Vinte Linhas 675

Carlos de Oliveira 30 anos depois entre duas memórias

Lembrei-me de José Gomes Ferreira e da sua frase irónica («Somos sempre os mesmos trinta!») ao percorrer com o olhar o rosto dos participantes da cerimónia de transladação dos restos mortais do poeta e romancista Carlos de Oliveira para o jazigo dos escritores portugueses no Cemitério dos Prazeres. Afinal José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira estudaram os contos populares portugueses e jantavam muitas vezes no Toni dos Bifes ali na avenida Praia da Vitória, perto do cinema e teatro Monumental.

Depois das palavras calorosas e sábias de José Manuel Mendes e de Catarina Vaz Pinto, Maria do Céu Guerra leu alguns poemas escolhidos de Carlos de Oliveira. Começou com «Era outrora um conde / que fez um país / com sangue de mouro / com laranjas de ouro / como a sorte quis» e continuou com «Desço / pelo cascalho interior da terra». Ouvir os poemas tão conhecidos porque tão lidos por todos nós, os admiradores do poeta, fez cruzar em mim um som que ficou entre duas memórias – afinal um título de Carlos de Oliveira.

Seguiu-se a actuação de Irene Lima no violoncelo, enchendo o espaço da igreja do cemitério dos Prazeres de um som onde a alegria se juntava com a angústia. Nascido em 1921, o poeta faleceu em 1981 e em 2011, trinta anos depois, este grupo (entre família e escritores amigos) juntou-se numa curiosa mistura de afectos. A música fechou o encontro com o autor (também) de Finisterra, Uma abelha na chuva, Pequenos burgueses, Casa na Duna, Alcateia ou O aprendiz de Feiticeiro. Minutos depois já no eléctrico 28 a caminho da Baixa, a música do violoncelo de Irene Lima permanecia. O esplendor do som desceu comigo lado a lado com a memória das palavras de Maria do Céu Guerra. Entre duas memórias.

9 thoughts on “Vinte Linhas 675”

  1. Olha do que o jcfrancisco se foi lembrar. Do Tony dos Bifes. É que eu cá para mim também cuzinho!

    De cozinhar sou capaz
    ou não me chame Carvalho,
    mas o que mais me apraz
    é saber descascar alho!

    E a morte do Carlos Oliveira. Há quanto tempo. Já tinha esquecido os seus livros que estão para ali numa prateleira. Aliás a vida e a morte estão separadas por um ténue fio.

    A vida é singular,
    nem é boa nem é má,
    uns morrem com falta d’ar
    outros, um ar que lhes dá!

    As melhores pessoas são os mortos. Depois que um sujeito se vai deixa de ter defeitos, por muitos que tenha. Por isso os mortos se devem recordar com saudade pois são todos excelentes criaturas.

    Tantos de si a falar,
    dizer bem tenho ouvido,
    qu’até cheguei a pensar
    que já tivesse morrido!

  2. só que agora somos menos de trinta, JCF.

    mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

    e como alguém disse um dia, os professores serão sempre os piores ministros da educação, tal como os agentes culturais, da cultura. mais uma vez, dito e feito.

  3. temos penetras no grupo dos trinta, ganhem juízo e publiquem a lista do jgferreira para conferir se está lá o nome do rústico e do ardina.

  4. Sim Olinda foi uma música triste. O violoncelo é um instrumento ideal para desenhar a angústia. Sabemos que o Carlos de Oliveira continua vivo nos livros que nos deixou; só morreu o corpo.

  5. Carlos de Oliveira era (é) um grande poeta, infelizmente muito esquecido e menos estudado.

    O que alguns “poetas” podiam aprender se estudassem a sua obra! Nunca viriam a ser grandes poetas, é certo, porque o génio não aparece por obra e graça do Espírito Santo. Mas talvez compreendessem que não têm a mínima qualificação para se apresentarem como poetas.

    P.S. – Caro Adolfo Dias: isto não é para si.

  6. Sai um Bife á Toni e um pudim do dito com semi-frio.
    Que saudades … oh Francisco. Tens andado atinadinho…só continuas é a embirrar com o anonimo. Mas deixa lá que ele às vezes também é mau para ti e rasga-te o bibe. Vou estar a de olho em vocês para não se portarem mal no recreio.

  7. Então se estás atento o que é que dizes a este pobre diabo aqui em cima que mistura poetas e génios, assim sem mais nem menos. Quem me considerou poeta e me deu o prémio da APE foi um júri de gabarito – Pedro Tamen, Fernando J.B. Martinho, Armando Silva Carvalho. O resto é treta…

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