BILHETE NO BOLSO

Às vezes está tão longe
Às vezes está mais perto
Fala e ninguém o ouve
Como telefone no deserto

Vai dar uma longa volta
Pode morrer e não morre
Com um bilhete no bolso
Anda a pé, viaja e corre

Apanha a chuva dos outros
Porque é poeta concreto
Suja as mãos fica na rua
E desenha um ângulo recto

Traz às costas uma dor
Sem peso nem dimensão
Com um bilhete no bolso
Já não ouve o coração

Faz os poemas devagar
Num forno feito de fogo
Que nasce da combustão
Duma voz fora de jogo

Defende sem bem saber
Justos contra tiranos
Com um bilhete no bolso
Anda assim há muitos anos

Um quase nada lhe chega
Para o que vai sonhar
Um futuro sem a morte
Em todo e qualquer lugar

Escondido na multidão
Atravessa as ruas só
Com um bilhete no bolso
Há-de voltar para o pó

(in Leme de Luz, Sol XXI, 1993)

10 thoughts on “BILHETE NO BOLSO”

  1. desde 1993 a dizer-que-morre-e-não-morre, oh pá! dá o bilhete a outro e desenmerda que se faz tarde. essa porra em verso deve ser campanha para angariar simpatizantes do tadinho incompreendido pela vodafone e exigir cobertura na outra banda. aquela da “chuva dos outros” não lembrava ao careca da sapataria, deve ser chuva dórada.

  2. a fotografia ilustra o último desejo do prosopoeta antes de partir, pouca-terra ou talvez cremação numa máquina a vapor.

  3. Eu cá também gosto muito de comboios.

    Na estação gritava assim
    o chefe mal humorado:
    venham todos p’raqui
    c’a gare é deste lado!

    E quem fala de comboios tem forçosamente que falar da CP. Especialmente dos seus urinóis. Não sei se já repararam que esses ditos cujos estão sempre avariados, estragados, ferrugentos, velhos, mal estimados. As mais das vezes nem conseguimos chegar junto do urinol porque ele esguicha água por tudo quanto é sítio.

    Os urinóis da CP
    têm algo de diferente,
    nós não mijamos p’ra eles,
    são eles que mijam p’ra gente!

  4. “(in Leme de Luz, Sol XXI, 1993)”

    Referindo o poeta que os versos terão sido publicados em 1993, e face à pobreza da rima (da métrica nem falo), permito-me perguntar, com o devido respeito pelo esforço do autor, evidentemente: foi edição de autor não foi?

  5. Claro que não foi edição de autor, foi a Editora Sol XXI. E quanto à pobreza é lá consigo – se você é pobre só vê pobreza à sua volta.

  6. só a réplica do Adolfo Dias cobre a pobreza ideológica e métrica do jcf.Por isso…continue que a gente ri-se e até podemos ‘desenhar um ângulo recto’ nos urinois da CP com o resto do reto!

  7. Por eu achar muitas vezes (como neste caso) a poesia aqui reproduzida bastante pobre é que coloco umas poesias do tipo sarcásticas, escabrosas, humorísticas, de mal-dizer para alegrar a malta (que segundo o Zeca Afonso é o que faz falta). É que com poesia tão chocha ainda nos deixamos adormecer no meio dela. O jcfrancisco já sei que não concorda comigo. Paciência. Opiniões são opiniões e cada um tem a sua. Mas essa de só os intelectuais compreenderem determinadas coisas é que me custa a aceitar. A maior parte das vezes são intelectuais de pacotilha.
    Mas adiante…

  8. Adolfo Dias, seria preciso um intelectual para conseguir reconhecer e avaliar outro, o que torna o círculo da intelectualidade algo tão exclusivo que apenas os próprios intelectuais se podem reconhecer a si próprios, ou recomendar outros (desde que estes os reconheçam igualmente como tal) para o clube.

    É assim uma espécie de “Mensa”, mas em circuito fechado.

  9. Caro Zé do Carmo (poeta de eleição),

    Você está cheio de razão: não só sou pobre, mas também vejo muita pobreza; sobretudo, pobreza de espírito.

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