias a caderneta militar?

Esta onda suja de disparates que por aqui (aspirinab) chafurdou sete vezes como as ondas do mar (as verdadeiras) a propósito de uma frase minha no «post» dos girassóis abatidos pela CML frente à livraria Fábula Urbis merece uma clarificação.

De facto parece-me ser já da ordem do delírio e da alucinação esta peregrina ideia de alguém (que não conheço nem estou interessado em conhecer) se permitir dizer, mais ou menos isto: já que você diz que tem um louvor na caderneta militar, mostre!

Era o que faltava… Se não acredita passe em frente e esqueça. Eu não deixarei de ser quem sou e o palonço (ou palonça) que se atreveu a refilar não deixará de ser quem é. A vida continua.

Mas se por absurdo eu descesse ao ponto de indicar os nomes, as datas e as circunstâncias do tal louvor na caderneta militar (ou seja conteúdo e autoria, palavras e nome do comandante do regimento) também outro alguém se poderia lembrar de por sua vez perguntar: se você é juiz social desde 1993 diga lá em que juízo e secção trabalha quando participa nas audiências do Tribunal de Menores?

Era o que faltava… Se quer acreditar, muito bem, se não quer, siga o seu caminho mas não aborreça a malta. No espaço da Net existem vários CV meus que se difundiram ainda mais depois de ter participado na Bienal do Livro do Estado do Ceará na cidade de Fortaleza. Então no Brasil e noutros países da América do Sul foi mesmo uma multiplicação. Que cada um trate do seu CV e faça os possíveis por o melhorar e ampliar mas sem atropelar os outros. É esta a minha sugestão. Podem aceitar ou não.

Vinte Linhas 515

Os 40 mártires do Brasil afinal aqui tão perto

Há 440 anos exactos, no dia 15 de Julho de 1570, a tripulação dum navio francês comandado pelo calvinista Jacques Sourie abordou em Tazacorte (La Palma) uma embarcação portuguesa que levava a bordo a caminho do Brasil 40 jesuítas – 32 portugueses e 8 espanhóis. Foram atacados e atirados ao mar, eram jovens entre os 20 e os 30 anos de idade integrando este grupo sacerdotes, diáconos, estudantes e irmãos. Tinham passado por uma preparação na Caparica durante cinco meses e pararam na Madeira em 12 de Junho de 1570 para reabastecimento.

De todos os 40 missionários mortos em 1570 o mais conhecido é Inácio de Azevedo que chefiava a missão e no conjunto havia 32 portugueses de 25 localidades diferentes. Começando por Alcácer do Sal e Alcochete temos gente originária de Borba, Braga, Bragança, Celorico da Beira, Ceuta, Chacim, Chaves, Covilhã, Elvas, Entre Douro e Minho, Évora, Estremoz, Fronteira, Lisboa, Marco de Canavezes, Montemor-o-Novo, Niza, Ourém, Pedrógão Grande, Porto, Santa Maria da Feira, Trancoso e Viana do Alentejo.

Esta nota procura apenas interpelar tal como eu fui interpelado na Rua de São Nicolau na manhã do passado domingo. Todos os dias nos entram pela casa dentro através da TV imagens de grande violência com actos de intolerância religiosa mas o mais curioso é que são muitas vezes apresentados como se de uma realidade nova se tratasse. Afinal já em 1570 havia perseguições deste tipo em que uma embarcação a caminho do Brasil podia ser atacada perto das Ilhas Canárias e os seus tripulantes atirados ao mar.

Um livro por semana 192

«Rui Patrício – A vida conta-se inteira» de Leonor Xavier

Neto paterno de Alice d´Espiney e de António Patrício (embaixador, poeta, contista, dramaturgo) Rui Patrício (n. 1932) teve como avós maternos Augusto Goulart de Medeiros e Maria Júlia Loureiro de Macedo. Uma das tias tornou-se Campos e Sousa pelo casamento, outra ficou Tito de Morais – o mesmo é dizer direita e esquerda com o avô Goulart ao centro. Aos 9 anos R.P. vive com o pai, diplomata em Vichy na França ocupada. Lá tem como médico o irmão do escritor Jean Giraudoux e conhece Danielle Darrieux e Porfírio Rubirosa. Teve dois padrinhos ligados às letras (João de Barros e Urbano Rodrigues) e um primo – Gustavo Soromenho. Leu muito na juventude: Eça, Oliveira Martins, Camilo, Alexandre Herculano, Fialho de Almeida, Stendhal, Dostoiewski, Shakespeare. Ex-aluno do Colégio Moderno, Rui Patrício recorda as férias em S. Martinho do Porto: «Um dia alguém pôs um disco com a música Chiquita Bacana e um dos Hipólito Raposo disse: «Eu não posso deixar que as minhas irmãs oiçam isto!» E partiu o disco.».

Este livro de Leonor Xavier lê-se ora em relativa alegria («no Tribunal declarei que o Ramos de Almeida tinha as suas ideias mas que nunca o vira entrar numa conspiração política») ora em relativa amargura quando R.P. recorda o ministro Correia de Oliveira: «Depois do 25 de Abril não resistiu à queda do regime. Todos nós, que sofremos por ver o país destruído e o Ultramar abandonado, percebemos o seu desespero.» Tal como o livro, o título é um achado e vem de Drummond de Andrade: «A vida conta-se inteira / em letras de conclusão».

(Editora: Círculo de Leitores / Temas e Debates, Notas: Ana Gomes, António Pinto da França, Francisco Seixas da Costa, João Diogo Nunes Barata e Marcello Duarte Mathias)