Vinte Linhas 637

Entre os repiques e os sinais – na morte do português

No jornal «Público» do dia 28-6-2011 apareceu uma notícia sobre a morte de um menino de três anos que se ficou para sempre dentro de um automóvel onde tinha ido procurar uma guloseima. Terá adormecido e como ninguém o viu nem ninguém o procurou – lá ficou a caminho da terra da Verdade.

Para além do choque da notícia em si (Morreu um menino é o título de uma belíssima crónica de António Rebordão Navarro) eu reparei também no uso errado de uma palavra – a palavra repiques. Ao referir no corpo da notícia a expressão «são repiques distintos» em vez de «sinais» o autor do texto ignora que «repique» significa toque festivo dos sinos. Um bom dicionário dirá «tanger de modo festivo os sinos».

Ora um toque de finados diz-se na minha terra uns «sinais». Era comum no meu tempo de criança a pergunta – «Por quem são estes sinais?».

Perante a morte do Português também está a acontecer um pouco daquilo que esta notícia do «Público» de 28-6-2011 sugere: há quem faça repiques e há quem dobre sinais. Os primeiros devem ter muito a ganhar com o chamado «acordo ortográfico», os segundos estão a dar o toque de finados de uma língua que se está a perder.

Fernando Pessoa, se voltasse de novo a este Mundo, já não poderia dizer que a sua Pátria era a Língua Portuguesa porque da velha língua portuguesa já só existem retalhos. Tiveram que atirar pela borda fora do governo de Portugal uma ministra da Cultura (Isabel Pires de Lima) e só passando por cima do seu cadáver (político) é que venderam aos brasileiros o Português a preço de saldo.

8 thoughts on “Vinte Linhas 637”

  1. “…há quem faça repiques e há quem dobre sinais.”

    ele há gajos para tudo, até para dobrar verrugas

  2. fiquei muito curiosa e vou procurar a notícia – a não ser que coloques aqui, por estes minitos o parágrafo a que te referes. e depois, só depois, cá virei opinar. :-)

  3. Caro José Francisco,

    Percebo em sua melancolia a nostalgia por um tempo que há muito passou. Discordo de você. Creio que Fernando Pessoa e os seus heterônimos não teriam o mesmo sentimento que o seu.
    A Língua Portuguesa não é sua, não é minha, não é dos portugueses, dos brasileiros, dos angolanos… A Língua Portuguesa é maior, muito maior que Portugal, que o Brasil… É nossa!
    É um patrimônio comum a todos nós. É sim a Pátria de todos nós que a usamos para expressar ao resto do mundo, aos outros povos, os nossos sentimentos, as nossas realizações, a nossa existência!
    É a liga de todas as gentes que um dia, um tempo, tiveram a fortuna (ou infortúnio…) de ter em suas terras o povo português.
    O que boa parte de vocês portugueses não percebem, não atinam, ou quando o fazem, recusam a aceitar, é que desde o momento em que Portugal resolveu içar as velas e ganhar o mundo, deixou de ser proprietário exclusivo do idioma. Desde o momento em que o povo português aportou em outras plagas, a Língua Portuguesa passou a ser construída também por outros povos e por isto mesmo acabou por adquirir uma grandeza que excede Portugal, Brasil, Angola e tantos outros lugares neste mundo de Deus, porque é soma, a riqueza de todos nós!
    Saudações

  4. então, Zézinho, a minha curiosidade não te parece pertinente? o que vale é que hoje o sol andou tímido, senão tinha morrido de insolação. :-)

  5. Desculpa Sinhã mas não guardei o jornal até porque não era meu. Cada vez compro menos jornais, foi num café que li essa notícia mas para o caso o importante é perceber que muita gente nova usa as palavras assim – sem perceber que «repique» até pelo som tem a ver com festa e nunca com morte. Só isso…

  6. que não tenhas o jornal, percebo. mas essa palavra, dependendo com que intenção está a ser utilizada, poderá ser encontro ou alarme. e encontro e alarme pode designar morte. lá está, só lendo o parágrafo – não estou a desconfiar da tua leitura mas prefiro sempre a minha. :-)

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