Este ódio ao Estado que em tempos de crise pede uma mão à demagogia

Desde quando? Desde sempre. A direita, efectivamente, não gosta do Estado. Dessa coisa que foi inventada, concretamente o Estado-Administração, que serve os cidadãos e que é instrumento da prossecução dos fins que caracterizam o Estado Social.

A direita gosta do Estado no sentido de substrato filosófico, o Estado-nação, o Estado português, o tal Estado de tantos anos de história, o do orgulho, invocado com o peito cheio de vazio em discursos com palavras que são só palavras, como “Portugalidade”.

É a direita agora tão bem representada no PSD que quer mudar a terminologia constitucional para que se leia, não “Constituição da República Portuguesa”, mas “Constituição da República de Portugal”. Diz que é mais patriótico.

Estes peitos vazios gostam dessa ideia de Estado, assimilada a país, a pátria, e tropeçam com horror na noção precisa de Estado-Administração, no Estado que é prestador dos serviços que nos permitem falar de serviço nacional de saúde, de assistência social, enfim, de tudo o que sabemos que não constava do orçamento do Estado novo, que teve tempos tão equilibradinhos.

Não por acaso, a primeira medida do programa do PSD que aparece em destaque nos rodapés das notícias é a proposta da proibição de contratação de um funcionário público sem que “saiam”  pelo menos cinco.

Não deve ser possível apresentar uma proposta feita sem calculadora mais poupadinha, mas mais um eco daquele horror ao Estado-Administração, horror cego, aqui dando a mão à demagogia, em face do momento actual de crise.

Quem conhece a orgânica da Administração pública sabe que esta medida é absurda. Se aplicada sem mais, podemos vir a ter serviços essenciais aos cidadãos em ruptura, sem capacidade de resposta, e outros a funcionarem talvez bem. A questão é que sem um estudo profundo das necessidades reais de cada serviço administrativo, não se pode dizer com espantosa leviandade “entra um, saem cinco”.

Não vale a pena. Nós sabemos que se a direita pudesse, ficava só com a Pátria.

É bom que alguém continue a objectar ao discurso demagógico e culpablizante do Estado que a todos serve e que, de resto, permitiu a palavra “todos”.

18 thoughts on “Este ódio ao Estado que em tempos de crise pede uma mão à demagogia”

  1. Inadmissível! Isto é: reformam-se 5 médicos e 5 enfermeiros entram 1+1. O mesmo com os professores, os polícias, os bombeiros … O PSD está louco …

  2. PARA ESTA GENTE O ESTADO QUE LHES INTERESSA É O ESTADO “SÓ PARA NÓS”. O ESTADO QUE A NÓS NÃO COBRA IMPOSTOS MAS QUE VEM EM NOSSO AUXILIO SEMPRE QUE APARECE UMA CRISE. O ESTADO QUE NOS PERMITE FAZER BONS NEGÓCIOS COM ELE. O ESTADO COM UMA JUSTIÇA SÓ AO NOSSO SERVIÇO. O ESTADO COM UMA POLICIA PARA SÓ A NÓS PROTEGER E DEFENDER A “NOSSA” PROPRIEDADE. ISTO É: UM ESTADO DE CLASSE E AO SERVIÇO DUMA CLASSE: A DOS RICOS E PODEROSOS.

  3. Um dia Jorge Luis Borges escreveu: «Para muitos argentinos roubar dinheiro público não é crime. Para eles, que não leram Hegel, o Estado é uma abstracção». É pareciso com esta malta que só quer ver o seu lado…

  4. Não comento o PALAVROSSAURUS REX que pelos vistos e pelos ditos ainda não saiu dos tempos recuados em que os seus congéneres habitavam a terra!

    Atenho-me às sábias palavras de Isabel Moreira com quem é impossível não estar 100% de acordo. O ódio da “direita” ao Estado sempre existiu mas ultimamente assumiu aspectos de verdadeiro e hediondo massacre. Todos os dias, a toda a hora e momento, os nossos grotescos media nos enchem os ouvidos com a desgraçada conversa da dívida, que os políticos (os do PS, note-se) não passam de uma cambada de ladrões que vivem à tripa-forra à custa dos nossos impostos, que há que pôr termo a isto e bem depressa senão os nossos netos serão comidos vivos!

    Demagógico e desonesto como é, o que havia a esperar do PSD senão um discurso que cavalgasse esta onda que é claramente a que a esmagadora maioria da população, impreparada e acrítica, gosta de ouvir?!

    Claro está que não é necessário grande esforço de reflexão para perceber as verdadeiras intenções. Quanto menos Estado, mais negociatas privadas para gáudio dos alarves insaciáveis. E o eleito desprevenido ou destento ou, pura e simplesmente, enganado com a maior desfaçatez, há-de um dia torcer a orelha mas já não deitará sangue.

    Saiem 5 funcionários públicos e entra um apenas?! Que importância tem isso?! Os hospitais são para os pobrezinhos e para eles qualquer coisa está bem! As escolas são gratuitas! O que mais quer esta gentalha que não pode frequentar o colégio privado?! Não há polícia na rua? Para quê se vivemos em condomínio fechado e podemos pagar serviços de segurança privados que, além do mais, até irão poder interpelar, sem mais aquelas, qualquer cidadão com cara feia?!

    Pois é, minha querida Isabel Moreira, se a desvergonha fosse música, poucas orquestras estariam à altura desta nossa abjecta “direita”!

  5. O cinismo e a hipocrisia dos socretinos não deixa de espantar! Se há governo que atacou como nunca a função pública, esse governo foi o governo do Pinto de Sousa. De facto, desde 2005 que a máquina de propaganda dos socretinos tratou de diabolizar os funcionários públicos e apelidou-os, entre outras coisas, de privilegiados, de absentistas, de corporativos, etc. E é bom lembrar também os socretinos amnésicos ou que sofrem da doença de alzheimer que com o governo do Pinto de Sousa assistou-se à maior redução de funcionários públicos de que há memória. No discurso do vendedor da banha da cobra este processo foi classificado como uma «racionalização ou optimização dos recursos do Estado», mas se o mesmo discurso é feito pelo PSD o que está em causa agora é a destruição do Estado Social e dos seus serviços. Aquilo que é «ódio» nas propostas do PSD transforma-se em «amor» nas propostas dos P«S»s ! Isto é só rir…
    Aliás, basta olhar para os números disponiveis das aposentações de professores para se verificar que esta proposta do PSD fica muito aquém do que foi feito pelos P«S»s: desde 2005 até hoje reformaram-se cerca de 20000 professores, e em «compensação» entraram para os quadros cerca de 1000 professores (se é que entraram tantos!). Ou seja, por cada 20 que saíram entrou 1! No ensino superior as coisas não são muito diferentes, pois, segundo os jornais, nos últimos 2 anos saíram 400 professores e entraram 40 (relação de 10 para 1). E no que diz respeito aos médicos é sabido que os que foram saíndo foram substituidos por uns poucos colombianos mais baratos, e mesmo assim ainda há falta de médicos. Mas os socretinos anestesiados e manipulados ficam escandalizados com a proposta neoliberal do «saem 5, entra 1»…
    Enfim, o PSD neoliberal ainda tem muito que aprender com a «esquerda» moderna para chegar aos calcanhares desta. Quantificando as coisas, tem de aprender a fazer, e a dispensar, 4 vezes mais. E qualificando as coisas, tem de aprender a precarizar melhor a função pública e toda a sociedade por arrasto. Em suma, o PSD, se quer pôr em prática a sua agenda neoliberal, tem de ser e fazer como os socretinos…

  6. Este DS e a sua raiva tresloucada, dele e daqueles em que se filia o seu sectário pensamento, não mudam! Já lhes disse e repito. Tenham ao menos alguma consideração por aqueles que nos falam no “48” e que tanto sofreram às mãos de uma outra “direita” que só se distingue desta a que não se importam de voltar a entregar Portugal, por ter sido muito menos sofisticada!

  7. Era de espantar se o tipo da associação nacional de incentivo aos pintainhos e ratos não reagisse ao meu comentário, ou não fosse ele a melhor demonstração do «pensamento» formatado, anestesiado e manipulado dos socretinos. Depois de eu pôr a nú o que foi o «amor» do Pinto de Sousa pelo Estado e pela função pública, o tipo mostrou-se incapaz de refutar o que eu disse, assim como se mostra incapaz de reconhecer como é um dos tais que é fácil de aldrabar (ou melhor, a sua (não) resposta até é capaz de ser um sinal de que enfiou essa carapuça). Em vez disso mostra mais uma vez o que é o seu «respeito pelos adversários» (que, disse ele, tem sempre pelos outros), e dentro do moralismo da treta que o caracteriza pede-me para ter consideração por aqueles que «sofreram às mãos da direita». Deduzo pois que, na cabecinha do pintainho, esta consideração implica ser burro e ficar em silêncio (ou anestesiado, como ele) perante o neoliberalismo do impostor que ele adora. Vai-te catar, pá!

  8. Caro Ds, Será que se apercebe da falácia da sua argumentação, depois deste ataque, fulminante do PS ao funcionários públicos, faz sentido o que propõe o PSD, pelo menos como defende esta posição.
    Privatizações levadas ao absurdo, como a das águas, onde o PSD pretende ser pioneiro no mundo inteiro, não nos poderão levar por um caminho sem retorno à perda da nossa essência de Nação?

  9. Ai eles querem mudar o nome da nossa Constituição pois não gostam de “Constituição da República Portuguesa”??

    E o Hino Nacional, também mudam??

    … é que o nosso Hino Nacional chama-se “A Portuguesa”!

  10. Claro que a posição do PSD faz sentido, jv. È isso mesmo que eu mostro no meu comentário: ela vem no seguimento daquilo que o Pinto de Sousa já fez e implementou. Por isso tudo se reduz a uma questão de ver quem é o mais neoliberal dos dois, e quem aldraba melhor os anestesiados àcerca da defesa e do «amor» pelo Estado Social. E isto estejam em causa empregos na função pública, ou estejam em causa as privatizações, pois também neste domínio as propostas do PS não ficam nada atrás das do PSD…

  11. Alguma racionalização será necessária, os serviços públicos pela sua natureza, dimensão e falta de responsabilização e accountability das chefias, sistemas de recompensas e punições são muito dificeis de controlar e têm tendência para crescer sem darmos conta. Esta racionalização não deve ser feita com estas regras abstractas, mas casuisticamente, o que dá muito mais trabalho.
    Com este tipo de medidas o que se consegue é num primeiro passo retirar recursos ao estado (saem 5 e entra 1) , numa segunda fase é alguém concluir que a área x do estado não funciona e o melhor é entregar à iniciativa privada.

  12. Eu não sei se o PSD é a opção certa, mas que este PS não é de todo opção parece-me claro. Deixo-vos um naco do FT de ontem, extraído do comentário de um dos colunistas habituais (Wolfgang Münchau):

    “José Sócrates, prime minister, has chosen to delay applying for a financial rescue package until the last minute. His announcement last week was a tragi-comic highlight of the crisis. With the country on the brink of financial extinction, he gloated on national television that he had secured a better deal than Ireland and Greece. In addition, he claimed the agreement would not cause much pain. When the details emerged a few days later, we could see that none of this was true. The package contains savage spending cuts, freezes in public sector wages and pensions, tax rises and a forecast of two years’ deep recession.”

  13. O Estado é uma montada demasiado importante e complexa para ser cavalgada pela Direita portuguesa actual. Mas a Esquerda tratou-o com demasiada condescendência e protecção, pelo que agora o animal está com peso a mais e músculo a menos. Não devemos deixar que a Direita lhe quebre as patas, mas também não é saudável continuar a alimentá-lo em excesso e a exigir-lhe de menos. No difícil equilíbrio residem as possíveis soluções para o problema. O pior é que, nos trinta e cinco anos de Democracia constitucional que já levamos, não há nenhum exemplo decente deste necessário equilíbrio, à excepção talvez de Cavaco Silva entre 87 e 89 (com a substancial ajuda europeia, é certo) e de José Sócrates nos primeiros três anos do seu Governo maioritário (sem essa ajuda e ainda sem a crise). Oxalá pudéssemos voltar a algum destes tempos…

  14. Sim, claro que antes de Cavaco também houve dois (curtos) períodos em que a linha do gráfico é descendente: correspondem às duas intervenções anteriores do F. M. I. em Portugal…

  15. Falemos de ódio. Tenho um odio visceral, um ódio ao que me fizeram á vida. Um ódio ao ver o meu tempo de vida a ir embora e eu a viver numa devastação contra a qual sempre lutei, trabalhando e estudando. E as pessoas dizem “não vale a pena ter ódio, não adianta nada”. Não se trata de valer a pena. Não se escolhe. o ódio existe, quando leio noticias, quando vejo o TEMPO a passar, o tempo que NUNCA regressará e a devastação que os sucessivos criminosos fizeram impunemente. Crise-desemprego-depressão-doenças, matança lenta de nós todos, e aquele argumento ridiculo “os portugueses andaram a viver acima das possibilidades” -deturpação de informação!! Uma coisa é alguem gastar desenfreadamente em compras – mas isto pode acontecer em qualquer país, rico ou pobre, outra coisa é querer mais do que pão e agua – amigos, já não estamos nesse tempo, não entrem nessa-merecemos viver, ter algum conforto, ter acesso á saude, educação e cultura. Esse argumento só serve para virar as classes trabalhadoras umas contra as outras. Qual é o mal se eu for passar um fim de semana ao Gerês com os meus filhos, ou levá-los á neve de vez em quando? Não se ouve dizer que a natureza e o ar livre fazem bem? E se eu quiser abrir uma pequena conta para eles? E se eu quiser ajudar os meus pais que tem reformas baixas, contribuindo para as obras na casa deles? E isto, tambem é um luxo???Ahhh mas para nós é “viver acima das possibilidades!” Isso só é saudavel só para os burgueses monstruosos, para nós não! Nós servimos só para comer, para no dia seguinte ir ser explorados, para ir pra casa, comer, para no dia seguinte ir ser explorados e ai por diante! Esse argumento mete nojo. “Deixa estar não és só tu que estas desempregado” e a empobrecer…não serve, tambem não serve, porque situações piores são argumentos para nivelar as nossas vontades e objectivos por baixo, para nos tornar mais “brandos” e tolerantes á nossa tortura lenta, e além os outros são os outros e a minha vida passa por mim, não pelos outros. Portanto esse argumento tambem não serve. Estes monstros, estes anos de vida de sofrimento, estes sonhos mortos, este sofrimento por culpa de outros, este envelhecimento precoce, onde esta a minha vida?? quero vive-la a sério!-e lutei tanto, e não está a acontecer! Culpados, criminosos, mataram-nos, desejo-lhes o PIOR!!!!

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