Vinte Linhas 679

Memória de uma cantiga na Feira de Rio Maior

Acaba de sair o livro «Cultura Popular em Almeirim» de Álvaro Pina Rodrigues, uma edição da «Cosmos» na colecção «Raízes», dirigida por Aurélio Lopes.

Numa primeira leitura ainda não sistemática e organizada, saltou-me à vista um capítulo intitulado «Romances profanos cantados» no qual descobri um texto cuja memória guardo dos tempos da Feira de Rio Maior, onde comecei a ir lá pelos idos de 1956. Era vulgar os cegos cantarem e venderem às pessoas na Feira uns folhetos com cantigas sobre casos de violência que aconteciam no hoje chamado Portugal profundo.

Aqui fica a reprodução do arranque de «Há um rapaz na Portela»:

«Há um rapaz na Portela / Que enganou uma menina / Levava o retrato dela / Gravado na concertina

Gravado na concertina / Gravado no violão / Levava o retrato dela / Amélia da Conceição»

Nesse tempo o termo «enganada» tinha um sentido e uma consequência: as raparigas ditas enganadas só acabavam por casar (quando casavam) com rapazes livres da tropa. Os pais das outras raparigas das aldeias sentenciavam sobre os «livres» – «Se eles o livraram algum defeito lhe acharam!»

Passados tantos anos ainda hoje me lembro dessa cantiga de Feira cantada pelos cegos. Mas ainda hoje me estranha a forma como a mesma terminava:

«Se me queres escrever / Dou-te a minha direcção / Benfica do Ribatejo / Amélia da Conceição.»

Talvez a moral da história esteja aqui – um amor perdido não é um amor morto.

14 thoughts on “Vinte Linhas 679”

  1. Oh jcfrancisco muito antes de tal Pina já eu lidava com a cultura popular em Almeirim.
    Tanto assim que escrevi a poesia abaixo que dediquei àqueles serventes de pedreiro que costumam dormir nos barracões junto às obras. E nem sequer descalçam as botifarras quando se deitam. Tomam banho uma vez por mês e limpam o cu às sacas de cimento. Um deles uma vez foi a correr para o médico com uma prisão de ventre com cerca de 3 semanas. O médico verificou que com o uso das sacas de cimento se tinha formado uma parede de betão que teve que ser retirada a escopro e martelo.
    Pois esses tais serventes de pedreiro procedendo assim vai-se agarrando a merda aos pelos do cu e aquilo faz uma comichão dos diabos. De maneira que vão procurando tirar a caca puxando e vão assim formando umas bolinhas amarelas.
    Ora a poesia que se segue é precisamente sobre essas tais bolinhas a que as pessoas não dão importância mas que têm muito a ver com a vivência dos serventes de pedreiro.
    Aliás o jffrancisco como está no Bairro Alto podia oferecer esta minha poesia a um fadista dessa área. Está à vontade para a dar com a única condição de dizer que é de minha autoria.

    TRÊS BOLINHAS A MARELAS

    Numa festa em ALMEIRIM (tá a ver, cá está Almeirim)
    O Manel vê o Jaquim
    e mostra-lhe uma caixinha,
    com três bolas redondinhas,
    pequenas, amarelinhas,
    veja lá se adivinha.

    O Jaquim pega na bola
    que entre os dedos enrola,
    cheira e mete na boca.
    Oiça lá oh seu panaca
    esta bola sabe a caca
    tá-me a enfiar a touca!

    Oh homem não seja assim
    diz o outro pró Jaquim
    eu sei qu’isso não se come.
    Que sabe a merda eu sei
    pois foi do cu que as tirei
    só quero saber o nome.

    Por acaso o meu amigo também não sabe o nome dessas tais bolinhas. Procurei no dicionário mas n ão encontrei nada sobre o assunto.

  2. Eu não inventei nada – em 1956 uma rapariga «enganada» era um caso sério de «amor» por engano. Tudo aquilo é verdade. O amor nunca morre, penso eu de que…

  3. O que o Zé Francisco quer dizer é que o “rapaz da Portela” meteu o testículo na virilha da Amélia e cavou. Furada, a Amélia ia ter dificuldade em arranjar outro rapaz que quisesse casar com ela.

    Que raio de tempos esses…

  4. assim, sim, Zézinho.:-)

    ah, Jonas, então percebi à primeira: não há amor no foder e cavar – assim como no terem de lhe escolher o casar: faz todo o sentido ser furada – a desunião de sexo com amor. afinal a Amélia foi ardida – e o Portelês um estupor. :-)

  5. Ó Jonas deixa-te de tretas e não tentes misturar o que eu digo e o que eu transcrevo. Vai fazer demagogia para a tua rua!

  6. Conversa do caraças.

    “Apesar de enganada, ela dava-lhe uma hipótese de ele lhe escrever – mas não havia ainda o código postal.”

    Isto é a chamada f*da por correspondência.
    Na América era por diligência. Iam os dois na mesma carroça e às tantas apanhavam o cocheiro distraído com a paisagem e lá vai disto. E também deixavam a marca, isto é, o selo.
    Agora jcfrancisco o código postal não era preciso para nada.
    Por exemplo, a minha prima ia numa dessas diligências, teve um grande acidente e ficou debaixo do cocheiro.
    Quer saber? Ao fim de 9 meses nasceu um crianço.

    E a propósito do meu fadinho. Já fez alguma diligência?
    Eu quando frequentava o Bairro Alto dava-me com os fadistas da época. O meu conterrâneo Fernando Farinha escrevia muitas vezes à mesa do café em S. Pedro de Alcântara. Almocei algumas vezes com o Alfredo Marceneiro que juntava na tasca os seus amigos, comia-se uma carapauzada e passava-se a tarde a cantar o fado. Quem chegasse para almoçar era bem recebido.
    Tempos!

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