Um livro por semana 256

«Coincidências Voluntárias» de Rocha de Sousa

Rocha de Sousa (n. 1938) retoma alguns dos seus temas de sempre. Comecemos pela origem do título: «Durante as minhas incursões em diferentes campos operativos de carácter artístico, assumi na primeira exposição da AICA (Secção Portuguesa) a condição paralela de pintor e de crítico de arte, pela base demonstrativa de um quadro meu baptizado com o título Coincidências Voluntárias». Depois a possível definição do que é um quadro: «Todos os quadros são projectos falhados no mais nobre sentido da expressão – são uma soma de destruições, segundo a palavra cintilante de Picasso, e eu entendo-os em parte assim, sentimentos, recomeços, dilacerações, uma luta contra a indiferença».

Pintor e crítico de arte, eclético e sonhador, este autor foi também jornalista: «alcancei por mero acaso a área do poder transitando do Jornal do Fundão para um jornal da tarde, o Diário de Lisboa. Foi um bom tempo de aprendizagem, sob a vista afiada do Vítor Silva Tavares e do escritor José Cardos Pires». As mudanças no mundo da Arte do século XX dão origem a um comentário: «Nunca a arte sofreu tão profundas e consequentes mudanças. Claro que não é difícil apontar causas de ordem tecnológica e técnica, o advento da fotografia, o cinema, imperativos sociológicos e culturais». A memória da guerra está também presente: «estivera nessa guerras sem nome e sem préstimo, pelas picadas de Angola, logo no início do pesadelo em 61, ouvindo os estalos das balas cortando o ar por cima das cabeças e vendo no pó, na orla dos ataques, o medo dos meus colegas traduzido pela linguagem das rajadas de disparos em resposta, cada pontaria ao caso para dentro da floresta, cabrões a romper as gargantas, insultos inúteis de quem nos mobilizava durante vinte minutos contra a margem terrosa do capim». Voltando ao princípio, um desafio: «A obra de arte é um espaço do desejo, da comunicação e da revolta» – disse o autor num papel para os alunos nas Belas Artes.

(Editora: Edita-me, Capa: Miguel Ministro, Revisão: Patrícia Figueiredo)

5 thoughts on “Um livro por semana 256”

  1. “Todos os quadros são projectos falhados” disse o Rocha de Sousa. E outras tristezas, melancolias, azares ele refere.
    Pois, jcfrancisco eu acho precisamente o contrário. Para tristezas já nos basta o governo que temos.
    As minhas pinturas são executadas com alegria tal como a minha poesia.
    A propósito de pintores e poetas aqui vai mais uma:

    O CHICO PINTOR

    O Chico que é pintor
    diz que ele é o maior,
    qu’ isso não é garganta,
    e se alguém o chateia,
    se não meter tareia
    o Chico até pinta a manta!

    Num dia de muita sorte
    esteve perto da morte,
    quando pintava um hotel.
    Ele caiu das alturas,
    quando andava nas pinturas,
    mas agarrou-se ao pincel!

    S’ alguém lhe tira valor
    o Chico muda de cor,
    fica com bastante mágoa.
    Ele pinta em todo o lado
    seja parede ou telhado,
    pinta até debaixo d’ água!

    Disse-lhe outro pintor,
    que pintava com amor
    e uma santa pintou.
    Quando acabou a função,
    era tal a perfeição
    qu’a santa até chorou!

    Ora isso não é nada
    disse o Chico ao camarada,
    muito melhor ele pintava.
    Também pintou uma santa,
    a perfeição era tanta
    qu’a santa até falava!

    Conta o Chico com paixão,
    num dia de procissão,
    ia ele mais o Vilaças.
    Ela viu o mafarrico,
    olhou e disse: – Oh! Chico,
    vai pintar par’o caraças!!!

    Isto sim! É poesia e da boa!

  2. Falhaste numa coisa – faltou-te escrever «no mais nobre sentido da expressão». Perdeste o essencial. Tem cuidado porque se fosse numa coisa em que a tua vida estivesse dependente estavas lixado…

  3. cada vez mais estou convencida que só com a exclusão da vaidade temos artista – e obra de arte. uma coincidência voluntária – a minha opinião com o que percepciono no texto.

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