Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 246

«Novo Dicionário do Calão» de Afonso Praça

Afonso Praça (1939-2001) passou desde 1961 pelos jornais Diário de Lisboa, República, Diário de Moçambique, O Jornal, O Sete e O Bisnau e pelas revistas Flama, Vida Mundial e Visão. Foi, segundo António Valdemar, «um dos mais notáveis jornalistas da sua geração». Este dicionário de 285 páginas começa em «a abrasar» (andar muito depressa) e termina em «zurrapa» (vinho ordinário) e tornou-se (segundo Regina Louro) «um livro de referência para tradutores, professores, alunos, jornalistas e cidadãos curiosos» embora (segundo Sara Belo Luís) se possa também considerar «um pequeno manual para o melhor insulto».

Um dos aspectos mais curiosos deste dicionário é o facto de o seu autor integrar nos verbetes citações de diversos escritores. Uns serão menos canónicos como José Vilhena, Luís Campos ou o Pad-Zé de Coimbra. Outros são autores de culto como Vitorino Nemésio, Urbano Tavares Rodrigues, Trindade Coelho, Natália Correia, Luís Pacheco, Júlio César Machado, José Cardoso Pires, Fialho de Almeida, Fernando Assis Pacheco, Eça de Queirós, Dinis Machado, Camilo Castelo Branco, António Lobo Antunes, Aquilino Ribeiro e Alves Redol.

Uma das palavras mais difíceis é «cena» (situação ou acontecimento) e daí a transcrição da entrevista dum elemento do grupo Family: «E a cena da cor? A cena de haver bumbos a rappar? «É normal, é normal porque … a cena que se ouvia lá, a maior parte são os negros que fazem, e então é muito mais fácil haver mais negros a ouvir a cena do que brancos a ouvir… Eu já ouvi muita cena «os negros é que sabem, o que é que é», «os negros é que sabem rappar», não é assim, tás a ver? Tu podes ser branco e perceberes da cena e sentires a cena da mesma maneira».

(Editora: Casa das Letras, Actualização: Cláudia Almeida, Pedro Dias de almeida e Rodrigo Dias, Capa: Maria Amorim, Revisão: Ayala Monteiro)

Amor de bancada

É pelos teus olhos que eu vejo o jogo
De ti eu não sei praticamente nada
O teu olhar tem a força dum fogo
Aceso por mim neste lugar da bancada

Debruço-me também na luz da tua idade
Para ver melhor o tempo de jogo a correr
Nos degraus em que repousa esta saudade
Encontro o teu inesperado corpo de mulher

No Verão protejo-te com nuvens de papel
Que só eu vejo porque também só eu imagino
Ponho-te nos bolsos rebuçados alteia e mel
E disfarço os meus anos num olhar de menino

No Inverno são para ti os primeiros pingos
Neste monte dos nossos pequenos vendavais
No ano inteiro vejo-te apenas alguns domingos
E nas poucas quartas-feiras internacionais

No roteiro deste sentimento imaginário
Saímos deste poema como do jogo – cansados
E sonho com alterações ao nosso calendário
No grande silêncio dos teus lábios fechados

Balada do Largo do Rato

(a Fernando Marques)

Largo do Rato tão velho
Onde chegava sozinho
Poupava pelo conselho
Dado no fim do caminho

Descia a pé toda a rua
Do alto das Amoreiras
Parece que continua
Na atitude e maneiras

Poupança de três tostões
Hoje sem equivalente
Continua a haver razões
Nas ideias desta gente

Vinha da Rua do Ouro
E jantava a todo o gás
Cada livro um tesouro
O Curso era ser capaz

Fosse na Veiga Beirão
Ou na Patrício Prazeres
Estudar era a paixão
Labirinto de saberes

Fixo agora o momento
Na memória virtual
Está o carro São Bento
Estrela-Príncipe Real

E o do Conde Redondo
O que passa e o que fica
Resguardo onde escondo
O cinco vai para Benfica

Ou um 24 para o Chile
Sai do Carmo pontual
Leva um «Canto Civil»
E quer mudar Portugal

Largo do Rato tão novo
Todos os dias procuro
Nove ruas onde o povo
Parte em busca do futuro

Vinte Linhas 642

Bairro Alto pior que o Gabão

Esta factura é sinal de um mal que atacou o Bairro Alto nos últimos tempos. Moro aqui desde Dezembro de 1976 e o ano passado comprei um automóvel. Oito dias depois, um grupo de estudantes Erasmus deitou uma rapariga em cima do tejadilho. Por causa disso passei parte do Verão sem o meu automóvel usando um similar, emprestado pela Citroen. Agora estamos perante o fenómeno das garrafas de cerveja – das de litro. No passado dia 5 descobri um furo na roda dianteira esquerda do meu automóvel. Ele estava estacionado na Rua Diário de Notícias e o furo, como me explicaram na Casa dos Pneus de S. Marta, foi feito por uma garrafa das grandes. O golpe foi tão profundo que não pôde ser arranjado. Fui obrigado a pagar um novo como atesta a factura. Um amigo meu, que já trabalhou em Libreville, diz que isto está pior que no Gabão. Qualquer parvo depois de beber uma garrafa de cerveja de litro resolve urinar contra o primeiro automóvel que lhe aparece à frente. Os bares ilegais são do tamanho das casas de banho – por isso não podem ter casa de banho. O grande problema do Bairro Alto é o consumo de bebidas alcoólicas na rua. Depois de beber partem as garrafas de litro. A seguir é o barulho que não deixa as pessoas descansar. Não existe fiscalização das horas de fecho dos bares ilegais. Os bares legais cumprem; os ilegais não cumprem mas não são punidos. Um trambolho mais agressivo disse esta pérola ao administrador do condomínio do prédio onde «gere» um bar ilegal: «Eu pago a minha renda ao senhorio e posso fazer o que quiser!». É esta sensação de impunidade que deve acabar, a factura é um exemplo do que não deve acontecer. Sem desprimor para o Gabão.

Vinte Linhas 641

«Diário de Noticias» – OMS não é ONU e galões são café com leite

Do «Diário de Noticias» de 9-7-2011, última página, a coluna de Ferreira Fernandes (Um ponto é tudo) usa uma expressão que em geral a nós portugueses, leitores do jornal, nada diz. Repare-se «Isto não vai lá poupando uns galões de gasolina».

O jornalista Ferreira Fernandes que eu conheci nos anos 80 na redacção do semanário O PONTO já nada tem a ver com este jornalista de hoje. Nesse tempo os mestres (como Jacinto Baptista ou Abel Pereira) ensinavam-nos que o jornalista deve informar, formar e divertir. Mas informar com dados ao alcance do leitor. Poucos leitores sabem que nos EUA a gasolina se vende aos galões. Em Portugal galões é outra oisa.

Para o comum dos leitores galões quer dizer café com leite em copo alto. A expressão galões de gasolina surge como uma dupla incongruência. Porque Ferreira Fernandes não se está a dirigir a americanos – que sabem. Porque, estando a dirigir-se a portugueses, deveria saber que eles não sabem.

No «Diário de Notícias» de 10-7-2011 a primeira página abre com «Portugal na lista negra da ONU por violência contra 40% dos idosos». Mas o título não está de acordo com o corpo da notícia pois a mesma refere a OMS – Organização Mundial de Saúde. Por muito que a OMS esteja ligada à ONU não é a mesma coisa. OMS é OMS; ONU é ONU. Mas também se estranha que Israel seja integrado numa lista de países europeus ao lado de Portugal, Macedónia, Áustria e Sérvia. Se desde 1948 o estado de Israel tem aumentado aos poucos a sua superfície no Médio Oriente não pode aparecer agora numa notícia integrado na Europa. Ou pode? Responda quem souber.

Vinte Linhas 640

Um forno de pão de Santa Catarina ao lado do Casino Estoril

Há muitos, mesmo muitos anos, que eu não visitava a Feira de Artesanato do Estoril, ali mesmo ao lado do Casino. Entre a gastronomia, o artesanato e a animação musical, tenho boas memórias daquele espaço mas, se os miúdos eram pequenos e hoje a mais nova já tem 26 anos, percebe-se que passou muito tempo desde a última visita. Outra coisa que mudou – havia sempre lugar para o automóvel e agora é um pesadelo.

Mas hoje (dia 9 de Julho de 2011) foi mesmo especial. Ao dar uma volta pelo certame que comecei pelo lado esquerdo de quem entra, dei de caras com uma curiosa inscrição «Padaria – Forno de pão» num dos stands e os empregados envergando umas T Shirts com o nome da minha terra – «Pão de Santa Catarina».

Mais do que uma curiosidade (descobrir um bocado da minha terra natal junto ao Casino Estoril) tratou-se de uma emoção: o rapaz que está à frente do projecto (produz pão, bolos, sopas, filhoses, pão com chouriço) é filho de um padeiro que tocou na Filarmónica Catarinense ao lado do meu avô José Almeida Penas. Lembro-me bem de a mãe do João (ao tempo ele com 12 anos) ter ido a casa da minha avó para autorizar o seu filhote mais pequeno a tocar na Filarmónica Catarinense desde que o meu avô tomasse conta dele nas deslocações às terras vizinhas. Ele era pequenino e o meu avô foi a sua âncora naqueles Verões com festas todas as semanas pelos arredores da nossa terra. Trouxe da Feira de Artesanato do Estoril duas filhoses e três bolos secos mas o mais importante foi descobrir um forno e uma padaria que vende pão da minha terra ali ao lado da catedral do jogo – o Casino Estoril.

A meio da guerra

A fotografia, esquecida, acabou por se tornar «histórica».

Vejamos: o fato alugado apenas para a fotografia, a própria camisa que teve de ser apertada nos cotovelos, a gravata sujíssima mas que a fotografia disfarça.

Depois, a cara jovem não transpira o medo daqueles dias a meio da guerra.

Pensamentos horríveis enchiam o quarto nas horas de solidão: aviões a disparar durante horas, o pó familiar só nos relatos dos veteranos, a enfermaria a encher-se lentamente.

Quando império ridículo caiu como um pacote de biscoitos no chão um supermercado
já a fotografia tinha alguns anos.

Vinte Linhas 639

A não perder as 300 sardinhas da Rua Augusta

Na Rua Augusta nº 96 está patente ao público até ao dia 3 de Setembro próximo uma exposição muito especial – são as 300 sardinhas pré-finalistas do concurso das Festas de Lisboa 2011. No espaço da Fundação Millenium BCP (entrada livre) lá estão, de 1 a 300, as peças escolhidas entre as 2.080 que participaram no concurso lançado pela EGEAC no início do ano.

Neste mesmo espaço da Baixa Pombalina funciona o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros com entrada livre e encerrado aos domingos e feriados. As escavações feitas revelaram tanques das fábricas de conserva de peixe. A sardinha já era importante no tempo dos Romanos e a exportação de peixe em conserva (ânforas de argila) em muito contribuiu para a opulência económica de Olisipo, a actual Lisboa.

Nesse aspecto não poderia ser melhor escolhido o espaço para a exposição das 300 sardinhas finalistas das Festas de Lisboa de 2011.

Em vez de aberta apenas a ilustradores, designers e artistas plásticos, desta vez participar no certame ficou ao alcance de todos.

Ver a exposição é uma festa: seja a sardinha táxi de Nuno Coutinho ou a sardinha Zé Povinho de L. Frasco, seja a sardinha Camões-Fernando Pessoa de João Leal Pereira ou a sardinha Bandeira de Bruno Rei Santos, seja a sardinha Cutelaria de Josep Escale Casas ou a sardinha Musical de João Abraúl, tudo aqui é uma festa de talento e de imaginação, tendo a sardinha como ícone – que o é desde 2003 nas Festas de Lisboa. De segunda a sábado das 10 às 13 e das 14 às 17 horas aqui fica o convite a não perder.

Alamal – canção breve sobre foto da Câmara Municipal do Gavião

Numa praia fluvial
Margem esquerda do Tejo
Um comboio pontual
Faz o mapa que não vejo

Desenhando na paisagem
Uma pauta construída
Como se nesta barragem
Estivesse a água da vida

Como se nas muralhas
Os guerreiros desta igreja
Desejassem as batalhas
Que a História não festeja

Como se na linha da estrada
Que se desenha na serra
A morte sem dar por nada
Viesse acender a guerra

Entre os dois batalhões
Os a cercar e os cercados
Ouvindo aqui as canções
Cantadas pelos soldados

Que caminham para a glória
Ou para a morte esquecida
Uns os autores da História
Outros na sombra da vida

Vinte Linhas 638

A III Exposição de Arte Naïf de Lisboa

No próximo dia 14 de Julho pelas 18h 30m arranca a III Exposição Internacional da Allarts Gallery na Rua da Misericórdia nº 30 – ao Chiado.

Os 25 artistas são originários dos mais diversos países.

Da Holanda Ada Breedveld, da França Alain Carron, Alain Donnat, Christine Haslé, Elisabeth Davy-Bouttier, Philipe Loubat e VECÚ, da Itália Alessandra Placucci, Cesare Marchesini, Cesare Novi, Guido Vedovato e Giuliano Zoppi, da Suíça Carole Perret, da Argentina Eduardo Ungar, Gabriela Lago, Marga Fabbri, Martha Tominaga e Pilar Sala, da Alemanha Irene Brandt, de Portugal J.B. Durão, Luiza Caetano e Maria Tereza, da Bélgica Jean-Pierre Lorand e Thérèse Coustry, do Casaquistão Vladimir Olenberg.

Viver é escolher. Para apoiar a notícia poderia ter escolhido uma imagem da «Florista sentada» de Eduardo Ungar, do «Waterway» de Ada Breedveld, da «Torre dos Clérigos» de Giuliano Zoppi ou do «Mercado da Ribeira» de J.B. Durão mas escolhi este bairro popular de Lisboa em noite de Santo António de Luiza Caetano.

É um registo pictórico que transporta consigo as memórias dos milagres do Santo e as cores dos arcos engalanados, o som dos pregões cantados nas escadinhas e as palavras das varinas que parecem saídas de um poema de Cesário Verde. As suas canastras onde adormeceram os filhos são a prefiguração das fragatas dos anos 60 e dos pesqueiros modernos de hoje mas onde o medo dum naufrágio nas tormentas é igual ao do passado. Todos o sabemos, mesmo quando não parece. Entre a brevidade da vida e o inevitável da morte, hoje como ontem, o apelo do milagre continua.

Vinte Linhas 637

Entre os repiques e os sinais – na morte do português

No jornal «Público» do dia 28-6-2011 apareceu uma notícia sobre a morte de um menino de três anos que se ficou para sempre dentro de um automóvel onde tinha ido procurar uma guloseima. Terá adormecido e como ninguém o viu nem ninguém o procurou – lá ficou a caminho da terra da Verdade.

Para além do choque da notícia em si (Morreu um menino é o título de uma belíssima crónica de António Rebordão Navarro) eu reparei também no uso errado de uma palavra – a palavra repiques. Ao referir no corpo da notícia a expressão «são repiques distintos» em vez de «sinais» o autor do texto ignora que «repique» significa toque festivo dos sinos. Um bom dicionário dirá «tanger de modo festivo os sinos».

Ora um toque de finados diz-se na minha terra uns «sinais». Era comum no meu tempo de criança a pergunta – «Por quem são estes sinais?».

Perante a morte do Português também está a acontecer um pouco daquilo que esta notícia do «Público» de 28-6-2011 sugere: há quem faça repiques e há quem dobre sinais. Os primeiros devem ter muito a ganhar com o chamado «acordo ortográfico», os segundos estão a dar o toque de finados de uma língua que se está a perder.

Fernando Pessoa, se voltasse de novo a este Mundo, já não poderia dizer que a sua Pátria era a Língua Portuguesa porque da velha língua portuguesa já só existem retalhos. Tiveram que atirar pela borda fora do governo de Portugal uma ministra da Cultura (Isabel Pires de Lima) e só passando por cima do seu cadáver (político) é que venderam aos brasileiros o Português a preço de saldo.

Vinte Linhas 636

Improviso na Matriz de Mação (a António Colaço)

No inesperado do tempo moderno chega uma notícia de música antiga, séculos de memória no desenho do seu som cheio, forte e envolvente.

O trabalho do organista é feito de impulsos, força e tenacidade mas resulta de invisíveis lágrimas, longos pesadelos e muito sangue pisado.

Seja na Matriz de Mação, seja na Sé de Évora, seja na Basílica dos Mártires ou na Catedral de São Paulo em Londres, seja lá onde for que defronte o seu desafio de melodias a nascer, o organista defronta uma memória de sons acumulada em mais de quarenta anos de prática. Entre as teclas, os botões e os pedais, muitas vezes lidando com peças originais com centenas de anos de idade, o organista é um navegador forçado a tomar decisões em pequenas fracções de tempo

O organista é o discreto pastor do som, esse rebanho disperso pelo horizonte sem fim do campo e da serra onde nem as pedras nem o cão podem ajudar. Apenas os dedos, ágeis, firmes e certeiros, transmitem às teclas brancas e negras uma gramática de sons que levanta a melodia do rés da terra para o azul do céu.

Tal como na oração (ou no poema) há neste gesto um ligar de novo, uma liturgia secreta que ninguém desvenda mas que todos podem ouvir. E, ouvindo, o tempo fica diferente com inesperadas e novas coordenadas, com felizes e longos encontros.

Esta é uma música antiga e moderna (ao mesmo tempo) que não agride, não distrai, não cansa porque, pelo contrário, a sua melodia afirmativa, solene e determinada, traz aos ouvidos de quem recebe o seu usufruto um intervalo de paz, de alegria e de júbilo.

Vinte Linhas 635

«Morangos com veneno» – a propósito da segunda morte

Entra pela televisão pequena da cozinha a segunda morte daquilo a que eu chamo a geração «Morangos com veneno». Outros lhe chamam «Morangos com açúcar» mas eu sempre chamei «Morangos com veneno». Outra coisa não posso chamar a uma gentinha que vê na televisão um miúdo com uma prancha de surf na mão esquerda e um copo de gin tónico na mão direita E pensa que a vida real é isso. Um gentinha que dá um beijo ao fim de dois minutos de ter sido apresentada a outra gentinha num bar de uma praia. E pensa que a realidade é isso, esse beijo dado dois minutos depois da apresentação, sem esquecer a prancha de surf e o copo de gin tónico. E pensa que a realidade real é isso, essa mistura de aventura e de imponderabilidade num lugar onde ninguém é responsável por nada mas onde tudo pode acontecer. A felicidade pode acontecer sem motivos, sem encontro, sem esforço, sem generosidade, apenas por acaso, apenas porque o filme é assim. Uma geração que já empurrou a professora porque não percebe que o telemóvel tem que estar desligado durante uma aula, é uma geração que nunca ouvirá o grito das meninas do Jô Soares «Não ponha o insecticida na salada!» porque eles não ouvem nada. A não ser os seus telemóveis. Eles continuam a pensar que os morangos que a televisão lhes serve todos os dias são acompanhados com açúcar mas na verdade são morangos com veneno. Tudo aquilo é venenoso. Jô Soares no programa «Viva o Gordo! Abaixo o regime!» quer colocar insecticida na salada porque descobre que o que dizem na TV é uma mentira. Os meninos que empurram as professoras por causa dos telemóveis não percebem que a TV é uma mentira e o mal é que já não vão a tempo de perceber.

Um livro por semana 245

«Vida e obra de Fernando Pessoa» de João Gaspar Simões

Este volume é a sétima edição do já clássico livro de João Gaspar Simões (1903-1987) estudando a obra e a vida de Fernando Pessoa (1888-1935) que sobre o assunto escreveu: «a minha vida gira em torno da minha obra literária – boa ou má, que seja, ou possa ser». A tarefa do autor não é fácil: escrever em 1949, 14 anos apenas depois da sua morte, «o drama de uma existência em cujos bastidores, ocultamente, durante quarenta e sete anos, se foi estruturando a obra que havia de ser o laço imortal que prenderia à Terra esse ser cuja Pátria não era, em verdade, deste mundo». Para tal recorreu ao testemunho de amigos, parentes, conhecidos, familiares, patrões, camaradas e criados de café. O livro chegou a chamar-se «Explicação de Fernando Pessoa» e refere que o poeta da Ode Marítima nasceu entre «uma das nossas igrejas mais tipicamente lisboetas e o nosso primeiro teatro lírico». Anos depois esse lugar surge numa quadra: «Ó sino da minha aldeia / Dolente na tarde calma / Cada tua badalada / Soa dentro da minha alma». Vencedor em Durban do Queen Victoria Memorial Prize no valor de 7 libras para o melhor ensaio em inglês, o jovem aluno escolhe livros de John Keats, Alfred Tennyson, Ben Johnson e Edgar Allan Poe. Vamos encontrá-lo em 1915 numa divisória sem janela da Leitaria Alentejana do senhor Sengo na Rua Almirante Barroso nº 12. Trabalhava então como correspondente na casa A. Xavier Pinto & Cia ao Campo das Cebolas nº 43 para onde seguia a sua correspondência: Cortes Rodrigues, Mário de Sá-Carneiro e Revista A Águia. Em 23-6-1915 escreve a Cortes Rodrigues um bilhete: «É uma circunstância violenta e aflitiva. V. pode emprestar-me cinco mil réis até ao dia 1 do mês que vem(1 de Julho)?» A sua experiência como jornalista em O Jornal(Crónica da vida que passa) termina abruptamente por causa de um artigo onde se refere aos chauffeurs de Lisboa. A obra de Fernando Pessoa afinal só começou a viver quando o autor morreu no Hospital Francês, em pleno coração do Bairro Alto. São 671 páginas para perceber com Gaspar Simões o «drama em gente» de Fernando Pessoa.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Adolfo Rodriguez Castañé)

Vinte Linhas 634

Dissertação breve para um sinal no rosto

Os dermatologistas usam os termos da sua especialidade (papiloma séssil) mas eu aplico as palavras dos leigos – sinal, verruga, cravo. Vejo no teu rosto uma projecção do relevo e do clima. Os cabelos, soltos pelo vento, são prenúncio de tempestade. Os olhos, focos de luz e de escuridão, produzem em certas condições de pressão e humidade, breves aguaceiros de lágrimas. Ou na mágoa sufocada ou no júbilo a explodir. Uma especial meteorologia, sem boletins, expectativas ou valores. Vejo no teu sinal no rosto uma bandeira de ternura. Como se numa batalha, avançasse entre tambores e clarins, uma companhia de soldados invisíveis e silenciosos. Há no sinal no rosto um apelo de romaria e de oração. Vejo à volta do seu perímetro uma filarmónica rural, o pó nos sapatos dos músicos, o sol a rasgar tiros de luz nos instrumentos de metal, a procissão a acabar num cortejo de oferendas. No poema, como na oração, procura-se juntar de novo dois mundos separados pela distância, pela noite e pela morte. O teu sinal no rosto liga a geografia à emoção e inscreve, num quotidiano cinzento, uma ruptura de cores vivas, sons harmoniosos, caminhos abertos, horizontes rasgados até ao azul do mar. No poema ouve-se a música das ondas do mar, de sete em sete, na sua caligrafia de espuma, no seu ritmo de Natureza. Que é muito diferente da Cultura, com seus códigos e sinais, suas técnicas e segredos. Um sinal no rosto é uma consequência da Natureza que nenhum Atlas do Corpo pode explicar. A ternura traduzida em palavras frágeis numa elegia de poucas linhas, é já questão de Cultura. Entre a Natureza e a Cultura, um sinal no rosto convoca toda a alegria escondida na cidade e invoca o mais puro som do mar.

Cadernos do viajante

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

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Balada da Serra dos Candeeiros

Grande parte da minha vida
Feita de paz e sem guerra
Foi numa casa construída
Com pedras daquela serra (Mote)

Na Serra dos Candeeiros
Parava o vento do mar
Eram lentos os carreiros
Com os olhos a cantar

Traziam pedras gigantes
Para a mão dos britadores
Fazer em poucos instantes
As pedras dos construtores

Os pedreiros sujos de cal
A pegar no fio de prumo
Que traça numa vertical
Lugar do fogo e do fumo

Sem desenhos ou papéis
Nascia a planta dum lar
Quatro canas dois cordéis
São os limites dum lugar

Na Serra dos Candeeiros
O azeite era o mais puro
Os ventos tão verdadeiros
A cantar por sobre o muro

Vinha a água das cisternas
Sempre boa e sempre fria
Sem as técnicas modernas
A limpeza era uma enguia

Vinha o leite já fervido
Vinha o queijo saboroso
O dia era mais comprido
Tudo era mais vagaroso

A pedra que me defende
Do Verão e do Inverno
Não se paga nem se vende
É um valor forte e eterno

25 de Abril para uma jovem

Na caixa postal da tua idade
Deposito aos poucos a memória

Sei coisas que tu não imaginas:
A fome diária mal disfarçada
Ao longo das batatas da semana.
Os pés descalços na missa de domingo
Entre botas de quem podia mais.
A lágrima numa medalha ao sol
Num dia dez de Junho na TV.

Sei coisas que tu não imaginas:
A morte a instalar o luto
Por telefone e telegrama à porta.
A Europa num comboio nocturno
Sem fronteiras para a dor.
As prisões como navios pedidos
À procura duma chave ou da luz.

Podia ser um pedaço de pão
Hoje não se curvam já a ele
Nem o beijam em respeito à vida.

Perdem-se em buracos de som
Sapatos de ténis debaixo da terra.

E não escrevem cartas nem escrevem
O que não sabem nem procuram.

In «Leme de Luz» (edição Sol XXI Poesia – 1993)

Vinte Linhas 632

Festival Com ´ Paço – Maestro fora, dia santo no palco

Logo que o maestro Délio Gonçalves saltou do palco do Rossio, depois de ouvidas as últimas palmas para a marcha escrita pelo compositor Fernando Ramos em especial para este Festival de Bandas Filarmónicas, marcha executada ao mesmo tempo pelos jovens elementos da Banda resultante do Workshop do INATEL de Oeiras e pelos elementos das seis Bandas presentes no Rossio, algo de inesperado aconteceu. Um jovem trompetista de uma das Filarmónicas, resolveu iniciar um tema que todos os outros no palco «agarraram» de imediato. Trata-se de uma composição em compasso bem africano, dedicada à criança com um nome impronunciável que é filha de Yannick Djaló e Luciana Abreu. Os mesmos músicos que antes tinham tocado com brilhantismo peças muito diversas (a opereta Marinarella, o musical Miss Saigon, o clássico New York, New York, o Stike up the Band de Gershwin, o Everest de Jacob de Haan e Os Índios da Meia Praia de José Afonso) alinharam com entusiasmo juvenil na proposta do jovem trompetista, saída no meio do escuro do Rossio e perto de um sem-abrigo que não deixou uma das Filarmónicas fechar o círculo até ao palco no decurso da execução múltipla da bonita e alegre marcha «Com ´ Paço» de Fernando Ramos.

O maestro Délio Gonçalves já não estava no palco a dirigir os seus jovens músicos do Workshop do INATEL de Oeiras mas não deve ter deixado de reparar que um dos mais entusiastas no palco era o premiado Tiago Martins, que no saxofone alto ou no saxofone tenor, tinha mostrado no concerto que o improviso é parte integrante da música bem como da alegria convocada e reunida que a música deve ser sempre.

Rua dos Fanqueiros

Vejo passar um avião cada minuto
Por cima da bandeira desfraldada
No limite mais à direita e absoluto
Rectângulo da cidade na esplanada

São Roque é a mais alta perspectiva
Uma igreja concebida para a batalha
De quem pela sua fé daria a sua vida
Na guerra onde se reza e se trabalha

À esquerda o pórtico da Margueira
Estaleiro onde se acolhem os navios
Tão doentes da viagem e da canseira
Na doca onde os cascos estão vazios

Da vida que atravessou os oceanos
Quando o combustível era a lentidão
Num instante passam cinquenta anos
O tempo de hoje é o tempo do avião