Vinte Linhas 647

A primeira imagem nova de uma velha equipa

Depois do desastre tudo se recomeça. Teimosamente a vida responde à morte, a alegria deve ser reconstruída todas as manhãs ou então o Mundo seria o esplendor do desespero. Palavras e imagens, as primeiras mais à mão, as segundas mais difíceis. Vou tacteando instruções e faço como quem sabe me ensinou. Vamos a ver se resulta.

Vou buscar alento à velha equipa do Catarinense. Naquele dia da esquerda para a direita temos, de pé, o meu avô José Almeida Penas a guarda-redes. Segue-se o meu tio Joaquim Freire, tio de dois rapazes da fila de baixo – Juventino Freire, o primeiro da esquerda e António Freire, o quinto a contar da esquerda. O terceiro em pé é o João Ricardo, segue-se o Diamantino Luciano, filho do senhor Manuel a quem ninguém podia dizer «Cinco libras!». Segue-se um não identificado e, por fim, o Abílio Milhafre. Na fila de baixo temos a seguir ao Juventino Freire o José Leão, o José Coimbra e o Carlos que antecede o António Freire. Devo a Juventino Freire o gosto pelo jornalismo desportivo: era ele que assinava no jornal «O Catarinense» as crónicas de futebol. Ele e o seu bloco de apontamentos eram figuras do jogo – utilizava o parapeito da ponte sobre o Rio da Pedra como se fosse uma secretária. Tudo o que fiz no jornalismo nasceu dessa paixão que julgo que todos temos pelo jornal da nossa terra.

Eram quase todos músicos: meu avô e António Freire no filiscorne e na trompete, Juventino no saxofone contralto, meu tio Joaquim na tarola, José Coimbra nos pratos, João Ricardo no trombone e Abílio Milhafre no clarinete. Eram quase todos músicos e o seu futebol tinha uma espécie de música que subia do campo até à estrada e fazia com que as mulheres parassem de lavar a roupa para não perder o jogo no campo do Rio da Pedra.

5 thoughts on “Vinte Linhas 647”

  1. JCF:

    Faz bem lembrar tempos idos. Só quem não tem passado ou tem vergonha de o revelar não o faz. Tenho imensas recordações e sinto alegria quando as acabo de escrever e ainda mais quando as revelo. Os vindouros têm o direito de saber como eram os seus progenitores, familiares, amigos e população em geral.

    Aqui vai uma dos meus tempos. No meu blogue está acompanhada com fotografias aqui não o posso fazer.

    Bons tempos:

    Minha rosa azul é Freamunde

    Trago sempre uma rosa azul ao peito,

    eu sou de Freamunde imaginado

    e nem sequer cá tenho o meu bocado,

    mas este azul merece-me respeito…

    Quando eu era criança de brincar

    era aqui que eu comprava os meus piões,

    as fisgas e as gazetas p’rós balões

    ou p’rás estrelas… ai como é bom sonhar!

    Mais tarde veio a bola, que paixão!

    rosa azul deste fraco coração

    que salta a cada golo, pum, pum, pum…

    Hoje já muito velho, minha amante

    oiço o relato e grito a cada instante

    sozinho: Freamunde só mais um!

    Autor dos versos: Rodela

    Tempo de bom e puro futebol. Era jogado pelo simples prazer e o Carvalhal sempre de casa cheia. Não faltavam os fanáticos e maldizentes. Quando se perdia lá vinha a ladainha. Se estivesse sol, o Ernesto, procurava a sombra da árvore que existia a meio do topo sul, (lado da assistência do campo do Sr. Ernesto Taipa) não existia superior era só peão. Se fosse de chuva só se encolhia para ver se ela não lhe pegava. Tal como hoje tem de haver sempre alguém a dar bocas. Quando se ganhava – o que era mais as vezes – pegavam nele ao colo.
    Ainda me lembro do jogo no Campo da Cavada em Paços de Ferreira, fazia parte da equipa – guarda-redes suplente. Perto do final houve um jogador do Freamunde que meteu uma bola em profundidade desmarcando o Ernesto mas esta saiu um tudo ou nada adiantada, o guarda – redes saiu-lhe aos pés, o Ernesto para não o aleijar saltou por cima dele, como fazia sempre. Antes preferia isso do que aleijar um adversário. Foi o bom e bonito. Para uns fez bem, para outros, essa bola devia aparecer ao Abel que ia guarda – redes bola e tudo para o fundo da baliza. Tinha que se dar um desconto. Mas era um Paços de Ferreira e Freamunde e nestes jogos não se brincava. Quem nos dera hoje o Ernesto e muitos que faziam parte da equipa e o seu treinador que era o Santana.
    Este jogo foi em Junho de 1974 – se a memória não me falha no dia 23 – o Sport Clube de Freamunde jogava na Mata Real com o Paços de Ferreira, jogo bastante importante para eles, não podiam perder, o empate satisfazia as suas aspirações – subida de divisão.
    Nessa semana começou a guerra de panfletos por parte dos sócios e simpatizantes do Paços de Ferreira, ameaçando que nos iam receber mal e que estava planeado um arremesso de pedras e algo mais na passagem pela Baiuca – lugar pobre e de casas velhas – assim se apelidava nesse tempo, hoje um bonito lugar e com o nome de S. Domingos, bastante comercial e industrial.
    Em Freamunde combinou-se que todos os seus sócios e simpatizantes se deslocavam a pé para assim estarem todos juntos para o bem e para o mal – nesse tempo ainda não existiam as claques organizadas.
    A maioria dos Freamundenses – só ficaram os velhos, crianças de colo e acamados -aderiram a esta manifestação. Queriam que a sua equipa estivesse protegida com o seu apoio. No trajecto houve uns pequenos atritos. O resultado foi o empate a uma bola. Quem marcou o golo do Freamunde foi o Andrade.
    Convém referir que até esta data o Paços de Ferreira, outrora Vasco da Gama de Paços de Ferreira – década de quarenta cinquenta – nunca tinha ganho ao Freamunde. O primeiro empate deu-se em Freamunde, na primeira volta e este a acabar o campeonato. Até essa data era só vitórias do S. C. Freamunde e houve bastantes confrontos.

  2. oh pá! atão não tinhas acabado? onde é que essa porra que escreves aí acima contribuiu para a democracia ou pib nacionais. estórias e fotos dessas todos têm, só não têm é lata para fazer disso literatura e acontecimento nacional. e o teu avó que não fosse felizcorno na mónica da aldeia, vá lá, se tocasse orgão era mais complicado.

  3. Obrigado Pacheco e Sinhã. Ainda ontem uma estúpida disse,a propósito da rivalidade Paris-Marselha, num restaurante da Praia das Maçãs que o futebol é («sic») uma porcaria. Eu respondi: alto! Se queres ser respeitada, respeita os outros! O que está na tua cabeça só conta para ti e ainda bem. Nós podemos dizer que somos do tempo em que, como se dizia e está na capa de um livro meu, «os guarda-redes morrem ao Domingo».

  4. E respondeste memo alto à tal que disse que o futevol é uma porcaria?! Ena, pá, debia ter sido uma relebulção! Tabas num restorante na Praia das Maçãs? Andas a ganhar vem, com esta crise, é só passeata! E disseste atão: «Se queres ser respeitada, respeita os outros!». Isso nem parece teu, carago… Mas se botaste essas palabras, é porque botaste. E bê tu que logo tens um libro teu para cada ocasião. Muntos libros tens tu! Mais aqueles dois librinhos da colecção onde tá aquela poeta, a Sofia! Eu benho aqui só pra dizer que ta admiro. E olha, se te chatearem nos comentários, abisa, abisa, que lebam logo com esta: «Ó coisinho, bai-te tratar e deixa em paz os que savem da poda!» Inbeja, é só inbeja e dor de cotobelo! Olha, dá um veijinho à dona assinhada, muntos comprimentos ao senhor Pacheco, ao senhor m e ao senhor Nascimento. Agora, bou indo e voas-festas pra todos!

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