Arquivo da Categoria: Isabel Moreira

O Senhor Professor Paulo Otero justifica todos os esforços

Não tenho escrito. Não posso. Se durante a campanha eleitoral não há um minuto livre, após um assalto violentíssimo à minha residência que resultou no furto de tudo o que tenho de valor – a começar pelo computador – e na destruição porque sim de muita coisa, é-me impossível escrever. Repito que não tenho computador e, como é fácil de imaginar, ando há dias e dias perdida na burocracia pós-furto.

Feita a introdução, devo dizer que tenho acompanhado há tempos a coragem de assistentes, de professores, de alunos e de funcionáros que fizeram o que devia ser um acto normal: apresentaram uma lista à Assembleia da Faculdade da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL)  (conhecida por “Clássica”). A lista foi a votos e ganhou e – imagine-se (!!!) – tinha e tem ideias que passam pela democratização da Faculdade.

Tudo isto seria normal, se não existisse de facto, naquela casa, e isto deve ser denunciado, um clima de intimidação, por parte dos Exmos. Senhores Professores avessos a votações e dados a decretarem. Tudo isto seria normal se naquela casa todas as ilegalidades que testemunhei não acabassem em nada, num “apagão” jeitoso difícil de impugnar.

Dei onze anos de ensino em tantas salas cheias de alunos que eram a minha vida, fiz lá a minha tese de mestrado e toda a gente sabe que desde o dia em que publiquei o livro com um parecer técnico sobre o CPMS a minha vida foi-se transformando num inferno. É bom ser-se mestre promissora com 18 valores até ao dia em que gente como Paulo Otero “detecta” que a tal da mestre que já tem o doutoramento aprovado e tudo defende “pecadores”.

Mas hoje não vou contar a minha história, nem a forma “totalmente livre” como rescindi o contrato com a FDUL; hoje quero comovidamente saudar os meus para sempre colegas, que têm teses para discutir, contratos para renovar, concursos por fazer e que disseram “basta” arregaçando as mangas e fazendo uma loucura: propostas.

Um desses meus colegas já fez o doutoramento e tem pela frente vários graus na carreira. É uma ameaça para o sistema de comadres da FDL.

O que fez Paulo Otero?

O mesmo que havia feito com o CPMS.

Usou os alunos, ignorou a sua função pedagógica, e elaborou um teste de direito administrativo no qual todas as datas e acontecimentos “coincidem”  com a carreira daqueloutro professor.

Um teste provocador e ameaçador.

A  tal da Assembleia da Faculdade aprovou uma resolução condenando a situação e, na expressão “mais uma vez”, vai a ligação ao que se passou com o CPMS.

O que fez o Conselho Científico?

Nada.

Eu tenho o material todo em papel, mas felizmente o mundo de Paulo Otero, bem como a cumplicidade silenciosa de outros, está aqui.

Senhor Professor, espero que tenha aprendido de uma vez por todas, porque mesmo que haja Professores famosos, semanalmente famosos, que votam contra a resolução, a maioria aprovou-a, e desta vez a sua instrumentalização do ensino para guerras pessoais veio ao de cima como nunca.

Aprenda: há quem não tenha medo de si, sejam quais forem as consequências.

E faça-me um favor: se eu acabar o meu doutoramento, esteja no júri.

A campanha de casos e de reacções ou do total desrespeito pelo eleitorado

Os portugueses estão preocupados com o seu presente e o seu futuro, sabendo que, nesta coisa que se chama democracia, há uma campanha eleitoral a correr para escolher quem apresenta obra feita, programa, consistência, coerência, equipa e sentido de interesse nacional para merecer o seu voto.

Quem faz de uma campanha eleitoral um tempo de criação de “casos”, sempre infundados, sempre reveladores de uma impreparação preocupante, frequentemente caluniosos, deve ser desmascarado, analisado, portanto, e objecto deste juízo de prognose simples: – e se PPC fosse PM?

É tão claro como isto. É fazer a pergunta. E responder.

PPC não tem campanha; tem “casos”. Das novas oportunidades, às calúnias, passando pela história milenar da Católica, não esquecendo as “nomeações”, até à IVG, enfim, tudo o que contribui para o esclarecimento do presente e do futuro hipotético do país nas suas maravilhosas mãos, PPC vive daquilo de que sempre acusaram por deficiência cognitiva o PS: o efeito mediático de um dizer por dia.

Resta saber por quê.

Não é apenas pela amoral estratégia política que ora pisca o olho ao CDS ora o ataca, ora chantageia o eleitorado ora proclama a liberdade. É, também, porque PPC sabe que a sua cassete sobre as medidas de austeridade do Governo PS durante a crise que atingiu o mundo inteiro, sem referir essa mesma crise, já não cola. Ele esquece-se que os portugueses têm miolos.

PPC teve o desplante de atacar  medidas de austeridade, por exemplo no debate com Sócrates, com uma demagogia rara, porque esqueceu-se de explicar que foram tomadas apenas e só no decorrer da crise (também se esqueceu que as aprovou). Por outro lado, PPC, o coveiro do Estado Social, falou de tais medidas como se fossem um ataque ao Estado Social. Lá está: não sabe o que é o Estado Social; não sabe o que são medidas transitórias para vencer a crise e para, precisamente, proteger o Estado Social, ao contrario de outras que cortam de tal maneira as pernas ao que nos define colectivamente que só com uma revisão constitucional que destrua o boneco é que lá vão.

Não por acaso foi possível atribuir 6 mil milhões de euros em prestações sociais apesar da crise.

Em termos de obra feita, já não falando na primeira legislatura que corrigiu os horrores da direita, PPC tem dificuldade em discutir coisas como a  redução do abandono escolar e do insucesso escolar e a melhoria do sistema educativo; a modernização do parque escolar;  o investimento na ciência e alargamento do acesso ao ensino superior; o plano tecnológico e a promoção da inovação; reforma da AP e simplificação administrativa (aqui houve lugar de forma estudada à extinção de 25% dos organismos públicos e dos cargos dirigentes, bem como a eliminação de mais de 1300 estruturas intermédias (PRACE), controlo das admissões e a redução de mais de 70 mil funcionários públicos, e não a uma cega e ignorante regra de entra um se sairem cinco.; reforço da independência energética; reforço do sector exportador; qualificação do SNS;  garantia da sustentabilidade da segurança social pública;  e aumento do salário mínimo em diálogo social.

Obra feita. É difícil discuti-la. É mais fácil dar as mãos a todos os partidos, ao BE, a PCP, a todos, com fome de São Bento, criar casos, ameaçar os portugueses – olhem que se votarem Sócrates eu não falo com o homem! – virar a camisola do avesso.

Mas mais do que tudo: evitar discutir o programa do PSD, o seu seu documento histórico do liberalismo, e não discutir o programa do PS, que ao contrário do dele, sabe manter o Etado Social e apostar no crescimento económico.

A última parece ser a do “medo”. PPC fala em medo. Sócrates tem medo. Saiu-lhe mal. Ainda estava a respirar de ter desabafado com o país o medo que Pacheco Pereira lhe provoca.

Que difícil enfrentar o difícil de costas direitas.

 

 

 


O suicídio de Passos Coelho

Já tinha sido fascinante ver o descontrolo de PPC sobre as declarações dos seus aliados. Escrevo fascinante quando penso na observação do fenómeno político, de um determinado fenómeno político. Estranha-se, e sabe-se que é sinal de má liderança, que o cabeça de lista por Lisboa escolhido após muito pensamento por PPC tenha horror à democracia e que avise que deitará fora os votos dos portugueses se não for “designado” presidente da AR.

Estranha-se que PPC diga uma coisa sobre o IVA e Carrapatoso outra, estranha-se e sabe-se que é sinal de fumo caso aquela gente tome conta do Estado (conceito que desconhecem).

Estranha-se que PPC assista caladinho a Catroga comparar Sócraes a Hitler, estranha-se, mas sabe-se que para PPC um ataque pessoal deste calibre não deve ter consequências, sabe-se que se fosse um ministro seu assobiava para o lado.

Ou seja, para além da sede pelo poder com um marco histórico no chumbo do PEC IV sem propostas alternativas, mas apenas porque havia umas sondagens que o animavam mais do que ao país, PPC tem uma postura política moral digna do candidato “mais africano de todos os candidatos”.

Hoje, passou das marcas. PPC, no último referendo sobre a IVG, explicou numa entrevista por que razão tinha evoluído no seu pensamento e tinha votado a favor da despenalização. Estava, então, a criar a figura do “Pedro, o liberal”. Agora, descobriu que pode ser “liberal” concretizando no seu programa o projecto de revisão constitucional mais obtuso que tive o prazer de ler, mas piscar um olho ao CDS, nos microfones da renascença, admitindo um novo referendo sobre a despenalização da IVG.

Nunca aconteceu em nenhum país da Europa tamanha atrocidade. Antes de ser um problema constitucional (que também é, de segurança jurídica e de tutela das expectativas jurídicas) esta proclamação encerra um problema político, moral, de incoerência e de falta de vergonha na cara.

Vale tudo.

Pequeno episódio revelador do todo

Sábado, na feira do livro, coincidiram vários cabeças de lista e candidatos a deputados por Lisboa.

Nada de anormal.

Presenciei o cumprimento democrático entre Ferro Rodrigues e Fernando Nobre, porque se cruzaram e os candidatos a Deputados fizeram o mesmo, trocando, num espírito de abertura normal, os “jornais” ou “panfletos” de cada Partido.

Evidentemente, os encontros são rápidos, cordiais, e cada um segue o seu caminho.

Faltava, claro, encontrar o Bloco de Esquerda. Estava eu com Alberto Costa a olhar um livro ou coisa assim, quando um membro da comitiva do BE me pergunta, proporcionando o diálogo que se segue:

– aceita um panfleto nosso?

– com todo o gosto.

Agarrei o panfleto do BE e, como é da praxe, ofereci-lhe o “jornal” do PS.

– já agora, se quiser, fique com o nosso também.

– olhe, sabe? O vosso serve apenas para eu forrar o meu caixote do lixo, é o que é.

Quase que fiquei estupefacta, mas logo me veio à cabeça estar perante um dos membros da delegação do BE. Disse apenas que o espírito democrático do BE confirma-se a cada pequeno ou grande gesto e que eu, ao contrário dele, leria o panfleto bloquista com todo o gosto.

Porque é isso que nos separa.

São estas pequenas grandes faltas de vergonha na cara

No “i de ontem Catroga dá uma grande entrevista e brinda-nos com estas duas afirmações:

“O Governo de Sócrates assenta numa estratégia de meter medo às pessoas”.

Quando perguntado sobre o por quê das sondagens que não reflectem o horror ao PS, responde:

– “Hitler, até ao final, também resistiu”.

Palavras para quê? Leiam a entrevista e maravilhem-se com a evidência de que, quem imputa o medo aos outros é quem usa, esse sim, o medo como arma, ou não estivesse o citador terrivelmente amedrontado.

Inspirar desconfiança

Estava aqui a imaginar uma pessoa qualquer, mais uma vez, a tentar perceber minimamente as propostas e o rumo do maior partido da oposição. Hoje vê-se confrontada com o fim da taxa intermédia do IVA para compensar a fortuna que representa a redução da taxa social única proposta (anúncio de Catroga) – peça fundamental na elaboração do programa do PSD – e com Passos Coelho a negar tal disparate.

Diz que não vai tocar em qualquer taxa, que Catroga é Catroga, mas que quem manda, afirma: – “sou eu”.

Este ódio ao Estado que em tempos de crise pede uma mão à demagogia

Desde quando? Desde sempre. A direita, efectivamente, não gosta do Estado. Dessa coisa que foi inventada, concretamente o Estado-Administração, que serve os cidadãos e que é instrumento da prossecução dos fins que caracterizam o Estado Social.

A direita gosta do Estado no sentido de substrato filosófico, o Estado-nação, o Estado português, o tal Estado de tantos anos de história, o do orgulho, invocado com o peito cheio de vazio em discursos com palavras que são só palavras, como “Portugalidade”.

É a direita agora tão bem representada no PSD que quer mudar a terminologia constitucional para que se leia, não “Constituição da República Portuguesa”, mas “Constituição da República de Portugal”. Diz que é mais patriótico.

Estes peitos vazios gostam dessa ideia de Estado, assimilada a país, a pátria, e tropeçam com horror na noção precisa de Estado-Administração, no Estado que é prestador dos serviços que nos permitem falar de serviço nacional de saúde, de assistência social, enfim, de tudo o que sabemos que não constava do orçamento do Estado novo, que teve tempos tão equilibradinhos.

Não por acaso, a primeira medida do programa do PSD que aparece em destaque nos rodapés das notícias é a proposta da proibição de contratação de um funcionário público sem que “saiam”  pelo menos cinco.

Não deve ser possível apresentar uma proposta feita sem calculadora mais poupadinha, mas mais um eco daquele horror ao Estado-Administração, horror cego, aqui dando a mão à demagogia, em face do momento actual de crise.

Quem conhece a orgânica da Administração pública sabe que esta medida é absurda. Se aplicada sem mais, podemos vir a ter serviços essenciais aos cidadãos em ruptura, sem capacidade de resposta, e outros a funcionarem talvez bem. A questão é que sem um estudo profundo das necessidades reais de cada serviço administrativo, não se pode dizer com espantosa leviandade “entra um, saem cinco”.

Não vale a pena. Nós sabemos que se a direita pudesse, ficava só com a Pátria.

É bom que alguém continue a objectar ao discurso demagógico e culpablizante do Estado que a todos serve e que, de resto, permitiu a palavra “todos”.

Obrigada a todos os que estiveram comigo ontem na feira do livro

Amigos, amigas, familiares, ex-alunas de há tantos anos que me fazem chorar, colegas, anónimos. Obrigada ao Rui Nunes por um dos textos mais extraordinários que ouvi na minha vida, escrito com a evidente dificuldade para todos por quem já quase não vê, lido com a força da convicção, ali e ali onde os seus olhos doentes, que vêem o mundo inteiro meticulosamente, não conseguem, ao nosso ritmo, juntar as letras. Uma plateia em silêncio pasmada com a lição de Rui Nunes, daí que alguém lhe dissesse no fim:- a inteligência não se agradece, só a amizade.

Obrigada à Babel, que publicou oAnsiedade através da arcádia.

Obrigada ao meu editor, Hugo Xavier.

Mais insanidades no PSD: hoje é a vez do cabeça de lista pelos Açores

São circunstâncias gravíssimas que imporiam que tivesse havido um governo de
gestão nomeado pelo Presidente da República, com a imediata demissão e
afastamento do poder de José Sócrates e do seu governo”

Eis o reconhecimento implícito de que não foi bom alinhar numa coligação negativa contra-natura que chumbou o PEC IV, aprovado por quem de direito a nível europeu, e o único instrumento que havia à disposição para evitar a ajuda externa. Mota Amaral, em todo o seu esplendor, vem então dizer que quem devia ter dado a cara pela expulsão do Governo e afastamento imediato de José Sócrates era Cavaco. Ele ajudou, andou calado, mas não chega. Depois, o PR que nomeasse um Governo de gestão. Podia alguém explicar a Mota Amaral que o PR não pode demitir o Governo nos mesmos termos em que pode dissolver a AR. Por exemplo, não basta que o PR perca a confiança política no executivo para que possa demiti-lo. Se Cavaco tivesse demitido o Governo, antes do número inesquecível que o PSD fez na AR, teria sido apenas por interesses partidários. Tem de estar em causa, seriamente, o regular funcionamento das instituições: guerra; caos social incontrolável; incapacidade de se fazer passar uma lei que seja; resultados de inquéritos parlamentares gravíssimos; rompimento de uma coligação governamental; enfim, o país não estava assim, pelo que Mota Amaral, tal como todos os apoiantes do PSD nestas eleições, têm de viver com o feito e, sobretudo, responder por ele.

“A dissolução do parlamento impede-nos de interpelar formalmente o governo sobre a recente visita aos Açores do ministro da Defesa, deslocando-se em avião
privativo, com custos significativos e utilidade mais do que duvidosa”,
salientou Mota Amaral.

O PSD fala a tantas vozes que aflige. Mota Amaral está descontente com o desejo expressado pelo seu líder ao PR, o de irmos a eleições, com a consequente dissolução da AR. Então? Queriam eleições ou não? E francamente…Se o Dr. Passos Coelhos anda a fazer dezenas de perguntas ao Governo, em competição com aqueles senhores que nos vieram visitar, se ele anda a escrever cartas, sem  estados de alma, alguém diga ao Dr. Mota Amaral para ele escrever a sua perguntinha ao Ministro da Defesa, ou todo o esforço e empenho na demissão do Governo terá sido em vão.

Perante o vazio de soluções, voltaram à “verdade” e acrescentaram mais populismo cara-de-pau

“E nós vamos fazer de outra maneira, falando verdade, trazendo para cima da mesa as contas verdadeiras e dizendo aos portugueses que chegou à altura de o Estado fazer os sacrifícios que andou a impor aos cidadãos e de apostar na economia, mas na economia que cria emprego, não na economia que cria rendas aos amigos do Estado (…) Temos a cara lavada e os bolsos lavados. E é porque estamos e somos livres que traremos essa liberdade a Portugal”, disse.

Pedro Passos Coelho

Uma caso para a história: TC “chumba” revogação da avaliação dos professores

Aquando da bizarra revogação por lei de um decreto-regulamentar, acompanhada de “ordens” dadas ao Governo enquanto Estado-Administração, escrevi isto.

Era evidente que a irresponsabilidade começava por ser política. A oposição achou por bem revogar sem mais, a meio do ano lectivo, o modelo de avaliação dos professores. Isto, para piorar, quando o Governo estava quase em gestão e as eleições surgiam no horizonte.

Ainda assim, em modelo bomba atómica, a oposição uniu-se no absurdo e na irresponsabilidade, passando uma mensagem de apoio a um modelo de não avaliação dos professores.

Infelizmente, largar bombas sem alternativas é coisa a que nos vêm habituando.

Podia, em todo o caso, um jurista de uma das bancadas ter recordado à mesma a escandalosa inconstitucionalidade da revogação.

Cá está a decisão do TC que “justificou a declaração de inconstitucionalidade da revogação da avaliação de desempenho dos professores, aprovada pela oposição, com a “violação do princípio da separação e interdependência dos órgãos de soberania”.

Penso que este caso vergonhoso fica para a história.

Mais do mesmo, diz uma espécie de voto nulo

Ontem assisti à apresentação do Programa de Governo do PS. Coube a Sócrates apresentar as linhas gerais do mesmo, claro, e não ler o documento na íntegra. Mas apresentar as linhas gerais não é coisa pouca, porque fica claro, claríssimo, quais são os pontos basilares do programa de governo apresentado a tempo e horas daqueles, imagine-se, que não são Governo em plenitude de funções, que não estão a continuar o seu trabalho árduo porque o PSD, de punho erguido com toda a oposição, preferiu a crise ao país. O mesmo é dizer, preferiu a hipótese de poder mais rápido às pessoas, aos cidadãos e cidadãs que estavam a ser alvo das consequências de um esforço tremendo para que não chegássemos aos dias de hoje.

Os dias de hoje são os dias em que é esse mesmo PM que foi varrido na AR sem que o PSD tivesse uma única ideia alternativa, uma única proposta de convergência, uma única resposta aos pedidos de diálogo, que está a negociar a ajuda externa a Portugal, discreto em cada reunião, com o interesse nacional evidenciado em cada gesto. Ironias do destino.

Ao mesmo tempo, quando estamos a ser avaliados para efeitos de recebermos a tal ajuda externa, o PSD lança perguntas ao Governo sobre o estado da Administração e das suas contas, explica que não haverá entendimentos com o PS após as eleições sem a substituição de Sócrates, etc, etc, etc.

Passos Coelho escolhe para cabeça de lista de Lisboa quem não tem cultura democrática. Podia ser lapso. Podia não dizer nada sobre o presidente do PSD. Mas diz. Passos Coelho, na tradição de alguns sociais democratas, tem problemas com regras elementares da democracia. É quase aterrador ouvir um candidato a PM, neste momento de crise em que estamos a ser observados à lupa ou noutro qualquer, deitar por terra as regras democráticas partidárias.

Só vejo uma receita para Passos Coelho. Ele que se inscreva no PS e entre no processo democrático para afastar Sócrates.

Hoje, depois de tudo o que ouvi ontem, que tem muito que ver com o assegurar de linhas mestras essenciais para a esquerda que vêm sendo ameaçadas pela direita através de recados, isto é, que tem muito que ver com não usar a ajuda externa como pretexto ou desculpa para destruir traves mestras do Estado social, dou com a extraordinária declaração reactiva do PSD: mais do mesmo.

A sério?

Leram o programa todo?

Eu lia o do PSD, mas não há.

O Partido que provocou esta crise tinha o dever ético e moral de nesse momento ter propostas alternativas. Não tinha.

Passada essa vergonha histórica, esperava-se que fosse o primeiro a surgir com um programa, ideias sólidas, mesmo que sem a nossa concordância, uma equipa unida, um líder que diz o mesmo de manhã e à noite.

Nada.

Não me lembro de um momento político assim.

O PSD é um voto nulo.

Coisas do 25 de Abril

Ler uma das pessoas mais entrevistadas do momento, Otelo Saraiva de Carvalho, no “i”, dizer isto: “o único excesso que podia ter evitado foram os mandatos de captura em branco, mas tinha uma diversidade tão grande de funções que não tinha possibilidade…”

Vai que o magistrados com milhares de processos em mãos começam a condenar as pessoas sem ler os ditos processos. Depois a malta é toda presa, o cidadão estranha e eles dizem: – pá, é tanto o trabalho..

Isto é ideológico

Este vídeo com uma mensagem de páscoa de Pedro Passos Coelho, tendo por adereço a sua mulher, calada, como um sorriso na cara, a olhar para nós, daria para umas piadas, se tivesse graça.

Não são apenas as grandes opções que os Partidos apresentam nas matérias clássicas que os distinguem e que nos permitem identificar uma esquerda e uma direita.

Actos de campanha como este vídeo são claramente reveladores de uma zona de conforto moral e ideológica, de direita, claro, ali, onde um político tem por normal dirigir-se ao país na páscoa, preocupado com a saúde, usando o seu estado civil como trunfo, a sua mulher sentada como uma estátua, mas prova estética, a todos os níveis, de que o candidato a PM é homem de bem, casadinho como se quer, um homem de família. Aposta-se nessa imagem que se adivinha que ainda dá votos num ringue com políticos divorciados, sem filhos, sem mulher, sem marido.

Esta direita existe porque ainda há um país para quem esta propaganda pessoal conta.

Não é o país da esquerda.

É um 31, não é?

Lendo opinião que já traduz uma linha de pensamento, pergunta-se: se Deputados do PS da anterior legislatura não integram as actuais listas foram, com toda a certeza, objecto de uma purga, os Deputados do PSD da anterior legislatura que não integram as actuais listas também foram sujeitos a esse horror anti-democrático, certo?

Diz que à conta do FMI a democracia ficou suspensa

Tenho esperança de que a tentativa de moda não pegue. Colunistas, opinadores nos telejornais, ontem mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, todos juntos na mesma missa: que interessa se Passos Coelho escolheu Nobre para ser Deputado e Presidente da AR (coisa sujeita a votação agravada no Parlamento) e que este tenha dito que renunciava ao cargo de Deputado se não fosse a segunda figura do Estado? Sim, esteve mal, mas tentou “emendar a mão” (???) dizia Marcelo, mas adiante! Que importa que a base do derrube do Governo tenha sido a alegação de que este não teria falado com o PSD sobre o PEC, um nojo, uma vergonha nacional, teria havido um mero telefonema, toca de explodir com tudo e ser responsável por tudo, que importa se um candidato a PM mentiu, e esteve reunido umas horas com o PM, o único que manteve a palavra quanto ao sigilo do encontro? Nada, diz Marcelo, adiante, diz Marcelo, quero lá saber se houve uma “ligadela” de 5 minutos ou uma reunião “de horas”, quando o facto é que não houve acordo. Que interessa?- Diz Marcelo. Está cá o FMI, não se ponham com essas coisas, que vergonha.

Para estes comentadores, que puxam pela pátria explicando que continuamos a ser o Portugal de tantos séculos de história, que não desaparece com a vinda do FMI, o eleitor deve ver o Governo a lutar com todas as forças para evitar a situação presente, assistir à sua queda naquele dia em que tirando o PS houve um partido único na Ar, descobrir que o candidato alernativo a Sócrates escolhe para cabeça de lista de Lisboa quem despreza os votos dos cidadãos e que só tem por digno ser a segunda fugura do Estado, dar-se conta de que Passos Coelho andou a gritar como argumento para derrubar o Governo uma ficção, não tendo nada, como projecto alternativo, para apresentar, senão o de ser, seja como for, à minha custa, à nossa custa, poder, essa coisa que lhe cheira tão bem.

A moda não pega, não. O FMI não pára a democracia.

Da convergência e da democracia: a disputa necessária

Em face da situação do país, é natural que se levantem vozes, conhecidas e anónimas, pedindo que os partidos “parem de andar às turras” e que se ponham lado a lado na difícil caminhada que temos pela frente. Não sabemos, hoje, o que se passará depois das eleições, se teremos coligações para evitar governos minoritários e, se sim, de que tipo.

Este “desejo”, às vezes cansado, não pode levar a classe política, e quem comenta a política, a esquecer a impossibilidade da clivagem ideológica entre os partidos, o percurso de cada um, as atitudes tomadas em momentos determinantes que marcam definitivamente o curso dos acontecimentos e o carácter de quem se propõe a fazer política e, portanto, a dar o seu melhor por um qualquer conceito de justiça.

Por isso mesmo, é inadmissível aceitar mandamentos como o de Ângelo Correia, há dias, na SICN, no sentido de que quanto a Fernando Nobre está tudo claro: foi convidado pelo PSD e aceitou. Quanto ao resto, o povo que vote. Isto é, até ao dia das eleições estamos impedidos de fazer uma leitura politica do facto de o líder do maior partido da oposição ter escolhido para cabeça  de lista de Lisboa um homem que já esteve com o BE, com Mário Soares e que foi candidato à PR com um discurso patético de superioridade moral por não pertencer a partidos, por nada querer com eles e por ter visto horrores no mundo. Para mais, o homem que jurou que jamais aceitaria um convite partidário, aceita-o já sendo putativo candidato à segunda figura do Estado, o que é desrespeitoso para a AR, para não dizer mais. É evidente que isto tem de ser lido e falado, porque a  escolha de Nobre mostra ao eleitorado da capacidade de Passos Coelho para fazer boas escolhas a qualquer nível, seja parlamentar, seja governativo. Temos indício forte de que essa capacidade é muito má.

Em democracia, mesmo quando o país está aflito, discute-se, responde-se, demonstra-se a diferença entre o tu e o eu. Sem debate, sem clivagem, não há a essencial demonstração de uma escolha ao eleitorado.

O PSD, que vai vendo boas cabeças fugirem desta liderança, mostra pouco. E insiste em que  PS foi teimoso em sublinhar tanto a responsabilidade que coube aos laranjas pela situação actual. Insiste porque não tem alternativa. Mal estaria o PS se não dissesse as vezes que fossem necessárias, cada vez que é desmentido, o que se passou no chumbo do PEC IV, chumbo aprovado por todos os partidos num golpe palaciano anormal, resoluções sem propostas, porque as que tinham umas coisitas aceitaram a proposta do CDS de serem cortadas ao meio para que se votasse apenas o artigo 1º do chumbo do PEC e depois animadamente chumbaram-se reciprocamente. Tudo combinado.

Estamos à espera das propostas do PSD que já variaram muito entre o que saiu da sua boca e da dos seus conselheiros e de um livro escrito por gente da banca, mas Passos prefere perguntar a fazer propostas. É tão irresponsável, tão demagógico, tão indiferente ao interesse nacional, que estando neste momento Portugal a ser avaliado para receber ajuda externa dentro de um programa que terá de ser cumprido por quem quer que seja Governo, Passos  explica aos senhores que nem nisso estamos unidos. Passos faz concorrência ao pessoal. Ele quer, agora, neste momento, saber, por exemplo, o número de funcionários públicos por ministério.

Como dizia ontem Nicolau Santos na SICN, o que deu a Passos Coelho? Portanto, o Governo está a falar com os senhores que aterraram na Portela e que precisamente fazem uma avaliação completa da situação financeira do país. Eis que o líder laranja aparece a acenar com um papel com quarenta e tal perguntinhas?

Este homem não pode ser PM. Digo eu.