O belo é difícil

Fernanda Câncio – no texto glória difícil – reflecte sobre a cultura do ódio que assolou em crescendo a sociedade portuguesa de 2007 a 2011. A caixa de Petri analisada é a blogosfera política, um meio que conhece particularmente bem por ser dele a sua maior vedeta (este estatuto é aferido pela quantidade de ataques canalhas e soezes de que tem sido alvo). O facto de alguns dos maiores protagonistas da promoção do ódio contra o anterior Governo terem migrado para o novo Governo só acrescenta relevância à sua nostálgica, ingénua e generosa reflexão.

Nostálgica, como sentimento de um passado ilusório, porque não seria possível manter esse ambiente de 2005, ainda a reboque do entusiasmo nascido da novidade do meio. Basta lembrar que os próprios bloggers da 1ª geração já estavam cansados, fartos ou à procura de um lugar ao Sol na comunicação social profissional quando a Fernanda entrou na festa. O ecléctico elitismo impregnado de pueril paixão pelas conversas era um registo apenas possível aos pioneiros, por serem poucos e bons. O País continuava a ter os mesmos dez milhões de habitantes, o que levava a que vários dos mais interessantes e criativos companheiros das tertúlias iniciais fossem abandonando o circo e cada vez mais participantes intelectualmente medíocres, cretinos, ou até completamente avariados dos cornos, se introduzissem no falatório à medida que as ligações à Internet aumentavam nas empresas, escolas e lares. Outro factor inelutável consiste nas alterações de motivação, percepção e compreensão que cada participante vai tendo ao longo do tempo e dos episódios de conflito e de repetição dos estímulos originais. Things change.

Ingénua, dessa ingenuidade que é idealismo e esperança, porque a luta pelo poder desperta os mais selvagens instintos e pulsões. Calhando a direita estar em decadência de talentos e sem projecto desde a traição de Barroso, situação agravada pela força reformista e carismática de Sócrates, a sua única possibilidade de vitória passaria pelo terrorismo e perseguição moral. Recorde-se como o PSD rapidamente trocou Marques Mendes, que mal teve tempo para ensaiar uma mini-regeneração interna, por um desqualificado populista como Menezes. E poucos meses depois estava perante uma escolha trágica entre a incógnita de Passos, o Cavaquismo de Ferreira Leite e o despautério de Santana. Seguiu-se um ciclo negro onde Cavaco Silva provou ser a figura política portuguesa mais perversa e poderosa após o 25 de Abril. O descalabro da banca social-democrata, BPN, e da direita oligárquica, BCP, provocaram um desespero febril que congregou patrões de imprensa, comentadores, jornalistas e magistrados em conspirações sucessivas e em calúnias alucinadas.

Generosa porque, apesar de todas as evidências que apontam para a sua inutilidade, continuar a defender a decência na política é um acto da mais urgente cidadania. Os oportunistas, os cínicos e os analfabrutos riem-se desta lhaneza, desta coragem. Coitados, não sabem o que fazem.

Perder supostos amigos por causa de questões políticas ou querelas nascidas nesse âmbito, ou sofrer insultos, difamações e calúnias de pessoas que outrora respeitámos por qualquer razão e de quem se esperaria um mínimo de ética no espaço público, são benefícios que devemos agradecer. Esses episódios revelam quem são e quem somos. A recordação do que aconteceu é profiláctica. Assim, o lamento da Fernanda deve ser saboreado com uma mão cheia de granum salis.

Não temos de gostar de todos, temos é de querer o melhor para todos – incluindo aqueles que não querem o mesmo para nós.

6 thoughts on “O belo é difícil”

  1. Claro que houve uma tal perseguição e foram urdidos tantos esquemas fracturantes que, num futuro que pelas circunstâncias talvez seja próximo, ninguém sabe o que vai ou pode acontecer. Sim houve ódio e esse ódio fez nascer novos ódios que agora aguardam, subrepticiamente, pela oportunidade para se manifestarem. Podem vir a fazê-lo com estrondo…

  2. Não penso, Biganau, que se esteja a preparar uma explosão de ódio. Já não temos mais uma sociedade polarizada entre “esquerda” “direita”, porque esta venceu em toda a linha, com a prestimosa colaboraçâo do PC e BE, que tudo fizeram para fazer crer aos portugueses que PS e PSD-CDS eram a mesma coisa. Parece-me tarde demais para fazer reverter seis longos anos de catequização avassaladora nesse sentido. A sociedade portuguesa terá interiorizado a mensagem mentirosa. Parabéns ao BE e PC e ainda aos Carrilhos, Cravinhos, Alegres, Seguros e quejandos. Sem esquecer os soaristas com Soares, que aparecem a erguer a voz depois do facto consumado. Nâo esqueço que ainda há muitissimo pouco tempo Soares manifestava a mesmissima admiração e amizade por Sócrates e Passos Coelho. Mesmo que fossem palavras de circunstancia elas veicularam para o “opinião pública” a mensagem de que governo de Sócrates ou Passos tanto faz.
    Agora afirma claramente o contrário mas as suas lamúrias aparecem hipocritas. No mínimo, tardias.
    Os dados estão lançados. Vamos mudar, estou certo, mas arrastados pelo turbilhão que virá de fora, com todos os custos inerentes, por não termos sido capazes de antecipar. Mais uma vez a reboque. Imaginem o que nos teria acontecido nesta crise das dividas soberanas se não tivessem sido efectuado reformas essenciais nos quatro anos de governo de Sócrates, como, por exemplo, a reforma da segurança social. Esta teria sido feita agora compulsivamente com os custos que se podem calcular. Apenas um exemplo.
    Endividamento excessivo? Olhando os gráficos, não se nota qualquer anomalia especial nos quatro anos de Sócrates. Junte-se-lhe o endividamento de 2009 e 201 forçado pela crise e compare-se com quintuplicaçâo do endividamento em dez anos de Cavaco. O “gigantismo” dos números actuais não pode ser usado para distorcer a realidade histórica do país económico. Mas os “grandes economistas” do cavaquismo fazem-no de forma despudorada.
    E ninguém diz nada. Mostrem os gráficos e comparem o que pode ser comparado. Basta de pulhice.

  3. “Não temos de gostar de todos, TEMOS E DE QUERER O MELHOR PARA TODOS – incluindo aqueles que não querem o mesmo para nós.”- Afirmas tu Valupi.
    O que sublinho parece-me uma afirmação pia muitas vezes difícil de se fazer com sinceridade. Leio aqui, onde venho com regularidade muita coisa que mesmo muito bem escritinha me dá – lamento dizê-lo – um certo vómito. Já comparei isto com um merdado, perdão, mercado de vaidades patetas e muitas vezes inexequiveis. Há ainda os que pisam sempre as mesmas poias do mesmo cão no mesmo sitio e se queixam …do animal. – Está longe de ser o caso deste teu excelente post.
    Não sou nem quero ser exemplo para ninguém pela simples razão de NÃO O SER MESMO. Há, no entanto, quanto a relações uma coisa que há muito pratico na vida e me dou muito bem; só tenho na vida dois tipos de relações: as boas e as que não existem ou deixaram de existir. Sem rancores acrimónia, reparos e/ou (quase) sem memória.

  4. eu gosto de algumas coisas que a fernanda escreve. gostei desta e também de uma crónica recente em que dizia, e muito bem, que os homens ficam ridículos em calções de banho até aos joelhos. e tem tudo que ver um texto com outro. :-)

  5. uiiiii…. a democracia e a massificação são muito feias , né ? tudo funciona melhor em clubes restritos onde não se tem de gramar povo com ligação à net. eu substituia a nostalgia ingenuidade e generosidade por elitismo pachequismo e unhas de fome. o pacheco , a verdadeira 1ª vedeta ( o daniel oliveira a 2ª , a f nem vem na minha lista – não sou socrática nem leio a maria ) , anda fartinho de dizer a mesma coisa.

  6. Havia um bichinho que insistia em estragar algumas facetas da minha infância.
    Não o fazia por mal, mas quantas vezes esmoreci quando cheguei à poça da nascente, esculpida no barranco, e a encontrei vazia…
    Toda a água se tinha desperdiçado!
    Evadia-se por uns pequenos e misteriosos buraquinhos que apareciam no também arcaico bucal que, umas boas horas antes, tinha sido tapado para que se acumulasse.
    Levava a missão de regar uma determinada parte do “renovo”, e dali não podia abalar sem a cumprir. Não havia lugar a desculpas!
    Sem remédio, voltava a tapar o bucal e por ali me entretinha, entre pensamentos e curiosas incursões na frondosa floresta de souto, enquanto esperava que a poça enchesse o suficiente para que cumprisse a obrigação de deixar feita a tarefa.
    Soube depois que eram os “fura-poças” os responsáveis por aqueles desperdícios.
    Fura-poças?!
    Eram afinal uns pequenos “bicharocos” anfíbios que sobrevivem naquele ambiente e que ficavam soterrados pelo barro, seu habitat, que nós removíamos para vedar a poça.
    Encontrei uma solução sem nunca querer saber quem evadia o espaço de quem!
    Ainda hoje o renovo cresce e floresce por lá.
    Coexistir pacificamente é a solução normal mas, como evoluímos muito e tanto nos valorizamos tanto pelo egocentrismo como pelo egoísmo hipócrita e desmedida arrogância, muitos chamar-lhe-ão uma “solução inteligente”.
    Inteligente é dar relevo e visibilidade ao que importa realmente a todos, e ao que é para bem de todos.

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