UM TÚMULO ROMANO

Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonha-lhe no ombro a cabeça fria.

Aquece-lhe a mão maternal a coxa de mármore.
Imóvel e latino renascia
Num corpo de pedra fria.

Ferida pelo silêncio que a ignora
Envolve-o a mãe com o olhar que a morte estremece.
Apega-se-lhe à memória o peso triste
Do repousado olhar do corpo a que assiste
E na pausa sensual do corpo
Ressuscita o olhar morto
Que reflecte o olhar que olha
A calma mudez daquele olhar sem olhar.

Sofria-lhe na memória o que sofrera
E no pálido assombro que a envolvera
Círios de paixão ardiam nos escombros
Das margens de um tempo que silenciosas fugiam.

Pelos rios da tarde estival
Do passado lhe traziam
Do amor ausente a taça vazia.

Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonhava-lhe no ombro a cabeça fria.

Joana Ruas, (Roma, 1978)

(Todos os anos em Novembro é Primavera no jardim dos mortos. Todos os anos a face dos mortos, entre lágrimas e flores se oculta. Cria-se entre a massa dos vivos um elo de irmandade no luto. Se confraternizamos na alegria, na dor que nos irmana existe uma separação sagrada. Somos parecidos no riso e diferentes nas lágrimas. Foi em Roma que compreendi, através das esculturas mandadas erguer pelas mães a seus filhos falecidos, do que de triste, carnal e terno é feita a Piedade. Michelangelo Buonarroti prestou-lhe um verdadeiro culto, legando ao mundo a representação esculpida mais formosa deste complexo sentimento — a Pietà. A muitos causa estranheza a extrema juventude patenteada no rosto da Virgem Mãe que acolhe no regaço o seu filho Jesus Cristo, morto na cruz. Facto é que velho, jovem, criança ou recém-nascido, um filho morto é um antepassado vivo, pois franqueou primeiro a passagem para esse tempo sem duração que é a Eternidade. Foi diante de uma dessas inumeráveis esculturas que escrevi este poema que hoje dedico a todas as mães órfãs de seus filhos).

Recuperado e divulgado por JCF em 1-11-2011

5 thoughts on “UM TÚMULO ROMANO”

  1. Nada sei da complexidade do sentimento “Piedade”, a mim parece-me simples e acessível a qualquer um, mas meter “carnalidades” nisso é prova de que o descomplicado sujeito espatifa logo à partida e completamente as capacidades da autora para o compreender sem recurso ao voo das alturas a dois metros do chão. Cinco valores (máximo 10, mesmo na escala do maricas Freud).

    Outra coisa. O maricas Buonarroti trabalhava à comissão. Pintava o que agradava ao freguês. Tinsel town, back to the future.

  2. Comentários à parte a mim cabe-me o orgulho de revelar este poema de Joana Ruas para os leitores do Blog. Porque todos os anos em Novembro é Primavera no jardim dos mortos – Joana Ruas dixit.

  3. ainda bem que o divulgas porque é muito bonito. :-)
    mas não é Novembro o jardim dos mortos – os jardins são doze meses e quatro estações. ou, simplesmente, sol.

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