Cadernos do viajante

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

Olhar o monte

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.
Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.
Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

13 thoughts on “Cadernos do viajante”

  1. Para lhe dizer, poeta, se me permite, que há muita beleza na pungência das duas crónicas suas.
    Quanto à dança, mexa os pés, poeta ! Se a gente estiver com um copo, perde o tino e acerta o passo pela noite dentro. Aperte bem, poeta, à moda antiga, a sua dama.
    E ajude-a estender a roupa, verá como melhora o ritmo.
    Um abraço aqui do Sul, onde o almirante ainda não chegou.
    Jnascimento´
    PS
    O autocarro da capa é parecido com a Carreira da Viúva, como lhe dirá Fernanda enquanto “tanga” ou “valsa” mas o óleo de A. Carmo merecia ser publicado.
    Jn

  2. Meu Caro J. Nascimento: não sei do quadro e o motivo à vista é uma antologia publicada em Espanha pela Companhia de Autobuses de Cáceres. OK percebi o recado mas estou justificado por agora.

  3. No Alentejo («viola campaniça») não se dança; há «cantes»! Pela primeira vez gosto desta tua escrita. É um belo texto (ou são dois?). Um conselho: não insistas na poesia. Este género de texto, se fores cuidadoso, se continuares a «investir» nele, mostra que sabes escrever. Aproveita!

  4. resumindo: cama, comida e roupa lavada. eu tamém vejo em ti um monte de preconceitos machistas do princípio do século passado. olha, essa do locatário cheira a contrato-promessa e esta “Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.” tão bué de profunda que faz chorar os calhaus do campo.

  5. a gaja trabalha e o malandro dá-lhe música em forma de prosopoema. trabalhar tá quieto, faz calos. só a viagem dá direito a toneladas de baixa médica e direitos adquiridos aos montes, prontamente engalanados com paleio de chulo. e as abéculas residentes da igualdade de géneros preocupadas com pepinos e tomates do dia.

  6. eheheh, logo me pronuncio, pás, ó zeca galhão pá, tu queres pruvare pá que tens sentimento, fogo, com a tua cara quem é a gaja que danssaria contigo ó trambolho? o monte, pois o monte, já vistes o monte pá?ehehe tás aprecisare de outro poema que te encine a dansar pá, pratica com a assanhada, a gaja anda revoltada pur causa da falta de tomate e grelo abandonados. leva-a á feira agrícula pá, e apresenta-a ao teu irmão charolês, pá, tás a ver ó cagamelo.podes publicare aa minhas antologias pá na revista «ler», que não mimporto, ó bandido, ó torto.

  7. ó zeca galhão, pá volto a repetir-te: toma atenção meu à pontuação, não menosprezes os parágrafos pá, e depois, meu trambolho, a pontuação não pode ser tão plástica, tem de seguir o personagem, ó cagamelo, não pode ser tão matemática pá. ouve lá, meu bandido, e as palavras que tu usas, ai, que me borro da preocupação, pá, tu já vistes os nossos jovens a lerem a revista «ler» pa, dão com os teus textos e transformam-se nuns calaceiros, do caraças, pá, locatários, mas qua cunversa é essa, meu, locatários, mas afinal. ó cagamelo, o personagem que gosta do monte e tem uma mulher que lhe trata do comer, eheheh, eu gosto desta, trata do comer, atão, o gajo é assim tão culto que até diz locatário, meu em vez de inquilino, pá?ehhe, as tarefas cotidianas são locadoras, ahahahah.ó pá essa coisa não combina, meu!e o que é esta gaita, meu? vejo nos teus passos o prenúncio do movimento? qua movimento pá? o de andar, ou outro, é dificil chegar á coisa, pá, opersonagem é um machode barba rija, babado com a sopeira lá da terra, caraças.olha já me cansei desta merda. tás chumbado pá, volta pra escola cumercial e vai lá contabilizar as borlas das idas ás feiras e ás lucalidades onde te elegem prémio nobel do nada. fogo.deves arranjar um bordel no meio do monte, pá pra portes lá a assanhada da Sinhâ piriloa.

  8. O JCF faz o seu melhor…

    Não gostamos, paciência… Mas como ele também é dono do blogue publica todos os dias o que lhe dá na gana. Ontem falava de pedras, hoje de … outra coisa. É assim!

  9. Ó Carmim, tem dó de mim!!! E quem é que te disse que o JCF também é «dono» do blog?! Tás maluquinha ó quê?!! O dono do blog é o Valupi, ó inocente donzela!! Tás a perceber, ó queres que te explique? Se ele já é como é, sendo colaborador, imagina se fosse o «dono» do Aspirina!!!!!!! É assim, ó Carmim…

  10. antipassos coelhon, merece uma palavrinha: fartei-me de rir, acredite. E não só eu. Li em voz alta e por aqui foi uma risota. Nota-se que sabe o que diz, embora faça dos seus comentários uma verdadeira anedota. Precisamos de rir, faz bem ao fígado! Para não falar no resto…

  11. brigado, brigado, eheh, o gajo um destes dias despeja aqui a veia batismal que lhe corre na veia.
    ó zeca pá, ó zeca galhão, pá, não falastes da horta nem dos pimentos calimenta o cuzinhado, pá, o tal qué uma cienssia, meu, mais um pôco pá e temos a assorda ca outra não gosta, ó bandalho.fogo falas damor à mulher, ainda não perssebi pá, como é que tu vês o monte quando olhas pra ela, pá, mas ouve, atão, falas de amor e misturas-lhe os fluídos mal cheirosos do corpo, pá, chegas transpirado, ó pá, meu badalhoco, toma banho antes de entrar na cuzinha, carassas, conta lá qua merda de monte é esse, pá, tu devias é dizer-lhe que quando olhas pra ela, sentes o equilibrio lá em baixo, pá, ou vês estrelas, o cèu, carassas, agora, pá, como tu dizes, AGORA, o monte, monte de quê, pá, ouve lá esta porra pode ser uma narrativa aberta, cum catano, e com transpiração à mistura, olha que digo que tu vês um monte da merda, pá, o cabrão do personagem deixa a mulher sozinha, só o vento lhe enxuga a merda das lágrimas e da roupa, é uma escrava, lucatária das tarefas diárias, eheheheheh, atão a gaja xora purque não tem quem lhócupe a entrada prá quinta dimenção, meu, a gaja quer lucatário pá, não perssebes, e a pausa vejo o monte quando olho pra ti, ai a pausa, ó pá a pausa borra-me de priocupassão, ai, tá tudo fudido pá, o perçonajem só fala du sentimento à carroceiro meu, e a mulher trabalha que ça farta. ó pá, deves ser alentejano, meu, é só descanço, cum catano, meu bandalho, ó torto, ó bandido, mete-te na hoover e toma banho, bácoro.

  12. Até acredito que o jcfrancisco ache piada a estes comentários do antipassos. Com esta crise que atravessamos, preocupações, chatiçes, é bom que alguém nos faça rir! Nota-se que os comentários, nem são injuriosos, brincam, isso sim, com os textos do jcf. Já o mesmo não se pode dizer do «poeta» em relação aos comentadores. Se arrepiou caminho, é caso para ver. Agora, olha, sofre as consequências. Continue, ó antipassos, com essa boa disposição e essa conversa da treta que me (nos) diverte!

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