Vinte Linhas 673

Dissertação para um nome (sobre foto de Álvaro Carvalheiro)

Entre mar e Maria, soltam-se na espuma da tarde, as várias sílabas de um nome.

O teu nome é mistério, memória e lugar de ser. É um espaço de interrupção de alegria intensa no mais cinzento dos dias que passam por nós quase iguais uns aos outros.

Vejo o mar das ameias de um castelo e pressinto a massa líquida dos teus olhos disfarçada na sombra dos grandes óculos escuros que trouxeste hoje de manhã.

Junto com a espuma das marés chegam à praia restos de sinfonias, memórias de marinheiros, naufrágios e outros desastres marítimos porque as palavras mais fortes são «mar, medo e morte» e os relatos escritos dos pilotos da Índia todos apresentam essa espantosa linha de unanimidade.

Ouço Maria, o outro nome parecido com o teu, ouço nos meus caminhos e atalhos esse nome desde sempre – nas escolas, nos escritórios, nos cinemas, nas esplanadas e também nas ruas de todas as cidades.

Entre mar e Maria, existe um som íntimo que os registos da sonoplastia não alcançam, é um espaço que tu convocas para a lenta construção de um novo mundo.

Talvez a rota de uma viagem, talvez a música de uma canção, talvez as letras de um poema.

Não sei nem nunca o saberei.

Vou perder o som do teu nome no bulício da cidade, entre a pressa e o trânsito, o ruído e a escuridão, o vento e a chuva inesperada.

Perdi o som do teu nome e procuro de novo o seu volume no precário do meu poema em vagarosa construção.

11 thoughts on “Vinte Linhas 673”

  1. Faz-me lembrar a outra, a simplesmente Maria:

    Vendia o corpo na praça,
    saiu de casa dos pais,
    Maria de sua graça
    e dos Prazeres e Morais!

    E há também a pobre da Maria Alice. Sabem o que ela tinha? Tinha tinha.

    Pobre da Maria Alice
    a cunhada da vizinha,
    o que o médico lhe disse
    é que ela tinha tinha.

  2. Transcrevo: “Entre mar e Maria, soltam-se na espuma da tarde, as várias sílabas de um nome.”

    Este mar e Maria fazem-e lembrar aquela senhora que morreu de Maria. Eu conto:

    E não nadava nadinha
    o mar se enfurecia,
    pensava que o mar vinha,
    afinal o Mar… ia! (o mar ia e a onda a levou. Se não sabia nadar…)

  3. jcfrancisco diz que esta não vem a propósito. Sabes que eu costumo REMAR CONTRA A MARÉ:

    Eu cá rimo sempre no contra,
    contra os do contra até,
    pois eu rimo montra com lontra
    e rimo contra a maré!

    A verdade também é que eu não sou um poeta famoso. Sai o que sai.

    Não sou poeta de fama,
    escrevo umas quantas tretas,
    escarafuncho na lama,
    inspiro-me nas sarjetas!

    Mas olha jcfrancisco. O humor é o pouco que se leva desta vida. Acredita.

    Nesta terra prometida,
    quase nada se releva,
    o que se leva da vida
    é a vida que se leva.

  4. E tu acreditas na frase «leva desta vida»? Pensa bem na falta de sentido – desta vida não se leva nada. Nem para a morte nem para a vida eterna. Não existe pauta aduaneira…

  5. oh xico! é essa a ideia do fodias, falta de sentido. ou ainda não deste por isso? se leres o que escreves, vais ver que nada faz sentido e os versos do adolfo gozam com isso. és um idiota chapado e o ridículo não te assiste.

  6. Não é nada disso. Tu és um doente mental cujo lugar é o Telhal mas fugiste num fim de semana. Delirante e alucinado, és perigoso por isso mesmo…

  7. Dizes jcfrancisco que: “Nem para a morte nem para a vida eterna”. Mas a morte tem algumas coisas agradáveis. Pensa bem…

    A morte é detestável,
    os ritos, os funerais,
    e só tem de agradável
    as viúvas, nada mais!

  8. Ó Adolfo a morte só existe para os outros; para nós não existe. Eu escrevi «morte» para os que acreditam na morte total e «vida eterna» para os que acreditam na separação e vitória do espírito sobre a carne. Só isso.

  9. A propósito de morte. Eu que sou uma pessoa prevenida já escrevi o meu epitáfio, embora também não acredite na morte mas, pelo sim pelo não aqui vai ele:

    Não chorem a minha morte
    nem perguntem os porquês.
    A todos cabe esta “sorte”,
    fico esperando vocês!

    Não existindo a morte como diz o jcfrancisco no entanto conta-se a história daqueles 2 amigos que tiveram um acidente e foram direitinhos para o céu.
    S. Pedro que os recebeu disse:
    -Mas esta ainda não era altura de vocês morrerem. Deve ter havido um equívoco.
    Assim, voltam para a terra. Tu agora vais de galinha.
    E tu aí, bem tu vais de boi.
    Responde este:
    -Outra vez!!!

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