Desde ontem está em cena na SIC “A Fraude”, peça dramática em quatro actos.
Oxalá não saia farsa!
Na publicidade que têm feito diz-se que a investigação descobriu coisas novas e vai trazer à luz do dia certos nomes que andavam na penumbra. Conhecendo do que a casa gasta, não me admirava nada que os tais nomes, descobertos pela SIC, de novos implicados no caso BPN fossem, por exemplo, José Sócrates, Teixeira dos Santos, etc. A ver vamos. Para já uma certeza: Constâncio vai estar sempre na baila, como era de esperar.
Quaisquer que tenham sido as falhas da supervisão ou a “ingenuidade” de Constâncio (esta confessada pelo próprio no primeiro inquérito parlamentar ao BPN, como ontem vimos na primeira parte da reportagem), um dos aspectos da história que a direita e a extrema-esquerda mais retiveram foi o facto de o então governador do Banco de Portugal ser socialista. Caía que nem ginjas. O partido dos banqueiros corruptos, o PSD, agradeceu ao deputado Melo a maneira habilidosa como conduziu o interrogatório para inculpar a supervisão, poupando assim os quarenta ladrões do bando laranja. A extrema-esquerda, na sua enésima convergência política com a direita “lacaia dos monopolistas”, explorou quanto pôde o caso BPN na tentativa imbecil de lançar lama sobre Constâncio, sobre o PS e sobre o governo socialista. Leia-se o famoso relatório do Semedo sobre o caso BPN, que não anda longe do que os comunistas disseram, se a alguém interessa o que disseram.
Idênticas “falhas” de supervisão ocorreram em todos os países, a começar pelos EUA. Sabemos hoje que o sistema financeiro não estava preparado, em lado nenhum, para as altas manigâncias e para o grau de banditismo bancário que levaram à crise financeira iniciada em 2008. Em particular, o BP, com um regime legal datado do cavaquismo, não tinha os meios indispensáveis para detectar essas fraudes, intervir atempadamente e evitar a bandalheira em que se caiu. Já o afirmou com toda a clareza um dos raros banqueiros portugueses em cuja palavra e inteligência confio, José da Silva Lopes.
Claro que também havia um ambiente injustificado de confiança, a rondar a condescendência, que anestesiou muitos responsáveis. Esses economistas todos – uns banqueiros, outros supervisores, outros ainda políticos – conheciam-se pessoalmente das faculdades onde leccionaram (sobretudo do ISE, da Nova e da Católica), do Banco de Portugal onde quase todos trabalharam e das salgalhadas políticas em que andaram envolvidos sob diversos estandartes. Oliveira e Costa tinha sido secretário de Estado dos Assuntos Fiscais no X governo (Cavaco Silva) – e, antes disso, director da supervisão bancária no Banco de Portugal!!! Hoje perguntamo-nos como foi possível que se tivesse nomeado a raposa para fiscal do galinheiro…
Não se imaginava, antes da débacle de 2008, as proporções da irresponsabilidade e do malfeitorismo desse e de outros banqueiros. Um anterior governador do Banco de Portugal, António de Sousa, já se confessou arrependido de ter atribuído licença de funcionamento ao Banco Privado Português, apesar das profundas desconfianças que lhe terão suscitado (diz ele hoje) o modelo de negócio do BPP e a pessoa do seu presidente, o Rendeiro. Era preciso não só muita informação e muita convicção pessoal, como também muito apoio político para que um governador do BP se atrevesse a matar no ovo o negócio desses banqueiros abandalhados – alguns deles muito piedosos, outros com fortíssimas ligações no partido laranja – que pululavam no BCP, no BPN e no BPP (lista não exaustiva). Aliás, o sistema que nos rege nunca nomearia para governador do BP alguém que tivesse vestígios genéticos de desmancha-prazeres ou de estraga-festas. A mim e, possivelmente, a outros como eu, o BP mais parece uma oligarquia em que umas dezenas de indivíduos que se conhecem de ginjeira se cooptam uns aos outros, se protegem e se perdoam pecadilhos, independentemente da família política. O resultado está à vista.
Vítor Constâncio e os então responsáveis directos da supervisão fizeram, ainda assim, muito ou quase tudo o que podiam fazer com a informação, as competências legais e os meios de intervenção de que dispunham. Recordemos que enquanto alguns tentam agora, por oportunismo político e rasquice ingénita, assacar enormes responsabilidades à supervisão e acusá-la de ter fechado os olhos às manigâncias ou malfeitorias que se praticavam nos bancos citados, muitos banqueiros da nossa praça – entre os quais Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, João Rendeiro e os cavaquistas Tavares Moreira e Oliveira e Costa – acusavam precisamente o BP, e Vítor Constâncio muito em particular, de perseguição assanhada à sua nobre actividade financeira. Leiam-se as entrevistas, os artigos e os livros que essa pandilha publicou desde 2008. Para isso, sempre se valeram também do facto de Constâncio ser socialista, insinuando que o governador do BP estava contra o mundo da finança talvez por ser anticapitalista…
Quaisquer que tenham sido as “falhas” de Constâncio, ele tem por si esta circunstância importante: o ter estado entre o fogo dos políticos rascas, que o acusavam de uma coisa, e o fogo dos banqueiros delinquentes, que o acusavam exactamente do contrário. A julgar pelos seus adversários, está absolvido.