Da convergência e da democracia: a disputa necessária

Em face da situação do país, é natural que se levantem vozes, conhecidas e anónimas, pedindo que os partidos “parem de andar às turras” e que se ponham lado a lado na difícil caminhada que temos pela frente. Não sabemos, hoje, o que se passará depois das eleições, se teremos coligações para evitar governos minoritários e, se sim, de que tipo.

Este “desejo”, às vezes cansado, não pode levar a classe política, e quem comenta a política, a esquecer a impossibilidade da clivagem ideológica entre os partidos, o percurso de cada um, as atitudes tomadas em momentos determinantes que marcam definitivamente o curso dos acontecimentos e o carácter de quem se propõe a fazer política e, portanto, a dar o seu melhor por um qualquer conceito de justiça.

Por isso mesmo, é inadmissível aceitar mandamentos como o de Ângelo Correia, há dias, na SICN, no sentido de que quanto a Fernando Nobre está tudo claro: foi convidado pelo PSD e aceitou. Quanto ao resto, o povo que vote. Isto é, até ao dia das eleições estamos impedidos de fazer uma leitura politica do facto de o líder do maior partido da oposição ter escolhido para cabeça  de lista de Lisboa um homem que já esteve com o BE, com Mário Soares e que foi candidato à PR com um discurso patético de superioridade moral por não pertencer a partidos, por nada querer com eles e por ter visto horrores no mundo. Para mais, o homem que jurou que jamais aceitaria um convite partidário, aceita-o já sendo putativo candidato à segunda figura do Estado, o que é desrespeitoso para a AR, para não dizer mais. É evidente que isto tem de ser lido e falado, porque a  escolha de Nobre mostra ao eleitorado da capacidade de Passos Coelho para fazer boas escolhas a qualquer nível, seja parlamentar, seja governativo. Temos indício forte de que essa capacidade é muito má.

Em democracia, mesmo quando o país está aflito, discute-se, responde-se, demonstra-se a diferença entre o tu e o eu. Sem debate, sem clivagem, não há a essencial demonstração de uma escolha ao eleitorado.

O PSD, que vai vendo boas cabeças fugirem desta liderança, mostra pouco. E insiste em que  PS foi teimoso em sublinhar tanto a responsabilidade que coube aos laranjas pela situação actual. Insiste porque não tem alternativa. Mal estaria o PS se não dissesse as vezes que fossem necessárias, cada vez que é desmentido, o que se passou no chumbo do PEC IV, chumbo aprovado por todos os partidos num golpe palaciano anormal, resoluções sem propostas, porque as que tinham umas coisitas aceitaram a proposta do CDS de serem cortadas ao meio para que se votasse apenas o artigo 1º do chumbo do PEC e depois animadamente chumbaram-se reciprocamente. Tudo combinado.

Estamos à espera das propostas do PSD que já variaram muito entre o que saiu da sua boca e da dos seus conselheiros e de um livro escrito por gente da banca, mas Passos prefere perguntar a fazer propostas. É tão irresponsável, tão demagógico, tão indiferente ao interesse nacional, que estando neste momento Portugal a ser avaliado para receber ajuda externa dentro de um programa que terá de ser cumprido por quem quer que seja Governo, Passos  explica aos senhores que nem nisso estamos unidos. Passos faz concorrência ao pessoal. Ele quer, agora, neste momento, saber, por exemplo, o número de funcionários públicos por ministério.

Como dizia ontem Nicolau Santos na SICN, o que deu a Passos Coelho? Portanto, o Governo está a falar com os senhores que aterraram na Portela e que precisamente fazem uma avaliação completa da situação financeira do país. Eis que o líder laranja aparece a acenar com um papel com quarenta e tal perguntinhas?

Este homem não pode ser PM. Digo eu.

20 thoughts on “Da convergência e da democracia: a disputa necessária”

  1. a escolha de Nobre mostra ao eleitorado da capacidade de Passos Coelho para fazer boas escolhas a qualquer nível, seja parlamentar, seja governativo. Temos indício forte de que essa capacidade é muito má.

    Nem mais. Juntamos então uma total ausência de propostas (ideias pode tê-las todas, e todas brilhantes, mas enquanto não as concretizar, não existem) a uma incapacidade de escolher pessoas, e temos a receita para o desastre.

    Este homem não pode ser PM. Digo eu.

    E eu.

  2. Com tanta asneira e sujeira juntas, é a fuga para a frente e seja o que zeus quiser. Passos, Relvas, Marco António, Cavaco, a mesma luta, a mesma fúria, não têm vergonha. Iniciado o processo homicida, não há travão possível. Como os psicopatas. Podemos esperar as maiores faltas de decoro e pulhices até às eleições. Mas sempre a dizerem que é Sócrates o mentiroso, o pulha, o que lança armadilhas, o que esconde números e esqueletos, portanto, o criminoso.
    Não me admiraria nada que os tipos do FMI, CE e BCE, a continuar o chinfrim, um dia destes se ponham a andar ou que a Frau Merkel chame esta imbecil criatura a Berlim! Por mim, recorreria aos tribunais. Há ou não há aqui um crime contra um povo? Não era o Passos que dizia que os políticos que não cumprissem o orçamento deviam ser julgados? Então e os políticos que mandam abaixo um país com argumentos mentirosos e insinuações?

  3. laurinda alves a próxima cabeçuda da listas psd. caso o percam as eleições, o que é cada vez mais provável, o próximo presidente do psd pode contar com uma representação parlamentar de gerúndios. e são estes gajos que se dizem preocupados com as gerações vendedoras ou das vindimas no douro.

  4. O OTELO resolve o problema com 800 militares.

    Mas só viu a solução ao 3º FMI e ao 4º PEC.

    Agora não há Campo pequeno que chegue para tanta gente!

  5. E digo eu também!
    E reforçando o que ontem o Nicolau Santos referiu na SICN, ainda esta manhã ouvi na TSF o sociólogo – este com curriculum internacional de muitos anos – dizer EXPRESSAMENTE que a necessidade desta intervenção externa, criada nestas últimas três semanas, foi provocada pelo PSD e pelo PRESIDENTE DA REPÚBLICA, e que o PSD continua a ser irresponsável.
    O nosso problema é termos a “cultura da ignorância” com que os media e os “comentadores de serviço da direita” intoxicam a opinião pública!!!

  6. Chamo a atenção para lerem a nota “contundente” publicada hoje pelo blogue “O Jumento”, com o titulo “Acabaram-se os Bitaites sobre a Dívida Soberana”. Muito bom!

  7. Muito bem! Passos Coelho demonstra todos os dias que nem para Sub-secretário de Estado da Juventude serviria. À noite de nevoeiro do Santana e à tarde de birra da Manuela, sucede-se agora, na escolha dos Deputados do P. S. D., a manhã submersa de Passos Coelho. Pobre Rui Rio, ou quem for recolher os despojos do naufrágio…

  8. Totalmente de acordo. Este (esse) homem não pode ser PM depois de tanto disparate. A sua pequeníssima vantagem comparativa em relação a outros candidatos é a de nunca ter levado nenhum país à bancarrota.
    Viva o querido leader clap clap clap clap clap clap …

  9. Parece-me bem que o Lapin levou o país à bancarrota, concretamente ao pedido de ajuda. Escolheu entre as eleições no país e as eleições no PPD sabendo bem quais as consequências de uma e de outra. Escolheu a hipótese de ser PM, sabendo que isso obrigaria a um pedido de ajuda ao FMI/FEEF, e a hipótese de ser corrido do PPD.
    Desta forma implementam por ele o programa ultra liberal que defende (ver proposta de revisão constitucional) e o Lapin nem tem de o anunciar nem o assumir!
    E pelo meio ainda nos mostrou que mente com todos os dentes!
    Com este CV não pode nunca ser PM! O meu voto não leva!

  10. 20H17 na RTP 1. Mário Soares, assumiu a Presidencia da Republica e fala da necessidade de entendimentos entre os partidos políticos.

  11. Onde o Passos, muito nervoso, explica que a prova de que iríamos precisar do FMI independentemete do chumbo do PEC, foi o próprio facto de o governo ter feito o PEC (como se Portugal – e os outros da UE – não tivesse de apresentar o PEC para este ano).
    Entre outras pérolas…como afirmar que não seriam necessárias aquelas medidas de austeridade, se ele tivesse sido PM em vez de Sócrates. Se tal tivesse acontecido, o país não “estaria com as calças na mão” (variante da tanga, no mais belo estilo do Passos).

    Curiosidade adicional: um dos entrevistadores é uma nossa velha conhecida, mas em versão drufada.

    http://www.youtube.com/watch?v=9kWJtylsJew

  12. Alguém me diz como classificar um sociólogo que dizem conceituado e que se diz português e que, em particular num momento destes, tem a desfaçatez de fazer a um jornal estrangeiro declarações assim: “El pueblo no sabe cómo están las arcas públicas. Hay manipulación en salud, educación, en los pagos. Ir a las elecciones sin hacer esto sería una enorme deslealtad de los dirigentes políticos, porque Europa, el FMI y el BCE saben perfectamente lo que pasa en Portugal”.

    Tenho que me conter para não deixar aqui em português vernáculo o que me apetece chamar a este traste que dá pelo nome de António Barreto e que, vejam bem, acaba de ser nomeado pela “múmia paralítica” que se assenta em Belém, como presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

    Como se vê, cá por estas bandas, “Roma paga (e paga bem) a traidores”!

    Vejo o nome do Barreto entre o das 47 personalidades que assinaram um tal manifesto incitando os partidos ao diálogo e entre as quais se encontram muitas pessoas que merecem o meu respeito e o dos portugueses. No entanto, quanto a este sujeito, está à vista a seriedade e honradez dos seus propósitos. Ao mesmo tempo que assinava o referido manifesto, produzia as declarações que acima deixei!

  13. Sim, convidar Fernando Nobre para liderar a lista por Lisboa é um acto lamentável, já convidar o inenarrável Ricardo Rodrigues para encabeçar a lista pelos Açores é de se aplaudir com veemência.

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