Praxe e praxis

Malhar nas praxes é actividade sazonal coeva da época da castanha. Foi o que fez, e recordou, há dias a Shyznogud – “barbárie consentida, a boçalidade celebrada e a estupidez oficializada” – deixando apontamentos que assino por baixo e ligações para outros textos sintonizados na batida.

Por um acaso laboral, tenho a possibilidade de atravessar diariamente a pé (quando não chove muito) a Católica, o Estádio Universitário (Medicina), a Alameda da Universidade (Direito, Letras, Psicologia e Ciências da Educação), a Faculdade de Ciências e parte do Campo Grande (Lusófona). Isso permite-me observar com zoológica atenção os tétricos espectáculos que se estendem ininterruptamente de Setembro a Maio (pelo menos) nesta vasta reserva académica que ainda inclui nas cercanias o ISCTE, Farmácia e Medicina Dentária. Já muitos disseram o que havia para dizer, e nem sequer os aspectos das supostas humilhações e culto do machismo, do anacronismo e da aculturação, são os que mais relevo. Por um lado, nem tudo o que parece é, e os rituais implicam um acordo quanto à sua convenção lúdica e teatralidade, pelo que partem de um consentimento e oferecem um sentido colectivo. Essa experiência não pode ser descrita a priori como humilhante, frequentemente sendo até desejada e festejada pelos caloiros. Por outro lado, as extrapolações críticas de cariz ideológico e/ou moralistas, absolutamente legítimas e eventualmente úteis, são já convencionais de tanto serem repetidas. Acresce que existe a altíssima probabilidade de vários daqueles mais entusiasmados na maldição das praxes poderem ter participado nelas com alarve gozo, ou jamais perdido uma caloria com a questão, in illo tempore. Mas como frisa a Shyznogud, e outros, o século está maduro para se passar à intervenção política e pedagógica por parte das direcções académicas docentes e discentes, ajudando os alunos universitários a compreender as vantagens de se libertarem das formas menores, quando não degradantes, de socialização. Haverá, seguramente, outras soluções para se conseguir embebedar caloiros com vista ao aproveitamento dos seus recursos sexuais sem os obrigar às figurinhas tristes.

O que mais me impressiona nas praxes é o fenómeno da crescente fetichização do traje académico, movimento que vem dos finais dos anos 80 e da massificação do ensino superior ao longo dos anos 90. Deixando de lado a gargalhada de se andar por Lisboa, Évora e Faro em Setembro com farpelas preparadas para o Inverno coimbrão, a uniformidade do vestuário está involuntariamente a representar a uniformidade do pensamento. O assomo étnico-corporativista que se exibe como farda é a negação mesma da libertinagem criativa e criadora que está na essência da vocação intelectual que inventou a Civilização. Em vez de se exibirem únicos e diversos, os nossos trajados querem é repetir-se na exaltação do conservadorismo mais anti-universitário que é possível conceber. Haja alguém que lhes explique essa relação que antecede todo o pensamento científico, sem a qual qualquer actividade cognitiva gerará apenas opinião: é pelo particular que se chega ao universal.

21 thoughts on “Praxe e praxis

  1. lá que a farda revela estupidez revela . penso que acham que andando fardados de universitários os outros os olham como tendo esperto na cabeça e como quasi senhores doutores !!!!! que é que se há-de fazer ? estamos no país em que os aspectos formais são sempre mais imp. que o conteúdo e onde o hábito faz o monge.
    lá prós meus lados farda só no colégio , depois somos adultos demais para andar de bibe. só os tunos têm farda , e esta sim , é sinónimo de libertinagem e amores do catano.

  2. que texto de fazer crescer água nos olhos – pela chuva de tanta verdade. choca-me essencialmente a humilhação que, a ser consentida, se transforma em vaidade reles. e as roupas de abutre – como lhes chamo – exaltam uma espécie de grupo terrorista que atenta, precisamente, à ideologia. o cheiro do mijo e da cerveja vai prevalecendo. sinto-me muito, mesmo muito, orgulhosa de ter renunciado a essa práxis e, por isso, de ter sido ostracizada durante meses a fio. ainda hoje arroto, com satisfação, a isso. :-)

  3. Capa e batina são símbolo de pertença a um grupo, como as camisolas e cachecóis dos amantes de futebol, as tatuagens e os cortes de cabelo dos membros de gangues e os blazers azuis com botões metálicos dos betos e conservadores. Se se estudasse a origem social e geográfica dos utentes da capa e batina, talvez se apurasse que eles vêm sobretudo da classe média da província, animados de um desejo de ascensão social e de um gregarismo tipicamente provinciano.

  4. Como pai fui muito feliz pois nem a Ana (Arquitectura) nem o Filipe (História) nem a Marta (Arquitectura Paisagista) perderam tempo com essas macacadas e nem foi preciso dizer nada – foi decisão deles.

  5. Quanto à boçalidade e espírito de carneiragem acéfala e acrítica a que assisto diariamente (trabalho ao lado da Lusófona) todos os dias, como dizes, de Setembro a Maio, é de vómito. Aquilo não tem graça nem na China. Ainda por cima, como não os deixam fazer aquelas parvoices dentro da Universidade, vêm impingir a coisa aos transeúntes que passam pelo jardim do Campo Grande. É muito giro quando os atiram ao lago, todo cheinho de bactérias. Mas, enfim, as criaturas nem devem saber o que isso é.
    Choca-me particularmente o feio que é a farda feminina. Aquilo não são sapatos que se usem.
    Claro que lá na universidade, chutando a coisa para fora de portas, acham que está resolvido. Mas nesse caso, há cenas que não são permitidas na via pública, caraças….
    Agora, as crianças, podiam ser mais criativas e brincar com a arte, por exemplo, se soubessem o que isso é. Duvido que reconhecessem alguma coisa do que aqui vai.
    http://www.youtube.com/watch?v=erbd9cZpxps

  6. Mais : essa retoma atabalhoada e desinformada do traje – nos maus tempos do cavaquistao, nada de bom veio, orgulho-me de ter frequentado a universidade que até mais tarde resistiu a fardas, praxes – as paredes estavam cheias de slogans anti-praxe- e às fitinhas e a queima das ditas. Era um orgulho não alinharmos. Agora, para meu desgosto, fiquei a saber que o meu curso tem lá a fitinha cor-de rosa. Que foleirada.

  7. Bolas, Val, cheguei a meio do texto a pensar “vai, que é tua, vai, que é tua”… e depois não foste.

    Não estava à espera dessas conclusões; esperava outras. Pronto.

  8. Assomo étnico-corporativista? Val, outra destas, e arriscas-te a, num dos teus recorrentes safaris discento-voyeuristas, medir o percurso da Católica à Lusófona com um palito. Houvesse doutores para praxar um animal do teu calibre intelectual.

    p.s.: muito interessante a subtil relocalização da questão. Nas touradas, foste mais animal. Tem tudo que ver. certo? Touradas e praxes.

  9. “libertinagem criativa e criadora que está na essência da vocação intelectual que inventou a Civilização”.

    Mensagem fundamental, sempre num cinema perto de si. E que exagero, Nossa Senhora, nunca ouvi dizer que o deboche de conventos e mosteiros da República de Veneza e das cristandades duvidosas, ou a experiência do maçon Cazanova com os putedos dessa e doutras paragens, tivesse contribuído algo de importante para a Civilização, como a entendo, entenda-se. Oiço agora, graças ao peripatetismo do Valupi a caminho do ganha-pão. Pode ser que si, pode ser que não. Agora que a paneleirização política e a meijoada da sociedade serve algumas agendas, infelizmente obscuras para a maioria, disso não tenho dúvida nenhuma.

  10. Ola,

    Com tua licença, repito aqui o comentario que deixei no Jugular sobre o assunto (noutro post) :

    Falta dizer aquilo que, pessoalmente, considero ser o essencial, e o que explica alias que continuemos a dar tanta atenção a essa triste e torpe realidade que são as praxes :

    As praxes, e a sua importância crescente, como alias as manifestações cada vez mais boçais de que são pretexto, apenas são o espelho fiel daquilo que fizemos das nossas instituições de ensino e, por conseguinte, da forma idiota como encaramos o saber. São o sintoma alarmante de uma sociedade em que o saber ja não é valorizado por aquilo que é, de uma sociedade em que aqueles que supostamente detêm o saber e o administram ja não são sequer capazes de compreender que o magistério tenha sido originalmente uma profissão liberal.

    O saber passou a ser considerado como uma marca que distingue os membros de um clube selecto. As pessoas não mandam os filhos para a universidade para eles aprenderem (querem la saber se eles aprendem ou não ?), mas para terem um canudo que lhes vai proporcionar um bom emprego.

    Logo, não percebo tanta supresa em relação às praxes. Trata-se talvez, paradoxalmente, da unica realidade verdadeiramente pedagogica com que se depara o estudante universitario hoje em dia : num mundo de cunhas e de redes, em que ninguém ” conhece” o terorema de Fermat, mas em que todos “conhecem” muito bem o Oscar Silva, assessor do Ministro, pois andaram com ele no curso, é melhor começar muito cedo a compreender que o accesso aos bens, materiais e imateriais, passa por rituais iniciaticos, por simpatias, ou mesmo por simples tias. Nesse aspecto, as praxes têm um mérito obvio, o de erradicar de vez sonhos cretinos como sejam a ideia pacovia da igualdade entre os homens, ou a crença perigosa nos méritos proprios de quem trabalha.

    Portanto, meus amigos, tenho muita pena, mas as praxes são o preço a pagar por continuarmos a viver num pais de doutores e engenheiros, em que quem passou uns exames aos 23 anos de idade, que lhe deram direito a um canudo, acha-se na legitimidade de exigir que o tratem doravante como membro da casta superior dos mandarins.

    Um pais em que os tais doutores e engenheiros não são os primeiros a exigir que se abandone essa forma pacovia de tratamento, é um pais que não sabe o que é o saber. Ou que, pelo menos, não tem como distinguir entre saber e feitiçaria. Com efeito, um aprendiz de feiticeiro pode, DEVE mesmo, formar-se na humilhação de quem presta obediência para ser admitido numa nova corporação. Deve rastejar em nome da tradição, e também em nome de ser sempre possivel, ainda que ele venha mais tarde a ser consagrado como um doutor de Coimbra meu deus, voltar a levar pancada no dia em que assim aprouver a um qualquer burgesso com relações (“conhecimentos”) na pide.

    Gritem contra as praxes, indignem-se, engasguem-se !

    Mas se querem mesmo acabar com elas, acabem primeiro com o mandarinato e não hesitem em dar valentes facadas nas nossas ancestrais tradições de pais onde não se sabe, onde não se quer saber, e onde se tem raiva a quem sabe.

    Não custa nada. E’ assim : da proxima vez que alguém se dirigir a si apelidando-o de dr, ou de eng., diga que quer ser tratado por cidadão !

    Bom, talvez haja alguma injustiça aqui em cima, mas sabe sempre bem…

    Boas

  11. Há tanto a dizer sobre este assunto e que não se esgota apenas no gosto ou não gosto.
    O joão viegas andou por lá mas ainda não foi desta que se aprofundou a diferença entre a praxe de hoje e a praxis de antanho, quando o traje não era diferença mas apenas identificação, em que a brincadeira era saudável e não tinha conotações de mau-gosto, em que os mais velhos cuidavam dos mais novos, etc.
    As praxes de hoje assemelham-se aos faz-tudos que se querem comparar com os ilusionistas…

  12. As praxes são talvez o aspecto mais marcante da “grunhização” geral do reino, resultado da invasão do litoral citadino, e outros espaços urbanos de menor dimensão, por hordas de súbditos mais próximos de Boccaccio do que de Eça. Outro bom exemplo são aqueles programas de TV feitos para agradar às “audiências”.

  13. Mais proximas de Boccaccio ? Não eram essas “hordas” um distinto grupo de jovens bem nascidos fugidos à peste ? Ou sou eu que estou a confundir ?

  14. Cara Olinda, de algumas tarefas que me recordo uma delas foi fazer um discurso de 5 (cinco) páginas A4 em letra normal, subordinada ao tema “Influência do coconote no desenvolvimento e proliferação do camarão de Espinho e na indústria da pesca do bacalhau” e que se destinava a um público onde para além dos mais novos, se encontravam os “praxantes”, os empregados e alguns professores.
    O vencedor ficava com direito a ser dispensado das obrigações da praxe no dia seguinte, tendo direito ao colar da Real Honra do Cábula no Bom Caminho. o êxito era obtido pelo aplausómetro e por um júri de três independentes que ouviam a defesa do nosso “padrinho” antes de votarem a classificação que ía de o a 100.
    Fiquei no meio da tabela e perdi mais um bocadinho de medo de dizer disparates em público.
    Outra constava de contarmos quantas pessoas entravam e saíam duma determinada dependência tendo esta três portas em duas paredes opostas e não podermos estar no seu interior.
    Havia o toque de recolher que não permitia aos caloiros andarem na rua depois das 10H00 da noite a não ser que acompanhados por familiares ou amigos de família com idade dita relevante (maiores de 21) o que levava a que os que vinham de fora e se acomodavam pela cidade começassem por conhecê-la de dia só tendo autorização para excursões mais ousadas a partir do primeiro ano.
    Muita gente se esquece que alguns dos alunos que entravam nas escolas superiores tinham apenas 15 anos, eram oriundos na sua maior parte da província onde nada existia deslocando-se então para grandes centros (Coimbra, Lisboa e Porto) que eram muito diferentes em ambiente do que Aveiro, Braga, Évora, Faro ou Viseu para não falar em muitos mais locais onde a civilização era um pequeno café central, uma assembleia que funcionava por vezes no edifício dos bombeiros e a obrigatória igreja onde por vezes nem só de missa se tratava.
    Foi no tempo em que a Académica era um clube onde só jogava quem estudasse, em que o João Semana era o médico lá do sítio, e em que a capa e batina servia para poupar dinheiro, sei de muitos que a usaram até andar no fio e a camisa branca lavava-se à noitinha para vestir de manhã, não se andava de ténis de marca, Levi’s 501 e camisas ao xadrez como identificativo de ser esquerdalho, nem de poupa e descapotável pois não havia parque para alunos.

  15. João Viegas: na mouche.

    Permite-me que repita especialmente isto do que mais gostei:

    Logo, não percebo tanta supresa em relação às praxes. Trata-se talvez, paradoxalmente, da unica realidade verdadeiramente pedagogica com que se depara o estudante universitario hoje em dia : num mundo de cunhas e de redes, em que ninguém ” conhece” o terorema de Fermat, mas em que todos “conhecem” muito bem o Oscar Silva, assessor do Ministro, pois andaram com ele no curso, é melhor começar muito cedo a compreender que o accesso aos bens, materiais e imateriais, passa por rituais iniciaticos, por simpatias, ou mesmo por simples tias. Nesse aspecto, as praxes têm um mérito obvio, o de erradicar de vez sonhos cretinos como sejam a ideia pacovia da igualdade entre os homens, ou a crença perigosa nos méritos proprios de quem trabalha.

    Portanto, meus amigos, tenho muita pena, mas as praxes são o preço a pagar por continuarmos a viver num pais de doutores e engenheiros, em que quem passou uns exames aos 23 anos de idade, que lhe deram direito a um canudo, acha-se na legitimidade de exigir que o tratem doravante como membro da casta superior dos mandarins.

  16. Passo todos os dias em frente à faculdade de Ciência e vejo este triste espectáculo.
    O meu preferido é o pinguim que leva a colher de pau gigante. Não sei o que significa mas há sempre um em cada grupo

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