Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Boa tarde

O ladrão não respondeu ao desejo de boa tarde

Do morador que com ele se cruzou na escada.

Colou-se ainda mais à parede, desceu depressa

E sumiu-se veloz no fim da Travessa sem gente.

Boa tarde era para ele uma mochila tão repleta

De relógios, ouro, prata, jóias e casquinhas

Sem esquecer o meu computador portátil

Com poemas, crónicas e imagens desde 2002.

A pressa do ladrão era a carrinha à espera

Uns chegam de Espanha e os outros de Itália.

Das obras do telhado o compatriota avisou

E no domingo à tarde se rasgou o aro da porta.

Quarenta e cinco anos de vida na mochila

Valor sentimental escapa às contas do Banco.

Este postal da Polícia até já está impresso

E avisa não se poder avançar no assunto.

No domingo à tarde a vida fica suspensa

Gavetas pelo chão e móveis arrombados.

Alguém que não conheço violou o silêncio

Do espaço onde meus filhos gatinharam.

O ladrão não respondeu ao desejo de boa tarde

Tinha pressa em chegar a Madrid ou a Milão

Para derreter o ouro roubado na minha casa

Em barra com número de série e contraste legal.

UM TÚMULO ROMANO

Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonha-lhe no ombro a cabeça fria.

Aquece-lhe a mão maternal a coxa de mármore.
Imóvel e latino renascia
Num corpo de pedra fria.

Ferida pelo silêncio que a ignora
Envolve-o a mãe com o olhar que a morte estremece.
Apega-se-lhe à memória o peso triste
Do repousado olhar do corpo a que assiste
E na pausa sensual do corpo
Ressuscita o olhar morto
Que reflecte o olhar que olha
A calma mudez daquele olhar sem olhar.

Sofria-lhe na memória o que sofrera
E no pálido assombro que a envolvera
Círios de paixão ardiam nos escombros
Das margens de um tempo que silenciosas fugiam.

Pelos rios da tarde estival
Do passado lhe traziam
Do amor ausente a taça vazia.

Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonhava-lhe no ombro a cabeça fria.

Joana Ruas, (Roma, 1978)

(Todos os anos em Novembro é Primavera no jardim dos mortos. Todos os anos a face dos mortos, entre lágrimas e flores se oculta. Cria-se entre a massa dos vivos um elo de irmandade no luto. Se confraternizamos na alegria, na dor que nos irmana existe uma separação sagrada. Somos parecidos no riso e diferentes nas lágrimas. Foi em Roma que compreendi, através das esculturas mandadas erguer pelas mães a seus filhos falecidos, do que de triste, carnal e terno é feita a Piedade. Michelangelo Buonarroti prestou-lhe um verdadeiro culto, legando ao mundo a representação esculpida mais formosa deste complexo sentimento — a Pietà. A muitos causa estranheza a extrema juventude patenteada no rosto da Virgem Mãe que acolhe no regaço o seu filho Jesus Cristo, morto na cruz. Facto é que velho, jovem, criança ou recém-nascido, um filho morto é um antepassado vivo, pois franqueou primeiro a passagem para esse tempo sem duração que é a Eternidade. Foi diante de uma dessas inumeráveis esculturas que escrevi este poema que hoje dedico a todas as mães órfãs de seus filhos).

Recuperado e divulgado por JCF em 1-11-2011

Vinte Linhas 681

Fausto no Santoínho ou o esplendor do insólito

No passado dia 29 de Outubro à noite estive no arraial minhoto do Santoínho, em Darque, Viana do Castelo. Para além de toda a panóplia da festa popular (caldo verde, sardinhas, broa, bifanas, vinho tinto e branco, frango assado e champorreão) havia a música do grupo folclórico privativo da Quinta e música para dançar. Foi aí que, surpresa das surpresas, apareceu um tema de Fausto Bordalo Dias. Ao ouvir os primeiros acordes de «O barco vai de saída» do álbum «Por este rio acima» de 1982, eu estranhei o som embora me tenha sido agradável. É sempre muito bom ouvir uma canção do Fausto mas ali, no arraial minhoto, o registo era mais… Quim Barreiros. Digamos assim.

Horas antes tinha deambulado por Viana do Castelo e, a meio do passeio, fui agredido por um mamarracho que, tal como os eucaliptos, seca tudo à sua volta. Num certo sentido aquele prédio a obstruir a visão da foz do rio Lima a grande parte da cidade de Viana do Castelo é um Quim Barreiros da arquitectura e do urbanismo. Para meu azar a camioneta da excursão que me calhou tinha um CD do Quim Barreiros e durante largo tempo fui também agredido com as baixas graçolas do tipo «Ó Maria deixa-me ir à tua padaria!».

Talvez por isso tudo conjugado é que ouvir uma música de Fausto Bordalo Dias no arraial minhoto do Santoínho foi uma grande e boa surpresa. Uma ilhota de perfeição e de bom gosto num mar de mau gosto e de música a metro. Uma pobreza franciscana interrompida para dar lugar a uma canção de um álbum inspirado na «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto, uma das referências fundamentais da Música Popular Portuguesa Contemporânea e um dos discos mais vendidos da nossa indústria discográfica.

Um livro por semana 260

«Que paisagem apagarás» de Urbano Bettencourt

Percebe-se que Urbano Bettencourt (n.1949) tem o gosto da miscelânea. Na linha de Camilo Castelo Branco («Narcóticos») e Carlos de Oliveira («Aprendiz de feiticeiro»), Urbano Bettencourt reúne em 183 páginas um conjunto de narrativas, memórias e aforismos. Ficcionista, poeta e ensaísta, uma fina ironia atravessa a sua obra desde 1972, data do seu inicial livro «Raiz de mágoa».

O primeiro texto regista uma conversa num comboio entre Del Guidice e Antero de Quental: «Vou atrás de uma mulher que existe, desde o momento em que o autor lhe deu vida pela escrita. Você vai atrás de uma vaga figura possível, a revolução». Cruzam-se memórias de Raúl Brandão no PIco («Aquilo foi um sonho e nenhum sonho se chega a concluir – o sonho não cabe no mundo») e de Romana Petri: «a garrafa de aguardente de figo – Romana Petri talvez preferisse um copinho de angélica como ela tontamente insiste em escrever». Mais à frente as ruínas de uma abadia em Howth (perto de Dublin) abrem para uma memória de James Joyce («a luminosa manhã de Junho de 1904 em que Leopold Bloom saiu de casa para comprar rins de carneiro») enquanto Álamo Oliveira aparece no Corvo: «Desembarcados no Porto da Casa, tomámos rumos diferentes. Álamo Oliveira foi levado pelos seus anfitriões do teatro e eu meti-me a caminho da casa de D. Crisantema».

Também comparece uma memória da guerra colonial: «ainda te vais lembrar do tempo de África. Das gentes que viveram um pouco melhor graças a ti. Caminhos, estradas, casas, água potável. Mas a sombra das pessoas que destroçaste há-de seguir-te como um cão açoitado. E as casas a que deitaste fogo vão continuar a arder nos teus olhos. Como uma festa ou um inferno. Estas coisas apagam-se alguma vez?»

Por último um aforismo breve: «Reciprocidade – Quando o censuraram por não ir ao funeral do seu companheiro de letras, o escritor limitou-se a perguntar: – E ele vai ao meu?».

(Editora: Publiçor, Fotografia: Magda Medina, Participação: Juan Carlos de Sancho)

Vinte Linhas 680

South Bank – o preconceito não tem idade e continua hoje

Num recente desabafo da minha filha mais velha sobre a frase de um paspalhão empregado de um Banco («Nós não temos agências do outro lado!») se percebe a permanência do preconceito das pessoas do lado Norte contra o lado Sul da cidade de Londres.

No tempo de William Shakespeare (n.1564) o Teatro The Globe (demolido em 1644) estava situado do outro lado da cidade e tinha uma bandeira que era içada quando havia espectáculo. As pessoas interessadas viam a bandeira e alugavam botes para irem ao teatro. Os puritanos odiavam o Teatro como forma de arte (talvez porque o Teatro punha em causa as suas certezas) e se tudo dependesse deles o Teatro acabava. Eles mandavam no Parlamento que fica do outro lado e não queriam teatros naquela margem do Tamisa. Hoje existe uma reprodução muito fidedigna do original e organizam-se visitas guiadas ao novo The Globe, bem perto da catedral de Southwark e do mercado Borough Market.

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Um livro por semana 259

«Crónicas da lucidez – Novas farpas» de Joaquim Carreira Tapadinhas

«Quem escreve crónica de jornal aspira sempre a lugar na estante» – sendo um lugar-comum do jornalismo, esta frase aplica-se também às crónicas deste autor, antes publicadas nos jornais «Gazeta do Sul», «Região de Pegões» e «Nova Gazeta». O jornal é frágil e efémero; o livro fica e permanece. Em ambos, o mais importante são as palavras: «A palavra é o veículo mais importante nas relações humanas. Elas exprimem tudo. Elas desmascaram o homem. Elas fazem história».

Seja para um olhar genérico («Sem indústria, sem agricultura, sem aproveitamento do mar, não se augura uma rápida recuperação do país») seja para uma memória pessoal: «Logo após o 25 de Abril fui presidente da Câmara Municipal do Montijo. Não tinha assessores nem secretárias, redigia os meus próprios discursos». Essa memória pessoal permite-lhe criticar o que se passou no Congresso da Comunicações em 28-11-2010: «O ministro das Obras Públicas e o secretário desse ministério leram, cada um a seu tempo, o mesmo discurso, um na abertura e o outro no fecho do evento».

Afinal o passado e o futuro estão mais ligados do que parece: «É necessário ter presente que os velhos são os grandes órfãos. Com o abandono a que muitos estão votados, não só pela família como pela sociedade em geral, não têm pais nem filhos, nem netos nem interesse social. Salvo raras excepções, os velhos não têm ninguém. E isto também explica, em parte, o mundo em que vivemos.»

(Edição: Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Coordenação: Joana Segura)

Vinte Linhas 679

Memória de uma cantiga na Feira de Rio Maior

Acaba de sair o livro «Cultura Popular em Almeirim» de Álvaro Pina Rodrigues, uma edição da «Cosmos» na colecção «Raízes», dirigida por Aurélio Lopes.

Numa primeira leitura ainda não sistemática e organizada, saltou-me à vista um capítulo intitulado «Romances profanos cantados» no qual descobri um texto cuja memória guardo dos tempos da Feira de Rio Maior, onde comecei a ir lá pelos idos de 1956. Era vulgar os cegos cantarem e venderem às pessoas na Feira uns folhetos com cantigas sobre casos de violência que aconteciam no hoje chamado Portugal profundo.

Aqui fica a reprodução do arranque de «Há um rapaz na Portela»:

«Há um rapaz na Portela / Que enganou uma menina / Levava o retrato dela / Gravado na concertina

Gravado na concertina / Gravado no violão / Levava o retrato dela / Amélia da Conceição»

Nesse tempo o termo «enganada» tinha um sentido e uma consequência: as raparigas ditas enganadas só acabavam por casar (quando casavam) com rapazes livres da tropa. Os pais das outras raparigas das aldeias sentenciavam sobre os «livres» – «Se eles o livraram algum defeito lhe acharam!»

Passados tantos anos ainda hoje me lembro dessa cantiga de Feira cantada pelos cegos. Mas ainda hoje me estranha a forma como a mesma terminava:

«Se me queres escrever / Dou-te a minha direcção / Benfica do Ribatejo / Amélia da Conceição.»

Talvez a moral da história esteja aqui – um amor perdido não é um amor morto.

Vinte Linhas 678

O horóscopo de Delfos em 1973

Corria o ano de 1973 no jornal «República», tempo de guerra colonial e de censura mesmo ali ao lado na Rua da Misericórdia. Cansado de ler notícias com suicidas «caídos» das pontes, recém-nascidos «esquecidos» em vários lugares, revólveres a dispararem sozinhos, casais detidos por um beijo num jardim, o jornalista Eduardo Valente da Fonseca resolveu esquivar-se à censura oficial deixando de enviar o Horóscopo – tal como as palavras cruzadas ou os discursos de Américo Tomás.

Teve o apoio de José Magalhães Godinho, Raúl Rego, Álvaro Guerra, Álvaro Belo Marques, Victor Direito, Mário Mesquita, Jaime Gama, Afonso Praça, Fernando Cascais, Fernando Assis Pacheco, Figueiredo Filipe, Carlos Albino, José Alcambar, Miguel Serrano, José Manuel Barroso, Antónia de Sousa, Helena Marques, Gonçalves André, Pedro Foyos e outros companheiros.

Vejamos apenas um exemplo do que a censura não viu e depois já era tarde:

«ARIES – Quanto mais se oculta a verdade mais poder ela tem quando se sabe. TAURUS – Com Deus, Pátria e Família não se faz chá de tília. GEMINI – Políticos prolixos, pró lixo… CANCER – Não há governante amado por um Povo dominado. LEO – Encontrarás por aí muitos cartazes que já não colam… VIRGO – A governar desgovernados, é o que vês para mal dos teus pecados. LIBRA – O teu voto está votado à sucata… SCORPIUS – Quem é democrata não escapa… SAGITARIUS – Não tenhas dúvidas de que, de facto, conversa não enche barriga… CAPRICORNIUS – Não ver publicidade é meia felicidade. AQUARIUS – De governantes como dantes não te espantes… PISCIS – Os endireitas das direitas endireitarão? Não e não».

Recuperado e divulgado por José do Carmo Francisco

Dissertação sobre a peça no Teatro da Politécnica

(a Jorge Silva Melo)

O encenador é o poeta do palco / Levanta do quase zero um plano / Palavras eficientes, roupas e cortinas.

Há 40 anos era aqui uma cantina / No primeiro andar uma reprografia / Fazia comunicados da malta em stêncil.

Eram uns folhetos em tamanho A5 / Os da Associação vinham de eléctrico / Era conforme, umas vezes o 24, outras o 5.

Em 1718 um caso parecido em Portugal / Luísa de Noronha recusou casar com o primo / E entrou para o Convento da Madre de Deus.

Tinha ela então 25 anos e ele apenas 15 / As famílias tinham já tudo decidido / Mas faltava o acordo da futura noiva.

Assumar, Alorna, Fronteira, as Casas / Não contam com o factor surpresa / E Luísa com 25 anos recusa casamento.

Sua irmã mais velha deu seu nome / A uma sua menina nascida em 1718 / Que veio a casar com 13 anos de idade.

Nesta peça se percebe como é inútil / Tentar alguém brincar com o amor / Porque a morte da camponesa é verdade.

O Teatro como a Poesia faz a ponte / Entre os mundos mais distantes / Separados pelo tempo que passou.

Um livro por semana 258

«Ansiedade» de Isabel Moreira

Depois de «Pessoas só» (2004) e de «Quando uma palavra não basta» (2007), Isabel Moreira (n. 1976) assina «Ansiedade», uma ficção organizada a partir do blogue «consolação». Apesar de algumas citações poéticas (Sophia, Daniel Filipe, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Anna Akhmátova) e dos Evangelhos («o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»), a referência maior deste livro é «Sedução» de José Marmelo e Silva.

A partir de um universo cinzento, onde a vida é precária e a morte inevitável, só o amor pode resgatar esse misto de ansiedade, amargura e pânico. Ou dito de outra maneira – «Talvez a ternura nos salve». Tal como nesse livro de 1937, num espaço de marasmo e de pouca esperança, há uma ave de rapina: a morte. Não por acaso o livro surge dedicado à memória de alguém que morreu: «tão nova, tão bonita. Minha querida, porquê?»

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Vinte Linhas 677

Um poema de Maria Valupi em 1979

Há quem diga que o acaso não existe. Trata-se de uma questão sobre a qual nunca se chega a uma conclusão definitiva; nesse tema tudo é precário. Mas a verdade é só uma: outro dia andava na Faculdade de Letras a fazer tempo para uma sessão do Congresso de Manuel da Fonseca quando descobri uma Feira do Livro ali no corredor. Palavra puxa palavra percebo que o jovem encarregado do «estaminé» é filho de um casal – são dois escritores portugueses muito importantes e revelados nos anos 60. Vejo uma revista (Sema) com data de 1979 – Outono e que custava ao tempo 120 escudos. Não hesitei e comprei de imediato. Ao lado de poemas de António Osório surgem três poemas de Maria Valupi. Vamos ao poema escolhido:

«Eu vim depois dos mortos

que não estão imóveis,

dos náufragos itinerantes

de rosto e gesto tonto

que a água dos meus olhos

também guarda.

Eu vim depois dos puros,

dos fortes e dos exangues

– falsamente pálidos –

que no meu sangue aquecem.

Esses têm o meu amor

que não quer ser amado.»

(Recolhido e divulgado por José do Carmo Francisco)

Vinte Linhas 676

José Marmelo e Silva – será ele o terceiro excluído?

No próximo dia 22 de Outubro, pelas 15 horas, vai ser inaugurada a «Casa da Cultura José Marmelo e Silva» no Paúl, sua terra natal. Além do Centro de Estudos José Marmelo e Silva a «Casa» arranca com o apoio da Câmara Municipal da Covilhã e da Junta de Freguesia do Paúl.

Neste ano tão especial de centenários de escritores, há dois que os jornais da especialidade já referiram (Alves Redol e Manuel da Fonseca) e um terceiro (José Marmelo e Silva) que, tanto quanto eu me apercebi, está a ser excluído. E isso é injusto.

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Um livro por semana 257

«Sejam felizes!» de José Ceitil

Depois de um primeiro título de ficção publicado em 2007 («Vida simples – pensamentos elevados») José Ceitil (n.1947) publica um ensaio em forma de testemunho dirigido aos jovens de todas as idades. Os 17 temas do volume de 150 páginas são muitos e diversos: Pais e filhos, Carácter, Identidade, Escola, Heranças, História, Geografia, Tolerância, Independência, Amigos, Amores, Trabalho, Lazer, Comunicação, Viagens, Religião e Política.

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Vinte Linhas 675

Carlos de Oliveira 30 anos depois entre duas memórias

Lembrei-me de José Gomes Ferreira e da sua frase irónica («Somos sempre os mesmos trinta!») ao percorrer com o olhar o rosto dos participantes da cerimónia de transladação dos restos mortais do poeta e romancista Carlos de Oliveira para o jazigo dos escritores portugueses no Cemitério dos Prazeres. Afinal José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira estudaram os contos populares portugueses e jantavam muitas vezes no Toni dos Bifes ali na avenida Praia da Vitória, perto do cinema e teatro Monumental.

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Vinte Linhas 674

«Não se brinca com o amor» no Teatro da Politécnica

Vai estrear no próximo dia 19 de Outubro às 19 horas a peça «Não se brinca com o amor» de Alfred de Musset no Teatro da Politécnica – como o nome indica fica na Rua da Escola Politécnica nº 56 telefones 213916750 ou 213876078. A encenação é de Jorge Silva Melo em co-produção com o Teatro Viriato, a tradução de Ana Campos, o cenário e os figurinos de Rita Lopes Alves, a luz de Pedro Domingos, a assistência de Andreia Bento e Joana Barros e os actores são Catarina Wallenstein, Elmano Sancho, Vânia Rodrigues, Américo Silva, António Simão, João Meireles, Pedro Carraca, Alexandre Viveiros, Joana Barros, Diogo Cão e Tiago Nogueira.

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Vinte Linhas 673

Dissertação para um nome (sobre foto de Álvaro Carvalheiro)

Entre mar e Maria, soltam-se na espuma da tarde, as várias sílabas de um nome.

O teu nome é mistério, memória e lugar de ser. É um espaço de interrupção de alegria intensa no mais cinzento dos dias que passam por nós quase iguais uns aos outros.

Vejo o mar das ameias de um castelo e pressinto a massa líquida dos teus olhos disfarçada na sombra dos grandes óculos escuros que trouxeste hoje de manhã.

Junto com a espuma das marés chegam à praia restos de sinfonias, memórias de marinheiros, naufrágios e outros desastres marítimos porque as palavras mais fortes são «mar, medo e morte» e os relatos escritos dos pilotos da Índia todos apresentam essa espantosa linha de unanimidade.

Ouço Maria, o outro nome parecido com o teu, ouço nos meus caminhos e atalhos esse nome desde sempre – nas escolas, nos escritórios, nos cinemas, nas esplanadas e também nas ruas de todas as cidades.

Entre mar e Maria, existe um som íntimo que os registos da sonoplastia não alcançam, é um espaço que tu convocas para a lenta construção de um novo mundo.

Talvez a rota de uma viagem, talvez a música de uma canção, talvez as letras de um poema.

Não sei nem nunca o saberei.

Vou perder o som do teu nome no bulício da cidade, entre a pressa e o trânsito, o ruído e a escuridão, o vento e a chuva inesperada.

Perdi o som do teu nome e procuro de novo o seu volume no precário do meu poema em vagarosa construção.

Vinte Linhas 672

Dissertação breve para uma cidade – dormitório

Alain Carron desenhou um quadro insólito com estes dois inesperados prédios de uma cidade – dormitório, algures na periferia de uma cidade – capital, um lugar escuro e frio onde não apetece viver mas as diversas circunstâncias a isso obrigam. O pintor soube transfigurar a realidade e fez dos prédios móveis de madeira e das varandas gavetas onde todos os habitantes são arrumados.

E quando não são gavetas são pequenas camas onde os cansados trabalhadores dos escritórios da cidade (bancos, seguros, transportes, comércio, turismo) são colocados cheios de sono pouco tempo depois de chegarem à periferia nos cansativos comboios suburbanos, tão cansados como nos outros da sua viagem da manhã.

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Um livro por semana 256

«Coincidências Voluntárias» de Rocha de Sousa

Rocha de Sousa (n. 1938) retoma alguns dos seus temas de sempre. Comecemos pela origem do título: «Durante as minhas incursões em diferentes campos operativos de carácter artístico, assumi na primeira exposição da AICA (Secção Portuguesa) a condição paralela de pintor e de crítico de arte, pela base demonstrativa de um quadro meu baptizado com o título Coincidências Voluntárias». Depois a possível definição do que é um quadro: «Todos os quadros são projectos falhados no mais nobre sentido da expressão – são uma soma de destruições, segundo a palavra cintilante de Picasso, e eu entendo-os em parte assim, sentimentos, recomeços, dilacerações, uma luta contra a indiferença».

Pintor e crítico de arte, eclético e sonhador, este autor foi também jornalista: «alcancei por mero acaso a área do poder transitando do Jornal do Fundão para um jornal da tarde, o Diário de Lisboa. Foi um bom tempo de aprendizagem, sob a vista afiada do Vítor Silva Tavares e do escritor José Cardos Pires». As mudanças no mundo da Arte do século XX dão origem a um comentário: «Nunca a arte sofreu tão profundas e consequentes mudanças. Claro que não é difícil apontar causas de ordem tecnológica e técnica, o advento da fotografia, o cinema, imperativos sociológicos e culturais». A memória da guerra está também presente: «estivera nessa guerras sem nome e sem préstimo, pelas picadas de Angola, logo no início do pesadelo em 61, ouvindo os estalos das balas cortando o ar por cima das cabeças e vendo no pó, na orla dos ataques, o medo dos meus colegas traduzido pela linguagem das rajadas de disparos em resposta, cada pontaria ao caso para dentro da floresta, cabrões a romper as gargantas, insultos inúteis de quem nos mobilizava durante vinte minutos contra a margem terrosa do capim». Voltando ao princípio, um desafio: «A obra de arte é um espaço do desejo, da comunicação e da revolta» – disse o autor num papel para os alunos nas Belas Artes.

(Editora: Edita-me, Capa: Miguel Ministro, Revisão: Patrícia Figueiredo)

BILHETE NO BOLSO

Às vezes está tão longe
Às vezes está mais perto
Fala e ninguém o ouve
Como telefone no deserto

Vai dar uma longa volta
Pode morrer e não morre
Com um bilhete no bolso
Anda a pé, viaja e corre

Apanha a chuva dos outros
Porque é poeta concreto
Suja as mãos fica na rua
E desenha um ângulo recto

Traz às costas uma dor
Sem peso nem dimensão
Com um bilhete no bolso
Já não ouve o coração

Faz os poemas devagar
Num forno feito de fogo
Que nasce da combustão
Duma voz fora de jogo

Defende sem bem saber
Justos contra tiranos
Com um bilhete no bolso
Anda assim há muitos anos

Um quase nada lhe chega
Para o que vai sonhar
Um futuro sem a morte
Em todo e qualquer lugar

Escondido na multidão
Atravessa as ruas só
Com um bilhete no bolso
Há-de voltar para o pó

(in Leme de Luz, Sol XXI, 1993)

Vinte Linhas 671

Uma rosa de calf em Santiago do Cacém – com foto de Paulo Sousa

Na tarde da cidade, o teu cabelo depois de solto do rabo-de-cavalo da manhã é, entre volume e esplendor, uma seara de sonhos. Já não há ceifeiros. Suas vozes graves e seus gestos lentos ficam, para sempre, nos livros de Manuel da Fonseca. Mas também nos poemas de Francisco Bugalho em Marvão e nas páginas de prosa de Mário Ventura entre a guerra das laranjas e Elvas em 1945. O teu rosto, visto de perfil num auditório, é a cartografia de uma aldeia de Manuel da Fonseca: «nove casas, duas ruas, no meio das ruas um largo, no meio do largo um poço de água fria». Como se o rosto fosse um poema, essa tarefa impossível de juntar de novo dois mundos separados pela distância e pelo esquecimento. O teu sorriso é o desafio da campaniça atónita no bulício da cidade mas elas não usavam o telemóvel que tu deixas em silêncio na cadeira. Perto do meio-dia a planície transforma-se numa fornalha de lágrimas sufocadas pelas canções teimosas a que era preciso responder mesmo sem vontade.

Continuar a lerVinte Linhas 671