Um livro por semana 258

«Ansiedade» de Isabel Moreira

Depois de «Pessoas só» (2004) e de «Quando uma palavra não basta» (2007), Isabel Moreira (n. 1976) assina «Ansiedade», uma ficção organizada a partir do blogue «consolação». Apesar de algumas citações poéticas (Sophia, Daniel Filipe, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Anna Akhmátova) e dos Evangelhos («o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»), a referência maior deste livro é «Sedução» de José Marmelo e Silva.

A partir de um universo cinzento, onde a vida é precária e a morte inevitável, só o amor pode resgatar esse misto de ansiedade, amargura e pânico. Ou dito de outra maneira – «Talvez a ternura nos salve». Tal como nesse livro de 1937, num espaço de marasmo e de pouca esperança, há uma ave de rapina: a morte. Não por acaso o livro surge dedicado à memória de alguém que morreu: «tão nova, tão bonita. Minha querida, porquê?»

O ponto inicial é um aviso vermelho («Um ataque é uma loucura instalada a prazo nesse corpo»); o caminho é um espaço de medo («entre a casa e a secretária onde trabalha, há uma fila de carros») e um tempo corroído pelos dias: «Os dias perderam-se numa torneira ferrugenta». O ponto de chegada é a ligação da vida à escrita: «pensar na vida e escrever a vida com a voz dos mortos é muito deprimente».

Num espaço amargo («O mundo tem o tamanho da angústia») o olhar da narradora não se fecha no seu eu («é no fígado que me dói a criança que morre dentro de um saco de plástico») e coloca-se junto ao outro. Seja Angola («marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha»); seja a Sérvia – «De que falas, Dragan?». No esplendor da solidão («a doença que faz doer as doenças todas»)é inevitável o medo («medo de morrer de medo a qualquer instante») e por fim o grande delta do silêncio: «tudo o que acontece é um parêntesis na saudade».

Numa placa de medo e morte, nasce uma esperança: «Está a chover, de repente, um castigo, uma chicotada contínua na última memória do teu olhar». História feita de textos sincopados, intensos e sintéticos, faz um retrato humano na urgência do tempo que passa: «A sua vida foi a construção do edifício da ansiedade. Dar-se inteira a quem mente e era mentira; dar-se inteira a quem mente e tinha desistido; dar-se inteira a quem não aguentou e morreu; dar-se inteira a quem sorriu no quotidiano de um escritório e nunca mais telefonou».

(Editora: Arcádia, Revisão: Helena Romão)

4 thoughts on “Um livro por semana 258”

  1. “só o amor pode resgatar” O amor anda sempre metido na vida das pessoas. Mas, para mim,o amor é cego:

    Creia, o amor é cego,
    não se vêem os escolhos,
    o casamento, não nego,
    é que vem abrir os olhos!

    “à memória de alguém que morreu”, “medo de morrer de medo a qualquer instante”
    “há uma ave de rapina: a morte.”
    Também a morte está quase sempre presente. E, afinal, porque se morre? Tenho estudado essa questão e já conclui o seguinte:

    Na morte tenho pensado,
    procurado o motivo,
    já cheguei ao resultado:
    só morre quem está vivo!

    O jcfrancisco é capaz de estar a pensar que eu procuro brincar com coisas sérias. Mas não! Eu levo o humor a sério:

    Brincar com o humor
    eu acho um despautério.
    Ele será sempre melhor
    se o levarmos a sério!

    Quer um conselho jcfrancisco? Não perca o BOM HUMOR, pois quem o achar não lho devolverá:

    Não “perca” o bom humor,
    ajuda a bem viver,
    quem “achar” esse valor
    não o irá devolver.

    Até sempre.

  2. Já comecei a ler…muito devagar…e tem de ser em pedacinhos de dor…e de compreensão…o livro não é grande em volume, mas no resto, já vi que se tem de pegar com cuidado na peça…

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