Fernando Grade

Sobre

«Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos»

É com o maior gosto que escrevo acerca do trabalho poético de José do Carmo Francisco (JCF). Para além das muitas afinidades que temos como camaradas das Letras e, não obstante os cerca de oito anos a mais que apresento em relação ao autor de «Universário» – não posso deixar de referir que ambos fomos contemporâneos nos conceituados jornais desportivos «A Bola» e «Record», onde tivemos a honra de ser colunistas em secções individualizadas.

Este livro de agora («Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos» – Padrões Culturais Editora) vem na linha intencional, verbi gratia, de «Jogos Olímpicos» e de «Os guarda-redes morrem ao domingo».

O recorte estilístico e existencial de JCF orienta-se em função de um conceito bem concreto, não concretista, de poesia, e essa gramática pessoal nutre-se de uma aturada dissecação da realidade, como quem privilegia um mote, pega nele, observa-o sob vários ângulos, enfim, trabalha-o sempre até às últimas consequências, ao ponto em que o limão ficará sem sumo e, desta feita, o Autor passa à próxima temática estilizada.

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Tem toda a razão, o País regressou à normalidade

Fazendo uma retrospectiva do último ano, Passos Coelho considerou que hoje, depois das eleições, “o País está mais confiante por saber que os sacrifícios que estamos a fazer e vamos fazer vão permitir virar uma página negra da nossa história”.

Além disso, notou, “o ambiente que se respira é totalmente diferente”. “Não temos a crispação politica que se viveu nos últimos anos em Portugal. Não prometemos o que não sabemos se pudemos cumprir. O País, hoje, regressou à normalidade”.

Fonte

Vinte Linhas 647

A primeira imagem nova de uma velha equipa

Depois do desastre tudo se recomeça. Teimosamente a vida responde à morte, a alegria deve ser reconstruída todas as manhãs ou então o Mundo seria o esplendor do desespero. Palavras e imagens, as primeiras mais à mão, as segundas mais difíceis. Vou tacteando instruções e faço como quem sabe me ensinou. Vamos a ver se resulta.

Vou buscar alento à velha equipa do Catarinense. Naquele dia da esquerda para a direita temos, de pé, o meu avô José Almeida Penas a guarda-redes. Segue-se o meu tio Joaquim Freire, tio de dois rapazes da fila de baixo – Juventino Freire, o primeiro da esquerda e António Freire, o quinto a contar da esquerda. O terceiro em pé é o João Ricardo, segue-se o Diamantino Luciano, filho do senhor Manuel a quem ninguém podia dizer «Cinco libras!». Segue-se um não identificado e, por fim, o Abílio Milhafre. Na fila de baixo temos a seguir ao Juventino Freire o José Leão, o José Coimbra e o Carlos que antecede o António Freire. Devo a Juventino Freire o gosto pelo jornalismo desportivo: era ele que assinava no jornal «O Catarinense» as crónicas de futebol. Ele e o seu bloco de apontamentos eram figuras do jogo – utilizava o parapeito da ponte sobre o Rio da Pedra como se fosse uma secretária. Tudo o que fiz no jornalismo nasceu dessa paixão que julgo que todos temos pelo jornal da nossa terra.

Eram quase todos músicos: meu avô e António Freire no filiscorne e na trompete, Juventino no saxofone contralto, meu tio Joaquim na tarola, José Coimbra nos pratos, João Ricardo no trombone e Abílio Milhafre no clarinete. Eram quase todos músicos e o seu futebol tinha uma espécie de música que subia do campo até à estrada e fazia com que as mulheres parassem de lavar a roupa para não perder o jogo no campo do Rio da Pedra.

O belo é difícil

Fernanda Câncio – no texto glória difícil – reflecte sobre a cultura do ódio que assolou em crescendo a sociedade portuguesa de 2007 a 2011. A caixa de Petri analisada é a blogosfera política, um meio que conhece particularmente bem por ser dele a sua maior vedeta (este estatuto é aferido pela quantidade de ataques canalhas e soezes de que tem sido alvo). O facto de alguns dos maiores protagonistas da promoção do ódio contra o anterior Governo terem migrado para o novo Governo só acrescenta relevância à sua nostálgica, ingénua e generosa reflexão.

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Aspirina marada

Desde ontem à noite que temos tido comentários, e até uma publicação, a desaparecer de cena como danos colaterais por se estar a fazer uma intervenção técnica no servidor. Se alguém deu por si roubado de algum comentário, esta é a singela causa. Não sei se os comentários desaparecidos serão recuperáveis nem quando a situação estará resolvida.

Vinte Linhas 650

A Incrível Almadense em «Alfacinhas» de Alfredo de Mesquita

(texto dedicado a Luís Eme)

Alfredo de Mesquita (1871-1931) foi um jornalista muito conhecido e respeitado no seu tempo: escreveu nas revistas «Ocidente», «António Maria» e «A Paródia» e nos jornais «O Nacional», «Democracia Portuguesa», «Portugal», «Jornal do Comércio» e «Diário de Notícias». Natural de Angra do Heroísmo, foi diplomata em várias cidades como Roma e Hamburgo vindo a falecer em Paris. Um dos seus livros mais conhecidos é «Alfacinhas» e aqui registamos uma citação sobre as Filarmónicas:

«Existe na Outra Banda uma filarmónica que se chama a Incrível Almadense. Bem posto nome! Mas o exclusivo de incrível que essa se arrogou e que hoje já ninguém lhe contesta é que não tem razão de ser: porque incríveis são, em boa verdade, todas as filarmónicas de Portugal. Incríveis por tudo aquilo que nelas há de força de vontade, de obediência ao lamiré, de sentimento do compasso, da pertinácia do ensaio, da afinação e variado reportório. À frente da filarmónica, quando ela passa em alas, de calça branca vincada, cabeça alta, lira de oiro no boné de pala, pimpante e reluzente, só deixa o preconceito que corra a garotada expansiva, pulando de contente. Mas atrás da filarmónica todos nós corremos e vamos para onde ela for, sob o céu azul e o dardejante sol, entre explosões de bombas, risadas de foguetes, estoiros de morteiros – para a romaria e para o facto histórico, para a procissão e para os toiros, para o bodo e para a representação nacional, para o baile campestre e para a reivindicação. E isto hoje, ontem, amanhã e sempre! Sempre – não! Porque lá vem um dia em que em vez de sermos nós que vamos atrás da filarmónica, é ela, a filarmónica, que vai atrás de nós a soluçar Chopin…» – fim de citação

Como baixar salários e ser aplaudido por isso

Se dúvidas houvesse sobre o Processo de Liberalização em Curso, eis o pré-aviso do fim do 13º e 14º mês. Não vão ser obviamente cortados assim a frio, que ninguém está para tumultos e isto é governo de gente séria, honesta e transparente. Vai ser um processo subtil, bem descrito aqui pela pena de Bagão Felix. Funciona assim: para “facilitar a gestão de tesouraria” das empresas, o subsídio de férias e Natal passam a ser pagos todos os meses. Ninguém perde dinheiro, os empresários passam a pagar os subsídios a prestações, e os trabalhadores recebem um pouco mais todos os meses, passando a ser sua responsabilidade poupá-lo. Coisa que, como quem se desunha para esticar o salário até ao fim do mês sabe, é bastante fácil e nada dado a tentações.

Isto acaba, de forma indolor e provavelmente com alguns aplausos,  com a ideia bastante enraízada de receber salários a dobrar duas vezes por ano. Uma vez a ideia aceite e posta em prática, esses items passam a estar “incluídos” nos salários existentes e, estando aqui a beleza da coisa, nos salários dos novos contratos, salários esses que naturalmente, por força do mercado, da crise e da competitividade, baixarão para os valores anteriores, ou próximos. Passam é a ser com “subsídios incluídos”, até um dia se resolver acabar com essa “relíquia”. Exceptuando, claro está, o salário mínimo que desta forma “sobe”, dando por outro lado uma boa desculpa para estar uns anos sem o actualizar. Porque como nos diz o bom Bagão, “O SMN de 485 € pago em 14 mensalidades é o mesmo que 566 € por 12 meses“. Aqui está o aumento do salário mínimo muito para além dos 500 Euros exigidos. Quem é amigo, quem é? Não me digam que ainda o vão querer subir mais?

E assim se acaba com este disparate de subsídios “reveladores de uma lógica de consumo sazonalizado“. Como há uns dias me dizia um amigo, pequeno empresário, “então um tipo fica sem a funcionária e ainda tem de lhe pagar? Era o que faltava”.

Quanto a ir efectivamente de férias, ou a oferecer presentes de Natal, é simples: poupas religiosamente, todos os meses, uma parte dos teus 566 euros, ou dos teus 1166 euros, se fores um dos afortunados da “geração mil euros”. E rezas para que resistas à tentação quando chegar o “acerto” da EDP, ou outro acidente do género. Se não conseguires, problema teu. E a praia, de qualquer maneira, é para reformados estrangeiros.

Pedradas contra a democracia

Não é possível nesta altura saber quais foram as principais causas da violência que se espalhou por algumas cidades inglesas, será preciso recolher testemunhos dos envolvidos e estudar as suas diferentes dinâmicas psicossociológicas. Uma forte possibilidade, que a variada e surpreendente tipologia dos detidos reforça, é a de ter sido um mero efeito de contágio como o que aconteceu no apagão de 1977 em Nova Iorque, também no auge do Verão. Então, mais de mil e seiscentas lojas foram saqueadas, mais de mil incêndios em edifícios foram registados, quatro mil pessoas foram presas. E, provando que a arte escreve direito por linhas tortas, graças a este selvagem caos nocturno o género musical hip hop saltou para a ribalta devido aos assaltos a lojas de aparelhos electrónicos e instrumentos musicais, cujo material roubado viria depois a servir para espalhar a cultura DJ entre a comunidade negra…

As explicações que associam a violência urbana a condições sociais de pobreza, exclusão e injustiça são inevitáveis. São lógicas. E são preguiçosas. Porque o apelo da violência, a hipnose da destruição, a sede de rapina, o ódio irracional estão inscritos na natureza humana. São comportamentos de todos os tempos, lugares, condições sociais. Alguma esquerda continua a perpetuar a falácia marxista que garantia cientificamente estar para breve a destruição da burguesia, minoritária, às mãos do proletariado, imenso e com a razão da História do seu lado. Estes crentes novecentistas celebram cada montra partida e cada pedrada contra a polícia como sinais divinos da chegada iminente do fim dos tempos. Porém, tal como os primeiros cristãos, ou agora as Testemunhas de Jeová, o atraso na vinda do paracleto obriga a uma constante exaltação semiótica. Daí o fervor com que se entregam à estética psicopata.

A impotência política desta esquerda patética, com a sua retórica furiosa e demente, não é um acaso. É o inevitável resultado de estar em guerra contra a democracia.

Poesia incompleta

Poesia incompleta e sempre assim será
Porque nunca se completa e se termina
Os poemas registam aquilo que não há
Pois confundem a praça com a esquina

E tudo de nós se afasta até certa distância
Lá onde os poemas nascem a cada dia
Por baixo os poemas velhos da infância
Por cima um rumor de paz e de alegria

Poesia incompleta e é por natureza
Há poemas inacabados a andar no ar
Na folha de papel fica a luz da mesa
Onde se inscreve o instável do lugar

Todos os dias de manhã o palimpsesto
Se renova no poema e na memória
Na linha de dividir não se vê o resto
Cada poema é uma conta provisória

Leituras na encruzilhada

De Edward Hugh, um dos economistas que mais gosto, vem esta análise sobre a quase inevitabilidade de partir o Euro – e a Europa – em dois, um para países nórdicos, liderados pela Alemanha, e outro para países mediterrâneos, liderados pela França. Creio que é uma hipótese a ser levada muito a sério.

Junte-se este grande artigo de Michael Lewis na Vanity Fair sobre a Alemanha, a mentalidade alemã e como a sua banca foi completamente enganada por Wall Street na crise de 2008. É longo, mas vale muito a pena para compreender a encruzilhada em que o motor da Europa se encontra.

 

Good food for good thought

People who come from a lower-class background have to depend more on other people. “If you don’t have resources and education, you really adapt to the environment, which is more threatening, by turning to other people,” Keltner says. “People who grow up in lower-class neighborhoods, as I did, will say, «There’s always someone there who will take you somewhere, or watch your kid. You’ve just got to lean on people.»”

Wealthier people don’t have to rely on each other as much. This causes differences that show up in psychological studies. People from lower-class backgrounds are better at reading other people’s emotions. They’re more likely to act altruistically. “They give more and help more. If someone’s in need, they’ll respond,” Keltner says. When poor people see someone else suffering, they have a physiological response that is missing in people with more resources. “What I think is really interesting about that is, it kind of shows there’s all this strength to the lower class identity: greater empathy, more altruism, and finer attunement to other people,” he says. Of course, there are also costs to being lower-class. Health studies have found that lower-class people have more anxiety and depression and are less physically healthy.

Upper-class people are different, Keltner says. “What wealth and education and prestige and a higher station in life gives you is the freedom to focus on the self.” In psychology experiments, wealthier people don’t read other people’s emotions as well. They hoard resources and are less generous than they could be.

One implication of this, Keltner says, is that’s unreasonable to structure a society on the hope that rich people will help those less fortunate. “One clear policy implication is, the idea of nobless oblige or trickle-down economics, certain versions of it, is bull,” Keltner says. “Our data say you cannot rely on the wealthy to give back. The ‘thousand points of light’ – this rise of compassion in the wealthy to fix all the problems of society – is improbable, psychologically.”

The ability to rise in class is the great promise of the American Dream. But studies have found that, as people rise in the classes, they become less empathetic. Studies have also found that as people rise in wealth, they become happier – but not as much as you’d expect. “I think one of the reasons why is the human psyche stops feeling the need to connect and be closer to others, and we know that’s one of the greatest sources of happiness science can study,” Keltner says.

Social Class As Culture

Vinte Linhas 649

Muito longa memória para José Guilherme

No dia 29 de Julho morreu um grande amigo meu e eu não tomei conhecimento dessa morte nem no próprio dia nem nos dias a seguir. Soube hoje de maneira insólita, através do seu telemóvel. Falei com a viúva que me explicou um pouco do seu sofrimento mas nem o modo simpático como fui atendido me afasta do sentimento de ter andado distraído desta amizade nos últimos meses. Conheci o Zé Guilherme em A BOLA há muitos anos ainda ele não era delegado em Portugal da Federação Europeia de Historiadores e Estatísticos de Futebol. A vida deu algumas voltas e em Janeiro de 1997 fui para a redacção do Jornal Sporting. Grandes conversas nós tivemos nas manhãs de quarta-feira na Travessa da Queimada quando eu trocava um jornal «leonino» por um exemplar de A BOLA. Conversa aberta aos amigos Ivo, João Paulo e Lauro. Mesmo com o Zé Guilherme no RECORD continuámos amigos. Estivemos juntos em várias cerimónias como por exemplo a entrega (pelo Zé Guilherme) de um galardão da FEHEF na Casa do Brasil ao treinador Luís Filipe Scolari. Tínhamos em comum a paixão pela História e pela Estatística do Futebol. Mas hoje havia um motivo para trocar pontos de vista. Comprei os cadernos de A BOLA. Lá chamam «Campeonatos» aos torneios particulares e experimentais que, com o nome de I Liga, se realizaram no nosso País entre 1934/35 e 1937/38. A verdade é que entre 1921 e 1938 se disputou em Portugal o Campeonato de Portugal que, esse sim, dava o título de Campeão de Portugal. Não há dois campeonatos no mesmo ano desportivo mas como o Benfica venceu 3 das 4 Ligas entre 1934 e 1938, os historiadores dos encarnados resolveram apagar o Campeonato de Portugal para dar relevo à Liga. Pela primeira vez eu não tenho quem me dê razão. Ai que saudades, Amigo Zé Guiherme!

O catastrofismo como catástrofe

Uma das vantagens do estudo da História, e pode ser apenas pela rama, é a de nos imunizar contra os catastrofistas. Friso o vocábulo estudo, pois há quem utilize a História apenas como tela onde projecta as suas angústias e maldições. Estes não estão a estudar, estão a consumir estupefacientes sob a forma de historietas mal contadas e pior entendidas. Utilizam o passado para antecipar o futuro, assim provando que lhes escapa o presente.

A História consiste na colecção universal das catástrofes de que há memória e indício. Como as alterações ecológicas no século XXI. Como as Guerras Mundiais no século XX. Como a escravatura nos séculos XVI, XVII e XVIII. Como a colonização do Novo Mundo. Como a Peste Negra. Como a queda do Império Romano. Como o incêndio da Biblioteca de Alexandria. Como a destruição dos meios de subsistência na Ilha da Páscoa. Como a extinção dos mamutes pela caça. Como o adeus aos dinossauros à pala de um asteróide maiorzinho. Está-me a faltar alguma? Ah, o Big Bang, essa explosão do caraças que inquestionavelmente resultou de alguma coisa ter corrido mesmo, mesmo, mesmo muito mal mesmo. Logo, conclui-se que nós somos o belo fruto destas catástrofes. Ter medo delas é como ter medo dos próprios pais.

O catastrofista não é só um inútil, é também um peso-morto e um empecilho. Possuindo entranhada até à medula a arrogância dos ignorantes, permanece incapaz de aprender seja o que for. Para ele, aprender seria mudar, e mudar seria desaparecer. Por isso persegue furibundo aqueles que estudam, experimentam, pensam. São estes os seus inimigos. A possibilidade de o futuro estar em aberto assusta-o de morte, daí a segurança que encontra na catástrofe – a segurança de ter uma certeza. E daí o conforto melífluo e secreto do catastrofista – nada ter de decidir, por nada se responsabilizar.

Estamos rodeados de catastrofistas. Muitos fazem carreira profissional nessa categoria, seja na política-espectáculo ou na falsa religião. Antropologicamente, somos impelidos a dar atenção a quem traz más notícias, pois delas pode depender a nossa sobrevivência imediata. Mas quando as más notícias são apenas a expressão de uma inteligência atrofiada, de emoções descontroladas e de uma vontade débil ou inexistente, os catastrofistas devem ser implacavelmente ignorados ou combatidos. A sua influência é tóxica, os danos que provocam são extensos e prolongados.